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F-5EM: fundo plano, entre outros detalhes interessantes

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Nesta quinta matéria da série que trata de detalhes do F-5EM, o principal jato da Aviação de Caça da FAB, vamos mostrar outra característica interessante do projeto básico da família F-5, nem sempre notada em fotos da aeronave no solo por estar um pouco mais para baixo do que se costuma olhar. Trata-se da parte inferior da fuselagem, que segue um perfil praticamente plano, como pode ser visto na foto que abre esta matéria (foto tirada a partir da parte posterior da aeronave).

A família F-5 começou como o projeto de um caça leve monoposto e bimotor (N-156F). Para se adequar a um requerimento da Força Aéra dos EUA (USAF) para um treinador supersônico, a versão de treinamento da aeronave (N-156T) acabou tendo o seu projeto acelerado em relação ao caça, gerando o treinador T-38 “Talon”, em operação até hoje na USAF. Em comum a toda a família, que depois teve acrescentados os modelos F-5A e B, F-5 E e F  e F-20 (inicialmente chamado de F-5G), está a parte inferior da fuselagem plana. Qual o motivo? Fazer com que um caça supersônico pequeno e leve (comparado a seus contemporâneos nos EUA) e com motores pouco potentes tivesse uma manobrabilidade e desempenho destacados: não é à toa que um Talon, em 1962, estabeleceu um novo recorde mundial de ascenção, atingindo 12.000 metros em apenas 95,74 segundos.

Assim, procurou-se adotar na aeronave as mais novas descobertas em aerodinâmica, entre as quais a “regra da área” (tratada na matéria anterior desta série). Outra dessas soluções era o fundo plano, que ajuda a manter boa maneabilidade em altos ângulos de ataque mesmo com uma asa relativamente curta e de pouca área. Tanto que, quando se mudou o projeto de bimotor para monomotor, no F-5G / F-20, o que a princípio levaria a um fundo da fuselagem posterior mais arredondado, instalou-se uma carenagem sob o motor para manter o fundo plano. Nessa última versão da família, que não passou dos protótipos, o nariz também foi alterado para um formato de “bico de pato” para acentuar ainda mais essa característica aerodinâmica.

Aproveitando que já tivemos que nos abaixar para ver em detalhe o fundo do caça, vale a pena reparar em vários outros detalhes interessantes dessa parte de baixo, como podemos ver nas fotos seguintes. Mas, antes, repare na quantidade de parafusos visíveis no fundo do avião, da foto do alto. A quantidade de parafusos que prendem os painéis da fuselagem, e que sempre devem estar bem apertados antes do voo, é algo que toma um bocado de tempo dos mecânicos de F-5, pois eles tendem a desapertar com frequência, o que prejudica o arrasto aerodinâmico.

Você pode ver um pouco mais desses parafusos na foto acima, à esquerda, mas também outro detalhe interessante: os dois freios aerodinâmicos do F-5 na posição abaixada, instalados na parte inferior da fuselagem, logo à frente das portas do trem de pouso principal, que estão abertas. No meio, vê-se o tanque de combustível externo instalado sob o pilone central. Na foto superior direita, o acionador hidráulico de um dos freios aerodinâmicos pode ser visto em detalhe, assim como a estrutura do freio.

Ainda falando do conjunto de quatro fotos acima, na imagem inferior esquerda pode-se ver que, logo atrás do freio aerodinâmico, está o poço da roda do trem de pouso principal. Apesar das pernas estarem instaladas nas asas, dobrando-se para dentro, as rodas são recolhidas na fuselagem, que permite um pouco mais de profundidade para abrigá-las (recurso bastante comum em caças com asas baixas e trem de pouso pivotando nas asas). Pode-se dizer que, nesse aspecto, o F-5 não “reinventou a roda”. Ainda assim, trata-se de um poço relativamente raso e que não ocupa muito espaço na fuselagem, fazendo com que o volume interno nessa área seja ocupado em sua maior parte por combustível (apesar da fuselagem acinturada restringir um pouco esse volume, como vimos na matéria anterior da série). Na foto inferior direita do conjunto acima, vemos esse poço por um outro ângulo. A parede traseira desse poço, vista mais à direita, corresponde à posição da caverna usinada onde é presa a longarina principal da asa. Mais à direita na foto, vê-se os lançadores de chaff / flare.

Logo abaixo, pode-se ver em detalhes a perna do trem de pouso principal esquerdo do caça.

Na próxima foto abaixo,  podemos ver em outro ângulo a perna do trem de pouso principal esquerdo, no ponto em que pivota na asa. Logo atrás, fica a posição da longarina principal da asa. E falando nisso, a asa do F-5 segue um desenho trapezoidal muito semelhante à de seu contemporâneo F-104, sendo bastante fina e de pouca área (e que por isso mesmo não leva combustível), com superfícies de controle de dimensões relativamente grandes.  Mas, em comparação com a asa deste último (o Starfighter), é de construção mais simples e leve. Boa parte de seu pequeno volume interno, além das nervuras estruturais, é ocupada pelos atuadores do trem de pouso (parte desse mecanismo pode ser visto em detalhe na foto abaixo) e das superfícies de controle.

Ainda sobre a asa do F-5, vale a pena reparar na foto abaixo (tirada em um evento “Portões Abertos” do Parque de Material Aeronáutico de São Paulo – PAMA-SP), que mostra uma delas separada da fuselagem e sem suas superfícies de controle, hipersustentadoras e também sem as extensões da parte dianteira, assim como outros equipamentos. Percebe-se que a asa direita e a esquerda formam um só conjunto, que é preso por baixo à fuselagem. Bem ao centro, há um vão único formado pelos poços das rodas. Na parte frontal desse vão (à esquerda), podem ser vistas duas juntas para conexão do mecanismo do trem de pouso. Mais para trás, dos dois lados, vêem-se as duas longarinas principais.

O último conjunto de fotos desta matéria, logo abaixo, mostra a perna da bequilha, o poço onde é alojada, pivotando para a frente (compartimento que no lado esquerdo do caça – e direito da foto – tem como vizinho o cofre de munição do canhão e, no lado direito do caça, um conjunto de aviônicos que ocupou o lugar do canhão direito).

Reparar, especialmente das duas últimas fotos, que há uma pequena abertura na porta desse compartimento. Consultando fotos do F-5 antes da modernização, reparamos que essa abertura não existia anteriormente, concluindo que foi introduzida no processo de modernização dos caças. Pode-se supor que seja uma saída de ar utilizado na refrigeração dos componentes eletrônicos instalados no nariz da aeronave, para os quais há uma entrada de ar no lugar do canhão que foi retirado (a área do canhão do F-5EM será mostrada em outra matéria desta série).

Clique nas fotos para ampliar e nos links abaixo para ver outras matérias já publicadas desta série. Amanhã, vamos mostrar mais imagens com detalhes do F-5EM, especialmente da parte de baixo do caça.

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sergiocintraWiltgenFernando "Nunão" De MartiniJustin CaseClésio Luiz Recent comment authors
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Clésio Luiz
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Clésio Luiz

Quando a terceira roda é instalada na frente, ela é chamada de triquilha. bequilha é quando ela está atrás, como na maioria dos aviões da Segunda Guerra.

Outro detalhe sobre a asa, é que ela é na verdade uma peça única, de ponta a ponta da envergadura, e a fuselagem é instalada sobre ela. É um recurso comum de engenharia para simplificar e aliviar o peso da estrutura de uma aeronave.

Clésio Luiz
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Clésio Luiz

pesquisando um pouco eu vi que algumas publicações chamam de bequilha. Mas como o mestre Fernando de Almeida dizia que é triquilha, eu fico com que ele 😛

Justin Case
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Justin Case

Clésio, boa tarde.

Didaticamente “bequilha” é o termo utilizado para a roda de cauda, para aviões que têm trem de pouso “convencional” (o antigo, de nariz alto).
Aviões modernos usam trem de pouso chamado de “triciclo”, com a terceira roda à frente.
Na FAB, utiliza-se o termo “bequilha” também para o trem de pouso dianteiro.
O termo técnico para o trem de pouso dianteiro, atualmente, é “trem de pouso auxiliar”.
O termo “Triquilha” nunca vi ser utilizado.
Abraço,

Justin

Wiltgen
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Nunão e Poggio,

Daqui a pouco vocês vão lançar um manual para o pessoal da FAB! rsrsrsrsrs

Muito bons os post sobre os F-5!

Abs,

Clésio Luiz
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Clésio Luiz

Me parece que o termo triquilha é mais utilizado pelo pessoal da aviação civil. Não sabia que na FAB se usava bequilha.

Em Inglês, se usa o termo nosewheel, ou roda do nariz.

sergiocintra
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sergiocintra

Nunão Não lembro qual a parte das asas a Embraer participou da construção do f-5 II. Ajuda! – P.M. : Dentro da Embraer estatal, tinha um projetista, fera em calculos, que uma das qualidades do mesmo eram projetos de asas leves e finas, que na época dos projetos Brasília, Urupema (planador), Xingu, CBA teve o seu destaque. Esse craque, influenciou toda uma equipe culminando com os demais projetos, que fizeram com que a economia de combustivéis proporcionada, e consequente a baixa do custo operacional, um dos carros chefe das vendas dos produtos Embraer no mundo. A concorrência demandou quase 20… Read more »