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O mito do IAI Nesher ‘feito em Israel’

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IAI Nesher
IAI Nesher

Por Tom Cooper

Alguns mitos permanecem persistentes, não importa o quanto sejam falsos. Talvez o melhor exemplo seja o mito sobre o “Israeli Aircraft Industries Nesher” – supostamente um caça Mirage 5 “feito em Israel”.

Claro, Israel fez um pedido para 50 destes em 1966; então a França impôs um embargo e confiscou todas as aeronaves; depois as aeronaves foram tomadas pela Força Aérea Francesa como Mirage 5Fs … mas é aí que a realidade termina.

O resto da história conhecida é pouco mais do que um mito: muitos dos que têm menos pistas sobre esse caso adoram insistir que Israel também pagou por essas aeronaves, mas nunca as conseguiu, e que a França nunca devolveu o pagamento … supostamente Israel então “resolveu o problema através da espionagem”, e “aprendeu” como fazer seus próprios Mirage com a ajuda de “espiões” como Alfred Frauenknecht (um engenheiro suíço trabalhando em uma empresa envolvida na produção de licenças do Mirage na Suíça), etc. etc. etc…

Em primeiro lugar, não: não é verdade que os franceses mantiveram o dinheiro, mas nunca entregaram. Sim, o acordo original para 50 Mirage 5Js foi cancelado em 1968, mas Paris e Tel Aviv negociaram o retorno dos pagamentos israelenses para eles. Concluída em fevereiro de 1972, conversações relacionadas resultaram na devolução de 32 milhões de francos franceses a Israel para esse lote de aeronaves.

Em segundo lugar, a história sobre Alfred Frauenknecht entregando ‘blueprints’ para Mirages para Israel foi outro encobrimento: Frauenknecht estava trabalhando em questões relacionadas a motores, para uma empresa suíça envolvida na produção local do Mirage IIIS – e estava fora de condição de fornecer assistência técnica e especificações para o Mirage 5J.

IAI Nesher da IAF

Na verdade … em janeiro de 1968, a Rockwell International fez um acordo com a Dassault para que outro lote de Mirage 5Js fosse entregue a Israel. Para melhor encobrir a história, as fuselagens foram feitas pela Aerospatiale, asas na Reims-Cessna, enquanto os motores foram fabricados pela SABCA, uma subsidiária belga da Dassault.

Os 51 Mirage 5Js e 10 Mirage 5DDs foram então entregues a Israel a bordo dos transportes C-141 StarLifter da USAF, em 1970, e montados por uma equipe de engenheiros da Rockwell no que era então “Israeli Aircraft Industries”.

Não, isso não é uma “descoberta de Tom Cooper”: a história da entrega e montagem de Mirages de fabricação francesa para Israel foi publicada na revista americana Wings, em 2001, em uma entrevista com o projetista de aviões dos EUA, Gene Salvay.

Salvay estava trabalhando para a North American desde a Segunda Guerra Mundial, e estava envolvido em tipos como B-25, F-86, F-100 etc. Em meados da década de 1960 (após o cancelamento do interceptador Rapier XF-108), a North American foi comprada pela Rockwell – originalmente uma empresa especializada na fabricação de peças para carros, mas curiosa para expandir, também para lançar a produção de peças sobressalentes em Israel.

Em 1970, Salvay foi um dos principais projetistas de aeronaves nos EUA. Assim, ele foi enviado pela Rockwell a Israel para ajudar a instalar o motor General Electric J79 na fuselagem do Mirage. Foi assim que ele presenciou a entrega e montagem do Mirage 5Js por técnicos americanos na Israeli Aircraft Industries.

De fato, foi assim que Salvay passou a projetar o Kfir – com bastante ajuda da Lockheed e da Dassault – antes de retornar aos EUA, onde projetou o bombardeiro B-1 (entre outros).

O restante da história foi desenterrado por Albert Grandolini na França, enquanto David Lednicer fotografou a foto abaixo, mostrando a placa do fabricante do primeiro Mirage 5J (entretanto exposto no Museu da Força Aérea Israelense em Israel).

É claro que tudo isso é uma questão bastante emocional para os israelenses interessados. Sem surpresa, mesmo os “pesquisadores mais autorizados” ainda insistem que “apenas” este – “o primeiro Nesher” – foi “fabricado na França”.

Na verdade, a história do envolvimento da Dassault com a IAI prosseguiu: na África do Sul, é um “segredo público” quantas partes de “IAI Kfirs” adquiridas para fabricar caças Cheetah nas décadas de 1980 e 1990 também foram “feitas na França”.

Placa do fabricante do IAI Nesher no Museu da Força Aérea Israelense

FONTE: Texto da página do autor no Facebook

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Amadeu Parrinha
Amadeu Parrinha
Reply to  Alexandre Galante
1 ano atrás

Eu me lembro que em 1968/69 Israel levou a cabo um operação de resgate de 3 navios contendo armamento comprado por Israel e embargado por França,a operaçâo foi espectacular, os navios estavam docados num porto francês e eles conseguiram sequestraram os navios, alguns dias após o sequestro chegaram a Israel.
Não sei se tiveram alguma ajuda, suponho que sim.

Mauricio_Silva
Mauricio_Silva
1 ano atrás

Olá.
Reportagem muito interessante. Eu fui um dos que acreditei no “mito”.
Quem disser que “propaganda é a alma do negócio” estará completamente certo… 🙂
SDS.

Vinicius
Vinicius
Reply to  Mauricio_Silva
1 ano atrás

Assim como a falácia de que o abate do U-2 foi fruto única e exlusivamente de ‘traição’

Delfim
Delfim
1 ano atrás

Propaganda é a alma do negócio – Jacob, Tio.

Ricardo Bigliazzi
Ricardo Bigliazzi
Reply to  Delfim
1 ano atrás

Qualquer semelhança com a China é mera coincidência…

Mikhail Bakunin
Mikhail Bakunin
Reply to  Ricardo Bigliazzi
1 ano atrás

Bingo!

Jota Ká
Jota Ká
Reply to  Delfim
1 ano atrás

Concordo que propaganda é a alma do negócio.
Por este motivo o grande continente que habitamos se chama “América”, e não “Colúmbia” ou Colômbia. Afinal, o 1º foi o idealizador e comandante executor da empreitada que desvendou o novo continente (pelo mundo civilizado da época, claro!), e este, mero piloto de navio (e bom escriba, motivo do sucesso).

Mauro
Mauro
1 ano atrás

Isso é uma prova da importância do Estado de Israel para o mundo e de que Bolsonaro está correto em tomar partido em prol de Israel. Não pensem também que um país como o Brasil pode tentar jogar nas duas pontas, teoricamente colhendo benefícios múltiplos no caso da guerra comercial entre China e EUA. Não, não é possível atender a dois senhores, de novo, Bolsonaro tomou a atitude mais correta em se aliar aos EUA. Outra, a Europa não diz abertamente e até crítica Bolsonaro, mas estão de acordo com ele quando ao menos denuncia a prática comercial predatória e… Read more »

Walfrido Strobel
Walfrido Strobel
Reply to  Mauro
1 ano atrás

O Brasil não ganha nada tomando partido em disputas internacionais, o melhor é sempre permanecer como não alinhado com nenhum dos contendores.

Dudu
Dudu
Reply to  Walfrido Strobel
1 ano atrás

Isso mesmo-Nem conseguimos resolver nossos problemas basicos e querem influir na politica internacional…caiam na real

Delfim
Delfim
Reply to  Mauro
1 ano atrás

Não foi só pelo $$$, isso só pesou 99%.

JPC3
JPC3
Reply to  Mauro
1 ano atrás

Por que nada que preste?

Não sabe que Israel é líder em tecnologia em diversas áreas?

Não defendo alinhamento com Israel, mas temos sim muito a aprender com eles.

Leandro Costa
Leandro Costa
Reply to  Mauro
1 ano atrás

Então Antonio, você está dizendo que um país, qualquer que seja, não pode tomar decisões soberanas, seja lá quais forem, mas que irritem ou firam as sensibilidades de país X ou Y, de certa forma nos tornando reféns dos seus ítens (2) e (3)? Do jeito que postou, há uma tonalidade de que eles estariam justificados em provocar atentados em nosso país.

Antonio Palhares
Antonio Palhares
Reply to  Mauro
1 ano atrás

O Brasil tem que cuidar da sua vida e dos seus interesses. Sem intromissão em contendas dos outros. Precisa melhorar a educação, saúde e segurança do seu povo e acabar com a nefasta corrupção. O Ideal é que fique neutro em situações que não lhe competem.

Mauro Oliveira
Mauro Oliveira
1 ano atrás

Sensacional!

Antunes 1980
Antunes 1980
1 ano atrás

A França sempre dominada por ideologia de esquerda, nos mostrou em 1966 que estava disposta a ver a destruição de Israel.
O apoio quase irrestrito da USRR contra Israel, armando até os dentes os lunaticos arabes, nos mostra que o anti semitismo é um câncer inexplicável durante a história moderna.
Depois tem gente que vem criticar Israel por agir de forma dura contra seus vizinhos terroristas.
Engraçado que cerca de 90% das notícias que vejo na mídia nacional e internacional sempre é atacando a história e as ações de Israel.
A máquina soviética ainda movimenta seus ideias anti semitas.

Fabio Jeffer
Fabio Jeffer
Reply to  Antunes 1980
1 ano atrás

Antunes 1980
anti semitismo é uma coisa, o apoio que a URSS dava aos árabes era contra o estado de Israel como país era outra coisa, não era uma guerra de extermínio e também nem uma intenção de aniquilar o povo judeu em si, que viveu e vive ali a centenas de anos junto com os proprios árabes.

Fabio Jeffer
Fabio Jeffer
1 ano atrás

Mas afinal, pq a França cancelou e reteve esses Mirages. Li certa vez que foi por causa de uma de uma ação inadvertida dos serviços secretos de Israel em solo francês.

Sidy
Sidy
Reply to  Fabio Jeffer
1 ano atrás

A venda foi embargada pelo de Gaulle em 1967 em razão do conflito árabe-israelense (Guerra dos Seis Dias).

Delfim
Delfim
Reply to  Fabio Jeffer
1 ano atrás

Israel bombardeou o aeroporto de Beirute em 1968, e devido à ligação do Líbano com a França, De Gaulle reteve os Mirage 5.

Jota Ká
Jota Ká
Reply to  Fabio Jeffer
1 ano atrás

A França queria agradar aos 2 lados: publicamente embargou a venda para agradar aos árabes mas “por baixo do pano” deu um jeito de entregar os avioes aos israelenses!

Ricardo Bigliazzi
Ricardo Bigliazzi
1 ano atrás

Isso tá muito patrulhado.

Fabio Araujo
Fabio Araujo
1 ano atrás

Pelo que vejo embargos de armas eram, continuam e sempre serão jogo de cena. Você diz que vai fazer , mas por baixo do pano ninguém respeita.

Madmax
Madmax
1 ano atrás

Finalmente entendi porque a Dassault não chiou pela pirataria da época.
Na verdade o pirata era ela.

Clésio Luiz
Clésio Luiz
1 ano atrás

Isso é algo que eu sempre suspeitava. Outra parte desse caso é que a linha de produção do Kfir encerrou em 1983, curiosamente no mesmo ano que a linha do Mirage 5 encerrou na França. O pessoal que trabalha em industria diz que a documentação de um produto complexo, por si só, não é garantia para a perfeita confecção do mesmo, pois muitos detalhes de como produzir as peças fica com os operários e nunca é colocado no papel. Aconteceu aqui no Brasil, com o relançamento do Fusca “Itamar”, onde a VW tinha toda a documentação, mas teve que recorrer… Read more »

RENAN
RENAN
1 ano atrás

Isto valeria uma explicação em matéria caça ao mito

Carlos Alberto Soares
Carlos Alberto Soares
1 ano atrás
Marcelo R Seixas
Marcelo R Seixas
1 ano atrás

Lembro de ler uma reportagem sobre a história do Kfir com citações sobre o roubo dos “blue prints” das turbinas na Suiça, etc na revista Flap. Tenho até hoje o exemplar. Vou procurar.

Luiz Trindade
Luiz Trindade
1 ano atrás

Na realidade Israel sempre foi Israel. Eles fizeram, fazem e sempre irão fazer milagres com pouco e defender sua amada pátria e povo. Um patriotismo fundamentado em sua religião.

Ivanmc
Ivanmc
1 ano atrás

Quando estive em Israel eu visitei o Hatzerim no deserto de Negev, e lá estavam expostos alguns IAI Nesher.

anderson
anderson
1 ano atrás

Acho que ainda persiste o mérito da Força Aérea de Israel. Acredito que além da engenharia reversa, a logística, a inteligência, os relacionamentos estratégicos e o desafio das situações de guerras, Israel soube se sair muito bem de uma situação na qual não havia saída. Parabéns ao povo de Israel!

Ozéias Ndr
Ozéias Ndr
1 ano atrás

Na mão dos pilotos israelenses um Leão, na dos argentinos um gatinho!!, brincadeiras a parte, os israelenses já conquistaram uma grande vitória ao desenvolver essa cópia do Mirage 50, o primeiro abate foi a dependência por aeronaves estrangeiras.

elton
elton
Reply to  Ozéias Ndr
1 ano atrás

as especificaçoes do nescher erem para grande carga de bombas e alta persistencia em combate para um cenario em que faria superioridade aerea local e ataque tatico em relativa curta distancia não para ataque naval a longa distancia e sem escolta contra navios fortemente defendidos tanto que não tinha sonda de reabastecimento,sistema para lançamento para misseis ar-solo,radar e avionicos para navegação de longa distancia nas Falklands prescisavam de apoio dos Learjet da FAA e radares Tps-43 nas ilhas para fazerem a travesia entre o continente e ilhas

Douglas Falcão
Douglas Falcão
1 ano atrás

O artigo é incompleto. Se a França devolveu o dinheiro 3 anos depois, como então foi feito o pagamento?O artigo não explica, pois de uma forma ou de outra os aviões chegaram ainda que com atraso de 3 anos de acordo com a estória contada. Outro ponto que o artigo evita comentar é como se deu o acordo de manutenção e reposição de peças para os anos seguintes. Não há uma palavra sobre isso. Por fim, evita falar da frustração causada no governo israelense com a quebra de contrato francesa em um momento crucial para a sobrevivência do estado israelense,… Read more »