Hell’s Angels: o filme de Howard Hughes que levou combates aéreos realistas às telas e custou quatro vidas

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Hell’s Angels - o filme de Howard Hughes

Os pilotos acrobatas Frank Clarke e Roy Wilson pilotam biplanos Royal Aircraft Factory S.E.5a e Fokker D.VII (com câmera) da época da Primeira Guerra Mundial durante as filmagens de uma sequência aérea em "Hell's Angels". (Arquivo do Museu Aeroespacial de San Diego)

Produzido entre 1927 e 1930, o épico de aviação de Howard Hughes reuniu dezenas de aeronaves e alguns dos melhores pilotos acrobáticos dos Estados Unidos para encenar batalhas aéreas diante das câmeras. Quase um século depois, suas imagens continuam impressionantes — mas o realismo extremo teve um preço: quatro homens morreram em acidentes relacionados à produção

Biplanos mergulham entre nuvens, cruzam-se em formações apertadas e perseguem adversários enquanto câmeras instaladas em outras aeronaves acompanham a ação. Em Hell’s Angels, grande parte daquilo que o espectador vê realmente aconteceu diante das lentes.

O National Air and Space Museum, do Smithsonian Institution, registra que mais de 50 aeronaves foram reunidas para a produção e que quase metade era formada por aviões autênticos da Primeira Guerra Mundial. Cerca de 75 pilotos trabalharam nas sequências aéreas e nos aviões de câmera.

Hughes queria superar Wings

A inspiração veio do sucesso de Wings, lançado em 1927 e vencedor do primeiro Oscar de Melhor Filme. Hughes, jovem milionário apaixonado por aviação, decidiu produzir um épico ainda maior e mais realista.

Hell’s Angels começou a ser filmado em 1927 como filme mudo. Hughes assumiu progressivamente o controle da produção e dedicou atenção especial às sequências aéreas, supervisionando pessoalmente a aquisição dos aviões. O American Film Institute registra cerca de 40 aeronaves militares compradas para o projeto, algumas delas genuínos caças da Grande Guerra.

Hughes reuniu Fokker D.VII, Royal Aircraft Factory S.E.5a e Sopwith Snipe autênticos, mas também adaptou aviões norte-americanos. Thomas-Morse S-4C representaram Sopwith Camel, Travel Air 2000 foram transformados visualmente em caças alemães e um grande Sikorsky S-29A foi modificado para representar um bombardeiro Gotha.

Batalhas filmadas em voo

Hughes contratou alguns dos melhores pilotos acrobáticos e barnstormers dos Estados Unidos, entre eles Roscoe Turner, Frank Clarke, Al Wilson e Leo Nomis. O trabalho exigia formações fechadas, mergulhos, cruzamentos e parafusos realizados com aeronaves que ofereciam poucas das proteções existentes atualmente.

Havia ainda um problema cinematográfico: contra um céu azul uniforme, era difícil transmitir velocidade, distância e profundidade. Hughes passou a esperar por nuvens que fornecessem referências visuais. Em outubro de 1928, quando as condições desejadas apareceram sobre Oakland, a produção deslocou homens, aviões e equipamentos para o norte da Califórnia.

Com o diretor de fotografia aérea Harry Perry, Hughes instalou câmeras dentro das aeronaves e em suportes externos. Algumas enquadravam os próprios pilotos enquanto realizavam as manobras. Sua obsessão por repetir tomadas até alcançar o resultado desejado lhe rendeu o apelido de “Hundred Takes Hughes”.

Quatro mortes durante a produção

O realismo teve consequências trágicas. Pesquisas históricas posteriores identificam quatro mortes relacionadas à produção: os pilotos Al Johnson, C.K. Phillips e Rupert Syme Macalister, além do mecânico Phil Jones. O AFI utiliza uma contagem mais restrita, registrando dois pilotos e um assistente mortos direta ou indiretamente durante a realização do filme.

O episódio mais conhecido ocorreu em 22 de março de 1929. Para uma sequência, o Sikorsky S-29A transformado em bombardeiro alemão deveria entrar deliberadamente em queda descontrolada. O piloto Al Wilson levou o avião a cerca de 7.500 pés e iniciou o parafuso. Wilson conseguiu saltar de paraquedas, mas Jones, responsável por operar um dispositivo de fumaça, não abandonou a aeronave a tempo e morreu no impacto.

O próprio Hughes quase se tornou outra vítima. Depois que um piloto considerou perigosa demais uma manobra em um Thomas-Morse Scout, Hughes resolveu realizá-la pessoalmente. O avião entrou em estol e caiu, provocando graves ferimentos em seu rosto e obrigando-o a passar por cirurgia.

Pilotos de Hughes posam com o Sikorsky S-29, que foi modificado para se assemelhar a um bombardeiro alemão Gotha. (Arquivo do Museu Aeroespacial de San Diego)

Do cinema mudo ao falado

Enquanto as filmagens avançavam, Hollywood mudou. O sucesso dos filmes sonoros tornou comercialmente arriscado lançar Hell’s Angels como produção muda. Após uma prévia da versão silenciosa em março de 1929, Hughes decidiu refazer praticamente todas as cenas dramáticas com diálogos.

As valiosas sequências aéreas foram preservadas e receberam efeitos sonoros. A mudança também provocou a substituição da norueguesa Greta Nissen, cujo sotaque não funcionava para a personagem britânica. Em seu lugar entrou Jean Harlow, então praticamente desconhecida, em um papel que ajudaria a transformá-la em estrela.

Segundo o AFI, impressionantes 2.254.760 pés de película, equivalentes a cerca de 560 horas, foram filmados e revelados. A instituição registra que a produção chegou a ser divulgada como tendo custado US$ 4 milhões; pesquisas posteriores situam o custo efetivo em aproximadamente US$ 2,8 milhões, ainda uma soma extraordinária para o período.

Um espetáculo que Hollywood dificilmente repetiria

Hell’s Angels estreou em Hollywood em 27 de maio de 1930. Embora sua trama tenha sido rapidamente eclipsada pelo espetáculo aéreo, as cenas de combate tornaram-se referência para gerações de filmes de aviação.

Quase cem anos depois, é justamente a natureza física das imagens que continua impressionando. As aeronaves têm massa real, as asas vibram, a fumaça reage ao vento e a distância entre dois aviões é aquela efetivamente registrada pela câmera.

Hoje, efeitos digitais, drones e câmeras estabilizadas permitem criar combates muito mais complexos com riscos incomparavelmente menores. Dificilmente um grande estúdio aceitaria colocar dezenas de aeronaves históricas em formações tão apertadas apenas para obter determinado enquadramento.

Esse é o aspecto fascinante — e perturbador — de Hell’s Angels. Hughes levou o realismo cinematográfico a um limite que atualmente seria considerado inaceitável.

O filme permanece não apenas como marco técnico do cinema de aviação, mas como documento de uma época em que cinema e voo ainda eram tecnologias jovens, experimentais e perigosas. Em Hell’s Angels, a fronteira entre representar uma batalha aérea e realmente arriscar a vida para filmá-la tornou-se perigosamente pequena.■



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1 Comentário
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Carlos Campos

caramba pois não é que as cenas são boas mesmo