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Malvinas 35 anos: por que as bombas não explodiram? (PARTE 4)

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por Guilherme Poggio

Há 35 anos argentinos e britânicos se enfrentaram na gélidas águas do Atlântico Sul para disputar a posse das ilhas Malvinas (Falklands, como se referem os britânicos). Foi durante esse conflito que a Força Aérea Argentina (FAA – Fuerza Aérea Argentina) entrou pela primeira vez em combate contra um inimigo externo. O batismo de fogo ocorreu no dia 1º de maio de 1982. O blog do Poder Aéreo está publicando em partes um artigo exclusivo sobre os vetores, os armamentos e as táticas empregadas pela FAA para atacar e destruir os navios da Força-Tarefa britânica. Para ler as partes anteriores clique nos links abaixo.

Parte 1- Introdução 
Parte 2 – Vetores e armamentos
Parte 3 – As Táticas

Parte 4 – Espoletas

Conforme demonstrado anteriormente, os tempos para que as bombas se armassem e explodissem eram determinantes para o sucesso do ataque. Esses tempos eram controlados pelas espoletas. No caso argentino a falta de padronização entre as espoletas das bombas de origem britânica e das demais bombas do inventário da FAA acabou por originar dois sistemas de armas distintos que mereceram soluções diferenciadas.

Bombas de 454 kg (1.000 libras) sobre o convés do porta-aviões britânico HMS Hermes. Essas eram basicamente as mesmas bombas que também foram empregadas pelos argentinos contra a Royal Navy. FOTO: UK DoD
Outra imagem das bombas de 1.000 libras britânicas a bordo do HMS Hermes. Observar que as mesmas estão sem cauda e com o protetor de rosca no lugar das espoletas de ogiva. Algumas dessas bombas lançadas pelos britânicos contra alvos terrestres também não chegaram a explodir. FOTO: UK DoD

O principal entrave aqui era a diferença no tipo de rosca. As espoletas britânicas possuíam rosca de três polegadas e as espanholas eram de duas polegadas. Além da diferença de tamanho havia diferença no padrão do fio das roscas, sendo completamente diferente entre elas.

Antes da abordagem das espoletas disponíveis para cada bomba é preciso fazer um parêntese. São basicamente três os pontos mais comuns onde uma espoleta pode ser instalada numa bomba de queda livre: na ogiva (na frente da bomba), na cauda ou na lateral da cauda. Uma bomba pode ter mais de uma espoleta dependendo da configuração, da função e do tipo. Outras, no entanto, em função do seu desenho ou da sua cauda não permitem mais do que uma única espoleta. Por segurança todas as bombas possuem pelo menos uma espoleta que controla o tempo para ela se armar. Eventualmente as bombas podem ser equipadas com espoletas de retardo de tempo de explosão, caso seja necessário. Como o próprio nome já diz, ela retarda a detonação da bomba, mesmo que ela já tenha impactado o alvo.

Naquela época a FAA possuía três tipos de espoletas para as bombas MK-17 de origem britânica. As espoletas de impacto, as espoletas de retardo de tempo de 25 a 30 segundos (tipo MK-78) e as espoletas de retardo de várias horas. As espoletas de impacto (que eram mecânicas) eram comumente empregadas com cauda frenada por paraquedas e necessitavam de uma força de cerca de 20 “g” para a detonação. Por este motivo não explodiam quando atingiam a superfície da água.

Equipe de apoio da FAA. Em primeiro plano aparecem as bombas MK17 de origem britânica (1000 libras) ainda sem as espoletas de ogiva. FOTO: FAA

Para as bombas da Expal de origem espanhola (tanto de 250 kg como de 125 kg) existiam quatro tipos de espoletas: MU 5 de ogiva e MU 8 de cauda, Gamma R lateral, Kappa III de ogiva e SSQ (Super Super Quick) de ogiva. A espoleta Kappa III era comumente empregada com a cauda frenada por paraquedas e assim como no caso da MK-17 ela não explodia em contato com a água.

Um bomba Expal com espoleta de ogiva SSQ (Super-Super-Quick) sob a fuselagem de um M-5 Dagger. Esse tipo de espoleta era mais indicado para ataque terrestre a grande altitude, pois a espoleta detonava a bomba cerca de um metro acima do solo. FOTO: FAA

Independentemente do tipo de espoleta que os argentinos possuíam ou da sua origem o tempo para que elas se armassem não satisfazia a condição definida pelos militares da FAA (cerca de 1,5 segundo – ver parte 3 deste artigo para maiores detalhes). Algo precisava ser feito antes que as missões de ataque começassem. Para as bombas MK-17 esta condição foi satisfeita modificando-se o mecanismo da espoleta de cauda (tipo MK-78) retirando-se uma das travas existentes. Desta maneira o tempo para se armar caiu para 0,5 segundo.

Feita a modificação, ensaiou-se o artefato de origem britânica na localidade de Puerto Madryn. Dois lançamentos foram feitos a partir de dois Skyhawk. O sistema funcionou e os procedimentos para o lançamento delas foram refeitos e distribuídos para as unidades de linha de frente, juntamente com as espoletas modificadas. A partir do dia 6 de maio os aviões na linha de frente já dispunham das MK-17 com espoleta de cauda com tempo de 0,5 segundo para se armar e 25 a 30 segundos de retardo de explosão.

Uma vez solucionada a questão do retardo das espoletas das bombas MK-17, a FAA passou a trabalhar nas espoletas das bombas espanholas a partir do dia 5 de maio. Estas possuíam de fábrica um tempo de 3 segundos para serem armadas. Sendo este um dispositivo que se acionava através de uma hélice movida pela força do vendo relativo, a solução foi dada calculando-se o número de voltas necessárias para que a mesma se armasse em apenas um segundo.

Em relação ao tempo de retardo para a ignição, a solução veio através do fabricante da bomba. O fabricante possuía versões da espoleta de cauda MU e Gamma R lateral com retardo de 12 segundos (um pouco mais que os 8 segundos desejados pelos militares argentinos, mas totalmente aceitável). Em função da urgência do tema e baseando-se nas informações fornecidas pelo fabricante, os argentinos desenvolveram, ensaiaram e produziram sua própria versão da espoleta de retardo de tempo empregando o parque industrial que dispunham no país. Esta solução foi data num curtíssimo prazo.

Exemplo de espoleta de retardo de instalação lateral em bomba presa sob a fuselagem de um Dagger. FOTO: FAA

O protótipo da espoleta MU com atraso de detonação de 12 segundos ficou pronto em 12 de maio. Após testes iniciais favoráveis, teve início o processo de fabricação das mesmas. O primeiro lote ficou pronto uma semana depois e foi distribuído para os esquadrões de ataque. Os esquadrões receberam este modelo de espoleta um dia antes dos desembarques anfíbios britânicos no Estreito de San Carlos.

Deve-se destacar que as bombas israelenses de 130 kg (ver parte 2 desse artigo) equipadas com espoletas modificadas para 12 segundos falharam em explodir (por inadequação da espoleta ou por mal estado da carga explosiva). De imediato conclui-se que estas bombas não foram empregadas na guerra.

Faltava ainda modificar a espoleta Kappa III, utilizada com cauda frenada. Como se tratava de uma espoleta de impacto, primeiramente tentou-se improvisar alterações para torná-las mais sensíveis ao contato. Essas mudanças não surtiram efeitos.

Espoleta Kappa III original empregada com bombas espanholas Expal com cauda frenada. Posteriormente estas espoletas foram modificadas na Argentina, recebendo um sistema de auto-detonação. FOTO: FAA

Nem tudo estava perdido. Técnicos espanhóis da empresa que fabricava a espoleta Kappa trabalhavam num sistema de auto-detonação da mesma. Bastava algumas pequenas modificações como a introdução de uma mecanismo de retardo eletrônico ativado por uma bateria de 9v. O mecanismo nunca tinha sido testado, mas mesmo assim os argentinos gostaram da ideia e resolveram desenvolver sua própria versão.

Assim que os primeiros protótipos ficaram prontos eles foram ensaiados no dia 14 de maio. Uma bomba BR-250 frenada por paraquedas e com a nova espoleta “Kappa Elétrica” foi lançada por um A-4B. Voando cerca de 50 m de altura, a bomba explodiu entre 15 e 20 m no ar sem afetar a aeronave. O que se observou após a detonação foi uma área coberta por estilhaços três vezes maior quando comparada à detonação de uma bomba semelhante quando explode em contato com o solo. Num segundo teste o A-4 lançou a bomba cerca de 10 m de altura. Ela quicou no solo, voltou ao ar e explodiu certa de cinco metros de altura.

A-4B matrícula C-232 armado com uma bomba britânica MK-17 no cabide central. Em primeiro plano aparecem três bombas espanholas BRP-250 com cauda frenada por paraquedas e armadas com espoleta de ogiva. O próprio arranjo do paraquedas não permite uma espoleta de cauda. FOTO: FAA

Com os bons resultados obtidos nos dois lançamentos o projeto da espoleta “Kappa Elétrica” (KE), também conhecida como KEMA (Kappa Elétrica Malvinas Argentinas), sofreu pequenos ajustes antes do início da produção. O tempo para se armar passou para 2,6 segundos e a auto-detonação ocorreria três segundos após o lançamento. As unidades de combate começaram a receber essas espoletas no dia 20 de maio (véspera do desembarque britânico).

Espoleta KEMA instalada numa bomba espanhola Expal com cauda frenada por paraquedas sob a fuselagem de um Dagger. FOTO: FAA

Também foram desenvolvidos retardos de 8 segundos para as bombas de fabricação argentina do tipo BK-BR de 125 kg, mas o mecanismo não funcionou (no teste realizado ela explodiu quase instantaneamente). A partir desta informação conclui-se que estas bombas não foram utilizadas para ataques a alvos navais por falta de segurança.

(CONTINUA…)

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