ESPECIAL: 80 anos da vitória da FAB na defesa do Atlântico Sul – Parte 4
Cerimônia de recebimento dos primeiros PV-1 Ventura pela FAB, realizada em 30 de março de 1944 - World War Photos
Novos deveres, velhas missões (1944)
Por Lorenzo Baer
Um novo ano prometia grandes mudanças e uma significativa evolução no papel da Força Aérea Brasileira (FAB) na guerra. Primeiramente isso foi proporcionado pela certificação da primeira e única turma da Unidade de Treinamento Brasil-Estados Unidos (UsBaTu).
Criada em outubro de 1943, essa unidade tinha como intuito aperfeiçoar os pilotos brasileiros nas táticas de guerra antissubmarino, e na utilização da mais nova aeronave deste perfil da Força Aérea Brasileira: o PV-1 Ventura.
Atuando de maneira ad-hoc a unidades americanas baseadas no Brasil e equipadas com o modelo, o grupo de equipes aéreas selecionadas para o programa passaram por árduos treinamentos. No caso dos pilotos, era exigido um mínimo de 100 horas de aulas práticas, que envolviam aperfeiçoamento na arte de navegação e uso de radar, táticas de proteção de comboios e patrulhas de longa duração.
O programa se completaria somente em 30 março de 1944, e apesar de formar profissionais extremamente competentes e qualificados, se provaria redundante frente aos desenvolvimentos da guerra.
Isso simplesmente porque a atividade submarina alemã ao largo da costa brasileira se reduziu ao mínimo, com a maioria dos enfrentamentos entre as aeronaves aliadas e submersíveis se deslocando para o lado africano do Atlântico. As perdas de 1943 fizeram com que a Kriegsmarine aceitasse o fracasso do bloqueio submarino à América do Sul, com a região se transformando mais em uma cilada do que a fácil zona de caça pensada anteriormente.
O treinamento cada vez mais amplo de pilotos e equipes de terra da FAB foi uma das razões principais para esta situação. Outra seria também o recebimento de novas aeronaves, que permitia uma ampliação das atividades da FAB, tomando da Força Aérea do Exército dos EUA (USAAF) e da Marinha Americana (USN) lentamente a responsabilidade pela patrulha da costa brasileira.
As principais adições a esse perfil foram 21 North American B-25J Mitchells, 30 Douglas A-20K Havocs e quatro PV-2 Harpoons, adicionados entre abril e novembro de 1944. Em conjunto com remessas pontuais de PBY Catalinas, essas aeronaves formavam a espinha dorsal das unidades de patrulha marítima da FAB em fins do ano.




Mas à medida que tais adições robusteciam o perfil da FAB aqui no Brasil, a atenção da Força se deslocava para outros eventos além-mar. A formação do 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GavCa) em fins de 1943, e da 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação (1º ELO) em meados de 1944, privaram as unidades costeiras brasileiras de alguns de seus melhores talentos.
O convite irresistível para os pilotos de ingressarem nessas seletas unidades, que finalmente enfrentariam um inimigo visível frente a frente, acabou por atrair grande parte dos pilotos com maior experiência na guerra pela FAB até então. Entre eles estavam o 2º Tenente Alberto Martins Torres e o 1º Tenente Miranda Corrêa, dois dos aviadores presentes no cockpit do “Arará” durante o memorável combate de 31 de julho de 43.
A criação do 2º Grupo de Aviação de Caça (2º GavCa) em agosto de 1944 foi outro golpe às experientes tripulações antissubmarino da FAB, que viram mais uma leva de pilotos talentosos partir para novos desafios na aviação de caça. No entanto, diferente das outras unidades acima mencionadas, o 2º GavCa passou apenas breve tempo no exterior, em missões de treinamento no Panamá e nos EUA, antes de retornar ao Brasil.

Assim, apesar da perda de pilotos para esta unidade, esse núcleo ainda permaneceria nas terras tupiniquins, podendo transmitir seus aprendizados para uma nova geração de pilotos da FAB.
Outro ponto que ajudou no equilíbrio da FAB neste período foi a reestruturação completa da Força Aérea no mês de outubro, que largaria sua estrutura baseada em formações provisórias em bases fixas para a criação de verdadeiras esquadrilhas, que poderiam ser deslocadas para qualquer parte do território brasileiro de maneira independente.
Além de ajudar na racionalização da força, aglutinando tipos específicos de aeronaves sobre certas unidades, essa reformulação ajudou a distribuir pilotos de maior experiência de maneira mais homogênea pelo território brasileiro, ajudando no processo de formação de novos cadetes.
Com relação às operações, houve uma leve alteração: a emoção dos combates antissubmarino de 1943 fora substituída por uma série de operações bem mais monótonas, quase uma repetição do que havia acontecido em 1942 – desde modo, basta dizer que foram raros os encontros entre os pilotos da FAB e os submersíveis ao longo do ano.

No entanto, a USN e a USAAF tiveram mais sorte: dois U-Boots foram afundados pelos americanos ao largo da costa brasileira ao longo de 1944, o U-177 (a meio caminho entre o estado de Alagoas e a ilha Ascensão) e o U-863 (ao largo de Recife).
Pode-se dizer por certo, no entanto, que a missão mais importante da FAB sobre os mares do Brasil se deu precisamente em 1944. Com a expectativa de que os primeiros elementos da Força Expedicionária Brasileira (FEB) partissem para a Itália a partir de julho, foi desenvolvido um grande planejamento de proteção dessas unidades em seu deslocamento.
A FAB tinha papel de destaque nesse plano, sendo incumbida de cobertura aérea contínua aos comboios da FEB enquanto estes se deslocavam ao longo da costa. Em especial, as tripulações de Catalinas, Venturas e Harpoons se encontravam continuamente extenuadas, devido a essas longas e monótonas patrulhas de proteção, que se estendiam por mais de 10 horas.
Mas as unidades da FAB ainda engajadas na Batalha do Atlântico em fins de 1944 sabiam que este não era o momento de diminuir os esforços. A vitória já estava ao alcance, à medida que a ameaça submarina alemã praticamente cessou de existir no litoral brasileiro.
Na Parte 5: Por fim, a vitória (1945)
LEIA TAMBÉM:
ESPECIAL: 80 anos da vitória da FAB na defesa do Atlântico Sul – Parte 2
ESPECIAL: 80 anos da vitória da FAB na defesa do Atlântico Sul – Parte 3

A título de curiosidade esse B-25 “70” da foto “sobreviveu” e está em estado lastimável no museu de Bebedouro SP
O legal foi constatar o nascimento da Aviação de Patrulha da FAB, que operou equipamentos no Estado-da-Arte nas três décadas seguintes ao pós-guerra (PV-1/2 Ventura/Harpoon, P2V Neptune, S-2 Tracker).