Morre Gu Songfen, projetista-chefe dos caças chineses J-8 e J-8II
Morreu em 31 de maio de 2026, aos 96 anos, Gu Songfen (顾诵芬), um dos nomes mais importantes da indústria aeronáutica chinesa e projetista-chefe dos caças Shenyang J-8 e J-8II. Considerado uma figura central na formação da aviação de combate moderna da China, Gu esteve à frente de programas que marcaram a transição do país de uma força aérea baseada em projetos de origem soviética para uma indústria capaz de desenvolver interceptadores próprios de alta velocidade e grande altitude.
Nascido em 4 de fevereiro de 1930, em Suzhou, na província de Jiangsu, Gu Songfen formou-se em engenharia aeronáutica pela Universidade Chiao Tung, em Xangai, em 1951. Ainda jovem, integrou os primeiros esforços da República Popular da China para organizar uma base nacional de projeto aeronáutico. Participou do desenvolvimento do treinador a jato Shenyang JJ-1 e, posteriormente, tornou-se uma das principais figuras do Instituto de Projeto Aeronáutico de Shenyang, também conhecido como Instituto 601.
Seu nome ficou definitivamente associado ao programa J-8. Em meados dos anos 1960, a China decidiu desenvolver um novo caça interceptador de alta velocidade e grande altitude, capaz de superar as limitações do J-7, versão chinesa do MiG-21. O objetivo era criar uma aeronave maior, bimotor e com maior alcance, destinada à defesa aérea contra bombardeiros e aeronaves de reconhecimento inimigas.
O projeto teve início em 1964. Inicialmente, Huang Zhiqian foi nomeado projetista-chefe, com Gu Songfen como vice. Após a morte de Huang em um acidente aéreo em 1965, Gu assumiu papel central no desenvolvimento do novo caça. O primeiro protótipo do J-8 realizou seu voo inaugural em 5 de julho de 1969, mas o programa sofreu longos atrasos devido aos efeitos da Revolução Cultural, dificuldades técnicas e limitações da base industrial chinesa da época. O modelo só foi finalizado em 1979 e entrou em serviço em 1980.

O J-8, conhecido pela OTAN como Finback, era um interceptador monoplace, bimotor, de asa delta, derivado conceitualmente de uma ampliação do MiG-21/J-7. A configuração original mantinha a entrada de ar no nariz, com cone central, solução que limitava a instalação de radares de maior porte. O armamento inicial incluía canhões de 30 mm e mísseis ar-ar de curto alcance, como o PL-2 e, posteriormente, o PL-5. Embora representasse um avanço importante para a indústria chinesa, o J-8 original já era considerado limitado quando entrou em serviço, sobretudo pela deficiência de radar e pela ausência de real capacidade de combate além do alcance visual.
A evolução mais importante veio com o J-8II, também chamado J-8B e designado pela OTAN como Finback-B. Gu Songfen foi nomeado projetista-chefe dessa nova variante em 1981. O J-8II não foi apenas uma modernização simples: cerca de 70% da estrutura e dos sistemas foram retrabalhados. A entrada de ar no nariz foi substituída por um radome convencional, abrindo espaço para um radar de controle de tiro mais moderno, enquanto as entradas de ar foram deslocadas para as laterais da fuselagem. A aeronave recebeu motores mais potentes, novo sistema de armas, sete pontos de fixação externos e melhor desempenho geral.
O primeiro J-8II voou em 12 de junho de 1984, e a aeronave foi aprovada para produção e entrada em serviço em 1988. Apesar dos avanços, o modelo ainda enfrentou limitações na área de aviônicos e sensores, um dos principais gargalos da indústria chinesa naquele período. Versões posteriores, como J-8D, J-8H e J-8F, incorporaram melhorias em radar, armamento, reabastecimento em voo e capacidade de emprego de mísseis mais modernos.

Nas características gerais, o J-8II possuía cerca de 21,4 metros de comprimento, envergadura de aproximadamente 9,34 metros e peso máximo de decolagem próximo de 18,9 toneladas em algumas versões. Equipado com dois turbojatos WP-13, podia atingir velocidade máxima em torno de Mach 2,2, com teto operacional de aproximadamente 18.000 metros. Seu armamento incluía um canhão Type 23-III de 23 mm, mísseis ar-ar de curto e médio alcance, foguetes e bombas convencionais, dependendo da versão.
Operacionalmente, a família J-8 equipou tanto a Força Aérea do Exército de Libertação Popular quanto a Aviação Naval chinesa. Antes da chegada dos Su-27 russos e do desenvolvimento de caças nacionais mais modernos, o J-8II foi durante anos um dos principais interceptadores chineses de longo alcance. Seu episódio internacional mais conhecido ocorreu em 1º de abril de 2001, quando um J-8B colidiu com um avião de reconhecimento eletrônico EP-3E Aries II da Marinha dos Estados Unidos nas proximidades da ilha de Hainan. O piloto chinês Wang Wei morreu no acidente, enquanto o EP-3E realizou um pouso de emergência em território chinês, provocando uma grave crise diplomática entre Pequim e Washington.

Ao todo, estima-se que pelo menos 408 aeronaves da família J-8 tenham sido produzidas. O número inclui diferentes versões do modelo original e das variantes J-8II, que permaneceram em operação por décadas e serviram como plataforma de transição tecnológica para a aviação militar chinesa.
A importância de Gu Songfen vai além do J-8. Ele integrou uma geração de engenheiros que construiu as bases da autonomia aeronáutica chinesa em um período de isolamento tecnológico, instabilidade política e limitações industriais. Ele foi eleito membro da Academia Chinesa de Ciências em 1991 e da Academia Chinesa de Engenharia em 1994. Em 2021, recebeu o Prêmio Estatal Máximo de Ciência e Tecnologia, uma das mais altas honrarias científicas da China.
Sua morte encerra a trajetória de um dos pioneiros da aviação militar chinesa. O legado de Gu Songfen permanece associado ao esforço de transformar a China de operadora de aeronaves derivadas de projetos soviéticos em uma potência capaz de projetar, testar e produzir caças próprios — caminho que, décadas depois, culminaria em aeronaves muito mais avançadas, como os J-10, J-11, J-16 e J-20.■












O J-8 está no DNA da atual aviação de caça chinesa, seu projeto certamente influenciou a evolução das aeronaves de caça chinesas posteriores.
Na foto, Gu Songfen (que não conhecia) está parecendo um professor idoso simpático 🙂
Dinheiro do contribuinte chines bem investido.
Já aqui no Brasil tudo vai para fundo eleitoral,orçamento secreto e emenda parlamentar para ser roubado.
Era para o Brasil ser uma potência militar tal qual a China, com uma indústria nacional extremamente forte, fabricando desde parafuso para aviação até satélites espiões, mas o governo brasileiro é nefasto! E quando me refiro ao governo, não estou me limitando a figura de uma única pessoa, mas sim a toda estrutura política que rege esse país desde sempre. Não importa se é de esquerda ou de direita, SÃO TODOS IGUAIS! só estão preocupados com populismo de fundo de quintal; estão preocupados em fazer conchavos partidários para ganhar benesses próprias, e nada mais! Não há projeto de estado, somente… Read more »
Salve senhores camaradas do Aereo e trilogia. Eu sempre sonhei em ver o nosso A-1 Centauro (AMX), com uma linha de combate no estilo dos AT-26 Xavante. Hoje não teríamos a carência que nos encontramos (ainda que um caça-bombardeiro o A-1 faria a diferença quantitativa). Sempre sonhei com uma versão EA-1 dedicada a guerra eletrônica e supressão de sitios AAe… Vale a pena lembrar que o J7 outro bombardeiro faz uso de uma versão do motor RR derivado do Spey MK202, por quê eu digo isso, pois a CELMA que tinha uma pequena participação na manutenção do Spey MK807, poderia… Read more »
Além da participação de niks repetitivos de um mesmo comentarista, a trilogia entupiu a si. Imagino a dificuldade e a extrema paciência dos editores para lidar com opiniões ditas políticas. Lixo. Imagino a quantidade de asneiras removidas somente pela leitura do que sobra e escapa. Não se dá ao trabalho de pesquisar em qualquer fonte para ao menos perguntar sobre aquilo que não compreende. É assim o perfil atual do comentarista. Desde parafusos até mísseis vê-se uma quantidade de infantilidades apoiadas em realidades dos anos 1970 acrescidas de ranços eternos. Apelar para sumirem daqui não adianta. Implorar para irem também… Read more »