Home Forças Aéreas Malvinas 38 anos: por que as bombas não explodiram?

Malvinas 38 anos: por que as bombas não explodiram?

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Por Guilherme Poggio

A versão original da matéria a seguir (segmentada em nove partes) foi publicada em maio de 2017. Por ainda ser um história pouco conhecida vale a pena reprisá-la.

Em 1982, argentinos e britânicos se enfrentaram na gélidas águas do Atlântico Sul para disputar a posse das ilhas Malvinas (Falklands, como se referem os britânicos). Foi durante esse conflito que a Força Aérea Argentina (FAA – Fuerza Aérea Argentina) entrou pela primeira vez em combate contra um inimigo externo. O batismo de fogo ocorreu no dia 1º de maio de 1982. O texto a seguir resgata a história daquela que foi a missão mais importante da FAA: atacar e destruir alvos navais da Força-Tarefa britânica.

Pega de surpresa, a FAA cumpriu as missões a ela delegadas, mesmo sem possuir o devido treinamento, sem os vetores adequados e sem os armamentos próprios para a missão.

Esta é uma história de superação, rápida adaptação e engenhosidade. No final, os resultados foram muito além do que se esperava inicialmente. Porém, não insuficientes para mudar o rumo da guerra.

Introdução

No início de junho de 1944 os Aliados apressavam-se para desencadear a Operação Overlord, o desembarque anfíbio na Normandia, que prometia mudar o rumo da história da Segunda Guerra Mundial. Ao largo da costa da Baía de Lyme, no Canal da Mancha, o HMS Boadicea (H65) um veterano contratorpedeiro da classe B lançado ao mar em 1930, escoltava um comboio de navios mercantes. No dia 13 de junho o comboio foi vítima da aviação alemã. Dois torpedos lançados por Bombardeiros Junkers Ju-88 acertaram o Boadicea. Com a explosão do paiol de munição o navio britânico rapidamente afundou.

O Boadicea foi o último navio da Royal Navy perdido para ação aérea inimiga naquele conflito. Porém, considerando o emprego de artefatos de queda livre (“bombas burras”), a última perda britânica para a aviação inimiga foi o HMS Panther, um contratorpedeiro da classe P. O navio foi atingido por bombas lançadas por bombardeiros de mergulho alemães Junkers Ju 87 “Stuka” durante a campanha do Dodecaneso, no Mar Egeu, em nove de outubro de 1943.

Cruzador britânico HMS Gloucester sendo atacado por aviões alemães Ju-87 ‘Stuka’ no Mar Mediterrâneo em 22 de maio de 1941. O navio afundaria no mesmo dia após receber o impacto direto de pelo menos quatro bombas de 250 kg. A foto foi tomada por um dos aviões alemães a média altura. Se os argentinos usassem este mesmo perfil de ataque a possibilidade de sucesso seria muito pequena. FOTO: arquivo

Deste então a guerra aeronaval passou por mudanças profundas. Quarenta anos depois o emprego de aviões para o lançamento de bombas de queda livre contra escoltas dotadas de sistema de vigilância aérea e mísseis guiados já não era mais considerado uma opção de ataque aeronaval, caso não saturasse o sistema de defesa do navio a ser atacado. Em 1982 os argentinos mostraram que velhas armas e novas táticas podiam ser conjugadas para surpreender a Royal Navy. E ela voltaria a perder navios de guerra para artefatos de queda livre.

Surpreendidos

Todo o planejamento da ação militar para a retomada das ilhas Malvinas foi feito de forma sigilosa pelo alto comando da Marinha Argentina, tendo como idealizador o almirante Anaya, comandante daquela força. Em fins de 1981 o governo militar argentino considerou a possibilidade de retomar as ilhas Malvinas através de uma solução militar caso as negociações diplomáticas fracassassem. Essa opção foi discutida com o presidente Leopoldo Galtieri.

Junta militar que governava a Argentina em 1982. Ao centro o presidente Galtieri. Anaya, o idealizador da retomada das Malvinas está à sua esquerda e o comandante da FAA, brigadeiro Lami Dozo, à esquerda. Dozo ficou sabendo do plano de retomada das ilhas pouco antes do ano novo. A maioria dos seus subordinados tomou ciência dos fatos somente no dia 2 de abril de 1982, data do desembarque argentino nas ilhas. Dozo faleceu dois meses atrás aos 88 anos. FOTO: arquivo

Ocorre que nesta mesma época o Comando Aéreo Estratégico (CAE) da Força Aérea Argentina (FAA) havia concluído a atualização do planejamento estratégico da Força. Tal planejamento não contemplava uma ação bélica contra os britânicos para a retomada das ilhas Falklands/Malvinas. O comandante da Força Aérea Argentina, brigadeiro Basilio Lami Dozo, foi o último dos três comandantes a tomar conhecimento da existência do plano militar, sendo informado do plano dois dias antes do final do ano de 1981.

Jamais passou pela cabeça dos estrategistas da Força Aérea Argentina envolverem-se num conflito com o Reino Unido tendo como palco a disputa das ilhas Falklands/Malvinas. E havia duas razões fortes para isso, sendo uma de caráter legal e outra de caráter geopolítico.

Do ponto de vista legal a Resolução 1/69, emitida pelo chefe do Estado-Maior conjunto das Forças Armadas argentinas, aparou algumas arestas entre as três forças e definiu melhor as atribuições de cada uma delas. Com base nessa resolução, no final daquele ano de 1969 foi promulgada a Lei nº 18.416, que determinava as competências específicas de cada Força.

Desta maneira a Marinha tinha atribuição específica sobre o mar jurisdicional argentino e sobre a costa do país. Para isto caberia a ela obter todo e qualquer meio, incluindo meios aeronavais embarcados ou não. Em relação às operações navais a FAA deveria executar somente o apoio indireto sem que para isso tivesse que obter meios específicos se não aqueles mesmos empregados em ações aeroterrestres.

Sendo assim, a FAA encontrava-se, em abril de 1982, sem os meios e sem as doutrinas necessárias para desenvolver a guerra aeronaval. Nenhum dos pilotos da FAA havia lançado ao menos um simples artefato sobre o mar. A maioria deles quando o fez pela primeira vez, o fez em combate.

Em relação à questão geopolítica a FAA estava moldada para enfrentar um inimigo continental no Cone Sul. Seus meios, suas táticas e seus adestramentos estavam todos voltados para um eventual conflito fronteiriço, em especial com o Chile, onde em 1978 ambos os países quase entraram em combate. Até mesmo os aeródromos de desdobramento argentinos haviam sido definidos com base numa hipotética batalha contra o vizinho andino.

(CLIQUE AQUI E CONTINUE LENDO ESTA MATÉRIA …)

Parte 1- Introdução 
Parte 2 – Vetores e armamentos
Parte 3 – As Táticas
Parte 4 – Espoletas
Parte 5 – O primeiro ataque
Parte 6 – ‘Bomb Alley’
Parte 7 – O dia da Pátria
Parte 8 – Esforço hercúleo

Parte 9 – Mitos sobre as bombas argentinas nas Malvinas

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carvalho2008
3 meses atrás

Tenho uma curiosidade. Dada a dificuldade da calibragem das espoletas e a persistência das falhas, não seria factível o emprego misco com casulos de foguetes 122 mm? Porque não experimentaram? O perfil rasante de lançamento das bombas não permitiria o mesmo perfil de lançamento de foguetes? Num uso misto ou combinado entre os aviões, impactos de 122 mm também teriam um efeito destruidor muito grande. Lembremos que equivalem as disparos de canhões navais, pode não afundar, mas aleija e por vezes fatalmente … lembremos que o primeiro embate foi quando o Ten Crippa teve de decolar sozinho seu MB-339 das… Read more »

Paulotd
Paulotd
Reply to  carvalho2008
3 meses atrás

Esse foguetes de 122 mm carregam um warhead de 15 kg.. Faria algum estrago, mas precisaria de muitos foguetes para afundar um navio, enquanto um único impacto de uma bomba de 1000 lb deve ser suficiente para inultilizar/afundar uma fragata.

Carvalho2008
Carvalho2008
Reply to  Paulotd
2 meses atrás

Ai é que está… Não precisa afundar, tirando de combate, ou ficara fora da guerra ou sera alvejado depois por bombas burras. Foi exatamente o que aconteceu com a primeira fragata alvejada pelos argentinos. Foram foguetes do Mb 349 do Ten Cripa e olha que ele errou nos disparos mas acertou um que tirou a diretora de tiro de funcionamento e quando o navio estava se retirando, foi alvejado indefeso por leva de A4 P outro problema é que de fato as bombas não estavam explodindo, então parece fazer sentido aplicar uma redundância de armas para garantir algum êxito Acertar… Read more »

Salim
Salim
Reply to  Carvalho2008
2 meses atrás

Concordo com VC, uma saraivada no casario alumínio poria fora de combate barcos ingleses, embora os argentinos náo tinham treinamento para ataque naval e os aviões marinha quase nada fizeram, com mérito aos exocet.

carvalho2008
Reply to  Guilherme Poggio
2 meses atrás

Legal mestre Poggio!!!

PACRF
PACRF
2 meses atrás

Extensa reportagem sobre a FAA. Conclusão: foi a última a saber dos planos para retornar as Malvinas e não estava preparada para uma batalha naval, estava se preparando para uma eventual guerra contra o Chile. A armada argentina, que liderou os planos, simplesmente sumiu depois do afundamento do Belgrano e da presença de submarino(s) nuclear(es) britânico(s). Curiosamente coube à FAA os melhores feitos durante a guerra, pois a infantaria de conscritos que a Argentina levou para as ilhas não foi páreo para a infantaria britânica, que possui uma enorme expertise em desembarques. Basta lembrar da Normandia.

Ivanmc
Ivanmc
2 meses atrás

O sofismo do Galtieri foi derrubado quando precisou de efetividade. A história ensina, mas tem quem não quer aprender.

Salim
Salim
2 meses atrás

Concordo plenamente com suas observações e reconhecimento a fôrça aérea argentina que foi a guerra de peito aberto.

Willber Rodrigues
Willber Rodrigues
2 meses atrás

Terminei de ler a série de reportagens sobre a FAA na Guerra das Falklands.
Agora entendí o motivo das Forças Aéreas terem esquadrões dedicados a uma determinada missão, e treinarem exaustivamente pra isso.
“Simplesmente” jogar bombas burras em navios é de uma complexidade enorme. Imagino fazer apoio aéreo aproximado ou destruir SAM’s ou radares inimigas, deve ser de uma complexidade absurda.

nonato
nonato
Reply to  Willber Rodrigues
2 meses atrás

Essa parte final depende.
Não é comum destruir sams ou radares com bombas burras.

Willber Rodrigues
Willber Rodrigues
Reply to  nonato
2 meses atrás

Mas eu não disse que se usaria bombas burras ora destruir SAM’s ou radares inimigos. Disse que essas duas missões devem ser de uma complexidade absurda

Vinicius Momesso
Vinicius Momesso
2 meses atrás

Se os oficiais argentinos usassem melhor suas cabeças, esquadra hermana poderia ter dado uma “dor de cabeça” semelhante a dada pelos Vietcongs ao US Army.

MadMax666
MadMax666
2 meses atrás

Essa serie sobre as bombas na Guerra das Malvinas e a melhor materia que eu ja li aqui. E olhe que sao muitas materias boas e eu ja acompanho ha 10 anos. Parabens Sr. Poggio!

nonato
nonato
2 meses atrás

Esses navios ingleses não eram defendidos por aviões?
Alguém tem alguma matéria ou vídeo com a disposição dos navios britânicos na época?
Lembro que os russos mandaram navios e submarinos para coletar inteligência.
Será que os americanos mandaram navios e submarinos para observar os russos?

Carvalho2008
Carvalho2008
Reply to  Guilherme Poggio
2 meses atrás

Correto. E vale lembrar que apesar de excelente no corpo a corpo, eram poucos harriers para dividirem tantas missões. Isto aliado a ser subsonico, demorava para chegar no local de interceptação e tinha perna curta com pouco tempo de voo se comparado a um autêntico CDF caça de defesa de frota

Antonio Palhares
Antonio Palhares
2 meses atrás

Roberto. Parabéns. Eu concordo contigo.

Bispo
Bispo
2 meses atrás

Exaltar FA que vai a guerra tipo índio atacando forte em terreno elevado , com arco e flecha(se a arma não funciona é a mesma coisa que nada)… ode a estupidez, falta de preparo,, obsolescência.
Burrice com “roupagem de patriotismo”, tem preço, a sua vida!!
Guerra das Malvinas foi uma tentativa diversionista do governo militar Argentino para encobrir os sérios problemas do país.
Pensaram que a Inglaterra iria “dar molde” e tomaram nos olhos.
Malvinas são inglesas e continuarão a ser…. #ochoroélivre

Bispo
Bispo
Reply to  Bispo
2 meses atrás

dar mole