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Cruzex 2013, o que esperar?

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CRUZEX V F-16 USAF 4 - foto sgt jbarros-FAB

Nesse ano a FAB realizará mais uma edição do exercício Cruzex. E para entender os objetivos e como poderá se dar a edição do corrente ano o Poder Aéreo esteve ontem a tarde nas dependências da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em uma exposição aos universitários dessa instituição sobre o exercício.

Ícaro Luiz Gomes

vinheta-exclusivoPara falar como poderá ser a Cruzex Flight 2013 primeiro devemos explicar o que seria este tipo de exercício e o seu histórico. A Cruzex é um exercício internacional que simula um conflito armado entre Estados fronteiriços, que devido ao direito internacional, se fez necessário a intervenção de uma força de paz para o cessar-fogo, o processo de “peace enforcement”. De uma lado estariam as Forças de Vermelho (inimigo, FAB) e de outro as Forças de Azul (coalização, FAB e as Forças Convidadas). A ideia da Cruzex surgiu após a participação do Brasil como observador, em 2000, do exercício Odax, realizado na França. Mas o contexto que culminou com a criação da Cruzex remota as areias do deserto do Golfo Pérsico, pelo idos de 1991.

F-16A Fighting Falcons and F-15C and F-15E Eagles fly over burning oil fields during Desert Storm. Operation Desert Storm began Jan. 17, 1991.

A crise internacional gerada pela invasão do Kuwait pelo Iraque levou o Conselho de Segurança da ONU(quem verdadeiramente manda em alguma coisa por lá) a autorizar uma Força Multinacional de Imposição da Paz. Em uma operação bem orquestrada entre as Forças Armadas do países da Coalização a invasão foi repelida e a ordem restabelecida. Destacou-se porém a forma com que o Poder Aéreo foi empregado, seguindo a Doutrina da OTAN; ataques de precisão coordenados destruíram o C² (Centro de Comando e Controle) Iraquiano. Pacotes aéreos saturaram as defesas aéreas e antiaéreas iraquianas, a superioridade aérea alcançada maximizou a superioridade das Forças Terrestres e do Poder Naval e o uso das novas tecnologias permitiram a criação de um novo conceito o NCW. Tudo isso a olhos vistos da população, a partir da mídia enviada ao TO (Teatro de Operações) que, em tempo quase real, viam onde, quando e como as ações ocorriam. Mas não acabou por aí.

O conflito étnico e político da região dos Balcãs, originário da desintegração do Bloco Socialista (sob o meu ponto de vista a URSS e seus aliados não alcançaram o patamar do Comunismo, ficando no estágio socialista) do Leste Europeu, foi/é outro marco que levou a criação do Exercício, mas com efeitos diferentes daqueles produzidos pela Desert Shield/Desert Storm. Na Desert Shield/Desert Storm os objetivos políticos e militares eram bem definidos e os apoios internacional e internos eram fortes. Já na campanha dos Bálcãs o cenário era bem diferente. A batuta ficou sob a responsabilidade da OTAN (91, da ONU), com sua Doutrina novamente, visto a divisão entre os atores internacionais sobre a intervenção ou não-intervenção no conflito (a Rússia via aquela região sob sua zona de influência e mostrava-se relutante na interferência da mesma; alguns líderes europeus viam-se incomodados por tamanha agressão aos direitos humanos ocorrerem no “mesmo quarteirão”, mas ao mesmo tempo não podiam arcar com o custo político-financeiro da operação) gerando objetivos políticos difusos e pouco consoantes com os objetivos militares (as regras de engajamento eram tão complexas que praticamente impediam o uso da força). Ainda que possuindo diversas restrições atmosféricas, de regras de engajamento e quanto ao terreno, o Poder Aéreo foi um das formas mais efetivas de impedir/retaliar as ações genocidas do conflito.

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Ambos os conflitos serviram para ilustrar e provar o novo cenário/nova ordem mundial que se desenvolveu após a Guerra Fria. Um mundo multipolar, regionalmente dividido (UE, Mercosul, NAFTA, Tigres Asiáticos, etc.), com uma superpotência hegemônica (EUA) e com a eclosão de diversos conflitos regionais de baixa e média intensidade (Sudão, Oriente Médio, Iraque, Bálcãs, entre outros). Nesse cenário surgiram algumas perguntas: “Estaria o Brasil (FAB) preparado para esse novo cenário mundial? Qual seria o resultado se o Brasil (FAB) se envolvesse num conflito desses? Haveria alguma forma do Brasil (FAB) se preparar para um evento desses?” Para responder a essas e outras questões surgiu a Cruzex.

Até a presente data foram realizadas 6 operações Cruzex, em 3 regiões brasileiras, com 13 países participantes e outros países como observadores. A primeira edição foi realizada em Canoas (2002), nessa edição ficou marcante o “gap” brasileiro diante de modernos equipamentos e táticas de combate (leia-se combate BVR e C²) e as dificuldades com a meteorologia e tráfego aéreo roubaram um pouco o brilho, mas nessa época a FAB era uma Força em franca modernização e os ensinamentos colhidos foram prontamente passados aos programas de aquisição e modernização de meios.

Na segunda edição, Natal (2004), a FAB já havia amadurecido no ambiente de planejamento e algumas táticas para se contrapor a equipamentos mais modernos já haviam sido estudadas e disseminadas entre os esquadrões, gerando resultados melhores. Nessa edição da Cruzex ainda dominava um perfil mais tático que o atual de C² e Flight.

Na terceira edição, em Anápolis (2006), a FAB era uma instituição completamente diferente (meios, treinamento e pessoal), nessa edição a Força Vermelha(FAB) infligiu consideráveis danos à Força de Azul (Coalizão) conseguindo alguns abates simulados importantes. Mas pelo caráter de C² que já se delineava, as Forças de Coalização “venceram” a simulação. Outra importante característica que ficou mais presente foi a importância que a FAB passou a dar a Comunicação Social, nas outras edições a FAB permitiu e até convidou alguns jornalistas especializados a cobrirem o evento, mas na edição de 2006 em diante, a postura mudou significativamente para melhor.

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A quarta edição, Natal (2008), foi marcada muito positivamente pelo sucesso no então recente exercício realizado nos EUA, o Red Flag 08-03. Naquele RedFlag, um dos mais exigentes/reais exercícios aéreos do mundo, o Brasil participou com o 1º/14º GAv e o 2º/2º GT e seus meios. A FAB desempenhou um papel “teoricamente” secundário, mas que dentro do contexto do exercício e numa Hipótese de Emprego conjunta com as Forças norte-americanas lhe seria o mais adequado. Os conhecimentos adquiridos na Red Flag foram postos em prática já em outubro na referida edição da Cruzex, esses conhecimentos se traduzem principalmente na forma de atuação de uma unidade Agressora (Força Vermelha) e no formato de C² que o exercício adquiriu. Nessa edição também  os dados sobre abates ou quem venceu a simulação não foram mais divulgados, já que o formato que o exercício tomou foi o de C². Segundo algumas más línguas as causas foram possíveis constrangimentos ocasionados pela divulgação de certos resultados.

Verdade ou não, a não divulgação de resultados não impediu que algumas informações chegassem aos jornalistas que cobriram o exercício. Essa edição foi também uma das mais elogiadas, senão a mais bem elogiada, pelos jornalistas especializados. A partir dessa edição uma realidade começou a bater forte a porta. Os altos custos de um exercício como a Cruzex. A delegação Argentina não mais compareceu com aeronaves devido aos custos com pessoal e combustível. Na FAB as restrições orçamentárias geradas pelo alto custo da previdência e assistência social das Força Armadas, seguidas de sucessivos contingenciamentos e envelhecimento conjuntural da frota começaram a cobrar seus preços.

A quinta edição, Natal (2010), foi foco de ampla cobertura pelo Poder Aéreo, apesar das dificuldades técnicas enfrentadas. Foi a primeira edição com a cobertura do Poder Aéreo e um dos ponta pés para a edição da Revista Forças de Defesa. Foi em 2010 que os EUA passaram a atuar com aeronaves. A França trouxe os seus Rafales e a maior participação de observadores militares de outras Forças Aéreas abrilhantaram o maior exercício do gênero na América Latina. Cabe ressaltar ainda que foi a primeira participação da Marinha do Brasil com aeronaves, no caso, UH-14 (Super Puma).

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Já a sexta edição, Natal (2012), foi inteiramente no formato de Comando e Controle (C²), ou seja, nada de aeronaves. Nessa edição o Poder Aéreo também esteve presente e por uma decisão técnico-editorial a cobertura foi mais discreta, mas conseguimos que a direção do exercício na pessoa do brigadeiro Egito, por intermédio do CECOMSAER, respondesse alguns questionamentos sobre a referida edição. A ausência de aeronaves não impediu a continuidade do treinamento. Ao contrário, a nova sistemática adotada permitiu que novos elementos fossem introduzidos, aumentando significativamente a complexidade do exercício. O componente aeroespacial esteve presente de forma especial com a inclusão simulada de uma constelação de satélites e de aeronaves remotamente pilotadas. Nessa edição ocorreu inclusive ataques simulados de armas químicas e nucleares. Contando com 13 países participantes, sem incluir no número os observadores, a Cruzex C² 2012 teve o maior número de países participantes.

Cruzex Flight 2013

Na tarde da última quarta-feira, dia 21/08, oficiais da FAB estiveram na Universidade Federal do Rio Grande do Norte para realizar uma exposição sobre o exercício Cruzex Flight 2013 e iniciar o processo de seleção de estagiários dos cursos de Comunicação Social – Jornalismo e Letras – Língua Inglesa que irão auxiliar os militares da FAB e das Forças Aéreas convidadas. O Poder Aéreo por meio do seu colaborador em Natal-RN, Ícaro Luiz Gomes, entrou de “penetra” na exposição para trazer algumas informações já confirmadas aos seus leitores. O Major-Aviador Rodrigo Canas e o Tenente-Jornalista Humberto Leite realizaram uma apresentação de slides que durou cerca de 20 minutos e a exibição de três vídeos institucionais sobre a Cruzex e a Ágata 7. Um dos ganhos secundários da realização da Cruzex é a inter-relação do meio acadêmico e militar por meio dos estagiários recrutados nas universidades que auxiliam os militares na execução dos exercícios.

A previsão é que o exercício ocorra entre os dias 4 de novembro e 15 de novembro. O evento “portões abertos”, quando o público em geral poderá ver um pouco dos aviões envolvidos no exercício, está previsto para o dia 09 de novembro. O exercício esse ano trará aproximadamente 100 aeronaves, das quais cerca de 85 delas estarão sediadas em Natal-RN. Os países com participação já confirmadas são: Brasil (sede), EUA, Argentina, Chile, Venezuela, Uruguai, Equador, Canadá e Colômbia. A França, um dos países fundadores do exercício não confirmou sua presença com aeronaves.

O Brasil trará ao exercício aeronaves dos seguintes modelos: F-5EM/FM, F-2000 Mirage, R/A-1 Falcão, A-29 Super Tucano, K/C-130H Hércules, E-99, SC-105 Amazonas/Pelicano, H-1H Iroquois/”Sapão”, H-60 BlackHawk, H-34 Super Puma e , estreando no evento, o AH-2 Sabre. EUA, Chile e Venezuela trarão seus respectivos F-16. Argentina trará seus A-4 Skyhawk. Equador trará os A-29 Super Tucano. Uruguai e Colômbia trarão seus  A-37 Dragonfly. O Uruguai trará ainda IA-58 Pucará. Outras aeronaves reabastecedoras, de transporte e apoio dos diversos participantes também estarão em Natal. O Canadá trará o CC-130H. O Chile e os EUA trarão ainda o KC-135. A Colômbia o seu KC-767 Jupiter. Outras aeronaves ainda não foram confirmadas, mas estão previstas.

Estão previstos também mais de um milhar de militares participantes do exercício de acordo com previsões baseadas em edições anteriores. As reuniões das delegações participantes estão ocorrendo com maior frequência, com uma das principais ocorrendo desde a segunda até a sexta. Outros países enviarão seus observadores militares, embora o número definitivo não esteja fechado.

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O impacto de uma operação militar apresenta uma importância mister tanto para o país como para a economia da cidade-sede. São pelo menos um milhar de indivíduos que necessitam de serviços de hotelaria, restaurante, transporte e de souvenir, deixando capital na cidade-sede e movimentando a economia numa época considerada de baixa-temporada. Os conhecimentos adquiridos ao longo dos anos permitiram a FAB entrar em contato direto com o estado-da-arte dos processos de tomada de decisão (padrão OTAN de C²) e táticas de combate, refletindo diretamente nos processos de aquisição e modernização de equipamentos, assim como no planejamento e execução de operações singulares, conjuntas, combinadas ou multinacionais, por exemplo: Ágata.

O tamanho e a qualidade na troca de experiências da Cruzex permite classifica-la com um dos mais importantes exercícios multinacionais, e o mais importante no contexto da América Latina. Essa importância atrai a cada nova edição mais países participantes/observadores que consigo trazem a mídia especializada, ou não, dos referidos países. A trocas culturais também são um bônus para os participantes, seja no contato com a culinária local, conversas sobre experiências de vida ou mesmo simples troca de informações sobre a localização de determinado setor proporcionam o desenvolvimento do pessoal envolvido.

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Marcos
Marcos
7 anos atrás

off topic

MRJ: atraso do primeiro voo em um ano e meio.

Fonte: Awin First

Não é tão fácil fazer um avião.

Hamadjr
Hamadjr
7 anos atrás

Este seria um momento para a Venezuela trazer seus Su, para conhecer a capacidade operacional da aeronave e dos pilotos.

Penguin
Penguin
7 anos atrás
Joner
Joner
7 anos atrás

Uma pergunta a quem já esteve por lá, se consegue lugar para boas fotos sem ser da imprensa? E se não puder ficar para todos os dias dos exercícios, é melhor ficar para a abertura ou encerramento das atividades?
A base aérea fica fechada ou aberta ao publico em geral?
Estou muito interessado em ver de perto, mas se o acesso for restrito, a visita fica meio sem sentido!

Nick
Nick
7 anos atrás

Será que os franceses não querem explicar mais uma derrota do Rafale para os velhos e ultrapassados F-5EM? 🙂

E sobre a nota do Penguin, tomara que nos tornemos parceiros no projeto TF-X dos turcos, que inclusive conta com assessoria da SAAB (FS2020).

[]’s

Fighting Falcon
Fighting Falcon
7 anos atrás

E a Venezuela…
Onde estão os SU-30Mk2?
Qual o motivo de não trazer essas aeronaves pela segunda vez?
Alguém explica ai detalhadamente, sem dizer que é aeronave para exposição ou desfile? O que acontece de fato?
A única informação que tenho é que uma delas foi comprometida por uma manobra fora do envelope previsto de voo e acarretou problemas estruturais. Só isso.

Vader
7 anos atrás

Hamadjr disse:
22 de agosto de 2013 às 23:04

e

Fighting Falcon disse:
23 de agosto de 2013 às 10:11

Prezados, a Venezuela não manda seus Su-30 porque eles não estão operando plenamente ainda. Os venezuelanos ainda não desenvolveram uma doutrina de operação de tais aeronaves. Trazer tais caças para cá seria pagar mico e passar vergonha: iriam ser “derrotados” pelos Mike e outros.

Simples assim. Doutrina de emprego não é uma coisa que se compra de prateleira, nem se transfere de um país para outro.

Saudações.

Fighting Falcon
Fighting Falcon
7 anos atrás

Vader,
Acrescentando isso ao nosso FX-2 com a primeira aeronave se chegasse em 2017 e a última em 2020, ate a formação da doutrina para sua operação, atingiriamos o POC próximo de 2025 ou dá para concluir antes?
De repente com a transferencia de tecnologia embutida, vai vir a doutrina kkkkkkk

Clésio Luiz
Clésio Luiz
7 anos atrás

A FAB chama o A-1 de Falcão? Eu pensava que era a Marinha que usava esse nome nos A-4 Skyhawk dela.

Joker
Joker
7 anos atrás

Clesio Luiz

Uma das nomenclaturas atribuidas ao A-1, alem de AMX, foi de Falcão. Se eu não me engano foi ideia de um Brigadeiro que canetava um dos aspectos do projeto. Não pegou porque sempre foi mais conhecido pela sigla vinda da Itália.

Joner

Olha tem bons lugares pra quem não esta cadastrado pela FAB no entorno da bant, mas os pacotes sobrevoam mesmo o interior do RN,PB,CE e PE.

Observador
Observador
7 anos atrás

Clésio Luiz disse: 23 de agosto de 2013 às 11:03 Joker disse: 23 de agosto de 2013 às 16:06 Interessante esta informação sobre a tentativa de chamarem o A-1 de “falcão”. Isto porque o falcão é um animal que não tem nada a ver com o A-1. O falcão é uma ave de rapina especializado no voo em velocidade (ao contrário do voo planado das águias e abutres e do voo acrobático dos gaviões). Lembremos que velocidade não é o forte do A-1, que é subsônico. O voo do falcão é facilitado pelas asas pontiagudas e finas (bem ao contrário… Read more »

Joner
Joner
7 anos atrás

Obrigado pela dica Joker, vou verificar as possibilidades de fazer algumas belas fotos, mas teria que ser a base com “portões abertos”.

nunes neto
nunes neto
7 anos atrás

O que esperar? Claro nossos supers F5M junto com os 99 vão derrubar tudo o que vier, Rafale, F16, SU30, F-18, F-22 etc….