Ilyushin Il-102: o último ‘Shturmovik’ soviético que tentou desafiar o Su-25
Ilyushin Il-102
No dia 25 de setembro de 1982, um estranho avião de ataque decolou de Zhukovsky, nos arredores de Moscou. Tinha dois motores, dois tripulantes, pesado armamento, blindagem e, numa época em que os mísseis já dominavam o combate aéreo, uma característica que parecia pertencer à Segunda Guerra Mundial: um canhão de 23 mm instalado na cauda para defender a aeronave contra ataques vindos do hemisfério traseiro.
Era o Ilyushin Il-102, última tentativa do célebre bureau soviético de ressuscitar a tradição dos Shturmovik, os aviões blindados de ataque ao solo que haviam se tornado símbolos da aviação soviética na guerra contra a Alemanha nazista.
A linhagem que começou com o Il-2

Poucas empresas soviéticas possuíam tanta experiência com aviões de ataque quanto a Ilyushin. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Il-2 tornou-se um dos aviões militares mais produzidos da história e consolidou na União Soviética o conceito do Shturmovik: uma aeronave fortemente protegida, destinada a operar diretamente sobre o campo de batalha, enfrentando fogo de armas leves e artilharia antiaérea enquanto atacava tropas, veículos e posições inimigas.
Depois da guerra surgiram o Il-10 e projetos mais avançados. Com o início da era do jato, Sergei Ilyushin decidiu transportar o conceito para uma nova geração.

O resultado foi o Il-40, cujo primeiro protótipo voou em março de 1953. Era um bimotor de ataque blindado com piloto e artilheiro traseiro. O projeto enfrentou inicialmente um problema extraordinário: durante disparos dos canhões frontais, os gases produzidos pelo armamento perturbavam o fluxo de ar para os motores e podiam fazê-los apagar.
A solução exigiu redesenhar radicalmente as entradas de ar e reposicionar o armamento. O segundo protótipo, Il-40P, voou em fevereiro de 1955, e o modelo chegou a ser autorizado para produção. A mudança de doutrina soviética, porém, encerrou abruptamente o programa em 1956. Moscou passou a privilegiar caças-bombardeiros rápidos e armas nucleares táticas, reduzindo a prioridade concedida à aviação especializada de apoio aproximado.
A União Soviética redescobre o avião de ataque
Na década seguinte, essa visão começou a mudar.
Experiências observadas em conflitos como a Guerra do Vietnã reforçaram a percepção de que forças terrestres ainda necessitavam de aeronaves resistentes, capazes de permanecer próximas da frente e atacar alvos com precisão.
Em março de 1969, o Ministério da Defesa soviético lançou uma competição para um novo avião leve de ataque. Participaram quatro grandes bureaus: Sukhoi com o T-8, futuro Su-25; Mikoyan com uma proposta derivada do MiG-21; Yakovlev; e Ilyushin, que apresentou o Il-42, desenvolvimento conceitual do antigo Il-40.
O Il-42 mantinha uma característica que o distinguia imediatamente de seus concorrentes: dois tripulantes e uma arma defensiva traseira.
A proposta não avançou na competição. O projeto da Sukhoi continuou evoluindo e o T-8 acabaria se transformando no Su-25.
A Ilyushin, entretanto, não desistiu.
O Il-42 transforma-se no Il-102
Sob a liderança do projetista-geral Genrikh Novozhilov, que sucedera Sergei Ilyushin no comando do bureau, os engenheiros continuaram trabalhando no conceito por iniciativa própria.
O projeto foi profundamente modificado e recebeu nova designação: Il-102.
Era uma máquina consideravelmente maior e mais poderosa que o Il-42 originalmente proposto. O peso máximo de decolagem chegava a aproximadamente 22 toneladas, enquanto a capacidade máxima de armamentos alcançava cerca de 7.200 kg.
Os dois motores eram Klimov RD-33I, derivados sem pós-combustão da família que posteriormente se tornaria famosa no caça MiG-29. Cada turbofan produzia cerca de 51 kN de empuxo.
O Il-102 podia atingir aproximadamente 950 km/h, tinha envergadura de 16,9 metros e comprimento próximo de 17,7 metros. Cockpits, motores e tanques de combustível receberam proteção destinada a aumentar sua sobrevivência sob fogo inimigo.
Sua aparência era incomum, quase como se duas gerações diferentes de aviões de combate tivessem sido fundidas em uma única aeronave.
Um canhão apontava para trás
O segundo tripulante ocupava uma cabine traseira elevada e controlava remotamente uma instalação armada com um canhão duplo GSh-23L de 23 mm.
A ideia reproduzia, em versão moderna, o princípio utilizado nos Il-2 e Il-10 durante a Segunda Guerra Mundial: proteger a vulnerável retaguarda do avião de ataque enquanto ele voava baixo sobre o campo de batalha.
Na década de 1980, contudo, esse conceito era controverso. A ameaça aérea havia mudado. Caças poderiam atacar utilizando mísseis a distâncias muito superiores ao alcance do canhão traseiro, enquanto sistemas portáteis de defesa antiaérea e canhões guiados por radar representavam ameaças cada vez maiores vindas do solo.
Além disso, cabine, tripulante, blindagem e torre defensiva acrescentavam centenas de quilos à aeronave. Avaliações associadas à competição com o Su-25 indicaram que esse conjunto poderia acrescentar algo entre 700 e 800 kg.
Mas havia uma vantagem: em missões de baixa altitude, um segundo par de olhos poderia ajudar a observar ameaças, acompanhar o terreno e reduzir a vulnerabilidade a ataques inesperados.
Um arsenal distribuído pelas asas
O armamento ofensivo também era pouco convencional.
O Il-102 possuía um canhão de 30 mm montado sob a fuselagem, além da arma traseira. Mais surpreendente era a distribuição das bombas: existiam seis pequenos compartimentos internos nas asas, complementados por oito pontos externos — seis sob as asas e dois sob a fuselagem.
No total, a aeronave podia transportar aproximadamente 7,2 toneladas de armamentos. Entre as opções estudadas estavam bombas convencionais e guiadas, foguetes não guiados, pods de canhões e mísseis ar-superfície das famílias Kh-23, Kh-25 e Kh-29, além de armas antirradiação e mísseis ar-ar para autodefesa.
A disposição dos compartimentos internos oferecia uma vantagem operacional importante: permitia transportar determinadas bombas sem ocupar todos os cabides externos.
O avião também fora concebido para operar próximo da linha de frente e utilizar pistas relativamente precárias, característica fundamental da filosofia soviética de apoio direto às forças terrestres.
O primeiro voo acontece tarde demais
A construção do protótipo avançou lentamente, em parte porque o Ministério da Defesa já demonstrava preferência pelo Su-25.
O Il-102 ficou pronto no início de 1982. Em 25 de setembro daquele ano, o piloto de testes Stanislav Bliznyuk finalmente levou a aeronave ao ar. Algumas fontes russas registram que o programa chegou a utilizar a designação discreta OES-1, numa tentativa de manter os trabalhos afastados das disputas burocráticas em torno do projeto.

O problema estratégico era evidente: o Il-102 havia chegado tarde. O protótipo do Su-25 voara pela primeira vez em fevereiro de 1975 e, quando o avião da Ilyushin iniciou seus testes, o modelo da Sukhoi já estava em produção e acumulava experiência operacional no Afeganistão.
Ali, o Su-25 demonstrava justamente aquilo que os soviéticos esperavam de um Shturmovik moderno. Era fortemente protegido, podia suportar danos, operar em baixa altitude e utilizar bombas, foguetes e canhões contra posições dos mujahideen nas montanhas afegãs. Posteriormente seria considerado uma das aeronaves de ataque mais eficazes empregadas pela União Soviética no conflito.
Centenas de voos, mas nenhuma encomenda
O Il-102 apresentou resultados respeitáveis.
As fontes divergem quanto ao número exato de missões realizadas. Algumas registram aproximadamente 250 voos entre 1982 e 1984, enquanto outras fontes russas apontam 367 voos e cerca de 249 horas. Há consenso, porém, de que a campanha de testes demonstrou boa confiabilidade e elevada manobrabilidade para uma aeronave daquele tamanho.
Um dado frequentemente citado é um raio mínimo de curva da ordem de 400 metros, resultado impressionante para uma aeronave de ataque com peso máximo de 22 toneladas.
Mas os ensaios não conseguiram responder à pergunta decisiva: por que a União Soviética deveria fabricar outro avião de ataque quando o Su-25 já estava funcionando?
O Il-102 tinha vantagens, incluindo capacidade maior de armamentos e boa visibilidade da cabine. Em contrapartida, apresentava maior arrasto, carregava o peso adicional do segundo tripulante e de sua instalação defensiva e exigiria a abertura de uma nova linha de produção e estrutura logística.
Em 1984, o protótipo foi colocado em conservação em Zhukovsky. O desenvolvimento praticamente terminou.
Uma última aparição após o fim da URSS
O mundo voltou a ver o Il-102 em circunstâncias completamente diferentes.
A União Soviética já não existia quando, em agosto de 1992, o avião foi apresentado publicamente no MosAeroShow, em Zhukovsky. Documentos norte-americanos da época registram o Il-102 entre os aviões de combate mostrados pela indústria russa durante a exposição.
A Ilyushin tentou ressuscitar o projeto como produto de exportação.
O protótipo foi exibido cercado por uma grande variedade de armamentos, demonstrando aos possíveis compradores a enorme capacidade de carga da aeronave. Houve inclusive propostas para uma eventual versão sem o segundo tripulante, reduzindo peso.
Nada disso resultou em encomendas.
A Rússia atravessava uma profunda crise econômica e sua indústria aeronáutica lutava para manter programas muito mais importantes. O Su-25, por sua vez, já existia em grande número, tinha experiência de combate e uma cadeia logística consolidada.
O último descendente de uma ideia da Segunda Guerra Mundial
O protótipo sobrevivente foi preservado em Zhukovsky e durante anos permaneceu exposto junto ao Instituto de Pesquisa de Voo Gromov. Registros posteriores também documentam a preservação da célula utilizada em testes estáticos.
O Il-102 não foi propriamente um fracasso tecnológico. Voou, demonstrou boa capacidade de manobra, carregava um arsenal impressionante e incorporava proteção adequada à missão de ataque.
Seu problema foi chegar a uma guerra que já havia sido vencida por outro projeto.
Enquanto o Su-25 representava uma interpretação relativamente simples e moderna do avião de apoio aproximado — monoposto, robusto e fácil de produzir —, o Il-102 carregava consigo parte da filosofia que fizera dos Il-2 e Il-10 máquinas tão características da Segunda Guerra Mundial: dois tripulantes, blindagem pesada e uma arma apontada para o inimigo que viesse pela retaguarda.
Por isso, sua silhueta permanece tão peculiar. O Il-102 foi ao mesmo tempo um avião dos anos 1980 e o último eco da era dos Shturmovik de 1941.■
| Característica | Dados |
|---|---|
| Dados gerais | |
| Fabricante | OKB Ilyushin |
| País de origem | União Soviética |
| Tipo | Avião blindado de ataque ao solo / apoio aéreo aproximado |
| Primeiro voo | 25 de setembro de 1982 |
| Situação do programa | Experimental; não entrou em produção |
| Protótipos | 2 — um para ensaios em voo e outro para testes estáticos |
| Tripulação | 2 — piloto e operador/artilheiro |
| Dimensões | |
| Comprimento | 17,75 m |
| Envergadura | 16,98 m |
| Altura | 5,08 m |
| Área alar | 63,5 m² |
| Enflechamento das asas | 30° |
| Pesos e combustível | |
| Peso vazio | Aprox. 13.000 kg |
| Peso normal de decolagem | 18.000 kg |
| Peso máximo de decolagem | 22.000 kg |
| Combustível interno | Aprox. 3.700 kg |
| Propulsão | |
| Motores | 2 × turbofans Klimov RD-33I sem pós-combustão |
| Empuxo unitário | Aprox. 51–52 kN |
| Empuxo total | Aprox. 102–104 kN |
| Desempenho | |
| Velocidade máxima | 950 km/h |
| Velocidade de cruzeiro | Aprox. 850 km/h |
| Teto operacional | Aprox. 10.000 m |
| Alcance de translado | Até 3.000 km |
| Alcance operacional | Aprox. 1.000 km |
| Raio de combate | Aprox. 300–500 km, conforme perfil e carga |
| Armamento | |
| Canhão frontal | 1 × canhão duplo de 30 mm 9A-4071K / GSh-30-2, com cerca de 500 projéteis |
| Armamento defensivo traseiro | 1 × canhão duplo GSh-23L de 23 mm em instalação móvel controlada remotamente |
| Carga bélica máxima | Até 7.200 kg |
| Estações externas | 8 — seis sob as asas e duas sob a fuselagem |
| Compartimentos internos | 6 pequenos compartimentos nas asas para bombas de até 250 kg |
| Mísseis ar-superfície previstos | Kh-23, Kh-25, Kh-29 e Kh-58 |
| Mísseis ar-ar previstos | R-60M e R-73 para autodefesa |
| Outras armas | Bombas convencionais e guiadas, foguetes não guiados e pods de canhões |
| Proteção e características especiais | |
| Proteção | Blindagem em torno das cabines, sistemas de combustível e áreas vitais |
| Configuração da tripulação | Cabines separadas para piloto e operador/artilheiro traseiro |
| Característica incomum | Torre defensiva traseira controlada remotamente, conceito herdado da tradição dos aviões Shturmovik Il-2 e Il-10 |
| Programa de testes | |
| Ensaios em voo | Cerca de 250 voos até 1984 |
| Apresentação pública | Mosaeroshow-92, Zhukovsky, em 1992 |
| Principal concorrente | Sukhoi Su-25 |
A carga bélica máxima é normalmente citada como 7.200 kg, embora algumas fontes indiquem até 7.600 kg. O raio de combate também varia conforme carga, altitude e perfil da missão.
Detalhes do projeto do Ilyushin Il-102




















O 102 era feio pracara$%@.
O IL-2 chegava à ser elegante, mesmo sendo feito para pancadaria franca.
Essa coisa para operar nos anos 80 parece ter sido uma desculpa para não começar um projeto do zero, porque dá muito trabalho.
Bichinho feio, e outra coisa o SU-25 soviético e o A-10 americanos são muito bons, tanto que até hoje são insuperáveis em suas missões.
parece algo do universo de Star Wars
A ideia tinha um certo mérito, a própria experiência soviética no Afeganistão, operando o IL-28 demonstrava isso.
A torreta traseira do “Beagle”, era uma surpresinha indigesta para “mujahidin” desavisado tentando abate-lo após sua corrida de bombardeio…
O artilheiro de cauda não teria tempo pra isso.