F-14 IRIAF firing AIM-54

Antes de se tornar um ícone cinematográfico com Top Gun, o F‑14 Tomcat quase teve seu destino selado pelo Congresso americano. Custos crescentes, atrasos técnicos e disputas políticas colocaram em risco o caça naval mais avançado que os Estados Unidos já haviam projetado. Mas, em um enredo digno de thriller geopolítico, foi o Irã do Xá Mohammad Reza Pahlavi que entrou em cena e salvou o programa — e, de quebra, impulsionou o desenvolvimento do míssil ar-ar mais avançado da época: o AIM‑54 Phoenix.

Um Programa em Crise

O primeiro protótipo do F-14A Tomcat foi perdido em acidente

No início da década de 1970, a Grumman, fabricante do F‑14, enfrentava dificuldades financeiras monumentais. O desenvolvimento do Tomcat estava ameaçado por enormes custos imprevistos e atrasos tecnológicos. O Congresso norte-americano, pressionado por cortes orçamentários, flertava com a ideia de cancelar o programa. A US Navy temia perder sua única chance de substituir o envelhecido F‑4 Phantom II e de garantir a capacidade de defesa de frota contra ameaças soviéticas, como o bombardeiro supersônico Tu‑22M Backfire e mísseis antinavio lançados a longa distância.

O pedido do Xá que salvou o F‑14

Nesse contexto, o Irã, então aliado estratégico dos Estados Unidos, interveio. Em 1973, o Xá autorizou uma encomenda colossal: 80 caças F‑14A Tomcat e impressionantes 714 mísseis AIM‑54 Phoenix, além de peças sobressalentes, simuladores e treinamento de pilotos e técnicos em solo norte-americano. O contrato, estimado em cerca de US$ 2 bilhões (valor monumental para a época), não apenas garantiu a sobrevivência financeira da Grumman, mas também deu fôlego ao programa do míssil Phoenix, que igualmente enfrentava cortes iminentes.

O papel do Irã nos testes do sistema F‑14/AIM‑54

Mas o Irã não foi apenas comprador. Tornou-se parceiro essencial nos testes do sistema. O Xá mandou construir a Base Aérea Khatami, próxima de Isfahan, justamente para servir de palco a extensas campanhas de disparo do AIM‑54 Phoenix. Técnicos iranianos e americanos, trabalhando juntos, conduziram mais de 284 disparos reais de Phoenix — número que, à época, superava a quantidade de disparos feitos pela própria Marinha dos EUA.

Entre esses testes, destaca-se o disparo que se tornou lendário: um Phoenix interceptou um alvo drone voando a 24.000 metros, a Mach 4.4, realizando uma manobra de 17 Gs, alcançando impacto direto. Essa demonstração validou o alcance extremo do míssil, capaz de abater alvos a mais de 160 km de distância, e confirmou a letalidade do conjunto radar AWG‑9 + Phoenix contra ameaças múltiplas em altíssima velocidade.

Impacto no Conceito de Defesa de Frota

F-14 Tomcat e o míssil Phoenix

Os disparos iranianos forneceram dados valiosíssimos que ajudaram a consolidar o conceito de defesa de frota à longa distância da US Navy. É consenso entre especialistas que, sem o financiamento iraniano e a colaboração nos testes, o programa F‑14/AIM‑54 teria sido drasticamente reduzido, ou mesmo cancelado, e a Marinha dos EUA não teria desenvolvido plenamente sua doutrina de defesa aérea contra mísseis antinavio e bombardeiros soviéticos.

Revolução iraniana e sobrevivência dos F‑14

Em 1979, a Revolução Islâmica mudou completamente o jogo. Os EUA cortaram laços com Teerã. Técnicos americanos foram evacuados às pressas. Muitos AIM‑54 Phoenix armazenados no Irã foram sabotados ou bloqueados eletronicamente pelos EUA para evitar seu uso. Ainda assim, o Irã conseguiu manter operacional a maior parte de sua frota de F‑14s.

Os iranianos recorreram a soluções engenhosas: canibalização de peças entre aeronaves, engenharia reversa de componentes eletrônicos e até aquisição clandestina de peças sobressalentes através de redes paralelas.

Legado

O Xá do Irã, numa das mais curiosas ironias da Guerra Fria, assegurou não apenas o futuro do Tomcat, mas também a maturação do míssil AIM‑54 Phoenix — um sistema que, até hoje, permanece lendário pelo seu alcance e capacidade de abater múltiplos alvos em ambiente de combate aéreo.

Na próxima vez em que assistir a Top Gun ou encontrar um F‑14 exposto em algum museu, lembre-se: o icônico caça de asas móveis que virou astro de Hollywood quase foi morto no berço pelo Congresso. E foi salvo, ironicamente, pelo Irã — antes de se tornar um dos seus maiores adversários no xadrez geopolítico mundial.

O editor Alexandre Galante e o caça F-14 Tomcat preservado em Pensacola-FL, em 2015

FONTE: @RealAirPower1

SAIBA MAIS:

Os F-14 iranianos – história e estado atual de uma das estrelas de ‘Top Gun: Maverick’

Os verdadeiros ‘Top Gun’ – Os Ases Iranianos do F-14 Tomcat

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Sergio

Foram muito engenhosos.

Mas aonde estão estes F-14 depois da ” guerra dos doze dias”…

Por óbvio que israelenses e americanos, especialmente, não perderiam oportunidade de eliminar ou ao menos degradar bem a frota.

Plínio Jr

Mesmo que tenham sido destruídos aviões não operacionais sendo usados como iscas , estes aviões serviam de fonte de peças para a frota operacional..vai comprometer a disponibilidade e operacionalidade do vetor

Deadeye

E considerando o grande número de Bunkers no país, boa parte dos operacionais podem ter escapado.

Plínio Jr

Podem até terem escapado, mas depois dos eventos que aconteceram , com a total dominância aérea dos israelenses nos céus do Irã, se continua válido manter estes aviões operacionais, que é um grande desafio logístico aos iranianos e se não seria melhor substituí-los por um moderno vetor ….

Deadeye

Dizem que o Irã vai começar a receber SU-35 da Rússia, pelo fato que estão recebendo já os treinadores Yak, porém depois disso, não sei.

Plínio Jr

É a encomenda feita pelo Egito, são poucos aviões, precisam simplesmente substituir toda a sua frota de combate que vai de F-4s, F-5s, F-14s, Mig-29s, Su-24s que se provaram obsoletos …vai ser uma brincadeira cara para o Aiatolás …

Fabio Araujo

Nos anos 1980 essa dupla F-14 e Phoenix era praticamente imbatível, mas o tempo cobra o seu preço!

Sergio

Mas aí não existe tempo.

Mantidos e atualizados pelos americanos, caso o governo em teerã não fosse hostil ainda seriam capazes de fazer qualquer adversário correr pro banheiro.

Só olhar a capacidade desse míssil…

Mas sem o apoio correto virou peça de museu.

Artur

O Top Gun original teve o sucesso que teve, também devido à beleza do F14 Tomcat, para mim, um dos caças mais belos de todos os tempos. A inclusão no Top Gun Maverick foi uma excelente ideia também, além de ter protagonizado as melhores cenas.
Quanto à qualidade do avião, a guerra Irão-Iraque fala por si. Os pilotos Iraquianos fugiam, quando o F14 aparecia, pois os seus caças não tinham hipótese num confronto direto.

Fabio Araujo

O grande confronto era entre os Mig-25 iraquianos e os F-14 iranianos, nenhum outro caça iraniano consegui enfrentar os Mig-25 como os outros caças iraquianos também dificuldade contra os F-14.

Afonso Bebiano

MiG-25 só se saiu bem como velocista.

Tutor

Bonito com as “asas abertas”; lindão com as asas retraídas.
Três dúvidas que sempre tive sobre essa máquina:
1) Por que a USAF nunca o operou?
2) Por que somente o Irã foi cliente externo dele?
3) Por que optaram por atualizar o F-18 ao invés dele (muito mais avião)?

Kleber Peters

Uma das mais belas aves já feitas pelo homem. E com certeza o mais belo caça naval.

1 – A USAF tinha o Eagle, que atendia todas as necessidades dela, não necessitando das características do Tomcat e não querendo arcar com o ônus de sua operação (peso, custo, motor problemático).
2 – Pelo mesmo motivo da USAF, clientes externos preferiram o Eagle.
3 – Custos! O F-18 era mais barato de operar e atualizar, mais moderno e mais flexível no quesito de cumprir várias missões.

José Gregório

E complementando, o F-18 só precisa de 1 piloto, enquanto o F-14 de 2, isso faz muuuuita diferença, mormente hoje em dia com a escassez de pilotos em todas as forças aéreas. Fora que o F-14 era muito caro de manter, muitas partes móveis, de altíssima tecnologia, não dava mais.

Leandro Costa

Tutor, vou te responder do último ao primeiro para ficar mais fácil. 3) O F-18 já era um projeto mais moderno do que o F-14, a proposta de atualização dele, mesmo sendo uma aeronave totalmente nova, era mais fácil de vender ao Congresso. Ele era mais versátil e mais adaptado para as ameaças que se encontravam na época. Em teoria sairia mais barato e faria bem o serviço. O Tomcat deveria ser substituído pelo NATF, o equivalente da USN ao que se tornou o F-22 na USAF (programa ATF), mas os custos do programa se tornaram proibitivos e o programa… Read more »

Tutor

Obrigado pelos esclarecimentos.

Fábio Mayer

Uma aula! Obrigado!

Edimar

Uma pergunta que vem a tona, tu fez uma simples pergunta e tem gente que vem e dá um “deslike”, vai entender, parece que tem pessoas que entram em forúns especificos somente para “causar”.

Joao

O congresso americano tem de ser realmente convencido.
Não é tão fácil, pq há inúmeros ex-militares de todas as experiências e postos em funções.

No Brasil, há a necessidade de explicar para quem não sabe a diferença de cabo pra sargento…. Ou que acha q Cavalaria é por causa do cavalo….

Os civis q estão sendo formados na área de defesa, infelizmente, a maioria, tem se mostrado pífios, por já serem ideologicamente comprometidos, e ansiosos por aparecer, e não por produzir conhecimento.

Um dos grandes fatores para a diferença de formação é que se exige experiencia

Leandro Costa

Pelo contrário. A maioria dos civis que eu vejo sendo formados em matéria de Defesa não apenas produz conhecimento como inclusive é difícil até de tentar adivinhar a orientação política. No final das contas não deveria fazer tanta diferença. Até a URSS era muito poderosa militarmente falando. O problema é que é um ciclo vicioso. A maioria segue carreira acadêmica porque precisa de sustento. Não há investimento governamental suficiente nessa área para que as pessoas vivam delas. Não existe carreira. Você pode ser contratado como servidor civil de um CCOPAB por exemplo, mas são pouquíssimas vagas. Não existe uma carreira… Read more »

juggerbr

Que belíssima aeronave, pena que os muitos problemas e custos elevados a aposentaram definitivamente. Tomara que as aeronaves iranianas tenham sido preservadas, não para serem usadas em ataques, mas para a apreciação por sua beleza.

Wagner

Tem uma notícia circulando que a China vai vender 36 J 10 para o Irã.
Irã usou muitas iscas principalmente de lançadores móveis.

Davi

Quanta bobagem comentada aqui. O F-14 sempre foi preferido dos pilotos americanos em relação ao F-18, porém, por causa do fim da guerra fria, não se justificava mais um caça tão potente, caro e poderoso como o F-14. Então foi imposto goela abaixo os brinquedinhos F-18. F-14 é o caça mais lindo e poderoso que já existiu se levarmos em consideração o tempo dele. Pena que o tempo passa, a coisas se modernizam e perdem a graça, como os caças atuais que se tornaram feios e sem graça.

Lorde Baden-Powell

Meu eterno caça dos Comandos em Ação!