sexta-feira, maio 14, 2021

Gripen para o Brasil

Inferno sobre Tóquio

Destaques

Alexandre Galante
Jornalista, designer, fotógrafo e piloto virtual - alexgalante@fordefesa.com.br

A mais sangrenta missão para o 73rd BW foi no dia 27 de janeiro de 1945. A missão tinha todas as características do pior pesadelo da tripulação – tempo ruim, intensa “flak” (canhões de defesa antiaérea), uma horda de raivosos caças e o alvo 357*. Como todas missões para destruir a fábrica de motores em Musashino, não tiveram sucesso, o moral estava baixo.

Duas Superfortress atuando como aeronaves meteorológicas, decolaram uma hora à frente da ala de formação, suas tarefas eram determinar as condições de tempo sobre Nagoya e Tóquio.

Setenta e duas Superfortress deixaram Saipan, mas somente 64 conseguiram seguir o caminho até o Japão. O 497th liderava, aproximando-se de Enshu Nada em uma curva de aproximação sobre Hamamatsu até Kofu. Seus 17 B-29s, comandados pelo Col. Robert Morgan no Dauntless Dotty (42-24592), também foram os primeiros a receber fogo, cortesia do 244º Sentai de Chofu.

Um dos primeiros bombardeiros a ser derrubado foi o Haley´s Comet (42-24616), pilotado pelo 1º Lt Walter McDonnell. Atacado por “flak” e caças, o B-29 começou a cair e ficar atrás da formação com seu compartimento de bombas em chamas. O bombardeiro foi mais atacado por um caça noturno “Irving” do 302º Kokutai da Marinha, seu piloto manobrou embaixo da Superfortress, e abriu fogo com seu par de canhões oblíquos de 20mm, atingindo a barriga do B-29.

O atacante não sobreviveu para saborear seu feito. O “Irving” era vulnerável às defesas do B-29 em ataques à luz do dia, e dois deles foram abatidos. O caça pilotado pelo PO2/c Kiyodo Takada, com o Ens MitKimura como observador, caiu no rio Tenryu, próximo de Hamamatsu depois de reportar um B-29 abatido, enquanto o “Irving” do WO Hisao Komori e seu PO2/c Toshio Hayakawa mergulhou no rio Oi, no centro da prefeitura (região administrativa N.T.) de Shizuoka. Eles também, reivindicando uma vitória. O S/Sgt Vere D Carpenter e o Sgt. Fred Lodovici saltaram de paraquedas do Haley’s Comet, formam capturados e sobreviveram à guerra e a aeronave caiu em Ishino, na prefeitura de Chiba.

O WHERE WOLF (42-63423), pilotado pelo Capt.Elmer G Hahn, pode ter sido também vítima de um “Irving”, porque foi atingido com um tiro no “bomb-bay” (compartimento de bombas), enquanto estava entre Hamamatsu e Kofu, foi partido em dois. Quatro tripulantes morreram na queda próximo de Fujimiya, na prefeitura de Shizuoka. Nenhum paraquedas foi visto, e pensou-se que ninguém tinha escapado, porém sete tripulantes de fato, conseguiram – entretanto, três deles morreram porque seus paraquedas não abriram – quatro homens foram capturados, Capt Hahn, 2Lts Eugene J Redinger (copiloto), Herbert Edman (engenheiro de voo) e o Sgt Clifford A Myra (artilheiro), e foram mandados para Tóquio. O Sgt Myra foi transferido para um hospital prisão do Exército na prefeitura de Saitama, mas morreu vítima de suas queimaduras no dia 10 de fevereiro. Os outros três prisioneiros formam mortos(queimados) na prisão de Shibuya durante um bombardeio incendiário feito pelos B-29s no dia 26 de maio.

O 1Lt Stanley H Samuelson foi piloto do ‘Z-12’ (42-24692) do 500th BG, uma das duas aeronaves de reconhecimento meteorológico. Ele escreveu no seu diário:

‘Depois de nossa formação de dois aviões ter deixado o território japonês, eu liguei o rádio VHF no canal B, bem na hora em que uma de nossas grandes formações estava sobre o alvo.

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Era uma conversação dramática que eu nunca esquecerei. Alguns reportavam que seus colegas estavam caindo em chamas. Outros gritavam pedindo por “Superdumbos”, que eram aeronaves de busca, mandados por nós para localizar os aviões que caiam no oceano. Outros imploravam por proteção e cobertura de outros B-29s. Alguns gritavam no rádio: “Vamos dar o fora desse inferno!”

O pequeno trecho entre Kofu e Otsuki, no caminho mais curto para Tóquio, tinha só 20 milhas, mas parecia que tinha milhares de milhas sob intenso ataque. O Col. Robert Haynes e sua tripulação do THUMPER (42-24623) do 497th BG, sentiu todo o peso de um ataque dos “Tonys” do 244th Sentai e dos “Tojos” do 47th.

O 1Lt Chuichi Ichikawa, o segundo maior “matador” de B-29s do 244th, provavelmente enfrentou ‘Pappy’ Haynes, sua divisão seguiu um solitário Superfortress, com um de seus motores parado, mas não se aproximou, evitando o tremendo poder de fogo defensivo do bombardeiro. Ousado, o Col. Haynes inclinou abruptamente seu B-29 sobre os caças, gritando no interfone: ‘Segurem-se rapazes, vamos atrás desses bastardos!’

De repente, uma grande formação de “Tonys” surgiu do lado oposto abrindo fogo. Era uma armadilha. Mas o Superfortress, com um coelho de Walt Disney pintado em sua fuselagem, provou que podia se defender, repelindo ataque após ataque, reivindicando seis vitórias e mais de uma dúzia danificados. Ichikawa talvez tenha reivindicado o THUMPER como vitória, mas a valente tripulação conseguiu voltar em segurança à base.

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Enquanto os aviões do Col Morgan lutava abrindo caminho de Kofu para Tóquio (em uma distância de somente 60 milhas), foram avistados pelo comandante do 244th Sentai, Capt Kobayashi e seu ala, Cpl Ando; estavam em patrulha a 10.000 metros sobre Hachioji, leste de  Kofu e Otsuki. Julgando que a forte formação de 14 B-29s virariam em direção a Tóquio, Kobayashi e Ando fizeram uma curva para bloquear o curso do inimigo. Kobayashi calculou a distância, ângulo de ataque e o tempo para pegar a formação por trás.Com seu ala bem ao seu lado, o par mergulhou sobre a formação cerrada. Os artilheiros dos B-29s despejaram uma verdadeira parede de chumbo.

O Irish Lassie (42-65246) foi cortado por um dos caças, sendo atingida na asa esquerda, atrás do motor no.1, rompendo um dos tanques de gasolina. Parecendo desafiar o inimigo, o ferido Superfortress permaneceu em voo, mas atraiu a atenção. Kobayashi ajustou sua mira no Irish Lassie e bateu no estabilizador do B-29, com o impacto, ficou inconsciente por poucos segundos, voltou a si e saltou, desceu em segurança (paraquedas) perto de Tachikawa, próximo do alvo 357.Embora o Irish Lassie fosse reclamado como vitória por vários pilotos japoneses, ela (B-29) recompensou sua tripulação, os levando em segurança para casa. No pouso, o bombardeiro se partiu em dois e foi sucateado.

O Cpl Ando “rammed” (colidir propositalmente N.T.) na quarta aeronave da mesma formação, o Ghastly Goose (42-63541) do 497th, pilotado pelo Capt Dale Peterson, que foi ferido mas sobreviveu. Ando não teve a mesma sorte,  seu Ki-61 caiu em Funabashi,na prefeitura de Chiba, no lado norte da baia de Tóquio. A Superfortress pode ainda ter sofrido outro “ramming” nas mãos do Sgt Yuichi Kobayashi e seu observador Cplv Natsuo Koibuchi da Training Unit Hitachi, o “NicK” que voavam caiu perto de Funabashi. O Capt Peterson foi escoltado para fora da zona de alvo por outra aeronave e pousou forçado no mar, 250 milhas do Japão, mas ele e sua tripulação não sobreviveram.

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Shady Lady (42-24619) quase alcançou o alvo, mas teve que pagar um “pedágio” aos furiosos caças. O Capt Raymond Dauth procurou as nuvens para proteção, mas sofreu uma colisão bem de frente, feita por um “Tojo” pilotado pelo M/Sgt Kiyoshi Suzuki do 47th Sentai. A aeronave de Suzuki caiu em um rio na cidade de Oume, área de Tóquio.

O ‘T-2’ (42-63501) do 498th BG, comandado pelo Capt Pierce Kilgo, completou com sucesso seu ataque, mas não conseguiu voltar para casa. A aeronave abandonou a formação logo depois de deixar a área do alvo, com dois de seus motores parados. O WO Shirobe Tanaka do 244th Sentai já tinha feito algum estrago em uma das Superfortress, quando avistou o avião de Kilgo sobre Haramachida, sudoeste de Tóquio. O piloto do ‘Tony’ jogou seu avião bem na cauda do bombardeiro, Tanaka foi cuspido de seu avião inconsciente com seu paraquedas já abrindo-se. Caindo na baia de Tóquio, foi puxado da água por homens de um barco pesqueiro. Seriamente ferido, nunca mais voltou a voar. Por sua bravura, recebeu o Bukosho. A B-29 caiu próximo da costa.

Uma outra aeronave do 498th, também não conseguiu voltar. O B-29 42-24767 do 1Lt William F Beyhan abria seu caminho através da barreira inimiga, mas perdeu seus motores 1 e 2. Um ‘Irving’ da JNAF, com seus tripulantes Ens Kisaburo Sakada e o PO1/c Ryoitsu Kitagawa, atacaram uma formação de nove B-29 sobre Tóquio e deixaram um deles cuspindo uma fumaça negra – provavelmente o de Beyhan. As metralhadoras do B-29 tiraram de ação os dois motores do ‘Irving’, entretanto, o piloto japonês conseguiu planar o caça até o aeródromo da base naval de Kisarazu.

Beyhan transmitiu para o 1Lt John Rawlings do’ T-37’, lhe dizendo que tinha perdido o sistema elétrico e que não podia transferir combustível (de asa para asa N.T.). Rawlings o acompanhou enfrentando o mau tempo, guiando-se pelo radar.Com a luz do dia desvanecendo-se, Beyhan decidiu tentar o pouso forçado no mar. O B-29 se partiu em dois no impacto e alguns homens foram vistos com seus salva-vidas. A tripulação de Rawling fez o que pode para ajudar seus colegas, jogando botes extras e equipamento de sobrevivência. Beytran e sua tripulação nunca foram vistos novamente.

O Roger Boys Express(42-24769) do 499th, comandado pelo 1Lt Edward G ‘Snuffy’ Smith voava sua quarta missão. Eles conseguiram atravessar a barreira de “flak” e estavam prestes a abrir as portas do “bomb-bay”, quando caças bimotores foram vistos a frente. “Caças, uma hora, acima, vindo diretamente sobre nós!”, avisou uma voz no interfone. A tripulação não sabia, mas eram Ki-45 armados com canhões de 37mm.

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‘De repente houve uma tremenda explosão, um som terrível, fogo e fumaça na nossa seção frontal, lembra o navegador Raymond ‘Hap’ Halloran. O ‘V-27’ tinha levado um tiro de 37mm bem no nariz. Smith foi atingido em ambos os braços e o bombardeador 2Lt Robert Grace estava seriamente ferido. Três motores falharam, dois deles estavam em chamas. O sistema de interfone estava destruído e a aeronave ainda com sua carga de bombas começou a perder altitude. Os amigos dos outros aviões não podiam fazer nada.

A confiança era o que unia as tripulações de B-29, trabalhando juntos, a vida de todos dependia de cada um. Os quatro artilheiros e o operador de radar que ficavam na seção traseira, não tinham ideia do que acontecia na frente. ‘Nós nunca deixaríamos os Rover Boys sozinhos lá atrás nessa situação terrível’, disse Halloran. ‘Guy Knobel, nosso radio-operador, pegou seu paraquedas e foi pelo túnel que separava as duas seções do B-29. Enquanto Guy ia passando pelo túnel, nós éramos continuamente atacados por caças monomotores “Tojo”. Nosso avião começou a se partir no ar. Ele era um homem muito corajoso.’

Os três homens que estavam vivos na seção traseira (o artilheiro da cauda estava morto em seu assento) foram ordenados a saltarem, junto com o restante da tripulação. O 2Lt Halloran pegou sua caixa de refeição, deu algumas mordidas em um sanduíche e saltou. Esperava-se que os dez tripulantes saltassem, mas somente sete o fizeram e sobre uma altitude estimada em 27.000 pés sobre Tóquio. Halloran puxou sua corda quando estava a 4000 pés sobre o solo, perdendo uma de suas botas com o solavanco.

Em um dos mais estranhos episódios da campanha, três treinadores Mansyu Ki-79 da JAAF surgiram e começaram a circular, passando bem perto do aviador americano que pendia em seu paraquedas. Sem nada a perder, Halloram acenou para eles. O Capt Hideichi Kaiho do 39th Training Unit respondeu amigavelmente na segunda passagem, fazendo a saudação militar (continência), os dois colegas de Kaiho abandonaram a cena, e o capitão fez uma terceira passagem, mais uma vez acenando e confirmando o local de pouso de Halloran. O comandante de Kaiho, o Maj Tesuo Watabe, sempre enfatizava a importância da conduta militar aos seus homens e dizia: “Nós temos o Bushido, assim como os ocidentais têm o cavalheirismo”.

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O Rover Boys Express caiu em um vilarejo próximo do aeródromo naval de Konoike na prefeitura de Ibaraki – sete civis foram mortos e várias casas incendiaram-se. Quatro corpos foram encontrados nos destroços da aeronave, e um outro corpo foi achado num campo ao norte do local da queda. Dos sete homens que saltaram, somente cinco sobreviveram à guerra – 1Lt Edward Smith, 2Lts Ray ‘Hap’ Halloran e James W Edwards, S/Sgt Guy H Knobel e o Sgt Philip J Nicholson.

Eles foram capturados por homens do aeródromo naval próximo, e foram maltratados pelo Kempei Tai de Tóquio – uma terrível ironia do destino, considerando as palavras do Maj Watabe sobre conduta militar. O 2Lt William J Franz Jr também saltou de paraquedas mas foi morto por moradores locais. Há evidências de que o 2Lt.Robert I. Grace foi capturado e estava vivo no dia 10 de março, mas nunca foi visto novamente.

A missão de número 24 terminou com nove B-29s perdidos pelo 73rd BW. Mais uma vez, nuvens pesadas encobriram a fábrica de motores em Musashino, e a armada aérea foi forçada a bombardear alvos secundários. Entretanto, seus artilheiros reivindicaram 60 abates, 17 prováveis e 39 danificados. Foi a última missão solo do 73rd.

Os caças da JAAF e da JNAF reivindicaram um total de 22 B-29s destruídos e a perda de 15 ou 16 caças. Dos dez reportes de aeronaves que abalroaram seus oponentes, quatro pilotos saltaram em segurança, um trouxe sua aeronave de volta e cinco morreram.

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  • Do livro “B-29 Hunters of the JAAF” de Koji Takaki e Henry Sakaida
  • Tradução: Roberto F. Santana – Título do tradutor

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Milton

Caro Roberto, parabens pela escolha do texto.

ivanildotavares

Também gostei muito deste texto. Parabéns ao Roberto F. Santana pela escolha como bem colocou o Milton no comentário acima.

Abraços

Roberto F Santana

Prezados Milton e ivanildotavares,
Obrigado.
Notem que uma das ilustrações, tirada da arte de um tampa de plastimodelo, mostra o Ki-44 do Capt Yoshio Yoshida, que abateu seis B-29s e danifou uma sétima, mas o curioso e bem interessante é que essas vitórias foram noturnas!

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