Simulação encurtou de anos para uma semana o aprendizado de combate BVR de pilotos de F-16 e Gripen

10
Futuros pilotos de Gripen da FAB treinam combate BVR na Suécia - 3

Estudo da OTAN mostra como ambientes virtuais distribuídos ajudaram Estados Unidos e Suécia a desenvolver táticas, treinar pilotos menos experientes e preparar forças para operações multinacionais

Um estudo elaborado por pesquisadores da Força Aérea dos Estados Unidos e da Agência Sueca de Pesquisa de Defesa mostrou como simuladores de alta fidelidade deixaram de ser apenas substitutos econômicos das horas de voo para se transformar em laboratórios de desenvolvimento tático.

Publicado em 2006 nos anais da Organização de Pesquisa e Tecnologia da OTAN, o trabalho analisou experiências conduzidas com pilotos de F-16 da USAF e do JAS 39 Gripen. Os resultados indicaram que cenários virtuais repetíveis permitiam testar novas doutrinas, identificar falhas e acelerar o domínio do combate além do alcance visual, conhecido pela sigla BVR.

Um campo de batalha que pode ser reiniciado

O conceito empregado pelos norte-americanos era denominado Distributed Mission Operations, ou DMO. Na terminologia então utilizada pela OTAN, o equivalente era Mission Training via Distributed Simulation. O sistema conectava simuladores operados por pilotos e controladores a forças construtivas geradas por computador, como caças inimigos, aviões-tanque, plataformas de alerta antecipado e outras aeronaves de apoio.

Em um exercício BVR, as formações podiam ser posicionadas pouco além do alcance dos radares, combater até uma conclusão lógica e, em seguida, retornar exatamente às condições iniciais. Isso permitia repetir o mesmo problema com mudanças controladas nas armas, formações, manobras e decisões do adversário.

Todas as comunicações e ações eram registradas. No debriefing, os instrutores podiam reconstruir disparos, trajetórias de mísseis, coberturas dos sensores e entradas no alcance das armas inimigas. Em vez de depender apenas da memória dos participantes, a equipe examinava quando cada decisão fora tomada e quais consequências produziu.

O AIM-120 exigiu uma nova doutrina

Nos Estados Unidos, o ambiente virtual foi empregado pela Weapons School da USAF para aperfeiçoar as táticas do F-16 equipado com o míssil AIM-120 AMRAAM. Até meados dos anos 1990, a comunidade do F-16 estava mais habituada ao emprego de mísseis infravermelhos de curto alcance, enquanto o F-15C já explorava as possibilidades do AMRAAM no combate BVR.

Com orientação inercial e radar ativo na fase final, o AIM-120 permitia atacar alvos além do alcance visual e reduzir a dependência do radar do caça depois do lançamento. A capacidade alterava a distribuição de tarefas dentro da formação: o líder podia preservar uma visão mais ampla da situação e designar os alvos, enquanto os alas realizavam os disparos.

Essa doutrina já era praticada pela comunidade do F-15, mas encontrou resistência entre pilotos de F-16 acostumados ao modelo em que o líder era o principal atirador. A Weapons School combinou avaliações em voo com experimentos no centro de pesquisa da USAF em Mesa, no Arizona.

Segundo o estudo, situações táticas que exigiriam meses de atividades em campos de treinamento puderam ser examinadas durante uma semana. Os pilotos enfrentaram diferentes aeronaves, armas e formações inimigas, inclusive alternativas criadas especificamente para tentar invalidar a doutrina proposta.

Pilotos jovens colocados à prova

A principal dúvida estava na capacidade dos alas menos experientes. Um recém-formado chegava à unidade com cerca de 80 horas no F-16, divididas entre operações básicas e missões ar-ar e ar-solo. Os alas dos esquadrões normalmente acumulavam entre 100 e 300 horas, das quais apenas uma parcela correspondia ao combate BVR.

No experimento, pilotos recém-saídos do curso básico receberam uma semana de instrução com integrantes da Weapons School. O treinamento avançou de tarefas simples para cenários complexos, envolvendo emprego do radar, comunicações, regras de engajamento, designação de alvos e coordenação com um controlador de batalha a bordo de um AWACS virtual.

Em uma hora de simulador, as equipes conseguiam executar entre seis e oito cenários de contraofensiva aérea ou de três a quatro missões defensivas. Cada sessão era seguida pela reprodução e análise das decisões. Ao final da semana, os pilotos menos experientes conseguiam desempenhar as funções previstas pela nova doutrina, inclusive nos cenários avançados.

Os autores estimaram que o ganho de proficiência obtido naquele ciclo concentrado normalmente exigiria dois ou três anos. Isso não significava formar completamente um piloto de combate em poucos dias, mas demonstrava que competências específicas podiam ser adquiridas muito mais rapidamente quando os problemas eram repetidos, medidos e corrigidos de maneira sistemática.

Da contagem de missões à medição da competência

O estudo também criticava uma limitação dos programas baseados principalmente na quantidade de missões realizadas. Completar determinado número de surtidas permitia manter a qualificação operacional, mas não demonstrava necessariamente que o piloto havia sobrevivido, tomado decisões corretas ou atingido um padrão uniforme de desempenho.

A proposta era combinar voos reais e simulados com avaliações por competência. Em lugar de registrar apenas que o piloto cumprira uma missão defensiva, o sistema passaria a medir conhecimentos, emprego dos sensores, comunicações, consciência situacional e capacidade de execução diante de ameaças de diferentes complexidades.

Esse modelo não eliminava o julgamento dos instrutores. As ferramentas mostravam com precisão o que acontecera; aos especialistas continuava cabendo determinar por que a equipe agira daquela maneira e qual treinamento seria necessário para corrigir a deficiência.

O Gripen e a transformação sueca

Na Suécia, o Centro de Simulação de Combate Aéreo da Força Aérea, conhecido como FLSC, apoiou a transição de uma frota composta pelos Draken e pelas diferentes versões do Viggen para o caça multifunção JAS 39 Gripen. Também ajudou a adaptar uma força orientada à defesa territorial para missões multinacionais conduzidas segundo procedimentos da OTAN.

O FLSC empregava oito estações de pilotagem conectadas e quatro posições de controle de caça. As cabines não reproduziam rigidamente um único modelo de aeronave: sensores, armas e desempenho podiam ser alterados para representar caças aliados, adversários e até sistemas que ainda não existiam fisicamente.

Cada piloto sueco passava de três a cinco semanas no centro para desenvolver competências BVR. O programa permitia realizar entre 40 e 80 missões virtuais por semana, enquanto uma unidade aérea cumpria normalmente de cinco a dez missões no mesmo período. As habilidades treinadas no simulador eram posteriormente verificadas em voo real.

O ciclo abrangia planejamento, briefing, desempenho das armas, gerenciamento de energia, critérios de lançamento, coordenação com alas e controladores, uso do enlace de dados e debriefing. Ao final, pilotos procedentes de unidades e experiências distintas conseguiam operar segundo uma concepção tática comum.

Ensaio virtual antes do Alasca

Gripen no Alasca, em 2006

A simulação também preparou a Força Aérea Sueca para operar em inglês e integrar formações com AWACS, guerra eletrônica, supressão de defesas aéreas, escoltas, aviões-tanque e forças de busca e salvamento. Os pilotos podiam ocupar inclusive o papel do adversário, aprendendo suas capacidades e vulnerabilidades.

Antes da participação sueca no exercício Cooperative Cope Thunder/Red Flag Alaska de 2006, o FLSC recebeu dados geográficos de uma área de mil por mil quilômetros. Os pilotos ensaiaram o deslocamento, reconheceram pontos de referência e executaram missões ar-solo em um ambiente que reproduzia a região do exercício.

Sete caças Gripen viajaram posteriormente para a Base Aérea de Eielson, no Alasca. Foi a primeira vez que o modelo participou de um exercício nos Estados Unidos, em uma viagem de mais de 5.400 milhas náuticas desde a Suécia.

Na época, a Suécia ainda não integrava a Aliança Atlântica. O treinamento destinava-se às operações da Parceria para a Paz e a possíveis missões de apoio internacional. O país somente se tornaria membro pleno da OTAN em 7 de março de 2024, quase duas décadas depois daquela experiência.

Menor custo, mas sem eliminar o voo real

O levantamento estimou que o custo direto de quatro semanas de treinamento em simulador correspondia a aproximadamente um quarto do necessário para executar 50 missões reais. O tempo necessário foi calculado em um terço, sem contar a dificuldade de reunir em voo todos os caças, controladores, aviões de apoio e ameaças exigidos por um cenário complexo.

Os próprios pesquisadores, porém, apontaram limitações. Forças geradas por computador nem sempre reproduziam decisões humanas convincentes, exigindo intervenção de operadores e especialistas. Além disso, as táticas desenvolvidas no ambiente virtual precisavam ser verificadas em voo para confirmar a fidelidade dos modelos e preservar a confiança dos pilotos.

O princípio central era complementar, e não substituir, o treinamento real. Duas décadas depois, o FLSC permanece em funcionamento com oito cabines e quatro posições de controle, além de forças geradas por computador e capacidade de conexão distribuída com outras instalações.

A USAF também continua empregando operações distribuídas em exercícios que conectam participantes geograficamente separados e permitem executar rapidamente diferentes cenários durante uma única semana de treinamento.

À medida que radares, enlaces de dados, guerra eletrônica e mísseis aumentam a complexidade do combate aéreo, a vantagem proporcionada pela simulação não se resume às horas economizadas. Ela está na possibilidade de transformar cada erro em dado, cada cenário em experiência repetível e cada nova capacidade em uma tática testada antes do combate.■



Redes Sociais

A Trilogia Forças de Defesa também está presente nas redes sociais. Para comentar e discutir as matérias com os editores e outros leitores, entre no nosso grupo no WhatsApp e no Facebook. Para correções, críticas e sugestões de pauta, contate os editores: redacao@fordefesa.com.br.
Subscribe
Notify of
guest

10 Comentários
oldest
newest most voted
Paulo Cardoso

Uma ferramenta muito útil para manter a proficiência do piloto mesmo com a pouca sequência de voos reais, principalmente no Brasil onde as horas de voo real ficam cada vez menores.

BlackRiver

Não faço ideia do atual nível de conexão entre os mais diversos sistemas de simulação da FAB, mas essa reportagem demonstra plenamente a importância dessa conexão, afinal: A Força Aérea dos Estados Unidos realizou em 16 de setembro, na Base Conjunta San Antonio-Randolph, no Texas, o primeiro voo de treinamento Live Virtual Constructive (LVC) do Air Education and Training Command (AETC) envolvendo um T-7A Red Hawk em voo e dois simuladores terrestres conectados em tempo real. O teste permitiu que pilotos dentro da aeronave e instrutores nos simuladores compartilhassem o mesmo ambiente tático digital, uma capacidade considerada fundamental para modernizar… Read more »

Gilberto Menezes

Galante,li no site zona militar(argentina) que o Brasil estaria incluido,até 2036,no programa de manutenção dos motores PW F-100 para F-16.Muito estranho.Prodece?

Nilo

Nossos simuladores do caça Gripen no Brasil são altamente capazes e estão no mesmo nível tecnológico dos utilizados na Suécia. O Brasil é o único país fora da Suécia a contar com total autonomia e capacidade para testar e simular todos os sistemas do Gripen. A infraestrutura brasileira permite realizar exercícios táticos extremamente avançados como: Conectividade e treinamento de formação, os pilotos da FAB conseguem treinar voos em formação e combates táticos conjuntos em tempo real. Por isso a necessidade de comprar no mínimo mais dois simuladores. Atualizações do sistema são simultâneas, com os sistemas brasileiros foram atualizados com novas… Read more »

Last edited 3 dias atrás by Nilo
Marcus Pereira

B dia
Creio que um simulador foi implantado em Anápolis. Primordial a existência de simuladores “no estado da arte” para os Gripens.

Everton Gonçalves

A fab precisa realizar simulações com táticas de ataque e defesa contra f16 chilenos em cenários que envolva desde 2×2 ate 3×10 com avião de alerta antecipado e todas as variantes possíveis.

Santamariense

E por que você pensa que a FAB não treina essas hipóteses, além de muitas outras??

P.S.: só fiquei curioso por você citar os F-16 chilenos. O Brasil tem alguma hipótese de enfrentamento com o Chile??

Last edited 3 dias atrás by Santamariense
Fabio Araujo

Acho que todo caça de primeira linha da OTAN, Rússia e China tem simuladores avançados onde o treinamento de novos pilotos e o planejamento e as simulação de operações podem ser feitas. São essenciais para qualquer força aérea que possa investir neles!

MMerlin

Aqui uma entrevista do João Paulo Moralez (Hunter Press) com o Tenente Coronel Fórneas mostrando como é o simulador instalado em Anapolis.

Por sinal, um canal que realmente merece ser seguido.

https://youtu.be/2oP5EwJ9wsI?is=IdErOWVRMuoQWbqT