O destino dos aviões que venceram a Segunda Guerra: dos cemitérios do deserto às fundições
Em 1945, os Estados Unidos tinham dezenas de milhares de aviões militares sem uso. Alguns viraram aviões civis ou peças de museu; a maioria foi derretida e transformada em lingotes de alumínio. A história do maior descarte de aeronaves já feito
Os números da produção americana de aviões na Segunda Guerra são difíceis de imaginar. O país fabricou cerca de 294 mil aeronaves para o esforço de guerra. Desse total, 21.583 se perderam dentro dos próprios EUA, em voos de teste, translados e acidentes de treinamento, e outras 43.581 durante o deslocamento para as frentes e nas operações no exterior.
Quando o Japão se rendeu, em agosto de 1945, o que sobrou virou um problema. As estimativas de aviões excedentes chegaram a 150 mil. Em novembro daquele ano, o governo calculava que 117.210 aeronaves seriam transferidas para a categoria de excedente.
Guardar custava caro
A primeira ideia foi armazenar parte da frota para uma eventual nova guerra. Ela foi logo abandonada, diante de um custo estimado em cerca de US$ 20 por avião por mês. O escritório de Los Angeles da Reconstruction Finance Corporation (RFC), a agência federal encarregada do descarte, informava um custo menor, de US$ 8 por mês com armazenagem e processamento de vendas, mas a conta total continuava alta.
Havia também uma razão técnica. Com o avião a jato recém-desenvolvido, muitos daqueles aparelhos a pistão já eram considerados obsoletos. E um caça monoposto não tinha uso civil evidente.
A RFC montou uma rede nacional. No verão de 1945, já funcionavam pelo menos 30 depósitos de armazenagem e venda e 23 centros de vendas. Os cinco maiores centros de armazenagem, venda e sucata para aviões do Exército ficavam em Albuquerque (Novo México), Altus (Oklahoma), Kingman (Arizona), Ontario (Califórnia) e Walnut Ridge (Arkansas). Um sexto centro, em Clinton (Oklahoma), recebia aviões da Marinha e dos Fuzileiros Navais.
Os que voaram de novo
Nem tudo foi para a fornalha. Entre 1945 e junho de 1947, as agências federais de descarte processaram cerca de 61.600 aviões da guerra. Deles, 34.700 foram vendidos em condições de voo e 26.900, principalmente de combate, foram vendidos como sucata.
Os aviões de transporte e de treinamento tinham mercado civil. Os treinadores saíam por US$ 875 a US$ 2.400, e as companhias aéreas compraram muitos DC-3 e C-54 para reforçar suas frotas. Os preços de alguns modelos pequenos ficaram abaixo do de um carro médio de família, e a oferta barata alimentou uma explosão da aviação civil. Em 1º de janeiro de 1946 havia 405 escolas de aviação nos EUA; em setembro do mesmo ano, eram 1.281. Cerca de 2.800 escolas técnicas compraram mais de mil aviões de combate e 3.000 motores para uso em ensino.
“Salvage and melt”
Para os aviões de combate, o destino foi outro. O método adotado ficou conhecido como salvage and melt (“aproveitar e derreter”). Motores, armamento, instrumentos e rádios eram retirados; o restante era cortado em pedaços e jogado numa fornalha. O alumínio, o metal mais valioso, era derretido e moldado em lingotes para venda.
Walnut Ridge, no nordeste do Arkansas, foi um dos grandes cenários desse processo. A base tinha grande área e um amplo pátio de estacionamento, e os aviões chegavam aos montes, até 250 num único dia. Estima-se que entre 10 mil e 11 mil aviões de guerra tenham sido levados para lá em 1945 e 1946. Foram pelo menos 65 dos 118 bombardeiros B-32 fabricados, muitos saídos diretamente da linha de montagem, e mais de 400 caças P-40 Warhawk.
Em setembro de 1946, a Texas Railway Equipment Company comprou 4.871 dos aviões estocados ali, principalmente caças e bombardeiros, para sucata. O lance para o lote inteiro, segundo o museu local Wings of Honor, foi de US$ 1.838.798,19. Dois grandes fornos foram construídos para derreter o alumínio, que virava enormes lingotes para embarque. Os lingotes eram reciclados e vendidos à indústria, que os transformava em tudo, de torradeiras a casas móveis.
Em Kingman, no Arizona, chegavam até 150 aviões por dia, e o estoque somava cerca de 4.700 no fim de 1945. Em outubro daquele ano, o pátio recebia até cem B-17 e B-24 diariamente. A Wunderlich Contracting Company, do Missouri, recebeu um contrato de 18 meses e US$ 2,78 milhões para reduzir 5.400 aviões a lingotes de alumínio, com três fornos. Pela conta oficial, passaram por Kingman cerca de 5.500 aviões, e não os 10 mil de algumas estimativas: 85 de reconhecimento, 615 caças, 54 bombardeiros leves, 266 médios e 4.463 pesados. Entre eles estava o “5 Grand”, o B-17 número 5.000 construído em Seattle. Uma campanha tentou levá-lo de volta à cidade como memorial, sem sucesso, e ele acabou derretido em Kingman.
O leilão decisivo foi anunciado em 10 de junho de 1946 e adjudicado em 1º de julho. A partir daí, quase 21 mil aviões táticos saíram dos registros do governo. O último lote foi anunciado em abril de 1947, reunindo o que sobrava em Ontario, Clinton e sobretudo Altus, onde restavam 260 B-24, 78 B-17 e 21 P-38.
Os que escaparam

Um dos aviões encostados em Altus era um B-17F com uma pin-up pintada no nariz. O Memphis Belle, famoso por ter completado 25 missões na Europa e pelo documentário de William Wyler, estava ali desde 1º de agosto de 1945. O prefeito de Memphis, Walter Chandler, queria exibi-lo na cidade. A prefeitura podia comprá-lo por US$ 13.750 ou tomá-lo por empréstimo indefinido por uma taxa de US$ 350. Escolheu a segunda opção, em 30 de março de 1946, para fins de “instrução, educação e memorial”. O bombardeiro voou para Memphis em julho de 1946 e ficou lá até 2005, quando foi transferido para o Museu Nacional da Força Aérea dos EUA, em Ohio, onde está hoje totalmente restaurado.

O Enola Gay seguiu outro caminho. O B-29 que lançou a bomba sobre Hiroshima participou dos testes nucleares da Operação Crossroads, no Pacífico, e foi levado em 24 de julho de 1946 para Davis-Monthan, no Arizona. A propriedade passou ao Smithsonian em 30 de agosto de 1946, mas o museu não tinha onde guardá-lo. O avião passou por Chicago e Pyote, no Texas, e fez seu último voo em 2 de dezembro de 1953, até a base de Andrews, em Maryland. Ali ficou ao relento até 1960, quando foi desmontado e levado para um depósito. Só em 2003 foi exposto inteiro, no Centro Steven F. Udvar-Hazy.
Davis-Monthan não era um cemitério como Kingman ou Walnut Ridge. A armazenagem ali começou em 1945, com uma unidade criada para guardar os B-29 Superfortress e os C-47 Skytrain que sobraram da guerra. Parte dos B-29 guardados na região teve uma segunda vida: foram tirados às pressas do armazenamento em 1950 para a Guerra da Coreia. O Comando Aéreo Estratégico só aposentou seu último B-29 em 4 de novembro de 1954, levando-o de volta a Davis-Monthan.
O preço de hoje

O que era sucata em 1946 vale hoje uma fortuna. Restam cerca de 150 P-51 Mustang em condições de voo, e um exemplar restaurado estava à venda por US$ 3,25 milhões. Um P-51D descrito como o último original não restaurado foi anunciado por US$ 4,5 milhões, acompanhado de cerca de 20 motores Merlin.
Os bombardeiros são ainda mais raros. Dos 12.731 B-17 construídos, restam 46 células completas no mundo. Segundo o registro da Aero Vintage Books, no fim de 2024 apenas três voavam nos EUA, além do Sally B, no Reino Unido. Dos quase 4 mil B-29, só dois continuam voando: o Fifi, da Commemorative Air Force, e o Doc.
Walnut Ridge seguiu descartando aviões até 1951, quando fechou. No ano seguinte, os fornos foram desmontados, e seus tijolos foram usados na construção do terminal do aeroporto civil que a cidade instalou no antigo campo.■



Se hoje apenas 100 aeronaves P-51 Mustang fossem restauradas/ reativadas, já seriam muito superiores às forças aéreas do Uruguai, Paraguai e Bolívia.
Dá para ver como o fim da guerra impulsionou a avião comercial e particular/privada nos EUA, sem contar as escolas técnicas de manutenção, que formaram gerações de mecânicos de aeronaves.
Esse povo, em todas as frentes, só será superado pela China. E olhe lá…
Quando recordo que entre abril/1961-julho/1969 desenvolveram 3 missões espaciais – com os russos a frente na maior parte da década- e chegaram a lua!
Em meio a uma guerra numa selva longínqua perdendo vidas e o país internamente convulsionado com guerras raciais, políticos proeminentes assassinados até hoje sabe-se lá por qual forças obscuras, etc…etc…
Até hoje continuam a frente. E até quando Deus permitir. Aceitem os DCE ou não.
Mais um brasileiro patriota americano. Mais um.
A verdade é cruel, não?
Outro.
Mais um brasileiro que tem uma noção do mundo, da história do passado e tem respeito e admiração ao invés de soberba e hipocrisia!
So aceitas brasileiro patriota chinês.
Português patriota americano. Esse eu não conhecia.
Ninguém tem que usar termos superlativos e ficar puxando saco de ninguém e nem de outros países, mas me diga se o que o sergio escreveu é uma inverdade. Pontue o que está errado e corrija, por favor.
Não é inverdade, mas imbute com ela uma questão : Por que o alto comando norte americano deixou as empresas norte americanas produzirem esta quantidade inconcebivel de armamentos? Não havia planejamento? Desde de 1943 os aliados sabiam que a Alemanha não teria condições de continuar a guerra por muito mais tempo, dado que os recursos humanos estavam escasseando, e pior o combustivel, e demais materias primas de que necessitava, lhes foram negados pelos sovieticos, quando os espulsaram das fronteiras russas e do caucaso, onde estava Baku e suas imensas reservas petroliferas. Os servicos de inteligencia dos aliados sabiam que os… Read more »
Só complementando o alerta de Eisenhower sobre o ” complexo industrial millitar” e seu sequestro do estado, do seu tempo, com outro ” sequestro” do estado americano atual, o do complexo do vale do silicio e suas bigtechs sob Trump. Este é mais aberto e descarado, como manda os tempos atuais. A colossal alocação de recursos para o desenvolvimento de IAs avançadas ( e incontroláveis) é comparativamente maior que o antigo. Recursos que poderiam ir para a saúde, educação e bem estar dos norte americanos, flui em cataratas, sem controle algum, para as bigtecs, e suas IAs desalinhadas, e agora… Read more »
se ele é patriota americano eu não sei, mas que ele so disse vdd, e um fato
Essa é uma verdade verdadeiramente verdadeira…
Afinal, 36 anos atrás : The aircraft on display at the museum is the first of two YF-22s built (S/N 87-0700, N22YF), and was powered by the GE YF120 engines. It was initially delivered on 29 August 1990 and made its first flight on 29 September 1990.
https://flighttestmuseum.org/portfolio/lockheed-yf-22/
Pouquíssimas almas desse mundo tem noção do que eles fizeram em termos de radares: AN/FPS-85 (Elgin Phased Array Radar)https://www.airandspaceforces.com/weapons/an-fps-85/
Radar systems at Thule Air Base, Greenland
https://www.war.gov/Multimedia/Photos/igphoto/2002460693/
E essas duas façanha:
DEW – Distant Early Warning Line
TAPS – Trans-Alaska Pipeline System
Eu os admiraria se eles fizessem isso sem aplicar golpes, financiar terroristas, roubar todo o Petróleo de outros países e sem interferir nos outros países… mas eles tem uma cultura legal, músicas, filmes, séries, esportes…
Na História nenhuma superpotência chegou nesse nível sendo boazinha, amiga de outras nações, todas já pisaram, pisam e/ou irão pisar nas cabeças das outras para subir. O jogo de poder internacional é a lei da selva, é quem pode manda e quem não pode, obedece ou sofre as consequências – infelizmente esta é a realidade.
Roubar todo o petróleo?
De onde você tirou isso?
Esse petróleo foi totalmente pago
P-51 foi o F-16 da 2ª GM.
Se todos estivessem preservados, em qualquer nível, não teriam valor algum hoje. É exatamente a exclusividade, e contexto histórico, que dão valor à esses bens.
Bem lembrado
Hoje os pouquíssimos exemplares em condições de voo, “valem o equivalente do seu respectivo peso em ouro”
Em valores atuais esses dois aviões custariam:
Mê vê um T-6 se faz o favor, e embrulha para presente.
Um Corsair por $1,250 ou $22,000 hoje em dia. Um carro de gama baixa 😀
eu vi uma materia uma vez que temos aqui uma B17 desmontada e por falta de verba não foi recuperada, só não lembro se esta no RJ ou Natal, seria otimo ter uma destas no museu no RJ ou SP, o Brasil usou varias delas em patrulas maritimas se não me engano.
Na área de recuperação do Musal, era a última notícia de ter lido ha uns 5 anos. E era falta de grana. Por ser um dos “elementos” da Força Aérea deveria ter um incentivo maior.
Assim como o último exemplar do Scandia no mundo, que se encontra em Bebedouro ao relento, merecia um hangar e uma preocupação maior. A Saab já se prontificou, masaas…
A última vez que eu vi essa B-17 do MUSAL fazem mais de dez anos. Ela estava com a fuselagem no chão do hangar de manutenção, com as asas desmontadas apoiadas na parede do hangar. Havia falta de verba para aquisição de peças para a montagem.
Não sei a quantas anda, mas não acho que ela tenha ido à lugar algum. Agora que o foco do MUSAL está em aeronaves operadas pela FAB ou ‘pelo Brasil’ exista uma chance maior de ver essa aeronave montada e exposta.