quinta-feira, junho 17, 2021

Gripen para o Brasil

Depois dos caças de defesa aérea, é a vez dos caças de defesa de empregos

Destaques

Fernando "Nunão" De Martini
Pesquisador de História da Ciência, Técnica e Tecnologia, membro do corpo editorial da revista Forças de Defesa e sites Poder Aéreo, Poder Naval e Forças Terrestres

Reportagens dos últimos dias nos Estados Unidos e no Reino Unido enfatizam o papel de dois caças para a manutenção de empregos em meio à crise econômica norte-americana e europeia: o F-35 e o Typhoon – seja visando evitar cortes de encomendas locais ou mostrando a importância das vendas externas “de prateleira”. Confira agora esses dois textos, selecionados pelo Poder Aéreo, que colocam o foco nesse assunto que pode ser bastante interessante para países que querem adquirir caças.

Há 130.000 motivos para salvar o F-35 dos cortes no orçamento: os empregos espalhados pelos Estados Unidos

Com os Estados Unidos afundados em dívidas e as guerras no Iraque e Afeganistão diminuindo de intensidade, os militares sabem que é hora de encarar dolorosos cortes nos gastos. Mas onde?

Se você tocar nos benefícios militares, vai enfrentar a ira do Congresso e das redes de grupos de veteranos, ainda que os custos com saúde tenham explodido de 19 bilhões de dólares em 2001 para 53 bilhões. Se quiser ajustar o número de tropas, rapidamente vai receber avisos de que as forças ficarão “ocas” e que, para preencher os buracos, poderá ser revivido o recrutamento da era do Vietnã.

Entre os sistemas de armas, o alvo potencial é o problemático F-35, o avião de combate supersônico de nova geração para a Força Aérea, os Fuzileiros e a Marinha. Trata-se do maior programa de aquisição de armamento do Pentágono, a um custo de 238 bilhões de dólares. O caça não está fazendo jus ao seu nome, Lightning II (Relâmpago II), por estar bastante atrasado no seu cronograma. Uma versão chegou a sofrer rachaduras em uma das nervuras da raiz das asas após apenas 1.500 horas de voo, de um total planejado de 16.000 horas.(*)

E, além disso, os custos estão estourando o orçamento. Há estimativas de que o custo total excederá 1 trilhão de dólares em 50 anos. Na quarta-feira (12 de outubro), John McCain, senador pelo Arizona e expoente Republicano no Comitê das Forças Armadas no Senado dos EUA, disse que “não há dúvidas de que há estouros de orçamento escandalosos associados a ele (o F-35). É o primeiro sistema de armas trilionário da história”.

Mas, para quem quer abatê-lo, o F-35 conta com a defesa de um grande eleitorado: aproximadamente 130.000 empregos em 47 estados e em Porto Rico, além de um contingente de defensores no Congresso, tanto Democratas quanto Republicanos. A fabricante Lockheed Martin conta com 1.300 fornecedores no mercado doméstico, e os empregos estão espalhados desde Palmdale, na Califórnia, que é o distrito do Chefe do Comitê das Forças Armadas na Câmara, Howard “Buck” McKeon, até a fabricante de motores Pratt and Whitney, em Connecticut.

De fato, os únicos estados que não estão envolvidos em trabalhos para o F-35 são Havaí, Dakota do Norte e Wyoming, além do distrito de Colúmbia. A empresa diz que os impactos econômicos positivos, neste ano, serão de 12,6 bilhões de dólares, baseados na montagem de um ou dois aviões por mês.

Continuam as conversações sobre uma possível venda do Typhoon para Omã, de olho na manutenção de 11.500 empregos diretos em Lancashire, no Reino Unido

A BAE Systems, gigante do setor de defesa, ainda está mantendo conversações para conseguir acordos de exportações lucrativos para seus caças montados em Lancashire. O alvo é o Oriente Médio.

A empresa, que no mês passado divulgou planos para cortar 1.400 empregos em suas instalações em  Warton e Samlesbury, perto de Preston, confirmou nesta quarta-feira (12 de outubro) que estava “em discussões” sobre a venda do jato Eurofighter Typhoon para Omã. Acredita-se que esse reino do Oriente Médio está interessado em comprar até 24 aeronaves, que conta com diversas partes fabricadas nas linhas de Lancashire.

A BAE também está competindo para um acordo de 7 bilhões de libras para a produção de 126 caças Typhoon para a Força Aérea Indiana. Seu concorrente nessa dura disputa é o Rafale, produzido na França.

A empresa divulgou que “o grupo está perseguindo diversas oportunidades significativas de novos negócios. O grupo continua em discussões relativas à possível venda da aeronave Typhoon para o Sultanato de Omã. O Typhoon também é um de dois modelos de aviões de combate selecionados para novas avaliações para atender ao requerimento do avião de combate multitarefa de porte médio para a Força Aérea Indiana.”

Encomendas de exportação tem sido encaradas como cruciais para garantir o emprego para alguns dos 11.500 trabalhadores da BAE em Lancashire, com a produção de partes da aeronave no Reino Unido. Espera-se que, no caso de Omã fazer uma encomenda, todo o trabalho de construção dos 24 jatos seria feito no Reino Unido.

Num debate parlamentar na última terça-feira, Preston North e o Wyre MP Ben Wallace pediram ao ministro de equipamento de defesa Peter Luff que assegure à BAE a manutenção do máximo possível de trabalho em suas instalações no país para as encomendas de exportação.

O sr. Luff acrescentou: “Penso que é garantido que serão boas notícias para Lancashire. Obviamente, a composição precisa das propostas é um problema da empresa, mas eu acho que ela entende a importância de proteger suas capacidades de projeto aqui, em minha querida terra.”

Na quarta-feira, o grupo disse esperar que seus ganhos em 2011 fossem “bastante similares” aos do ano passado. Mas disse que os níveis de entrada de recursos na empresa permaneciam dependentes da finalização de entendimentos com a Força Aéra Real Saudita, referentes à venda de 24 caças Typhoon. A BAE acrescentou que “o grupo permanece em negociações relativas às mudanças no programa e à formalização da escalada de preço. Os planos são para conclusão por volta do final do ano.”

Sobre os cortes de empregos planejados, a BAE reiterou sua pretensão de “implementação em breve” dos cortes, que resultarão no final dos trabalhos de manufatura na fábrica de Brough, em East Yorkshire: “O ambiente de negócios permanece desafiador, mas a implementação em breve dessa e de outros incrementos de eficiência sustentam a posição competitiva do grupo.”

FONTES: Associated Press, via Wichita Eagle  e Lancashire Evening Post (tradução, adaptação e edição: Poder Aéreo)

FOTOS: jsf.mil e Eurofighter

NOTA DO EDITOR: os caças F-35 e Typhoon não estão nos planos brasileiros, mas pode-se pensar em algumas dessas preocupações (com diferenças caso a caso) envolvendo os fabricantes dos três concorrentes finais ao programa F-X2, da FAB.  Nesse contexto, cabe uma questão: não  seria um bom momento para o Brasil negociar vantagens ainda maiores na aquisição de caças novos, sinalizando, por um lado, com o argumento de que pode ajudar na manutenção de empregos nos países de origem para exigir, por outro lado, a transferência de conhecimentos de projeto e de desenvolvimento que realmente sejam fundamentais para a indústria aeroespacial e para a operação da aeronave, ao invés de apenas linhas de montagens finais ou de alguns componentes?

Só que, para isso, precisa deixar de lado aquele discurso manjado de que não há dinheiro para comprar caças.

(*) O texto acima menciona o aparecimento das rachaduras com 1.500 horas de testes, mas no link indicado fala-se na identificação do problema após 2.800 horas.

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Vader

É aquela velha história: para o país que o produz, um caça NUNCA é um mal negócio: sua pesquisa, desenvolvimento e construção geram milhares de empregos diretos e outros milhares indiretos, distribui riqueza construtiva (não “bolsa” isso ou aquilo – coisa que só gera lassidão), gera tecnologia de uso dual, gira a economia (faz o dinheiro “trocar de mãos”) e de quebra ainda garante às Forças Armadas material customizado exatamente às suas necessidades. E ainda há um plus: caso exportado gera LUCRO limpo. A produção de um caça nacional é, sim, um gasto público, quando olhado de forma imediatista. Mas… Read more »

Guilherme Poggio

Texto muito interessante e nos leva a refletir um pouco sobre o atual momento do F-X2

Marcelo

“os únicos estados que não estão envolvidos em trabalhos para o F-35 são Havaí, Dakota do Norte e Wyoming, além do distrito de Colúmbia”

é mas, com certeza, muitos milhões ficam no Distrito de Columbia, afinal, Distrito de Columbia = DF, e político é político em qualquer lugar.

DrCockroach

Governo financia despesas com: a) Impostos: o que, em geral, tira de quem produz e transfere p/ que eh ineficiente: voces acham que o governo gasta melhor o dinheiro com impostos que vcs gastariam se tivessem que analisar e sofrer as decisoes de custo-beneficio?; b) tomando emprestado: o que eleva a taxa de juros no mercado p/ todos os demais (diminui investimento privado) e coloca a divida nas costas da geracao futura, pois um dia os emprestimos deverao ser pagos; c) emitindo dinheiro: o que gera inflacao, desorganiza a alocacao eficiente de recursos e atinge os mais pobres: inflacao eh… Read more »

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