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Malvinas 35 anos: por que as bombas não explodiram? (PARTE 5)

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por Guilherme Poggio

Há 35 anos argentinos e britânicos se enfrentaram na gélidas águas do Atlântico Sul para disputar a posse das ilhas Malvinas (Falklands, como se referem os britânicos). Foi durante esse conflito que a Força Aérea Argentina (FAA – Fuerza Aérea Argentina) entrou pela primeira vez em combate contra um inimigo externo. O batismo de fogo ocorreu no dia 1º de maio de 1982. O blog do Poder Aéreo está publicando em partes um artigo exclusivo sobre os vetores, os armamentos e as táticas empregadas pela FAA para atacar e destruir os navios da Força-Tarefa britânica. Para ler as partes anteriores clique nos links abaixo.

Parte 1- Introdução 
Parte 2 – Vetores e armamentos
Parte 3 – As Táticas
Parte 4 – Espoletas

Parte 5 – O primeiro ataque

Quando surgiu a primeira oportunidade de atacar a esquadra britânica (dia 1º de maio), muitas das ideias sobre o perfil de ataque ainda estavam em desenvolvimento e as modificações nas espoletas não tinham sido feitas. Portanto, os argentinos foram para o combate com o que despunham.

Desta maneira os jatos A-4 Skyhawk e IAI M-5 Dagger da FAA partiram para o combate equipados com bombas de queda livre frenadas por paraquedas do tipo BR-250 e espoletas de contato (ogiva) do tipo Kappa III com três segundos para se armar. Esta era, segundo os comandantes da FAA, o armamento mais indicado para aquele momento disponível no inventário.

Os A-4 que partiram pela manhã retornaram sem encontrar os alvos. Na tarde do dia 1º de maio navios britânicos haviam sido identificados a sudeste do aeródromo de Puerto Argentino (Port Stanley). Estes navios estavam bombardeando as proximidades do aeroporto e outras posições argentinas no entorno da capital das ilhas. Uma formação com três Dagger (Esquadrilha Torno) partiu do aeródromo de San Julían armada com duas bombas BR-250 cada um, além de três tanques externos (configuração Índia – ver detalhes mais abaixo).

Os Dagger que atacaram os navios britânicos no dia 1º de maio de 1982 partiram de San Julían. As longas distâncias envolvidas e a ausência de capacidade de reabastecimento aéreo reduziam muito a carga de armas transportada por estes aviões. IMAGEM: Google Maps (modificada)

Aproximando-se por nordeste, os pilotos da “Esquadrilha Torno” identificaram três escoltas britânicas. Dois Dagger atacaram o navio maior que estava mais a oeste, identificado como um contratorpedeiro Tipo 42. O terceiro avião lançou suas bombas contra o navio mais próximo da costa, identificado como uma fragata Tipo 21.

Testemunhas argentinas em terra confirmaram o ataque e disseram que colunas de fumaça saíam do contratorpedeiro. Na versão britânica o contratorpedeiro atacado era o HMS Glamorgan (classe County) e não um contratorpedeiro Tipo 42. A fumaça proveniente das chaminés era resultado do aumento da potência dos motores para executar a manobra para bombordo e abrir o arco do sistema de armas. Ainda na versão britânica as bombas explodiram na água levantando a popa do navio e causando danos menores abaixo da linha d’água. Cabe destacar que os argentinos afirmam ser impossível a explosão em contato com a água desse tipo de bomba frenada por paraquedas com espoleta de contato.

Segundo a versão britânica, o ataque argentino contra navios da Royal Navy no dia 1º de maio teve como alvos o contratorpedeiro HMS Glamorgan (imagem acima) e as fragatas Arrow e Alacrity. As bombas lançadas contra o Glamorgan caíram bem próximo à popa do navio. Esta foto também mostra um helicóptero Wessex estacionado no convoo (à ré do lançador de mísseis Sea Slug). Estes helicópteros eram orgânicos dos contratorpedeiros classe County e muito provavelmente estavam realizando regulagem de tiro de artilharia no momento do ataque aéreo argentino. FOTO: DoD UK

A tese britânica da presença do HMS Glamorgan na área parece mais plausível. Do ponto de vista tático faz mais sentido empregar contratorpedeiros classe County no apoio de fogo contra alvos costeiros. Primeiramente porque esta classe era a que possuía o maior número de bocas de fogo de médio calibre na esquadra britânica (uma torre gêmea com canhões de 114 mm). Ela era também, ao lado das fragatas classe Leander, as escoltas mais antigas da força-tarefa e alvos menos valiosos.

Por outro lado os Tipo 42 eram modernos (para a época) e preciosos navios que possuíam ênfase na função antiaérea. Seus sistemas GWS-30 Sea Dart eram mais indicados para a defesa de área da esquadra em alto mar, além de possuírem desempenho degradado quando próximos de obstáculos terrestres.

Uma última pista de que o contratorpedeiro era do tipo County foi o fato dos pilotos argentinos terem passado por um helicóptero britânico antes de lançarem as bombas e identificá-lo como Sea King. Não era comum este tipo de aeronave operar a partir dos contratorpedeiros Tipo 42. Além do mais os argentinos podem ter confundido com um Westland Wessex, aeronave orgânica dos contratorpedeiros County.

Mudança de tática

O primeiro ataque argentino contra a esquadra britânica (na verdade o batismo de fogo da FAA) empregou bombas frenadas por paraquedas. Mas os argentinos estavam em busca de mais opções. Dentre as possibilidades surgiu a opção de empregar bombas sem frenagem (trajetória balística). Para que isto fosse possível eram necessárias espoletas com retardo de tempo de explosão. Como um dos tipos de espoleta das bombas MK-17 possuía retardo de explosão de 25 a 30 segundos, surgiu assim a possibilidade de adaptar as bombas dos bombardeiros Canberra (as bombas Mk-17) nos caças Dagger e Skyhawk. Isso nunca tinha sido feito antes e foi uma das soluções rapidamente improvisadas durante o conflito. Os pilotos de caça dos esquadrões de linha de frente da FAA partiram para o combate sem nenhuma experiência anterior com este tipo de artefato.

As bombas MK-17 não eram parte do sistema de armas dos A-4 e dos Dagger (na imagem acima aparece uma dessas bombas instalada no cabide central de um A-4). Em função da urgência da situação, elas foram rapidamente distribuídas e adaptadas para estes aviões. As tripulações desses caças adaptaram-se rapidamente em combate a esta mudança, pois não havia tempo para longos ensaios. FOTO: FAA

Assim que se obteve uma solução para o lançamento de bombas MK-17 não frenadas em ataques aeronavais, estas passaram a ser empregadas prioritariamente. Como esta não era parte integrante do sistema de armas dos jatos A-4 e Dagger, houve intenso trabalho logístico para que as bombas fossem retiradas dos estoques do esquadrão de Canberra e distribuídas para os aeródromos de linha de frente. De qualquer forma as bombas espanholas frenadas por paraquedas continuaram como uma alternativa viável.

Como mencionado anteriormente, após modificações de última hora e poucos testes em voo as bombas MK-17 foram liberadas para ataques navais. Tanto no A-4 como no Dagger uma única bomba era carregada no cabide central (sob a fuselagem) da aeronave. No caso dos Dagger foi empregado o cabide do tipo “Nafgan” para duas bombas em linha. Porém, devido às limitações de peso máximo de decolagem (os Dagger decolavam com peso máximo que excedia as recomendações dos manuais da aeronave), somente uma Mk-17 era transportada na estação anterior desde cabide. A configuração de ataque com as bombas Mk-17 foi autorizada a partir do dia 6 de maio, mas péssimas condições climáticas que reinaram entre os dias 6 e 11 daquele mês impediram novas saídas.

Durante a Guerra das Malvinas os IAI Dagger argentinos empregaram basicamente três configurações de ataque naval, sendo que a diferença principal entre elas estava na quantidade e no tipo de tanque de combustível externo. Desprovidos de capacidade de reabastecimento aéreo, os tanques externos eram vitais para que os Dagger chegassem à zona de combate. Independentemente da configuração, a carga de armas era bastante limitada, sendo composta por uma bomba MK-17 de 1.000 libras ou duas bombas Expal de 250 kg. Os Dagger decolavam com peso que superava o MTOW (peso máximo de decolagem) recomendado e em pistas não muito longas. Por este motivo empregava-se pós-combustor (afterburner) na decolagem e este consumia um volume considerável de combustível.

Uma oportunidade para testar em combate as bombas modificadas surgiu no dia 12 de maio. Neste dia navios da Royal Navy foram detectados a nordeste de Puerto Argentino (Port Stanley). Mesmo com condições meteorológicas longe do ideal a FAA planejou um ataque conjunto com oito A-4B e seis Dagger, cada um deles armado com somente uma bomba MK-17 não frenada.

Por problemas técnicos a decolagem dos Dagger foi abortada e sete dos oito A-4 realizaram a missão. Os Skyhawk se dividiram em duas esquadrilhas (Cuña e Oro) com diferença de dez minutos entre elas. A primeira esquadrilha de três aviões não obteve sucesso no ataque. Dos quatro Skyhawk da Esquadrilha Oro, três atacaram o contratorpedeiro HMS Glasgow (Tipo 42). Uma das bombas atingiu o navio a meia nau próxima da linha d’água, atravessou o casco de bordo a bordo e acabou por explodir no mar.

Foto tirada a partir do convoo da fragata HMS Brilliant no dia 12 de maio. Ao fundo é possível ver claramente um A-4 da Esquadrilha Oro em sua corrida final antes de lançar sua bomba MK-17 contra o contratorpedeiro HMS Glasgow. A aeronave está a menos de 20 m de altura do mar. No canto esquerdo da foto aparece parcialmente um helicóptero Lynx armado com mísseis Sea Skua pronto para decolar. Neste dia uma das bombas lançadas contra a Brilliant acabou passando sobre o convoo e não atingiu o navio. FOTO: DoD UK

A bomba do Skyhawk nº 4 quicou no mar e passou por cima da fragata HMS Brilliant (classe Tipo 22). Esta era uma situação esperada, caso a bomba não atingisse diretamente o navio. Lançadas a partir de uma altura extremamente baixa, com velocidades elevadas e de forma nivelada era de se supor que a bomba adotasse esse padrão e, eventualmente, passasse sobre o alvo.

(CONTINUA…)

9 COMMENTS

  1. Esses A-4 e Mirage chegaram a usar seus canhões nessas passagens de ataque?
    Não sei se o nível de concentração os impedisse de usar, ou fosse preciso reservá-los para uma eventual autodefesa ou, para aliviar o peso, estivessem até mesmo sem munição.

  2. Sim. Usaram bastante. Tanto é que as fotos que temos dos ataques, muitas vieram do “guncam” dos Dagger. Há relatos de que, com tanta adrenalina, muitos pilotos esqueciam de apertar o gatilho depois do lançamento da bomba.

    Os do Dagger eram uma maravilha. Faziam muito estrago. Já os do A-4 travavam com muita frequência. Os argentinos tinham plano de substituir os canhões americanos pelos DEFA, exatamente como os israelenses fizeram, mas faltou grana e os aviões foram aposentados.

  3. Rzrzrzrz…Vou aqui expressar minha indignação com o Mestre Poggio….verdadeira sacanagem….descortinou e desmitificou uma serie de lendas sobre as bombas e agora nos deixara debatedores sem espaço para polemicas e torcidas…..PÔ…!!!!

    Parabens, uma materia sem igual e de alto valor elucidativo!!

    Então, parece cada vez mais claro que o corpo tecnico foi na realidade altamente competente no restrito tempo que tiveram para criar soluções de ataque aos sistemas de defesa dos modernos britanicos….mais uma vez parece então que se o preparo realmente tivesse iniciado com uma antecedencia de 3 a 6 meses maior, a coisa poderia ter complicado muito mais aos britanicos….

  4. Prezado editor,
    Essa assinatura anual de R$120,00 dá direito ao comentário somente aqui no Poder Aéreo?
    Tentei comentar nos demais blogs da Trilogia Forças de Defesa e minhas credenciais não são aceitas, tenho que comprar a mesma assinatura para cada blog?

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