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Um difícil começo

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Traduções inéditas por Roberto F.Santana

A primeira unidade da IDF/AF a operar o Shahak (Skyblazer), como o Mirage III ficou conhecido em Israel, foi o esquadrão No. 101. Os primeiros dois exemplares voaram da França para Hatzor em 7 de abril de 1962. As entregas para a segunda unidade de caças da IDF/AF começaram no dia 7 de julho com a chegada de mais quatro aeronaves em Ramat David para se juntarem ao esquadrão No 117. Pretendia-se que ambas as unidades se tornassem as melhores em todos os aspectos, o Shahak faria missões ar-ar e ar-solo, e também substituiriam os caças noturnos Meteor e Vautour. Novas armas e táticas teriam que ser concebidas e implementadas, embora o Shahak inicialmente sofresse de uma tecnologia ainda pouco desenvolvida.

Em alguns aspectos o Mirage III era uma obra-prima, sendo talvez o mais bem aerodinamicamente projetado de todos os caças Mach 2 da primeira geração. Entretanto, seu motor e seu sistema de armas eram considerados inferiores aos equivalentes norte-americanos e ingleses. De fato, não menos que quatro Shahaks foram perdidos em 1963 em acidentes relacionados ao mau funcionamento do motor, uma investigação revelou que a falha era na caixa de acessórios do Atar 9B-3. Apesar de não ter havido perda devido falha do sistema de armas, a falta de confiabilidade nesse sistema causou muita frustração entre os pilotos israelenses.

Apresentado como uma revolucionária máquina de guerra, capaz de ser operada por um só piloto, em qualquer condição atmosférica, o desapontamento inicial causado pelo Shahak foi tremendo. Logo de início ficou óbvio que o desempenho Mach 2 era irrelevante no tradicional dogfight, e isso provou ser uma verdade no combate contra caças “inferiores”.

Embora o comparável MiG-21 ter entrado em serviço no Egito em maio de 1962, poucos oponentes do Shahak no Oriente Médio eram da categoria Mach 2. Em sua maioria eram MiG-17s e MiG-19s, mas também Hunters e, após 1967, os Su-7s. O Hunter e o MiG-17 tinham um surpreendente desempenho no combate aéreo, e quando os pilotos do Shahak praticavam treinamentos de combate “superior-inferior” contra os Super Mysteres da IDF/AF, ficou claro que novas táticas seriam necessárias para garantir que a suposta superioridade dos deltas iria derrotar caças inferiores, e não vice versa.

Como estes adversários, exceto o MiG 19 e o Su-7s, tinham performance superior de curva subsônica, as novas táticas de combate aéreo do Shahak focavam na maximização dos pontos fortes desse caça Mach 2 – pura velocidade, aceleração e razão de subida. A tática preferida era um tipo de ”hit and run”, o que significava inicialmente usar uma vetoração dada pelo controle de solo para o ataque surpresa, de preferência o mais longe possível, possibilitando o lançamento de mísseis ar-ar, o que era comum naquela época.

Quando obrigados a entrar em dogfight com um oponente inferior, a melhor tática era preservar o maior estado de energia subindo ou mergulhando, ao invés de entrar em curva com o inimigo, desperdiçando energia e perdendo a vantagem da velocidade. Para os pilotos israelenses, o uso da dimensão vertical ficou conhecido como “costurar”, que era a situação na qual a trajetória do caça em combate lembrava o movimento de uma mão costurando com linha e agulha.

Tais táticas levaram tempo para desenvolver e aperfeiçoar, e foi muito dificultada pelo ineficaz sistema de armas do Shahak. Esse sistema teve sua origem no caça “defesa de ponto” contra bombardeiros equipados com armas nucleares, esperava-se que o sistema de armas do Shahak incorporasse uma tecnologia de ponta. Isso poderia ter se tornado uma verdade se o equipamento funcionasse como anunciado, mas raramente acontecia. O radar CSF Cyrano foi projetado para “lockar” em alvos relativamente grandes voando em altitude durante uma interceptação na qual o radar “olhava” para cima. Quando o “lock-on” era conseguido, a mira radar CSF- 95 travava no alvo e os canhões eram automaticamente acionados a um alcance de 700 m. Teoricamente era um sistema fantástico, mas na realidade nada funcionava.

Em uma situação “look-down”, com o Shahak acima do alvo, o Cyrano era incapaz de adquirir qualquer coisa abaixo de 30.000 ft acima da terra – ou 10.000 ft acima do mar-devido à mancha-radar. Com uma baixa aceitação de durabilidade e funcionalidade devido ao seu sobreaquecimento, não encorajava confiança. De fato, durante a carreira de serviço do Shahak, poucas vitórias resultaram de um adequado “lock-on” que desse dados precisos de alcance para o sistema de mira. O Cyrano foi mantido porque já estava instalado e não havia nada que pudesse substituí-lo, teve alguma utilidade em ataques marítimos noturnos, na qual dava para as unidades de Shahak uma especial competência operacional e dava também a IDF/AF uma limitada capacidade nessa área.

Em meados dos anos sessenta, a IAI Elta foi contratada para um projeto de melhora de desempenho do Cyrano, mas foi descartado no final da década com a chegada de aviões de combate norte-americanos com sistemas de radar bem superiores. Os radares Cyrano foram removidos mais tarde e substituídos por lastros.

Excerto do livro “Israeli Mirage and nesher Aces”, de Shlomo Aloni

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Alexandre GalanteClésio LuizmarcosbsOzawaRoberto F Santana Recent comment authors
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Giordani RS
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Dom Robert sempre nos brindando com ótimos textos! E a propósito, como foi que os israelenses resolveram o problema da mira dos canhões do Mirage?

Roberto F Santana
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Roberto F Santana

Bem lembrado Giordani RS,

No livro diz que os técnicos israelenses fizeram uma modificação, um passo atrás, mas que funcionou.Tão boa que não precisou ser substituida.
Dois switches foram instalados no manche, um fixava a mira para um alcance de 250 m e o outro botão para um alcance de 600m.Só isso.
No calor do combate, os pilotos só tinham que fazer uma avaliação “a grosso modo” e selecionar o swicth certo.
Depois disso, nos treinamentos, o índice de vitórias aumentou em 35% e em menos de um ano o Shahak abateu 11 aviões.

Ozawa
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Ozawa

Para mais um pouco sobre a história das “Asas de Davi”, recomendo a autobiografia do brigadeiro Iftach Spector, ‘ALTO E BOM SOM’, de cujas densas linhas retiro uma de suas remissões ao Delta dos Deltas: “O Mirage, aquele triângulo de aço cinzento e fino, de movimento leve e gracioso como uma jovem coquete, elegante e fiel a mim como Jônatas ao Rei Davi.”

E para os mais aficcionados, uma réplica em escala 1:72, prateada de Giora Epstein, na Guerra dos Seis Dias… http://www.flyingmule.com/products/FA-FA725002

marcosbs
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marcosbs

Ao ler a excelente menção de Ozawa ao livro “Alto e Bom Som”, não posso deixar de rir um pouco com a notícia da … que o pessoal do GDA fez com certas vidraças em BSB!…

Brincadeira à parte, parabéns ao Roberto pelo artigo, e a todos os que o comentaram. Mais um pequeno oásis aos admiradores da história da aviação e, além disso, do plastimodelismo.

Clésio Luiz
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Clésio Luiz

A tradução do Alto e Bom Som para o Pt-Br ficou horrível. A mulher que traduziu chamou afterburner de “maçarico”. Esse é só um exemplo de um festival de erros grosseiros. Li algumas páginas e desisti. Se for ler de novo será em inglês, que espero esteja melhor redigido.

Eu li esse livro cujo trecho o Roberto traduziu acima, vale a pena para aqueles que tem alguma prática com a língua de Shakespeare.

Giordani RS
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O Clésio lembrou de algo que tenho verdadeiro ódio! Traduções que beiram ao ridículo! Erros banais, de gente que está apenas traduzindo, sem ao menos se preocupar em saber sobre o que está traduzindo. Uma dica, que pode parecer piada, mas que funciona, é pegar a versão para Portugal. Praticamente não hão erros!

Alexandre Galante
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É verdade, Giordani. Estou lendo agora o livro “As origens da ordem política” do Francis Fukuyama na tradução de Portugal. É um primor!