domingo, setembro 19, 2021

Gripen para o Brasil

Foi de Mustang e voltou de Fw190

Destaques

Alexandre Galante
Jornalista, designer, fotógrafo e piloto virtual - alexgalante@fordefesa.com.br

Combates Aéreos: traduções inéditas por Roberto F.Santana

 

O piloto da USAAF, Capitão Bruce W. Carr, 20 anos, foi o único piloto conhecido a ir para uma missão voando um P-51 Mustang e retornar no outro dia voando um Fw190!

No dia 2 de novembro de 1944, ele estava em uma missão sobre a Tchecoslováquia, quando o fogo anti-aéreo atingiu seu Mustang, Angel’s Playmate.

Densos vapores do líquido refrigerador do motor saíram pelos buracos e Carr teve que saltar de pára-quedas antes que seu caça pegasse fogo. Depois de caminhar pelos campos, o faminto Carr tomou a direção de uma aeródromo alemão que ele havia avistado enquanto estava voando.

Ele decidiu ficar do lado de fora do aeródromo, escondido em uma floresta até a manhã seguinte, quando iria até a entrada da base para se render. Enquanto esperava escondido entre as árvores ele avistou um grupo de mecânicos alemães trabalhando em um Fw 190A-6 que estava bem próximo.

Carr percebeu que o caça alemão estava pronto para vôo, quando os mecânicos colocaram de volta a carenagem do motor, abasteceram seus tanques, deixando o Focke-Wulf sozinho. Mais tarde ele admitiria que sua atitude fora mais como um impulso de uma pessoa faminta do que uma brilhante idéia.

Carr cuidadosamente esgueirou-se até chegar ao Fw 190 e passou o resto da noite no cockpit do caça alemão. Um pouco antes do amanhecer já havia luz suficiente para Carr estudar os instrumentos e os switches.

Olhando para o painel do caça, teve que aprender e adivinhar algumas coisas durante meia hora ou mais, encontrou uma certa dificuldade com os procedimentos de partida, que incluíam a alavanca de partida que tinha que ser empurrada ao invés de puxada.

Finalmente o BMW radial ganhou vida e Carr decolou entre dois hangares, ao invés de se arriscar taxiando até a pista. O Fw 190 de Carr voou rugindo sobre as cabeças dos atônitos alemães e fugiu com velocidade máxima até sua base em Orconte na França, distante 329,1 km.

Chegando lá, ele não sabia como baixar o trem de pouso, então simplesmente pousou de barriga em um campo, antes que a anti-aérea da USAAF tivesse chance de abatê-lo. Anos depois, Carr costumava contar essa história para os seus netos quando estes perguntavam o que ele teria feito na guerra.

Bruce Carr, voava Piper Cubs como piloto privado desde 1938 quando se alistou em 1942. Ele solou um treinador Stearman com somente três horas de vôo. Em Tipton na Georgia, a USAAF passou Carr para o P-40 e eles lhe disseram: “ Vá voar!”. Carr explica:

“Eu tinha dezenove anos e pensava que sabia tudo. Eu não sabia o suficiente para ter medo. E eles não nos disseram o que fazer, disseram somente ‘Vá voar!’, então eu voava sobre a fazendas a baixa altura, zunindo sobre as vacas. Dezenove anos de idade e 1100 hps: o que eles esperavam? Mais tarde fomos para a Europa.”

Carr tinha 160 horas totais de vôo, incluindo 40 horas no P-40, quando ele foi para o P-51B. Quando começou a voar esse “hot fighter”, Carr apelidou seu P-51 de Angel’s Playmate porque dizia que os anjos estavam a 30 mil pés! Sua primeira vítima foi no dia 8 de março de 1944:

Depois que o seu líder de esquadrão alijou os tanques externos e tomou o rumo de volta, Carr permaneceu para lutar contra os Messerschmitts. Ele entrou em um combate em círculos com um tenaz piloto de BF 109G, nenhum conseguia acertar um tiro no outro, então foram descendo em uma espiral terminando o combate no topo das árvores.

Enquanto fazia curvas apertadas a poucos metros do chão o piloto alemão teve que subir para livrar algumas árvores e então Carr começou a atirar, sua empolgação era tanta que esqueceu de liberar a pressão sobre o gatilho, os canos de suas metralhadoras começaram a queimar. Ele relatou que um dos projéteis – uma bala traçante – saiu dando cambalhotas e fez um enorme arco, seus tiros acabaram atingindo a asa esquerda do BF 109. O piloto inimigo cabrou e alijou o canopy. Ele saltou, mas estava muito baixo para seu pára-quedas abrir e o caça espatifou-se no chão, causando uma grande parede de chamas no ar, por onde passou o Mustang de Carr.

Carr disse que essa sua primeira vitória não foi realmente um abate mas sim, quase que um suicídio!

O “Bad-boy” Carr teve alguns problemas no seu primeiro esquadrão, o 380th FS, por ser “muito agressivo”, mas encontrou um lar no 354th FG, no qual tinha pilotos parecidos com ele. Glenn Eagleston ( 18 vitórias ), do Grupo 353rd FS, era um dos agressivos oficiais comandantes que valorizavam sua atitude.

Bruce Carr teve 14 vitórias contra os alemães, nas suas 172 missões. No dia 2 de abril de 1945, Carr foi o último piloto de caça no Teatro Europeu a abater cinco aeronaves inimigas em um único dia.

Ele abateu três Fw190A pela manhã e dois BF 109G à tarde, próximo de Kronach Bayruth. Como resultado de fogo anti-aéreo, ele teve que saltar de pára-quedas três vezes. Surpreendentemente, Carr permaneceu na Força Aérea, apesar de seu comportamento no início da carreira e voou 51 missões no F-86 Sabre na Guerra da Coréia e mais 28 missões sobre o Vietnam, voando o F100 Super Sabre, porém, nessas guerras não abateu nenhum inimigo.

Carr saiu da Força Aérea como coronel em 1970 e seu Angel’s Playmate foi exposto em um museu francês em Paris, depois da Segunda Guerra Mundial. Seu Fw190A-6 “emprestado”, ficou no aeródromo em Orconte por um tempo e finalmente foi sucateado.

TRADUÇÃO: Roberto F. Santana / FONTE: Aces 2 by W.Wayne Patton – Squadron Signal Publications

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Tecnocop (Senta a Pua)

É muito importante e interessante termos reportagens desse nivel não só pra termos históricos quanto para de conhecimento. Esse piloto é dos meus por causa do ´´temperamento“ Mais legal foi ele voltar de f-190 ahauhauahuahaua.

felipe alberto

Os anjos estavam mais proximo do que ele imaginava.

Quanta sorte.

Tito

Que loucura.

Imagina a cara dos chucrutes. 🙂

Wolfpack

Legal, mas como ele recolheu o trem de pouso e depois não soibe como abaixá-los?
Gostaria de ouvir algumas histórias dos ases alemães da WWII.
Parabéns pela matéria.

Paulo Emílio Astuto

Possivelmente se recolhiam automaticamente ou então ele voou com o trem de pouso baixado todo o percurso de volta para a França…

MA

A pergunta do Wolfpack tem sentido…. 🙂
Ou então ele simplesmente buscou aterrissar rapidamente e não teve tempo de descer o trem de pouso, procurar os comandos, ou sei lá…

Paulo Rick

Por isso é que eu digo, cuidado com as autobiografias, existe uma tendência normal a parcialidade quanto estamos narrando estória em primeira pessoa. A tendência é exagerar nos feitos e esconder os defeitos. Pelo que me lembro do painel dos Fw-190 o trem de pouso é baixado e levantado pela mesma alavanca/mecanismo. Se ele conseguiu levantar o trem de pouso, conseguiria baixar. Algo diferente ocorreu…

Franco Ferreira

A recomendação de pousar fora de campo com os trens recolhidos está nos manuais dos aviões de cauda baixa. No manual do T-6, na Seção de “emergências”´, ainda há uma observação cretina: De que “O pouso sem trem é tão ou mais suave que o pouso com trem!”. Jocosamente, os velhos instrutores de T-6 diziam que só há dois tipos de pilotos de T-6: Os que já, e os que ainda vão… dar um cavalo-de-pau ou pousar sem trem! A tentativa de pouso (com o trem baixado) em pista usada por unidade aérea – é lá que está a AAA… Read more »

floresteiro

KKKKKKKKKKKK
Algum alemão deve ter levado uma esporrada daquelas.
Incrível como ainda deixaram o avião virar sucata.

Pelo visto certos desleixos não acontecem só no Brasil.

airacobra

nao tem como errar

se subiu o trem como nao sabia baixar, ta estranho isso ai, a historia ta muito mal contada

airacobra

esse aki eh do A-8, mas a chave do trem eh a mesma do A-6

http://www.clubhyper.com/reference/fw190cockpit/CockPitMap.html

Dalton

Olhando o cockpit do FW-190 há alguns botões a bombordo que
seriam responsaveis pelo mecanismo de trem de pouso e Carr
sabia onde estavam mas pelo que li na Internet este botão simplesmente não funcionou.

http://www.clubhyper.com/reference/fw190cockpit/lgact.html

Dalton

“felt the flaps come down, but the
gear wasn’t doing anything. I came around and pitched up again, still
punching the button. Nothing was happening and I was really frustrated”

traduzindo…

senti que os flaps baixaram, mas nada acontecia com o trem de pouso.
Estolei novamente ainda pressionando o botão. Nada estava acontecendo e eu estava realmente frustrado.

abraços

Gabriel from reu

lembrando uma frase muito comum…
“you must be nuts!”
nuts, ou nozes era uma gíria para maluco…

Roberto

Nota do tradutor: A pergunta sobre o trem de pouso é pertinente. Mas se observarem bem a foto no link que o Dalton mandou, verão que a alavanca do trem fica a esquerda e é vermelha. Ela é bem diferente das que conhecemos hoje ( diga-se que hoje o desenho desse dispositivos obedecem um padrão de desenho idealisado pelos americanos e difundido no pós guerra). Observando em outras fotos e desenhos mais detalhados vejo, ou melhor, não faço a menor idéia de como seria essa operação. Vale lembrar, que no caso de uma ou mais tentativas para o “gear down”,… Read more »

Madvad

Muito legal, necessitamos mais matérias como esta!

Ilya Ehrenburg

Esta aeronave deveria ter sido recuperada, pois era o mais legítimo troféu de guerra!
No entanto, virou sucata.

Top Gun

Que cara maluco! Sorte demais, parece até mentira heheh!

vlw

Alexandre

Bob Hoover fez o mesmo na guerra. Houveram outros casos. Houve também pilotos que pousaram em estradas para resgatar colegas abatidos. Esses iam sentados no colo dos pilotos e dividiam a pilotagem na pequena cabine. Um cuidava dos pedais e o outro do manche. Tudo para não virar POW.

airacobra

so outro “pequeno” detalhe,

como ele obteve 14 vitorias contra os alemães nas suas 172 missoes se na foto ha 16 hakenkreuzes pintadas (ao menos só as que estão aparecendo, ainda devem haver outras por tras da asa)?

Bruce carr e seus misterios

Dalton

P-39…

aeronaves destruidas no chão também recebem marcas.

Carr teve 14/15 vitorias confirmadas no ar e pelo menos 7 outras aeronaves ele destruiu no solo.

Há na verdade 23 marcas!

abraços

Roberto

Nota do Tradutor,
Correto Dalton.
Era costume e aceito pintar nas aeronaves, além das confirmadas, as não confirmadas, as compartilhadas e até as seriamente danificadas.
consultando o livro Stars&Bars de Frank Olynyk, não vejo nenhuma ground victory. O livro da como vitórias oficiais o total de 15.
Já o livro American Fighter Aces Album, dá como 15 vitórias, 1 provável e 2 danificadas.
Realmente, tinham 23 marcas em seu P-51.
Interessante que Carr abateu um Fw-190 “long nosed” .

airacobra

hum

obrigado pelos esclarecimentos
interessante ver que ele abateu 5 num mesmo dia (tres 190 e um 109)

mas nao chegou perto de Ulrich Von Reinmetal com 9 B-17 abatidas na mesma missão, alem de outras danificadas, mas sem gravidade (inicialmente, nao pode confirmar depois) e no final ainda ter que pousar de barriga com seu FW-190 A-4

airacobra

complementando

…pousar de barriga com seu FW-190 A-4/R6, muito danificado, depois de uma epopeia pra chegar ao campo e so assim pousar

so esclarecendo as 9 vitorias foram confirmadas, oque ele nao se confirmoou foi a gravidade dos danos nas outras 2 fortalezas

Pedro

Coisa de filme de ação, sem mais.

Abraçoss

Bruno Fernando

Uma boa história para sentar e contar para os netos, em várias gerações rsrsrs. Matéria fantástica, que aventura!

Seal

Esse piloto da USAAF, Capitão Bruce W. Carr,teve sorte,coragem e heroismo.
É aquele velho ditado: “Quem não tem cão,caça com gato”!!! rsrs

Giordani RS

“Chegando lá, ele não sabia como baixar o trem de pouso…”

Será que ele não errou a direção e desceu em Portugal? Se ele soube retrair o trem…ora poix…poix…

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