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‘Caneta sem baioneta’: uma operação ‘Entebbe à Brasileira’

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Reprodução do post publicado no site Forças Terrestres em 30.09.2009, resultado da discussão dos nossos leitores sobre uma operação de resgate hipotética de brasileiros na embaixada em Honduras

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, descartou nesta segunda-feira (28) o envio de homens das Forças Armadas à capital de Honduras, Tegucigalpa, para proteger a Embaixada do Brasil naquele país. Segundo Jobim, a solução do impasse é exclusivamente diplomática (informações da Agência Brasil)

Mas e se a situação fosse diferente? E se houvesse risco real para as vidas dos brasileiros na embaixada? Seria possível realizar uma operação de resgate com forças brasileiras?

Para encontrar respostas, leitores do Poder Naval e do ForTe juntaram-se no “chat” na madrugada de segunda para terça. Objetivo: num jogo de guerra, fazer o planejamento de uma missão de resgate, com os meios atuais das Forças Armadas Brasileiras.

O planejamento da missão

Estudamos os mapas via Google Earth, para descobrir como é a capital Tegucigalpa e sua distância do mar, tanto para o Pacífico, como para o Atlântico. A distância de Boa Vista no Brasil até Tegucigalpa é de mais de 3.100km em linha reta. Se pudéssemos sobrevoar o espaço aéreo de outros países sem problemas, poderíamos ir direto, mas não é o caso.

Verificamos que há um aeroporto na capital e que a embaixada não fica muito distante dele, sendo possível chegar à embaixada por duas rodovias. Depois de analisarmos as forças inimigas (a Força Aérea de Honduras tem 11 caças F-5E, 5 jatos A-37, 9 Tucanos e 5 C-101); analisamos o terreno, construções e forças terrestres locais.

Dimensionamento das forças brasileiras

Chegamos à conclusão de que duas companhias de Comandos paraquedistas e uma equipe de Forças Especiais (FE), num total de 300 homens, seriam suficientes para o cumprimento da missão.

1 – Como chegar até Honduras

O ideal seria se o Brasil dispusesse de um navio-aeródromo operacional e que já tivesse sido despachado uma semana antes, para o Caribe. Isso tornaria a vida dos planejadores militares muito mais fácil. Mas como o NAe São Paulo e sua aviação encontra-se indisponível, tivemos que optar por meios aéreos somente.

 

Para transportar o total de homens das forças brasileiras, calculou-se um mínimo de 6 aeronaves C-130 Hercules, com mais uma de backup. Um C-130 serviria para trazer os reféns brasileiros, já que a aeronave pode transportar até 92 passageiros.

Pensou-se inicialmente em voar direto para Honduras fazendo REVO, mas os C-130 da FAB não possuem probe para reabastecimento em voo. Então decidiu-se voar de Belém para o aeródromo Les Cayes no Haiti (imagem acima), para servir de ponte para Tegucigalpa. De Les Cayes no Haiti para Tegucigalpa (imagem abaixo) são cerca de 1.500km, portanto metade da autonomia do C-130 Hercules.

A operação deveria ser feita toda no período noturno, para evitar alertar ao máximo a população local. O voo sobre Honduras também deveria ser feito de madrugada, a baixa altitude, para não alertar os radares locais.

2 – Como chegar e sair da embaixada

As Forças Especiais fariam um salto noturno HALO (High Altitude-Low Opening) sobre a embaixada, por volta das 2h da madrugada. Enquanto isso, os C-130 Hercules da FAB pousariam no aeroporto de Tegucigalpa, liberando o restante da tropa para a tomada do aeroporto. Toda a operação deveria estar completa antes do sol raiar.

Uma pequena parte das forças, após o desembarque no aeroporto, seguiria em comboio para a Embaixada, em veículos Marruá (os Land Rover do EB também seriam uma opção), para servirem de transporte para os reféns na volta até o Aeroporto.

As forças especiais, após o salto sobre a embaixada, já deveriam ter que organizado a saída dos reféns e neutralizado a oposição terrestre em torno, antes da chegada do comboio brasileiro. Os reféns seriam colocados nos veículos, que seguiriam para o aeroporto. Chegamos a discutir a possibilidade de “emprestar” um ônibus local, diminuindo a necessidade de transporte de viaturas leves Marruá (ou Land Rover), mas o risco envolvido (riscos inerentes de confiabilidade de um veículo desconhecido, sua disponibilidade, dificuldades em seu deslocamento, concentração de pessoas) desaconselharam a opção.

3 – Como deixar Honduras

Presume-se que haveria resistência das forças terrestres hondurenhas, mas que contingentes maiores não seriam alertados a tempo para deter a força de resgate brasileira.

O comboio com os reféns chegaria ao aeroporto, onde os C-130 já aguardariam com os motores ligados. Os reféns entrariam a bordo e o primeiro C-130 decolaria, seguidos dos demais, enquanto a última equipe resistiria ao fogo inimigo, até que o último avião partisse com o restante da tropa e com os possíveis feridos. As viaturas leves utilizadas no resgate teriam que ser abandonadas no aeroporto.

4 – Apoio aéreo

Nosso maior receio seria a capacidade dos F-5E/F hondurenhos de interceptar os aviões de transporte brasileiros.

Pensou-se então em deslocar 6 caças F-5EM para Belém e fazê-los voar até Honduras, usando REVO na ida e na volta, sobrevoando espaço aéreo internacional, sobre o Caribe. Os F-5EM da FAB fariam CAP próximo ao espaço aéreo hondurenho, contando com o alerta aéreo antecipado de um E-99, que também pousaria no Haiti para reabastecimento.

O E-99 também coordenaria toda a operação com seu sistema de radar e de comunicação.

Cogitou-se também na possibilidade de usar os A-1 da FAB para bombardear as pistas dos principais aeródromos militares de honduras, evitando que suas aeronaves de combate pudessem decolar.

4 – Percebendo as limitações

Mesmo numa operação simulada, foi possível observar as limitações materiais que os planejadores militares brasileiros teriam de enfrentar numa situação parecida com essa.

Se brasileiros precisarem ser resgatados num país distante como Honduras, a falta de aviões-tanque e de um navio-aeródromo inviabilizam qualquer operação deste tipo.

5 – O que poderia dar errado? O que poderia ser alterado para melhorar o cumprimento da missão? Agora é com vocês…

Muitos fatores poderiam influenciar o sucesso ou fracasso de uma missão como essa, descrita acima. Assim, a resposta a estas últimas questões fica a cargo de vocês, leitores do Blog. Um bom debate para todos!

NOTA DOS EDITORES: A operação proposta no post acima tem como objetivo testar possibilidades táticas das Forças Armadas brasileiras, especialmente no resgate de reféns no exterior

BATE-PAPO ONLINE: converse com outros leitores sobre este assunto no Xat do Poder Aéreo ou no Xat do Poder Naval, ou no grupo Forças de Defesa no Facebook.

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Um porém desse cenário seria o uso do Haiti. Tudo bem que o Brasil está lá, mas não sei se obteriamos uma permissão oficial para usar as pistas do país em uma operação contra um dos seus vizinhos. Teríamos que fazer isso na surdina, o que certamente poderia dificultar as coisas. Mas esse é realmente um cenário onde o NAe São Paulo faz falta, já que com ele basicamente poderíamos fazer tudo a partir do mar e de forma até mais rápida utilizando os A-4 para a escolta área e helicópteros para o desembarque de tropas e resgate de reféns.… Read more »

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Antes que eu me esqueça, gostei muito da ideia do texto. Poderia se tornar algo mais constante por aqui. Até sugiro que o próximo seja sobre algum cenário envolvendo a Venezuela.