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Malvinas 38 anos: as ações da 1ª Esquadrilha Aeronaval de Ataque

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MB339_atacando_Argonaut_pintura_Carlos-Garcia

por Guilherme Poggio

  • O texto a seguir foi originalmente publicado em abril de 2010. Em função do aniversário de 38 anos do conflito vale a pena resgatá-lo para que as novas gerações conheçam melhor a história do conflito

A “1ª Esquadrilla Aeronaval de Ataque”, baseada em Punta Índio, província de Buenos Aires, foi uma das unidades da Aviação Naval argentina que teve seu batismo de fogo durante a Guerra das Malvinas. Em 1982 a unidade estava equipada com jatos de procedência italiana MB.326 e MB.339. O MB.339 é o “irmão mais novo” do conhecido jato EMB.326 Xavante.

A Marinha da Argentina, primeiro cliente do 339, havia adquirido dez exemplares no final de 1980 e transladados no ano seguinte.  Para a função de treinador armado o 339 era capaz de transportar pouco menos de duas toneladas de armamento em seis cabides sob as asas. As aeronaves vieram pintadas nas cores laranja e branco, assim como as aeronaves vendidas ao Peru.

MB339 linha de voo-foto COAN
Foto de 1981 mostrando os dez exemplares estacionados em Punta Indio FOTO: COAN

Em março de 1982 a 1ª Esquadrilha tinha uma baixa disponibilidade, algo em torno de 40%. Após a conclusão da “Operação Rosário”, nome dado à ação de reconquista das ilhas, a 1ª Esquadrilha recebeu ordens para enviar uma divisão de quatro aviões Aermacchi MB.339 para Rio Grande. Rapidamente o esquadrão trabalhou para solucionar os problemas das aeronaves e na primeira quinzena de abril 16 (sendo 10 MB.339) das 17 aeronaves da unidade estavam em condições de voo.

MB339-4-A-118 vermelho e branco
O 4-A-118 exibindo o padrão inicial de pintura para voos de treinamento. FOTO: COAN

Havia a questão da pintura, totalmente incompatível para um combate. As aeronaves receberam uma camuflagem semelhante à utilizada pelos caças Dagger (verde e areia). Os dez MB.339 foram então deslocados de Punta Indio para os aeródromos da porção Sul da Argentina. Em Comandante Espora ficaram quatro aeronaves e as outras seis em Rio Grande.

No dia 24 de abril dois MB.339 (4-A-113 e 4-A-116), em companhia de um BE-200, decolaram de Rio Grande às 9:45h, chegando às 11:15h em Puerto Argentino, como foi renomeada a localidade e o aeródromo de Port Stanley nas Ilhas Malvinas. As aeronaves foram estacionadas fora da pista sobre pranchas de alumínio, próximo à cabeceira 26. Entre os dias 25 e 30 de abril foram feitos três voos de reconhecimento e ambientação sobre a ilha.

MB339 primeiro pouso nas Malvins
Primeiro pouso de um MB.339 em Puerto Argentino. FOTO: COAN

Nas Malvinas os 339 deveriam operar não só na função de reconhecimento armando, mas também no ataque marítimo e no apoio aéreo aproximado. Para esta função optou-se por uma configuração com dois canhões DEFA 553 de 30 mm nos cabides internos (cada pod com capacidade para 120 projéteis) e dois casulos de foguetes Zuni LAU-10/A (quatro foguetes de 127 mm por casulo) nos cabides intermediários.

A tranquilidade do final do mês de abril foi substituída por ações intensas logo no dia 1º de maio. Pela manhã o aeródromo de Puerto Argentino foi atacado por Sea Harrier da Royal Navy e, por sorte, nenhum dos 339 foi atingido. Mas uma das bombas destruiu 30 tambores de combustível JP-1 dos caças.

ataque a puerto argentino
Ataque ao aeródromo de Puerto Argentino. As chamas indicam o local onde era estocado o combustível dos MB.339 FOTO: AP

Ainda naquele mesmo dia os aviões da divisão foram acionados para averiguar dois contatos detectados pelo radar instalado na ilha. Pareciam ser helicópteros, mas nada foi constatado. Os dois MB.339 foram novamente acionados no dia 3 para investigar um “eco de superfície” detectado a 60 milhas no rumo 160º.

Voando rente ao mar e com uma meteorologia totalmente adversa, as duas aeronaves chegaram ao local indicado pelo radar, mas não encontraram nada. Retornando em formação de combate e em baixa altitude, o líder (“Capitan de Corbeta” Molteni) pousou na pista 26. Logo atrás dele vinha o “Teniente de Fragata” (Primeiro-Tenente) Carlos Alberto Benitez, que, de tão baixo, acabou tocando com a ponta da asa em uma pequena elevação do solo. Benitez perdeu o controle da aeronave, mas ainda teve tempo de ejetar-se. Infelizmente, por estar próximo ao solo e com a aeronave inclinada, o pára-quedas não se abriu e o piloto argentino faleceu na queda. A guerra mal havia começado para a 1ª Esquadrilha e ela acabara de perder sua primeira aeronave e seu primeiro piloto.

Diante da situação foram solicitadas novas aeronaves. No mesmo dia do trágico acidente (3 de maio) outros dois MB.339 foram transladados de Espora para Rio Grande. No dia seguinte, pela tarde, dois aviões partiram para Puerto Argentino. Após 12 minutos de voo os pilotos foram alertados de que o aeródromo de Puerto Argentino estava sob ataque e retornaram para o continente. Nos dias subsequentes a atividade aérea inimiga e os navios piquete-radar, associado ao clima desfavorável, impediram a chegada dos reforços à ilha. Somente no dia 15 de maio as duas aeronaves (4-A-112 e 4-A-115) conseguiram pousar em Puerto Argentino.

Uma missão histórica

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MB339_atacando_Argonaut

Na tarde do dia 20 de maio de 1982 um pensamento teimava em não sair da cabeça dos militares argentinos. Quando e onde seria o desembarque britânico? Já havia passado quase um mês desde que as ilhas Geórgia do Sul foram reconquistadas. A ação do dia 25 de abril demonstrou que a vontade da “coroa” em retomar as Malvinas era real.

No aeródromo de Puerto Argentino, oficiais da aviação naval argentina reuniram-se na tarde do dia 20 para o planejamento da missão do dia seguinte. O “Capitán de Fragata” Oscar Manuel Arce, comandande da estação aeronaval, comunicou aos “Tenientes de Navío” (Capitão-Tenente, equivale ao posto de Capitão na Força Aérea) Guillermo Owen Crippa e Horacio Talarico, pilotos de MB.339, que na manhã do dia seguinte (21 de maio) duas aeronaves deveriam sobrevoar a região do estreito de San Carlos. Existiam indícios de que um desembarque inimigo poderia ocorrer naquela região. Porém, não se sabia a dimensão de tal manobra ou se o mesmo seria apenas um desembarque para desviar a atenção.

A missão deveria ser realizada a baixíssima altura, contornando as encostas mais elevadas e utilizando o relevo da ilha como defesa. A partir de Puerto Argentino as duas aeronaves seguiriam para oeste acompanhando a cadeia de montanhas Rivadavia, que atravessava a ilha Soledad de leste a oeste. Próximo ao monte Usborne (ponto mais elevado da ilha) os jatos deveriam seguir por um vale que os levaria direto para San Carlos.

componentes da esquadrilha de ataque nas malvinas
Membros da 1ª Esquadrilha de Ataque no interior do apertado hangar de Puerto Argentino

Na manhã do dia 21 o tempo estava encoberto sobre as ilhas. O teto estava baixo e havia neblina e garoa localizada. Não era o melhor dia para se voar, mas existiam condições satisfatórias para o cumprimento da missão. Desde muito cedo os mecânicos trabalharam exaustivamente nas duas aeronaves, mas problemas técnicos que exigiam soluções mais demoradas apareceram no avião de Talarico.

Por volta das 8:30h patrulhas do Exército Argentino informaram a presença de navios no Estreito de San Carlos. Como o cumprimento da missão era fundamental, todo o esforço foi feito para que pelo menos uma das aeronaves estivesse em condições de voo. Pouco antes das dez horas da manhã o avião do tenente Crippa ficou pronto. De certa forma o atraso permitiu uma melhora no tempo, embora ainda estivesse nublado (com nuvens baixas) e neblina em alguns locais.

Owen_Crippa_Campera_480

Eram 10:04h quando Crippa alinhou o seu MB.339 com a pista 08 e recebeu autorização da torre para decolar. Após a decolagem, Crippa curvou suavemente para a esquerda e tomou rumo Oeste. Após passar pelas linhas de defesa argentinas e pelo Monte Kent, o oficial naval tinha total liberdade para atacar qualquer helicóptero que encontrasse no caminho.

Ainda não muito distante do Monte Kent, Crippa observou duas colunas de fumaça cinza que se erguiam a partir do solo. Eram helicópteros do Exército (um Chinook e um Puma) que haviam sido atacados por Harrier GR.3 da RAF no início daquela manhã. Se a aeronave de Crippa tivesse decolado duas horas antes, seu destino poderia ter sido diferente. Mas este era o seu dia.

rota-MB339_ataque a fragata Argonaut
Mapa do trajeto de Crippa, indicando o local do ataque. Clique na imagem para ampliar

Voando dentro do vale do Rio San Carlos Crippa deparou-se com uma espessa camada de neblina próximo ao solo que provocava uma série de reflexos com os raios de sol, prejudicando a visão. O oficial argentino decidiu então modificar a rota e penetrar no estreito de San Carlos pela sua porção norte. Assim, também teria o sol nas suas costas o máximo possível.

Ao atingir a Enseada do Norte não encontrou nenhum navio e curvou para a esquerda para dentro o estreito. Nas proximidades da baía de Punta Roca Blanca, voando a 500 pés de altitude e aproximadamente 300 nós, Crippa identificou um navio que, segundo ele, tratava-se de uma fragata Tipo 21. A princípio o navio não se deu conta da aeronave, que seguia margeando a costa a baixa altitude. Alguns segundos depois, identificou outros navios próximo ao ponto onde estava a Tipo 21.  Ao transpor um dos montes que margeiam o estreito de San Carlos deu de cara com um helicóptero Lynx da Royal Navy, pairando cerca de 1000 pés acima da superfície do mar.

MB339_atacando_Argonaut-3

Como Crippa tinha ordens para atacar qualquer helicóptero que encontrasse, tratou de manobrar a aeronave (ele estava mais baixo que o helicóptero) para realizar o ataque. Momentos antes de apertar o gatilho, o oficial argentino identificou mais outro navio. Tratava-se da fragata HMS Argonaut (classe Leander). Como era um alvo de maior valor, Crippa manobrou o MB.339 para a esquerda e partiu para cima do navio. No momento do disparo do canhão, nenhum projétil saiu pelo cano. Tentou com os foguetes Zuni e nada novamente. Deu-se conta então que não havia selecionado o “master switch” do armamento, o que vez de imediato.

Eram aproximadamente 10:30h quando Crippa estava quase sobre o navio. Fez mira no passadiço e nos sistemas eletrônicos ao redor. Sabia que não poderia afundar a fragata, mas pelo menos tentaria colocá-la fora de ação.

Disparou tudo o que podia (canhões e foguetes) antes de erguer o nariz da aeronave, curvar de volta ao mar e passar pela popa já executando manobras evasivas. Três tripulantes foram feridos e o radar de vigilância aérea Tipo 965 foi colocado fora de combate.

Neste momento sua presença já não era mais uma surpresa e tudo quanto é boca de fogo que existia ali começou a disparar sobre o seu avião. Era a luta de um contra todos.

HMS Argonaut-foto RN
HMS Argonaut. Esta é uma imagem antiga, pois o canhão da proa foi substituído por lançadores de SSM Exocet (comparar com a ilustração acima). Observar o lançador quádrulo de mísseis Seacat acima do hangar do helicóptero. e a ré da antena do radar de vigilância aérea Tipo 965. FOTO: RN

Crippa observou que um navio de assalto anfíbio da classe Feraless (HMS Fearless ou o HMS Intrepid) que estava a sua esquerda havia disparado um míssil (muito provavelmente um Seacat), que não o atingiu. Quanto mais o MB.339 avançava por aquele braço de mar, mais navios encontrava. Voou mais baixo ainda e com potência plena enfiou-se entre os navios da frota britânica. Momentaneamente o fogo cessou, com a possibilidade de um navio atingir o outro. Mas isso durou pouco. Como forma de livrar-se de vez dos navios, o piloto argentino buscou refúgio atrás das colinas. Após superar a primeira colina, Crippa deu de cara com mais navios a sua direita, fundeados na Baía de Ruiz Puente. Novamente começaram os disparos contra o seu avião. Rapidamente Crippa curvou para a esquerda na direção do povoado de Puerto Sussex.

Ainda antes de retornar para Puerto Argentino ganhou altitude e fez uma manobra suave para a esquerda com o propósito de realizar um último reconhecimento. Na sua avaliação existiam quatorze navios de médio e grande porte em San Carlos. Era uma concentração muito grande em águas tão restritas. Não havia mais dúvidas, a “invasão” havia começado.

Restava a Crippa voltar e dar todas as informações possíveis sobre o voo. O informe não foi feito via rádio, pois o voo baixo, praticamente “colado ao relevo”, reduzia muito o alcance do VHF. Ainda existia o medo de encontrar uma CAP de Sea Harrier caso a sua rota de retorno fosse denunciada pela transmissão.

E a sua rota de retorno tornou-se a grande preocupação naquele momento. Como a navegação de ida foi alterada em função das condições climáticas, as referências geográficas foram perdidas.

MB339-4-A-115 marca do navio atingido
Desenho de um navio (a silhueta lembra uma Tipo21) na fuselagem do 4-A-115 simbolizando o ataque de Crippa à fragata HMS Argonaut . Na esquerda o símbolo da 1ª Esquadrilha.

Estando mais ao Sul do que deveria, Crippa passaria próximo de Puerto Darwin, onde existia uma guarnição argentina que desconhecia o seu paradeiro e a sua missão. A AAA (artilharia antiaérea) amiga poderia até atingi-lo, como já havia acontecido com o Capitão García Cuerva da FAA, derrubado próximo de Puerto Argentino por fogo amigo.

Crippa então decidiu voar “colado ao solo” e margeando as colinas de Rivadavia, pois estas o levariam ao lado oriental da ilha. Poucos minutos depois o MB.339 já estava sobrevoando a Baía Agradable. Na certeza de que estava perto de “casa”, o piloto argentino subiu e comunicou-se com o aeródromo. Após receber as instruções rumou para o pouso. Antes de alinhar-se com a pista ainda fez um último contato.

Eram aproximadamente 10:45h quando Crippa pousou. Ao deixar o cockpit partiu para o Centro de Operações, onde relatou em detalhes o ataque e a situação da frota britânica no estreito. Era o primeiro relato detalhado do desembarque. Suas informações foram fundamentais para os ataques posteriores vindos do continente. Crippa foi condecorado com a “medalla al heroico valor en combate”.

Os últimos dias

Barra de Cinco Pixels

MB339-4-A-115 apos o ataque-Crippa a direita
Membros da 1ª Esquadrilha de Ataque posam ao lado do avião pilotado por Crippa (último à direta). Observar o armamento típico empregado poe estes aviões durante a campanha das Malvinas.

A operacionalidade dos MB.339 era duramente afetada pelas condições locais. A falta de estrutura para manter e dispor as aeronaves no pátio associada ao rigoroso inverno (que afetava os sistemas elétricos da aeronave) reduziam muito a disponibilidade das aeronaves. Além da perda do 4-A-113, o 4-A-116 estava com o motor danificado por estilhaços e o 4-A-115 com falhas elétricas. Somente o 4-A-112 tinha condições de voo. Eram necessários mais MB.339.

No dia 26 de maio, acompanhados por um Fokker F-28, três MB.339 (4-A-110, 4-A-114 e 4-A-117) partiram de Rio Grande com destino a Puerto Argentino, onde chegaram às 14:32h. No mesmo dia foi feito um esforço de manutenção para colocar o 4-A-115 em atividade a partir de peças canibalizadas dos  4-A-112 e do 4-A-116. A medida era urgente, pois as tropas britânicas avançavam sobre Darwin e os MB.339 deveriam ser empregados em missões de apoio aéreo aproximado.

MB339-4-A-116 abandonado3
Foto do 4-A-116 abandonado em Puerto Argentino. Observar o estado da aeronave  sem o leme e a roda do trem direito

Mesmo diante das adversidades, duas aeronaves (4-A-114 e 4-A-117) foram lançadas na manhã do dia 28 para apoiar o exército em Darwin. Com a piora do tempo e a visibilidade quase nula, a missão foi abortada. Pela tarde o tempo melhorou e as mesmas aeronaves decolaram para oeste. O ataque foi feito com o emprego de canhões e foguetes Zuni. O “Capitan de Corbeta” Molteni, piloto do 4-A-117, observou o disparo de um míssil e iniciou as manobras de despistamento. O outro MB.339 (4-A-114) não teve a mesma sorte e o piloto, “Teniente de Corbeta” Daniel Enrique Miguel, foi abatido por um MANPAD Blowpipe dos Royal Marines. No dia seguinte os britânicos tomaram Darwin.

Para piorar a situação, um ataque aéreo ao aeródromo de Puerto Argentino no dia 30 de maio, realizados por Harrier da RAF, colocou fora de ação o 4-A-110, que havia chegado à ilha quatro dias antes. Os estilhaços perfuraram um tanque da ponta das asa. A única notícia boa do dia para a 1ª Esquadrilha foi o retorno do 4-A-115 à linha de voo. Os três dias seguintes tiveram temperaturas baixíssimas e as aeronaves estacionadas ao relento sofreram muito com isso. O sistema de armamento foi afetado e os problemas do sistema elétrico de partida do motor pioraram (quando a temperatura das baterias caía muito, ela não era capaz de fornecer 19V). Com três aviões fora de ação, dois perdidos e apenas dois em condições de voo, foi decidido encerrar as atividades da esquadrilha no conflito.

MB-339 abandonado
Um dos MB.339 abandonados em Puerto Argentino. Este é, muito provavelmente, o 4-A-110
MB339-4-A-112 abandonado
Foto do 4-a-112 tirada após a tomada do aeroporto de Puerto Argentino por forças britânicas

O retorno começou no dia 31 de maio, com os mecânicos voltando para casa a bordo de um transporte F-28. Os mesmos problemas que afetaram a operacionalidade dos MB.339 também atrasaram o retorno das duas aeronaves sobreviventes. Por 36 horas foi impossível dar partida no motor. Somente no dia 5 o “Capitán de Corbeta” Molteni e o “Teniente de Corbeta” (Primeiro-Tenente) Henry conseguiram transladar respectivamente os aviões 4-A-115 e 4-A-117 para o continente.

Os outros três (4-A-110, 4-A-112 e 4-A-116) foram inutilizados e abandonados na ilha. No dia 14 de junho, dia da queda de Puerto Argentino, sete membros da 1ª Esquadrilha foram feitos prisioneiros. Encerava-se assim a participação da 1ª Esquadrilha no conflito das Malvinas.

Total de aeronaves empregadas 7
Número de missões executadas 4
Total de horas de voo em combate 21:20h
Aeronaves perdidas 2
Aeronaves capturadas 3
Pilotos falecidos durante os combates 2

Após a Guerra

Ao final da guerra, os outros cinco sobreviventes do lote inicial de dez exemplares tiveram baixa disponibilidade. O maior problema era a manutenção dos motores Rolls Royce Viper, de origem britânica. A aquisição de peças de reposição foi afetada pela imposição do embargo de material militar.

Em 1984 o MB.339 4-A-117 teve o seu assento ejetável acionado no interior do hangar de manutenção. Embora ninguém tenha se ferido no incidente, o cockpit ficou bastante danificado pelo motor foguete do assento. A aeronave foi encostada para um possível reparo futuro. Com a baixa disponibilidade das aeronaves, as mesmas foram estocadas em um hangar na Base Aaeronaval de Punta Indio.

Uma das aeronaves (4-A-119) foi recomprada pela Aermacchi, sendo modificada para servir de testes para a concorrência norte-americana JTAPS (a mesma que o EMB-312H participou e foi vencida pela Pilatus). Outras três foram vendidas para um colecionador em 1999, que as transportou para os Estados Unidos. Somente o exemplar 4-A-117 ficou na Argentina e foi preservado no Museu de Aviação Naval  Argentina (MUAN), localizado na entrada da Base Aeronaval Comandante Espora. Em 2007 o avião foi restaurado após permanecer em exposição externa durante anos.

MB339 Yovilton-foto Ian Howat
MB.339 exibido em Yeovilton. Esta célula foi montada utilizando-se da fuselagem frontal do 4-A-110 e as demais partes do 4-A-116. FOTO: Airliners/I. Howat

Também existiu um outro exemplar que ficou exposto no museu de aviação de Yeoviton (Inglaterra) por vários anos. Na verdade tratava-se da união da fuselagem frontal do 4-A-110 com o 4-A-116, ambos capturados em Puerto Argentino.

Em 2008 foi feita uma campanha para recomprar a aeronave 4-A-115, que estava em Houston. Esta aeronave possui um enorme valor histórico, pois foi pilotada pelo “Teninente de Navio” Crippa em 21 de maio de 1982. Infelizmente os esforços não se concretizaram. Nem mesmo a troca pelo 4-A-117 foi aceita.

MB339-4-A-115 estocado
Fuselagem do 4-A-115 estocada em Houston por um colecionador argentino

 

número de construção matrícula destino final
6624 0761/4-A-110 capturado/fuselagem frontal exposta em Yeovilton
6625 0762/4-A-111 adquirido por civil e estocado em Houston
6626 0763/4-A-112 capturado e abandonado em Port Staley
6627 0764/4-A-113 acidentado em 24/04/82
6628 0765/4-A-114 abatido em 28/05/82
6629 0766/4-A-115 adquirido por civil e estocado em Houston
6630 0767/4-A-116 capturado/parcialmente exposto em Yeovilton
6631 0768/4-A-117 adquirido por civil e em exposição no museu
6632 0769/4-A-118 estocado em Houston
6633 0770/4-A-119 vendido em 1991, transformou-se no protótipo da Aermacchi para o programa JPATS (matrícula civil italiana I-RAIB). Transladado para os EUA em 1997 foi rematriculado N339L e destruído em 25/7/2000 quando pertencia a Lockheed

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Paulotd
Paulotd
6 meses atrás

Tinham só 10 Xavantes melhorados, Brasil na época tinha 126 Xavantes fabricados localmente, com pleno conhecimento do e disponibilidade pela Embraer, podendo atingir quase a mesma velocidade de ataque dos A4 Skyhawks.. Tivesse a Argentina algumas dúzias de Xavantes operando à partir das ilhas, com bombas de 250lb para atacar a frota Inglesa, o estrago seria grande..

Claudio Moreno
Claudio Moreno
Reply to  Paulotd
6 meses atrás

Boa madrugada a todos!

Em adição a teu comentário Paulo, digo que aí reside a diferença de ter uma industria de defesa que atenda minimamente as necessidades de nossas FFAA. Para aquela época creio que estávamos melhor servidos em todos os aspectos (EB, FAB e MB).

CM

Daniel Anderson
Daniel Anderson
Reply to  Claudio Moreno
6 meses atrás

Perfeito, muitos tecem elogios as forças armadas chilenas por exemplo dizendo que temos muito a prender com esse país e que o Brasil não é serio, porém ninguém comenta que temos toda uma industria disponível para apoiar os equipamentos que temos, tendo que mandar quase nenhum meio para o exterior para fazer manutenção.

JuggerBR
JuggerBR
Reply to  Daniel Anderson
6 meses atrás

Por quanto tempo teremos isso? Com dólar cada vez mais caro e a Embraer totalmente sem futuro definido?

Joao Moita Jr
Joao Moita Jr
Reply to  Paulotd
6 meses atrás

Realmente, Cláudio. Todos já sabemos a falta que fizeram uma dúzia de Exocets na hora H. Imaginem se a Argentina tivesse sua própria produção de Xavantes e uma versão desse míssel. Se tivessem para a defesa um número similar ao do Brasil, com 100-120 mísseis anti navio. A frota inglesa teria ido toda ao pique, e estaríamos falando de uma história alternativa. Isso serve de aviso ao Brasil, o qual depende quase por completo da boa vontade alheia.

Dr. Mundico
Dr. Mundico
6 meses atrás

Guerras são disputas entre estratégias e conceitos, onde sistemas tecnológicos, aptidão profissional e compromisso tático são os principais diferenciais entre as partes envolvidas.
É um êrro achar que atos isolados de bravura ou heroísmo possam definir a vitória. Quando muito sacrificam vidas inutilmente.

Paulo Costa
Paulo Costa
6 meses atrás

Só achei meio bobo o desenho do HMS Argonaut na fuselagem do avião… afinal ele mal e mal arranhou o navio.

Carvalho2008
Carvalho2008
Reply to  Paulo Costa
6 meses atrás

O navio foi afundado de forma indefesa por Daggers que o localizaram se afastando ferido. Os tiros do Ten Crippa ja o haviam tirado de combate. A central de radar e de tiro estava danificada e não tinha como se defender de ataques aereos. Isto, considerando o “gravissimo erro de Cripa” que tomado pelo nervosismo, esqueceu de destravar as armas e tentou atirar por duas vezes sem exito, depois destes valiosos segundos de ataque é que percebeu e destravou o botão e ai sim conseguiu disparar. Então imagine quantos impactos de disparos ele perdeu por ter perdido a visada naqueles… Read more »

Paulo Costa
Paulo Costa
Reply to  Carvalho2008
6 meses atrás

Me perdoa, mas de onde saiu essa informação? o HMS Argonaut nunca afundou, após a derrota dos argentinos nas Malvinas, no final de junho de 1982 o navio voltou navegando para a Inglaterra…

Ricardo Bigliazzi
Ricardo Bigliazzi
6 meses atrás

Corajosos Argentinos comandados por um bando de incompetentes.

Mgtow
Mgtow
Reply to  Ricardo Bigliazzi
6 meses atrás

exatamente

Carvalho2008
Carvalho2008
6 meses atrás

Trocando em miúdos, os Mb-339 não estavam operacionais Mesmo o que se tentou colocar em condições, não havia infraestrutura para opera-los. Somente 3 viram o combate, um sendo abatido por manpad e o outro obtendo esta vitoria sobre a fragata Fossem quantidade maior ou montados como os Xavantes no Brasil, teriam apresentado ima folha de serviço respeitavel Detalhe especial que apesar destes minguados serem alocado ali nas ilhas, não houve designação de qualquer avião de patrulha para operar la e localizar os navios da frota. Entao fica nitido que tanto a missao como a configuracaovde armas adotadas apesar de tambem… Read more »

Carvalho2008
Carvalho2008
6 meses atrás

Fossem os 126 xavantes, acompanhado de algum p95 ou p16 la nas ilhas, a coisa seria diferente
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Vitor
Vitor
Reply to  Carvalho2008
6 meses atrás

Se o MB-339 teve problema, o MB-336 não teria? Provavelmente ficariam indisponíveis igual ou pior.

Carvalho2008
Carvalho2008
Reply to  Vitor
6 meses atrás

Qual a infra para 6 caças e qual a infra para 40? Muda tudo!!!

E veja que eles sequer estavam operacionais 30 dias antes

Percebe que quando se fala em canibalizar 4 ou 3 de seis é porque não tem peça? Ou um tanque de combustível furado na ponta da asa e não saber como concertar?

Claudio Severino da Silva
Claudio Severino da Silva
Reply to  Carvalho2008
6 meses atrás

Carvalho2008
As aeronaves que aparecem na foto acima são os Aermachi MB-326 KC Impalas II da Atlas Aircraft, organicamente providos de dois canhões de 30mm.

carvalho2008
Reply to  Claudio Severino da Silva
6 meses atrás

Sim, são Sul Africanos.

A versão melhor armada deles.

Alexandre Esteves
Alexandre Esteves
Reply to  Carvalho2008
6 meses atrás

Bela foto dos Impalas. Operaram na FAB, por um breve tempo, em Fortaleza no 1°/4° GAv, Esquadrão Pacau, sob a designation AT-26A(?).
Os exemplares da foto são da SAAF.

Carvalho2008
Carvalho2008
6 meses atrás

Vejam como os aviões vindos do continente vinham com quase nada de bombas por conta da distancia
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Ivanmc
Ivanmc
Reply to  Carvalho2008
6 meses atrás

Ótimas ilustrações, Carvalho2008

Carvalho2008
Carvalho2008
Reply to  Carvalho2008
6 meses atrás

Mestre Poggio,

Em homenagem aos entusiastas da improvisação, posta a matéria sobre o Hércules bombardeiro argentino aí de cima!!!

Carvalho2008
Carvalho2008
6 meses atrás

Ja o xavante operando de Puerto Argentino poderia:
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Carvalho2008
Carvalho2008
6 meses atrás

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Carvalho2008
Carvalho2008
6 meses atrás

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Não sei se a versão dos Sul Africanos podiam disparar misseis….mas postei pois a goto ficou bonita. Nossos Poranha foram testados no At26 tambem

Ivanmc
Ivanmc
6 meses atrás

Bem que alguma dessas produtoras de filmes 21st Century Fox, Warner Bros, Sony ou Paramount, poderiam fazer um filme com superprodução sobre a Guerra das Malvinas.

Satyricon
Satyricon
6 meses atrás

Aí vc pensa se não haveria espaço (e mercado) para um sucessor à jato do ST

Carvalho2008
Carvalho2008
Reply to  Satyricon
6 meses atrás

Eu realmente imagino que sim. Tem espaço e muito.

A formula monomotor turbohelice ja deixou de ser novidade, vários modelos passaram a surgir e competir, ao tempo vão ficando mais limitados pelo surgimento de novas aeronaves.

Ja esta na hora de desenhar algo um pouco mais parrudo, mais veloz mas que seja stol e consiga também voar lento e que mantenha o baixo custo. Imagino que tenha tambem uma veia multiuso ate de pequena carga como era o OV-10 Bronco

É um desafio dificil

carvalho2008
carvalho2008
6 meses atrás

C-130H TC-68, Escuadrón I, I Brigada Aerea, MER montado no lugar dos tanques, bombas externas BR250 EXPAL.

Durante o conflito da Guerra das Malvinas, a força aérea argentina procurou utilizar ao máximo os poucos recursos de que dispunham.

Existem relatos de tropas inglesas dando conta de bombas argentinas explodindo ao longe, roladas da porta traseira de um C-130. No entanto, algumas adaptações parecem ter obtido pleno sucesso em ao menos duas ocasiões:

Ataque ao petroleiro britânico Wye, retirando-o do combate

Ataque ao navio-tanque Hércules, retirando-se de combate e sendo afundado por medida de segurança na costa brasileira

carvalho2008
carvalho2008
Reply to  carvalho2008
6 meses atrás
Mgtow
Mgtow
6 meses atrás

Os editores estão de parabéns por essas materias muito bem feitas sobre a guerra das Malvinas. Tantos detalhes que eu acabo no ato da leitura me transportando para aquele cenario tão peculiar do nosso continente. Gostaria de pedir ao Poggio ou Galante se possivel for, trazer materias desse tipo envolvendo os combates em terra la no Forte.