segunda-feira, dezembro 6, 2021

Gripen para o Brasil

Reportagem faz comparações entre disputa canadense de caças e o F-X2

Destaques

Fernando "Nunão" De Martini
Pesquisador de História da Ciência, Técnica e Tecnologia, membro do corpo editorial da revista Forças de Defesa e sites Poder Aéreo, Poder Naval e Forças Terrestres

CAF Hornet 781 taxianado na AFA - foto Poder Aereo - Poggio

Canadá não tem certeza sobre o que vai substituir seus Hornets

Na terça-feira, 5 de março, reportagem da UPI (United Press International) tratou do processo canadense de escolha de um substituto para a frota envelhecida de caças CF-18 Hornet do país. Trata-se de uma busca tortuosa mas necessária de um sucessor para 78 jatos em vários estágios de operação, sobre os quais não está claro quantos permanecem em condições de voo.

Segundo a matéria, a disputa canadense por um caça adequado a sua vasta e variada geografia, assim como a seus requisitos de segurança, é um pouco parecida com o programa brasileiro F-X2, que anda parado devido a questões relativas a desempenho, preço e quantidade de transferência de tecnologias para o comprador. No caso do Canadá, os problemas estão mais relacionados a preço, desempenho e política, afirmação que a reportagem credita ao jornal Toronto Sun.

O Brasil deseja comprar pelo menos 36 caças novos, e o Canadá quer adquirir pelo menos o dobro. Há mais competidores no programa canadense do que na “shortlist”  brasileira. No Canadá, disputam a Boeing e a Lockheed Martin, dos Estados Unidos, contra a Dassault francesa, a Saab sueca e o consórcio europeu Eurofighter. Diferentemente do Brasil, o Canadá não deseja construir uma nova geração de caças, mas segundo alguns analistas da indústria essa é uma opção na qual o país também está de olho.

O envio neste início de março de questionários aos competidores, a ser respondido no prazo máximo de seis semanas, sinalizou o início do que promete ser um longo processo de comparação, de desempenho e preço, dos novos caças para o Canadá. Até o ano passado, esse tipo de consulta sequer era cogitada, mas a controvérsia sobre o governo Harper de adqurir o F-35 sem uma concorrência deu munição à oposição e levou a uma reprimenda da auditoria geral.

CAF Hornet 781 em voo na AFA - foto Poder Aereo - Poggio

Ainda citando o Toronto Sun, a reportagem da UPI afirmou que “nenhum dos competidores está a salvo de críticas no mercado global de defesa. Tudo é uma questão de três ‘ps’: performance, preço e política.” As opiniões se dividem, com muitos críticos argumentando que os competidores estão datados e estarão defasados em relação aos avanços tecnológicos antes de serem construídos e incorporados à Força Aérea Canadense.

O Gripen da Saab é criticado por suas qualidades furtivas inadequadas, sistema de guerra eletrônica não desenvolvido e pouca capacidade de carga, e o Toronto Sun fala especificamente da disputa suíça, citando parte de relatório confidencial mostrado pela mídia local que colocaria o caça abaixo dos requisitos (nota do editor: relatório que já foi declarado como apenas parcial pelo Departamento de Defesa da Suíça). Quanto ao Rafale da Dassault, este é mostrado como um caça “faz-tudo” que não se destacaria em nenhum papel específico, o que tornaria difícil achar compradores – o Toronto Sun traz uma longa lista de derrotas comerciais e afirma que nada ainda foi assinado na Índia, único possível cliente externo.  Já o Eurofighter, que nasceu para se destacar em missões ar-ar, passa por escritínio quanto a problemas técnicos, notadamente quanto a suas capacidades ar-terra, para missões de apoio aéreo aproximado demandadas por compradores em potencial. Já o F-35 vem sendo constantemente criticado por seus custos crescentes e grande demora em cumprir o cronograma de testes.

E aqui acabam as críticas aos caças feita pelo Toronto Sun e replicada pela UPI, sem qualquer menção negativa ao Super Hornet – veja “Nota do Editor” ao final.

Ainda segundo o Toronto Sun, “falar é fácil, mas fazer compras de defesa nessa escala requer intestinos fortes por parte dos políticos, pois problemas sempre vão surgir”. A popularidade crescente do desempenho dos sistemas não tripulados, entre líderes militares, também municia críticos. Estes questionam se o Canadá não deveria comprar menos caças tripulados e investir mais em aeronaves remotamente tripuladas para patrulhar seu espaço aéreo e fronteiras.  Os canadenses estão cada vez mais sensíveis às atividades da Força Aérea Russa na região do Ártico, na qual o Canadá espera assegurar soberania em territórios que considera seus.

EDA 60 anos - CF-18 Hornet apresentação 1 domingo -  foto 4 Nunão - Poder Aéreo

FONTE: UPI e Toronto Sun (tradução e edição do Poder Aéreo a partir de originais em inglês)

NOTA DO EDITOR: quanto à comparação com o programa F-X2, tirando talvez algumas semelhanças quanto ao fato de serem dois países de grande extensão e diversidade de paisagem, a reportagem da UPI cita mais diferenças do que semelhanças, embora o texto, como um todo, dê a entender que há dois pontos de convergência: um é a capacidade de criar controvérsia política, e o outro a possibilidade de se tornar uma longa disputa.

A reportagem da UPI repete as críticas do Toronto Sun a quatro dos cinco concorrentes, estranhamente poupando o F/A-18 Super Hornet. Este sequer é mencionado. É sintomático que a matéria original do Toronto Sun, de onde as críticas aos outros quatro concorrentes foram copiadas (e estão mais extensas), não faz qualquer crítica ao Super Hornet. Pelo contrário, o versão Block II de exportação do caça da Boeing é tratada pelo Toronto Sun como “provavelmente a mais segura opção”, e o jornal cita a compra australiana, país que também aguarda suas encomendas de F-35. Assim, percebe-se mais uma semelhança da recém-iniciada disputa canadense com o nosso F-X2: a capacidade da mídia de massa fazer parte, com críticas mais pesadas a alguns dos concorrentes de um processo do que a outros, da alimentação da controvérsia política, usando argumentos pretensamente técnicos.

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Vader

Há bem poucas semelhanças entre as duas concorrências.

O Canadá quer o “estado-da-arte” para hoje E os próximos 30 anos.

O Brasil quer um caça moderno hoje. E que possa manter-se minimamente combativo em 30 anos.

O caça para o Canadá é o F-35. Na pior das hipóteses o SH.

Pro Brasil tanto faz. Embora o melhor e mais seguro também seja o SH.

Diegolatm

Alguem tem alguma dúvida que o SH vai ganhar essa concorrência no Canadá?

Hamadjr

” frota envelhecida de caças CF-18 Hornet do país ” quanta diferença de critério se comparado com a FAB, quem sabe esses frota envelhecida de caças CF-18 Hornet do país possa ser trocado por carne de porco e mas tarde modernizado há um preço de um Gripen.

Marcos

Interessante é que a mídia local, em recente análise, fez um comparativo entre o F-35 e o Avro Arrow – talvez pela capacidade do segundo em também levar armas internamente. Pasmem! Pela mídia local, o Arrow levaria vantagem.

Vader

Diegolatm disse:
6 de março de 2013 às 11:05

Eu tenho. Tenho certeza que vai dar F-35. A concorrência foi direcionada (no bom sentido) para isso.

Sds.

Mauricio R.

Tb não vejo o Canadá só tapando buraco como os australianos estão fazendo, p/ eles a ameaça está logo alí.
Para eles o F-35 e suas múltiplas capacidades, desde a furtividade até a fusão de dados, é uma questão de necessidade.
Não há tanto espaço de manobra assim.

Giordani

Vai haver muito debate…para dar F-35!

jairo boppre sobrinho

Caros
No Canadá não vai levar 12 anos
Abs

Guilherme Poggio

A primeira foto mostra um canhão e um avião.

Marcos

Atenção:

O F-35, como está – falo da inexistência de GPS -, não serve para o Canadá!

Vader

Marcos, fique tranquilo que o F-35 terá GPS.

Mas a propósito: antes do GPS as aeronaves já se orientavam. Inclusive no Ártico.

champs

Repetindo parte do meu comentário do dia 04/03:

“Isso só me permite deduzir que este RFI é apenas uma formalização para escolher o F-35, pra não dizer que foi uma compra direta. O máximo que sai disso aí é um Hi-low (F-35/ SH) para amenizar os altos custos do Lightning.”

Gilberto Rezende

A comparação não tem o menor fundamento, só o requisito de transferência de Tecnologia coloca as coisas em parâmetros opostos. O processo canadense recém começou e ao iniciar o FX-2 brasileiro tínhamos tantos modelos disputando, sem o F-35 e o Typhoon, mas com o F-16 e o SU-35… O F-35 no momento é uma tecnologia tão alta e exclusiva que nem os AMERICANOS a alcançaram ainda, que dirá transferir a alguém… O F-35 em suas 3 versões é tão caça de papel como o é o Gripen E/F com a “pequena” diferença que o Gripen tem apenas um protótipo e… Read more »

HMS TIRELESS

Giba:

Concordo contigo quando você aduz que a comparação é descabida em virtude do requisito da transfência de tecnologia colocar as coisas em parâmetros opostos afinal, enquanto o Canadá elabora seu processo de seleção em bases realistas aqui por esses lados ainda tem quem se aferre a esse quixotesco item. Coisas de república bananeira sem noção que pensa que já é “PuTênfia”…..

Quanto ao favoritismo do SH, você está correto afinal os canadenses operam há muito o CF-18 e a incorporação do SH iria representar a incorporação de um vetor moderno e capaz a custos aceitáveis.

Vader

Gilberto Rezende disse:
6 de março de 2013 às 15:17

Caro Giltiger, explique para a gente como é que um caça com 100 unidades produzidas pode ser “de papel”?

Grato.

HMS TIRELESS

MiLord Vader:

Procura entender o cidadão afinal ele precisa torcer para o F-35 dar muito errado na esperança de que a jaca preferida dele consiga descolar algumas vendas afinal é muito difícil justificar que um caça de 4.5G custe quase o mesmo que um aparelho de 5G….

Eric

Acredito que para o Canadá o Boeing F/A-18E/F Super Hornet sejá neste momento realmente a melhor opção, tem melhor preço de aquisição e provavelmente de operação, que o F-35 (Talvez o supere até mesmo em combate, o envelope de voo do SH e superior ao F-35 que tem seu grande trunfo na técnologia Stealth). A Pequena America (Vulgo Canadá) é quase um estado norte americano. Não sofrerá de embragos e colabora com os EUA em um sistema quase homogênio de defesa. Para o Brasil a situação é bem diferente, principalmente no quesito política esterna. Muita coisa mudou e há menos… Read more »

Gilberto Rezende

Simples, um caça de verdade é uma aeronave com o desenvolvimento finalizado pronta para uso operacional. Se você não terminou o desenvolvimento de sua aeronave e pega uma versão preliminar de desenvolvimento e a constrói fisicamente (ou pior o faz 100 vezes) enquanto não finalizar o projeto estas aeronaves SÃO PROTÓTIPOS não importa como você os chame. QUANDO E SE ao terminar o projeto, terminar os testes de desenvolvimento e comprovar que tem um produto PRONTO e ATENDENDO AS ESPECIFICAÇÕES do seu projeto e com uma configuração FECHADA do modelo para a produção inicial… Todas estas 100 unidades “produzidas” terão… Read more »

HMS TIRELESS

Giba: Você usa de frases empoladas e muito falatório para tentar intimidar e passar a impressão de que é alguém que entende do assunto mas tudo o que demonstra ser é alguém que faz afirmações equivocadas além de ________________ ou seja, o arquétipo perfeito do ___________ senão vejamos: Ao contrário da sua risível cantilena ________________ existem protótipos e exemplares de pré – produção. Estes últimos, como é o caso dos F-35 que atualmente estão saindo da linha de produção, são extremamente próximos quando não são idênticos aos exemplares de produção visto que um dos seus objetivos também é ajustar a… Read more »

Corsario137

To fuera desse também. Aqui o povo pega pesado. More over… Essa discussão que ganhou força nos integrantes do JSF mundo a fora só existe porque o programa F-35 passa por significativos atrasos (não vou aqui entrar no mérito do porquê). No caso canadense, a ameaça ainda me confunde. O que mudou do outro lado do ártico para justificar tanto alarde? Os F-18 de hoje não foram comprados para hipotéticamente enfrentar os Su-27/30/35? E tem algo de novo lá na Rússia? Se o 35 está atrasado, o PAK-FA ainda é uma incógnita. Esse circo todo está com cara de lobby… Read more »

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