ESPECIAL: O modelo de formação e treinamento na Força Aérea do Paquistão
Por Sérgio Santana*
Seleção e formação dos pilotos militares paquistaneses
Para ser nomeado piloto militar no Paquistão (“General Duty Pilot”, Piloto de Serviço Geral) o candidato/candidata inicialmente deve atender aos seguintes requisitos: ter nascido no Paquistão; idade entre 16 e 22 anos; altura mínima de 1.62m; ser solteiro/solteira; ter visão nível 6/6 em cada olho; obter média mínima de 6.0 nas avaliações de Matemática, Estatística, Ciência da Computação e Biologia durante o Ensino Médio; e, finalmente, ter sido aprovado no teste virtual composto de duas partes (Teste de Inteligência, incluindo Questões de Qualificação Múltipla (MCQS) de Inteligência Verbal e Inteligência Não Verbal, seguido de um Teste Acadêmico, com Questões de Qualificação Múltipla de Física e Inglês), com a mesma média mínima.
Os testes são aplicados duas vezes por ano (fevereiro/março, para homens e mulheres e junho/julho, exclusivamente para homens). Uma vez aprovado, o/a candidato/a começará o período de treinamento na Base Aérea de Risalpur, na qual permanecerá por quatro anos (2 anos como cadete e 2 anos como oficial piloto) será oferecido na PAF Risalpur.
Contudo, antes mesmo da aplicação dos testes intelectuais e físicos, o/a candidato/a é submetido/a a uma extensa e detalhada investigação psico-social, que além de avaliar seu preparo psicológico pode resultar na rejeição da sua candidatura caso seja verificado que foi rejeitado duas vezes pelo Conselho de Seleção Inter-Serviços (Inter Services Selection Bureau, ISSB); dispensado/a, removido/a ou impedido/a de qualquer serviço governamental; realizou o teste dentro de um intervalo de 120 dias (quatro meses) da sua última participação no ISSB; demitido/a, removido/a, excluído/a das Forças Armadas do Paquistão; condenado/a em Tribunal por qualquer crime hediondo; permanentemente inapto pelo Conselho Médico de Apelação; e, por fim, que se retirou de qualquer faculdade ou instituição vinculada às Forças Armadas do país por motivos disciplinares.
O treinamento para os pilotos de combate é composto por três fases principais: formação primária e básica na Academia da Força Aérea do Paquistão, Risalpur; treino de combate na Ala 37, em Mianwali; e treinamento de táticas avançadas e de armas na Escola de Comandantes de Combate, em Sargodha.
Por sua vez, o treinamento para os pilotos da aviação de transporte da Força Aérea do Paquistão tem a mesma formação inicial em Risalpur e o treinamento na Ala 37, mas é complementado pela formação em Transporte Tático na Escola de Conversão de Transportes, em Chaklala.
A Força Aérea do Paquistão também opera o Colégio de Guerra Aérea em Karachi para a formação acadêmica de pós-graduação dos seus oficiais.
Risalpur, a primeira parada

Na Academia Asghar Khan em Risalpur, os cadetes selecionados ingressam no Colégio de Treinamento de Voo, que administra a Ala de Treinamento de Voo, integrada pela Ala de Treinamento de Voo Primário, onde voam o PAC MFI-17 ‘Mushshak’ e o MFI-395 Super Mushshak, e a Ala de Treinamento de Voo Básico, operando o jato intermediário e avançado do PAC/NAMC K-8 (‘Karakorum-8’).
Na fase de Voo Primário, os/as cadetes estudam disciplinas relacionadas com a aviação, como aerodinâmica, motores e navegação, mas o curso também inclui assuntos gerais como a língua inglesa, física e matemática, bem como interesses especializados que abraçam temas como Filosofia do Islã, história do Paquistão e assuntos internacionais. Depois de terem frequentado 2.640 horas/aula, os/as cadetes são inscritos nos exames finais, definidos e conduzidos pela Universidade de Peshawar.

Somente os aprovados nesta fase passam para o treinamento de voo, começando com um curso de classificação de um mês que implica cerca de 7-10 horas de voo no MFI-17. Os “sobreviventes” desta fase são submetidos a 4-5 meses de treinamento nos quais voam 50 horas no Super Mushshak, que deve ser “solado” nas primeiras 12-14 horas desta fase. Também incluídos nesta fase constam exercícios de navegação, simulação de procedimentos de recuperação de panes no motor e voo por instrumentos.

Na fase seguinte, frequentemente sobram metade dos 80 selecionados iniciais, que irão voar o K-8 no Esquadrão 1 de Treinamento de Voo Básico. A aeronave deve ser voada por 130-135 horas e “solada” nas primeiras 13 horas. Nesta fase acontece o reforço de voo por instrumentos, voos noturnos, em formação, manobras e navegação em altitude média e baixa.
Já como cadetes da Academia da Força Aérea PAF que aprenderam a voar, ganham suas “asas” e recebem o posto de Oficial de Voo. No final do seu Treinamento de Voo Básico, são bifurcados nas Aviação de Combate e Transporte Tático e seguem para a já mencionada Ala 37.
Seguida de Mianwali

Uma vez na Ala 37, o/a já oficial ingressa na Unidade de Conversão de Combate Nº1, na qual aprendem a empregar os treinadores K-8P como plataformas de armas, o que inclui formações de voo em combate, além de outras habilidades, que somam 85 missões.
A fase final do curso, que demora menos de um ano em média, é a prerrogativa do Esquadrão 25, que voa uma mistura de Chengdu FT-7P e F-7MP.
Os pilotos de melhores resultados são alocados para as unidades de conversão aos Dassault Mirage III e 5, Lockheed Martin F-16, PAC JF-17 e Chengdu J-10.

Chaklala…
Já em Chaklala, aqueles que se tornarão pilotos de transportes táticos ingressam na instrução do Esquadrão Nº6, administrado pela Ala 35, que voa uma frota mista de C-130B e C-130E. A formação dura o mesmo período, menos de um ano.
Três ou quatro anos depois, estes oficiais são elevados ao seu primeiro posto de serviço operacional como Tenentes de Voo.
E, por fim, os “Top Gun” de Sargodha

Uma vez que os pilotos tenham passado pelo treinamento de combate na Ala 37 (Treinamento de Combate), começam suas carreiras operacionais como Tenentes-Aviadores.
Tornaram-se pilotos de caça, no entanto, este não é o fim de seu treinamento formal, já que os esquadrões de combate são escolhidos para treinamento tático avançado na ´Escola de Combate dos Comandantes, em Sargodha, onde aprendem os detalhes da arte do combate aéreo durante um curso intensivo e rigoroso com duração de seis meses.
A Escola de Combate dos Comandantes (Combat Commanders School, CCS) foi criada em maio de 1976, depois que se sentiu que as habilidades adquiridas pelos esquadrões de combate de elite da Força Aérea paquistanesa e os melhores pilotos de caça deviam ser transmitidos de forma institucionalizada para o resto dos esquadrões e pilotos da Força.
A CCS tem três unidades subordinadas, especificamente o Esquadrão F-16 (com F-16As), o “Esquadrão de Fusão” (com Mirage 5PAs) e o Esquadrão F-7 (com F-7MPs), com seus instrutores atuando na linha de frente em caso de conflito.



Embora a CCS tenha sido estabelecida para “aperfeiçoar ainda mais as habilidades dos já formados”, transformou-se em uma organização importante e vital dentro do estabelecimento de treinamento da Força – tanto que nenhum piloto da Força Aérea do Paquistão pode esperar permanecer ou progredir para o status de piloto de caça dos seus esquadrões de linha de frente sem passar pelo extenuante currículo de treinamento da CCS.
O sistema de formação e o currículo da CCS é secreto e, como tal, não está aberto aos pilotos de Forças aéreas estrangeiras aliadas. O CCS treina os dois comandantes de combate (pilotos de combate) e controladores de combate (controladores aéreos de combate).
A competição dentro da CCS é incentivada: todos os anos há um troféu para o ‘Melhor Combate Commander’ e ‘Best Combat Controller’, que é concedido anualmente em Cerimônia de formatura, baseado no modelo da “Top Gun” da Marinha dos Estados Unidos.
O estilo de treinamento tem ênfase na prática de voo. De cada 20 oficiais que ingressam na CCS, até três costumam ser reprovados. Para entrar na CCS, o/a candidato/a tem de ser um Oficial de carreira da Força Aérea; ter a patente de Líder de Esquadrão, Comandante de Ala ou Capitão de Grupo; e ser Piloto de Caça.
Quando se formam na CCS, os Comandantes de Combate voltam para seus esquadrões, disseminando o conhecimento adquirido. Aqueles que se saem muito bem são enviados para a Academia da Força Aérea por dois anos como instrutores.

NOTA: o Autor agradece a colaboração de “Robert K” (Reino Unido) na resolução de dúvidas para o texto acima.
*Bacharel em Ciências Aeronáuticas (Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL), pós-graduado em Engenharia de Manutenção Aeronáutica (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC/MG). Colaborador de Conteúdo da Shephard Media. Colaborador das publicações Air Forces Monthly, Combat Aircraft e Aviation News. Autor e co-autor de livros sobre aeronaves de Vigilância/Reconhecimento/Inteligência, navios militares, helicópteros de combate e operações aéreas
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Meus parabéns a matéria, e obrigado ao autor.
Duas perguntas:
1- aparentemente, o Paquistão admite mulheres em sua Força Aérea, e a Índia não, certo?
2- o que é “solado”?
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Voar sozinho.
Bah Tchê….QRM …os caras até a explicação te negativam! 73
Dou a mínima. Mordam a bunda.
Ah sim, obrigado.
Há mulheres pilotos de caça na Índia.
Perguntei, porque na matéria sobre o Paquistão, explicita isso, mas o da Índia, não.
Olá Wilber. Solado, vem da expressão voo solo, ou seja, quando a aluno comanda o voo a primeira vez sem a presença do instrutor. Momento ímpar na vida de qualquer piloto aprendiz
Como a questão das “castas” afeta a política de recrutamento da Índia para suas Forças Armadas? Alguém tem maia informações?
informações de um indiano: só os da casta mais elevada (Brahmins) podem ser pilotos. Todos podem ser militares, mas algumas funções só os Brahmins.
“”Sim, dalits, também conhecidos como “intocáveis” ou “párias” na Índia, podem ser oficiais militares. A Constituição da Índia proíbe qualquer forma de discriminação com base na casta, e há um sistema de cotas para garantir a representação de dalits em instituições estatais, incluindo as forças armadas. “”
Olha, não falei com militares, mas diplomatas brasileiros que serviram na Índia dizem que apesar de todas as medidas, sérias ou não, o sistema de castas interfere muito nos postos militares e até de serviços em geral. Segundo um deles, na embaixada brasileira havia um cozinheiro que se recusava a, por exemplo, pegar um lixo no chão, tinha de ser um funcionário de outra casta. Não sei se é ainda assim.
Foi o que me falaram em muito tempo de convivência.
A matéria mostra que todo modos operante de formação e muito séria, a escolha dos integrantes parece ser de forma bem idônea onde são escolhidos cidadãos idôneos com vida preguessa correta de acordo com a legislação local. Tudo muito sério e correto. As vezes algumas pessoas acham que existem países de pessoas más onde tudo e de qualquer jeito ou cheio de idealismo. Mas quando vc passa a conhecer a cultura mais um pouco vc vê que não bem assim.
Curioso ver aqueles “MIG21” (entre aspas, viu pessoal?) utilizando mísseis aparentemente Sidewinder… 🙂
São cópias chinesas do Mig-21 chamados de F-7s que podem até usar AIM-9s que os paquistaneses receberam aos montes dos EUA junto dos F-16s… quase a FAB comprou estes aviões antes de optar pelo segundo lote de F-5s ex-USAF.
Eu acho que o erro foi de quem planejou a operação e não dos pilotos indianos
Proporcionalmente, a índia tem menos AWACs do que o Paquistão.
“ter visão nível 6/6”
Só isso eu já me exclui
A mim também, além da idade, não ter nascido no Paquistão e o Inglês…
Só não entendi a necessidade de ter média 6 em Biologia no Ensino Médio.
sem nepotismo fica mais fácil.
A PAK é um exemplo do quão volátil é a geopolítica e as “alianças estratégicas” que nações dominantes desenvolvem com nações periféricas. O Paquistão durante muito tempo foi um grande aliado de Washington, permitindo por exemplo que aeronaves U-2 fossem baseadas em seu território para voos de reconhecimento sobre a URSS. Como um bom aliado recebeu aeronaves de primeira linha em sua época como o F-104 e o F-16. Assim como outras nações atoladas em cenários regionais complicados, como Índia, Grécia, Taiwan, Catar, recorreu a armamentos franceses (como o Mirage-III) para diversificação da sua frota. Na década de 90 foi… Read more »
Nos últimos 10 anos (2015–2025), a Força Aérea do Paquistão (PAF) perdeu pelo menos 17 caças em acidentes ou combates.
Já a Índia perdeu 5 caças de geração 4++ em um único dia.
– JF-17 Thunder: 5 perdas, todas em acidentes durante missões de treinamento.
– FT-7 / F-7PG: 4 perdas, incluindo o acidente fatal da piloto Marium Mukhtiar em 2015.
– Mirage III / Mirage V: 6 perdas, em acidentes operacionais.
– F-16 Fighting Falcon: 2 perdas, uma em acidente durante ensaio em 2020 e uma abatida em combate em 2025.
J-10CE e JF-17 são muito bacanas, mas eu fiquei curioso com qual block do F-16A eles voam e também como é o Mirage III deles. Provavelmente modernizado…
Peace Gate I e II – Bloco 15 com F-100-PW200 – 40 unidades entregues entre 83 e 87.
Peace Gate III e IV – Bloco 15 OCU – 26 unidades entregues em 2010.
USADAS – Bloco 15ADF – 13 unidades adquiridas da Jordânia.
Passaram MLU com radar APG-68v9, ALQ-131e pod ATLIS.
Belo texto, obrigado! Me pareceu bem rigorosa a seleção…..o cara tem que ser bão mesmo.
Mais fácil ser piloto militar no Paquistão do que aqui. Podem fazer prova duas vezes por ano. Afinal devem ter mais aeronaves.
Interessante observar o pragmatismo na concepção de caças do Paquistão, pois fizeram do desenvolvimento do JF 17 um objetivo central ao invés de comprar vários modelos.
Na questão do enfrentamento junto a India, percebo mais erro estratégico da Índia do que problemas no Rafale e que tal situação sirva de exemplo.
Pergunta para quem conhece. O modelo de formação da FAB tem mais semelhanças ou diferenças?
Diferenças.
Poderia explorar/explicar um pouco mais? Me parece que a FAB também exige uma formação academica sólida.
Cel., desenvolva um texto a respeito pra nós, acho que os Editores publicariam.
Quais são as principais diferenças? Se pude explicar, desde já agradeço.
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