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Mais sobre formações de combate

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Muitas pessoas quando vêem equipes de demonstração como a Esquadrilha da Fumaça, Thunderbirds, Blue Angels voando em formação, ficam se perguntando se essas formações têm aplicação prática, além da estética.

No início da I Guerra Mundial, as aeronaves eram usadas basicamente para missões de reconhecimento, voando sozinhas ou no máximo em duplas. Mas com a rápida evolução dos aviões, os britânicos começaram a ser abatidos por trás (posição 6 horas) pelas aeronaves alemãs.

Os corpos aéreos decidiram então empregar o conceito de concentração de força (chegar com muitos aviões ao mesmo tempo, rapidamente), com os alemães voando em pares e os britânicos empregando o círculo defensivo, para que os artilheiros traseiros pudessem cobrir os arcos cegos uns dos outros.

Em 1916, Hauptmann Oswald Boelcke formou o primeiro ‘Jagdstaffel’ (Jasta), um grupo de 8 caças que voavam juntos para enfrentar as formações do RFC (Royal Flying Corps). Os aviões DH2 e Nieuport monoplaces foram superados em número e então começaram a voar em pares ou em quatro aviões, para proteção mútua.

Os Fokkers alemães foram substituídos por biplanos Albatros, com duas metralhadoras, bem superiores ao armamento inimigo. Os Albatros conquistaram a superioridade aérea, culminando no “Abril Sangrento” de 1917, quando o RFC perdeu 1/3 dos seus tripulantes, mortos ou desaparecidos.

No mesmo mês, o RFC colocou em serviço a primeira aeronave que iria servir de carrasco para o Serviço Aéreo Imperial Alemão: o Royal Aircraft Factory SE5, com motor de 150hp, logo substituído pelo de 200hp, aeronave que foi pilotada por vários ases do RFC, incluindo Edward ‘Mick’ Mannock, o maior deles.

Mas nem todo piloto era um ás. Quando o primeiro “Jasta” foi formado, os pilotos foram escolhidos a dedo, uma elite de pilotos, deixando as outras unidades aéreas com moral de “segundo colocado”.

Em contraste, um esquadrão típico do RFC ou RNAS era formado por pilotos de diferentes graus de habilidade, com cada homem sendo incentivado a melhorar cada vez mais. O SE5a era muito mais fácil de voar que o famoso Sopwith Camel, mas era menos manobrável. Num “dogfight”, era facilmente encaudado pelo triplano Fokker.

A formação ‘Vic’

Para maximizar a eficiência dos pilotos e caças, o comandante do 84 Squadron do RFC, Major Sholto Douglas, idealizou a formação tática em “V”, na qual dois alas (wingman) voavam em “echelon” atrás do líder, à esquerda e à direita. A formação “Vic” (abreviação da fonética “Victor”) de três aviões voava o mais próximo possível, para que os alas pudessem ver os sinais manuais do líder, que era sozinho o responsável por vigiar o céu e localizar o inimigo.

Com a indicação do líder, a formação mergulhava unida para atacar. Douglas não permitia que a formação se desfizesse e o piloto que desobedecesse era proibido de voar. Se a metralhadora do líder falhava no momento do ataque (uma ocorrência frequente), era dada a permissão para um dos alas atirar.

A tática funcionou e o 84 Squadron conseguiu mais de 100 vitórias, perdendo menos homens que qualquer outro esquadrão na Frente Ocidental. Douglas acabou mais tarde se tornando Marechal da RAF, Lord Douglas of Kirtleside.

A formação “Vic” era efetiva para concentrar poder de fogo, mas os alas tinham que manter os olhos no líder, sem condições de prestar atenção ao seu redor. Se o líder errasse em sua avaliação, os alas corriam perigo.

A “Vic” permaneceu padrão com a RAF para caças e bombardeiros,  pois era fácil de ser modificada em “line-ahead”, “line abreast” ou “echelon”.

Rotte, Schwarme e ‘Finger Four’

Banida em 1919 pelos termos do Tratado de Versalhes, a aviação militar alemã teve que recomeçar do zero. A Luftwaffe emergiu em 1935, com os pilotos planejando novas formações de combate, a mais importante permanecendo até hoje como base da aviação de caça em todo o mundo: o “rotte” (elemento ou par).

Dois aviões voam alinhados paralelamente ou com o líder um pouco mais à frente, e cada piloto explorando o céu ao redor do seu parceiro.

A distância entre o par era ditada pela missão ou circunstância, desde asa com asa, para concentrar o poder de fogo num alvo, de 100 a 200m para patrulha ou até 400 a 600m de distância para “ensanduichar” um inimigo entre eles, num “dogfight”.

A tática foi aperfeiçoada pelos pilotos da Legião Condor voando Heinkel 51 e os primeiros Bf109, durante a Guerra Civil Espanhola. O potencial dos caças da Luftwaffe aumentou mais ainda, com a combinação de dois “rotten” numa “schwarme”, de quatro aviões (Finger Four).

Os caças da República Espanhola Polikarpov I-15 e I-16 sofreram grandes perdas nas mãos destas novas formações, assim como o Armée de l’Air e a RAF, durante os combates que terminaram com a derrota da França, na Segunda Guerra Mundial.

No decorrer da Segunda Guerra Mundial, a formação alemã foi copiada também pela RAF. A “Finger Four” pode rapidamente se transformar numa formação “line-abreast”, para concentrar poder de fogo. Quando quatro Spitfires ou Hurricanes Mk.I voavam desta forma, havia 32 metralhadoras Browning de 0,303″ varrendo o inimigo, a 1.000 disparos por minuto, preenchendo a zona frontal com 1.050 projéteis em apenas dois segundos.

A ‘Thach Weave’

Em 1942, o capitão-de-corveta James ‘Jimmy’ Thach da Marinha dos EUA liderava um esquadrão de caças F4F ‘Wildcat’ num grupo aéreo embarcado em porta-aviões. Ele cedo descobriu que o caça japonês Zero-Sen ‘Zeke’ era superior aos caças americanos e que, se seus pilotos quisessem sobreviver ao “tour of duty”, eles precisavam manter uma ótima varredura dos céus para visualizar o inimigo com a maior antecedência possível.

Os aviões da US Navy e dos Marines voavam em formações “Vic”, assim como os caças de Yamamoto, então Thach buscou desenvolver uma formação que facilitasse o trabalho dos olhos e dos nervos dos seus pilotos.

Ele treinou seus pilotos em pares “loose deuce”,  “line-abreast”, com distância de 300 a 400 jardas. Ao invés de ficar vigiando o céu ao redor do seu avião, cada piloto buscava os céus ao redor do seu ala (wingman), o que dava um ângulo maior de visão e poucos arcos cegos.

Em intervalos de não mais de 5 minutos, geralmente menos, o elemento líder sinalizava “cross over” e eles trocavam as posições numa curva S, varrendo o céu abaixo e o mar enquanto efetuavam a mudança.

Na nova posição, os pilotos estavam olhando para a direção oposta, flexibilizando os músculos do pescoço e evitando o estado de transe, que muitas vezes afeta pilotos que patrulham vastas áreas de céu e oceano.

As mudanças de rumo e qualquer decisão de engajamento eram feitas pelo elemento líder. Os dois elementos podiam formar uma esquadrilha, quando o líder da esquadrilha designava os alvos a serem engajados e cada elemento cobria o outro. A nova formação funcionou e o esquadrão de Thach nunca foi pego de surpresa pelos Zeros. A tática é ainda empregada pela US Navy.

Continua em próximo post…

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Joker
Joker
9 anos atrás

Observar que qndo o avião ou seus armamentos por eles mesmos não são superiores ao inimigo, vem a tatica pra equilibrar forças.

João Carlos Panosso
João Carlos Panosso
9 anos atrás

O treino não deixa de ser uma força, saber explorar as fraquezas do inimigo é muito importante

ALDO GHISOLFI
ALDO GHISOLFI
9 anos atrás

Excelente matéria.

Antonio M
Antonio M
9 anos atrás

Bela reportagem, fotos e desenhos. Parabéns.

Joaca
Joaca
9 anos atrás

Vc luta como vc treinou! Alemães varreram a frança, os americanos acabaram com os zeros. Assim a história andou. Mas lembrem-se uma boa técnica tb equilibra um jogo desiguau, vejam os “top guns” abatendo os Mig17’s com seus pesados F4-Bs, ou os israelenses dançando ao redor dos Mig’s 21 e 17 arabes com seus Mirages IIICJ. Ou num exercício que ocorreu aqui no nordeste, a uns 12 anos, um grupo de pilotos de Mirage IIIs sulamericanos abatendo mirages 2000…. a história mostra, quem conhece suas fraquesas e sabe usar suas qualidades (mantendo a energia) ganha o combate. Joaca

Pedro
Pedro
9 anos atrás

Existe uma frase atribuida a um oficial israelence de blindados que é a sintese disso tudo. Quando perguntado sobre o sucesso de suas unidades ele foi bem claro, onde “os Arabes usam seus tanques, nós lutamos com os nossos”. O mesmo vale aí. Na IGM o Fokker e até mesmo depois o Albatross era inferior ao DH5, Soptwin e Spad, mas seus pilotos eram soberbos e por muito tempo estiveram a frente nas batalhas e so foram derrotados devido a questão numerica e falta de material humano de reposição. Alem de vc ter treinamento, vc tem que saber usar a… Read more »

Giordani RS
Giordani RS
9 anos atrás

“Aonde os Arabes usam seus tanques, nós lutamos com os nossos”.

Mais nada à dizer além dos parabéns ao Galante por mais uma ótima matéria!

Vader
Vader
9 anos atrás

Excelente matéria.