Do Mustang ao Thunderjet: Como o Reabastecimento Aéreo transformou a Aviação de Caça
Boeing KB-29 reabastece Republic F-84G. Foto: USAF
Na década de 1950, a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), por meio do Comando Aéreo Estratégico (SAC), consolidava-se como uma potência global de projeção de força, combinando bombardeiros a jato com aviões-tanque. No entanto, permanecia uma dúvida operacional: como empregar os caças de escolta, agora movidos a jato, que consumiam combustível rapidamente e tinham alcance limitado?
Durante a Segunda Guerra Mundial, aeronaves como o P-51 Mustang escoltavam bombardeiros até seus alvos. Com os caças a jato do pós-guerra, como o F-84 Thunderjet, essa função tornou-se inviável devido à limitação de alcance. As primeiras tentativas de solução incluíram projetos experimentais como Tip-Tow, Tom-Tom e FICON, que propunham literalmente rebocar os caças acoplados às asas ou transportá-los em bomb bays. Contudo, a complexidade e os riscos, inclusive acidentes fatais, levaram ao cancelamento desses projetos.
A virada veio com o avanço do reabastecimento aéreo. A empresa britânica Flight Refueling Limited desenvolveu tanques externos com sondas de reabastecimento integradas. Em 1950, o coronel David C. Schilling realizou o primeiro voo transatlântico sem escalas por um caça, usando reabastecimento aéreo com bombardeiros britânicos Avro Lincoln. A travessia, que antes levava até 10 dias com múltiplas paradas, foi feita em pouco mais de 10 horas.

No contexto da Guerra da Coreia, o desenvolvimento acelerado de sondas fixas em tanques externos e a introdução do F-84G com receptáculo de reabastecimento integrado permitiram a primeira missão de combate com reabastecimento aéreo, em 1951. Três RF-80As duplicaram seu alcance e fotografaram alvos estratégicos no norte coreano.
O verdadeiro teste logístico veio em 1952, com a operação Fox Peter One. Sessenta F-84Gs do 31º Wing de Escolta de Caça, sob o comando do coronel Schilling, cruzaram o Pacífico até o Japão, com apoio de 24 aviões-tanque KB-29P. A travessia incluiu reabastecimento sobre o Texas, travessia sem alternativas de pouso até o Havaí e posterior “salto de ilhas” até Yokota, Japão. A missão foi concluída com sucesso em menos de duas semanas, estabelecendo um novo padrão de mobilidade estratégica.

O sucesso da operação motivou repetições, como a travessia do 27º Wing em outubro de 1952 e, mais tarde, a operação Longstride, em 1953. Nesta, oito F-84Gs voaram do Texas até o Marrocos em pouco mais de 10 horas, com apoio dos novos aviões-tanque KC-97. Simultaneamente, outro grupo alcançou a Inglaterra, estabelecendo a viabilidade de mobilizações rápidas transatlânticas.
Apesar da transferência das unidades de caça do SAC para o Comando Aéreo Tático (TAC) em 1957, o reabastecimento aéreo se tornaria padrão. A partir dali, nenhum caça americano foi projetado sem essa capacidade. Essa decisão estratégica mostrou-se essencial nas décadas seguintes, especialmente durante o conflito no Vietnã, quando a mobilidade global e a permanência prolongada no ar se tornaram fundamentais para a doutrina aérea dos EUA.


E tudo começou com o ‘Question Mark,’ um Fokker C-2,em 1929 com ninguém menos que Carl Spaatz em comando, com Pete Quesada e Harry Halverson como membros da tripulação.