Yakovlev Yak-36 Restored and colorized old photos (1)

Yakovlev Yak-36 Fotos antigas restauradas e colorizadas. Crédito: Embase

Em plena Guerra Fria, quando Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética buscavam novas formas de operar aeronaves de combate sem depender de longas pistas vulneráveis a ataques nucleares, o escritório Yakovlev desenvolveu uma das máquinas mais incomuns da aviação soviética: o Yakovlev Yak-36, conhecido pela OTAN como “Freehand”.

O Yak-36 não foi um caça operacional, mas sim um demonstrador tecnológico de decolagem e pouso vertical, ou VTOL. Seu papel histórico foi abrir caminho para a primeira geração soviética de aeronaves embarcadas de decolagem vertical, culminando no Yak-38 “Forger”, utilizado posteriormente pela Aviação Naval Soviética.

A busca soviética pelo avião de decolagem vertical

A ideia de uma aeronave capaz de decolar e pousar verticalmente já existia muito antes do Yak-36. Segundo a RuAviation, em 1947, Konstantin Shulikov, engenheiro ligado ao então OKB-155, patenteou um conceito de aeronave a jato com bocal dividido em dois canais simétricos, capazes de orientar o jato para baixo. A tecnologia, porém, ainda dependia do surgimento de motores compactos e potentes o suficiente para tornar o conceito viável.

No fim dos anos 1950 e início dos anos 1960, o gabinete de projetos de Alexander Yakovlev passou a estudar soluções para voo vertical. Uma das primeiras propostas foi o Yak-104, que previa o uso de motores turbojato R19-300 em uma configuração experimental. A proposta evoluiu até que, em abril de 1961, o governo soviético preparou o desenvolvimento de um protótipo monoposto de caça-bombardeiro de decolagem vertical, inicialmente designado Yak-V ou “Produto B”, depois conhecido como Yak-36.

Um desenho radical

O Yak-36 era uma aeronave de aparência singular. Tinha grande entrada de ar frontal, asas curtas, trem de pouso em configuração bicicleta e dois motores turbojato Tumansky R-27-300 instalados na parte dianteira da fuselagem. Esses motores possuíam bocais vetoriais capazes de girar cerca de 90 graus, direcionando o empuxo para baixo durante a decolagem e o pouso vertical, e para trás no voo convencional.

Para controlar a aeronave durante o pairado, quando as superfícies aerodinâmicas tradicionais tinham pouca ou nenhuma eficácia, o Yak-36 utilizava ar sangrado dos motores em pequenos jatos de controle nas pontas das asas, na cauda e na extremidade de uma longa sonda instalada à frente da entrada de ar. Essa configuração dava ao avião seu perfil peculiar e revelava o caráter essencialmente experimental do projeto.

Foram construídos quatro exemplares. Um deles foi destinado a testes estruturais, enquanto os demais serviram ao programa de ensaios em solo, voo pairado, transição e avaliação de sistemas de controle. O segundo protótipo foi o primeiro a voar e hoje está preservado no Museu Central da Força Aérea em Monino, na Rússia.

Os desafios do voo vertical

O Yak-36 expôs de imediato os enormes desafios técnicos do voo VTOL. Um dos principais problemas era a reingestão de gases quentes, fenômeno em que os gases de escape refletidos pelo solo eram sugados novamente pelas entradas de ar, reduzindo a eficiência dos motores e comprometendo a estabilidade da aeronave. Para mitigar o problema, o avião recebeu portas e escudos retráteis, incluindo uma grande proteção sob o nariz.

Os primeiros ensaios incluíram decolagens e pousos presos por cabos, voos pairados a baixa altura e testes de sistemas de autopiloto e comandos recombinados. Em dois anos, um dos protótipos realizou dezenas de operações de pairado, demonstrando a intensidade do programa de ensaios.

Em setembro de 1963, o Yak-36 realizou a transição completa de decolagem vertical para voo horizontal e retorno ao pouso vertical, marco fundamental para validar o conceito. Em 24 de março de 1966, a aeronave completou um perfil integral de voo, indo da decolagem vertical ao voo convencional, desacelerando novamente para o pouso vertical.

A estreia pública em Domodedovo

O grande momento de propaganda do Yak-36 ocorreu em julho de 1967, durante a exibição aérea de Domodedovo, nos arredores de Moscou. A apresentação, realizada nas comemorações do 50º aniversário da Revolução de Outubro, mostrou ao público e aos observadores estrangeiros que a União Soviética também dominava, ao menos em caráter experimental, a tecnologia de decolagem e pouso vertical.

Para o Ocidente, o Yak-36 recebeu o nome de código Freehand. Seu surgimento foi acompanhado com atenção porque o Reino Unido já avançava com o conceito que levaria ao Harrier, enquanto as potências da OTAN e do Pacto de Varsóvia estudavam alternativas para dispersar aeronaves de combate em caso de destruição das bases aéreas principais.

Por que o Yak-36 não entrou em produção

Apesar do sucesso técnico, o Yak-36 era limitado demais para se tornar um avião de combate real. Seu alcance, carga útil e margem de empuxo eram insuficientes para operações militares efetivas. A própria Vertical Flight Society registra que o Freehand era capaz apenas de decolagens e pousos verticais, e que seu papel principal foi o de demonstrador tecnológico.

Os quatro protótipos não foram construídos com intenção de emprego em combate, pois o avião carecia de empuxo e autonomia para atuar como caça ou avião de ataque. Ainda havia previsão conceitual de canhões, bombas, foguetes ou mísseis em pontos subalares, mas a aeronave não tinha desempenho suficiente para transformar essas possibilidades em capacidade operacional robusta.

Segundo a RuAviation, a Yakovlev chegou a propor a produção de 10 a 15 unidades para desenvolver métodos de operação embarcada, mas o Ministério da Defesa soviético não demonstrou interesse em uma aeronave com carga militar tão reduzida. A experiência, porém, foi aproveitada no desenvolvimento do Yak-36M, que evoluiu para o Yak-38, o primeiro avião soviético VTOL produzido em série.

Legado

Descendentes do Yak-36: Yak-38M e Yak-141

O Yak-36 foi um avião de transição histórica. Não era bonito, não era prático e não se tornou arma de combate, mas respondeu a uma pergunta tecnológica central da época: a União Soviética seria capaz de fazer um jato de combate decolar verticalmente, acelerar como avião convencional e voltar ao solo sem pista? A resposta foi sim — ainda que com muitas limitações.

Seu verdadeiro legado não está em missões operacionais, mas no conhecimento acumulado. O Freehand permitiu aos engenheiros soviéticos compreender os problemas de estabilidade, controle, empuxo vetorial, reingestão de gases e operação em baixa velocidade que marcariam toda a linhagem VTOL de Yakovlev. Sem ele, o Yak-38 dificilmente teria chegado aos conveses dos cruzadores porta-aeronaves da classe Kiev.

O Yak-36 permanece hoje como símbolo de uma fase ousada e experimental da aviação da Guerra Fria: uma época em que a corrida tecnológica levou engenheiros a desafiar os limites do voo convencional em busca de aeronaves capazes de escapar da dependência das pistas, sobreviver a um campo de batalha nuclear e operar a partir de plataformas navais compactas.■

Yakovlev Yak-36 “Freehand” – Principais Características
Característica Dados
Tipo Aeronave experimental V/STOL / demonstrador tecnológico VTOL
Designação soviética Yakovlev Yak-36 / Izdeliye V
Nome-código da OTAN Freehand
País de origem União Soviética
Fabricante / projetista OKB Yakovlev
Primeiro voo pairado livre 9 de janeiro de 1963
Primeira transição completa 16 de setembro de 1963
Apresentação pública Domodedovo Air Show, Moscou, julho de 1967
Número construído 4 protótipos / exemplares de teste
Tripulação 1 piloto
Comprimento 17,0 m
Envergadura 10,0 m
Altura 4,5 m
Área alar 17 m²
Peso vazio aprox. 5.300 kg
Peso máximo de decolagem aprox. 8.900 kg; algumas fontes citam até 9.400 kg como peso máximo bruto
Capacidade de combustível aprox. 2.600 kg
Motorização 2 × turbojatos Tumansky R-27-300 com empuxo vetorado
Empuxo aprox. 52 kN cada motor
Sistema VTOL Bocais vetoriais giratórios de aproximadamente 90° e jatos de controle por ar sangrado dos motores
Velocidade máxima aprox. 900 km/h
Alcance aprox. 370 km
Teto de serviço aprox. 12.000 m
Teto em voo pairado aprox. 1.900 m
Razão de subida aprox. 140 m/s
Armamento previsto 2 pontos subalares para cargas leves, incluindo casulos de canhão, foguetes, bombas ou mísseis ar-ar R-3S
Limitação operacional Alcance, carga útil e empuxo insuficientes para emprego efetivo como aeronave de combate
Legado Demonstrador que abriu caminho para o Yakovlev Yak-38 “Forger”, primeiro jato VTOL soviético operacional

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15 Comentários
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Clésio Luiz

Esse é tão feio que só uma mãe poderia amá-lo, e ainda assim só da boca pra fora… Eu sou da opinião que o que matou as aeronaves de decolagem vertical (DV) e geometria variável (GV) foi o motor turbofan de alta eficiência, que surgiu nos anos 70 e tem como pioneiro o P&W F100. O motivo que levou a criação de aeronaves DV e GV, foi o grande comprimento de pista necessário para a decolagem e pouso do típico caça supersônic projetado nos anos 1950. Este tinha um motor que mal conseguia fazer a aeronave atingir Mach 2. Então… Read more »

Last edited 9 dias atrás by Clésio Luiz
Rodrigo F.

Harriersky.

JHF

No seu melhor Modelo de baixa detecção. Gostei muito das rodinhas adicionais. Colocam as do U2 no chinelo.

Goes

Frankstein Harrier
Kkkkkkkk

José Gregório

Espetacular!

Antunes 1980

A União Soviética desperdiçou tantos recursos que acabou quebrando.

Foram centenas de milhares de projetos que jamais saíram do papel ou nunca produziram resultados concretos.

Enquanto a economia soviética ruía e grande parte da população enfrentava escassez e fome, muitos dos altos escalões investiam tempo e recursos em projetos como este, que, no fim, não passavam de ideias sem aplicação prática.

Mirade1969

Não da onde saiu esta historia que a URSS tinha escassez e fome senda ela uma das mairoes produtores de alimentos do mundo até mesmo nos seus ultimos dias. Deve ser a propaganda absurda do tempo da guerra fria. Os projetos soviéticos tinha que ser feitos por que eles tinham que enfrentar um inimigo que também estava projetando armas contra eles. E todas as opções eram pensadas e isso tem um custo muito elevado para qualquer país mesmo os capitilistas. Os EUA tem uma industria militar que é movida por criar inimigos e ela é parte gigante da economia americana… Read more »

Leandro Costa

Tá doido? Depois da eliminação dos Kulaks e coletivização do campo, a URSS passou a produzir bem menos. Com falhas de gerenciamento e problemas climáticos, importavam grãos (e MUITO grão) de fora. Inclusive dos EUA.

Pode ler à respeito em qualquer lugar.

ASantana

Foi mais uma era fracassada de Moscou. Começaram tanta coisa, mas terminaram tão pouco.

Mirade1969

Tentativa e erro mas eles conseguiram sim, cade os americanos° nenhum projeto americano só sob licença de um projeto ingles. Se isso é fracasso o que é vitoria então.

Goes

E o F 35 B meu caro?

Joao

Os russos sempre apresentam soluções próprias, demostrando a criatividade e competência de sua engenharia.

groosp

Yakovlev queria o desenvolvimento de um motor como o Pegasus do Harrier mas lhe foi negado. Ele teve que usar esses motores mais convencionais que são, basicamente, motores comuns com bocais varíáveis. O Yak-36 e Yak-38 eram ruins mas dá para notar um certo progresso. Já o Yak-141 parecia ser promissor- ao meu ver, uma plataforma superior ao Harrier em vários aspectros – mas ficou pronto quando a URSS estava já a beira do colapso e acabou participando do desenvolvimento do F-35B.

Gabriel

Existiam análogos na Europa ocidental e Eua em 1963 ???

Pestana

Hawkeer 1127
Inglês primeiro vôo nov
1960