domingo, maio 16, 2021

Gripen para o Brasil

‘SAMbush’

Destaques

Alexandre Galante
Jornalista, designer, fotógrafo e piloto virtual - alexgalante@fordefesa.com.br

RED FLAG-Alaska 12-2

O 77th Tactical Squadron, equipado com os F-16CJ (pronuncia “ceejay” em inglês), realizou missões de supressão de defesas aéreas durante a Operação Iraq Freedom, em 2003. Os pilotos chamam a missão de Wild Weasel, ou “weaseling”.

No dia 6 de abril de 2003, o esquadrão enviou oito F-16CJ, em duas esquadrilhas, ELI 31 e LAPEL 71, para cobrir alvos ao redor de Bagdá. Havia mais de 15 sites SAM ativos ao redor e o alerta radar (RWR) ficava saturado de emissões, ficando praticamente inútil. Os caças não tinham alvos e estavam sobrevoando vários kill box em busca de briga. A ameaça era desconhecida e estavam procurando o que sobrou. Caçavam mísseis SAM, como os SA-8 e Roland, ameaçando os A-10 e helicópteros apoiando as operações em terra.

O piloto Dan Hampton liderava uma dupla junto com outro par da LAPEL 71 e se dividiram ao redor Bagdá. A outra dupla ELI operava a sudeste, ao redor rio Tigre, ou revezando no REVO. Os pilotos queriam ter casulos de designação de alvos, como o Litening ou Sniper XR, para poder ver e identificar os blindados abaixo e poder ajudar as tropas avançando na cidade. Sem os casulos, o risco de fogo amigo seria alto.

Faziam busca de alvo em um arco ao redor da cidade, a 450 knots, chamado arco padrão “weasel”, para aproximar do alvo ou local de ameaça. Ao contrário da maioria dos outros caças, não estavam restritos a média altitude, podendo voar bem mais baixo. Estavam em modo “weasel” completo, com uma isca ALE-50 (os pilotos chamam de “little buddy”) sendo rebocada a 100 metros atrás do caça, casulo de ECM ligado, e mudam de altitude e direção a cada cinco ou seis segundos.

Após tentarem atacar uma bateria SAM sem sucesso, passaram a atacar uma posição conhecida de um complexo de mísseis SA-3, ao redor da base de Taji. Havia pelo menos três baterias e 27 posições de artilharia antiaérea no local. Provavelmente havia blindados ZSU-23-4 (zeus ou zooce para os pilotos). Pediram para o AWACS liberar o Kill Box 88 Alpha Sierra apenas para os “weasel”.

Cada par estava equipado com dois HARM e duas bombas em cacho CBU-103. Os pilotos gostam das bombas em cacho para atacar bases de mísseis e radares, mas queriam é um casulo para visualizar o alvo e designar armas guiadas a grande distância. Para visualizar os alvos, usavam binóculos estabilizados.

A imagem abaixo, tirada do google maps, mostra a posição da base de Taji, no centro da imagem, e o complexo de mísseis atacado na parte inferior da base. Bagdá fica ao sul da imagem, seguindo o rio e a rodovia. Taji tem uma pista secundária e outra pista de apoio mais a leste. Era um grande depósito de armas. O local ainda está infestado de barricadas para mísseis e artilharia antiaérea. Os pilotos descrevem a posição como sendo um triangulo logo ao norte do canal. Em detalhe estão a base de mísseis (a esquerda) e as barricadas para mísseis e peças de artilharia (a direita).

taji

As duas duplas fariam um ataque “Hunter Killer”, com um par atacando em um eixo e outro par fazendo um arco em outro lado do alvo. O objetivo era forçar os mísseis SAM a reagir às duas ameaças, o que resulta geralmente em disparo de mísseis. Se o par atacando é atacado pelos mísseis SAM, ele simplesmente aborta, vira e inicia o arco. O outro par imediatamente aponta para o alvo para atacar. Um míssil HARM é disparado para distrair, e se alguém aproxima, pode atacar a posição do míssil SAM. Se tudo dar certo, o que raramente acontece, o primeiro par ataca e o segundo inicia seu ataque logo depois. O ideal é usar três pares, o chamado “six-pack”, para saturar a posição.

Os F-16CJ estavam equipados com um datalink que foi usado para passar as coordenadas do alvo. Ao receber uma mensagem por datalink, o piloto ouve um barulho de grilo nos fones. O mostrador multifuncional mostra os “anéis” de mísseis SAM, rotas outras aeronaves e alvos. Com um aperto de botão, podem saber onde está o ala.

O ataque foi iniciado na direção do sudoeste, paralelo ao Rio Tigre, como na foto acima. As nuvens a 20 mil pés não atrapalhavam. Ao avançar, viram um míssil no ar. O líder ELI 3 avisou e deu a direção da ameaça. O Ala ELI 4 anunciou um ataque com HARM, mas o líder abortou pois iria denunciar a direção com o disparo do HARM. Então ordenou que o LAPEL 4 “Slapshot” (disparar rápido do míssil HARM em direção ao alvo) na direção da área do alvo. Logo foi anunciado no rádio “LAPEL 4, Magnum SA-3”, indicando que disparou um míssil.

O míssil SAM não guiado foi para o oeste e deu uma boa indicação da posição do alvo com sua trilha de fumaça. O ELI 3 viu as barricadas com mísseis, disparou suas CBU-103 e foi para o oeste. A artilharia antiaérea disparou e indicou os outros a não sobrevoar o sítio devido à grande quantidade de artilharia antiaérea. Se juntaram depois no norte e viram várias explosões secundárias no alvo. Eram explosões maiores que as de mísseis e deveriam ser de tanques de combustível próximos.

A dupla LAPEL 3 e 4 atacou logo depois. O líder LAPEL 3 disparou e depois fez um arco a 3 mil pés subindo até 5 mil pés para evitar armas leves. Viu muita fumaça e fogo no alvo, tendo atingido mais do que mísseis, após acertar o centro do complexo. O líder mandou disparar suas duas bombas juntas para cobrir um raio de 150 metros. Enquanto atacava, seu Ala LAPEL 4 fazia um arco ao redor a 10 mil pés para chamar a atenção da artilharia antiaérea, lançando flares para desviar a atenção do LAPEL 3 que atacava. O Líder ELI 3 mandou seu ala ELI 4 “slapshot” à área do alvo durante o ataque. Deveriam atingir o radar primeiro e depois os lançadores de mísseis, mas não viram o radar.

Depois do ataque, o líder ELI 3 passou a posição de reunião pelo datalink e a altitude para evitar colisão. Fizeram check de combustível, citando no rádio, por exemplo “ELI One is 5.8” (5.800 lb de combustível), e foram para o reabastecimento em voo, já sem munição.

Enquanto isso, a dupla ELI 5 e 6 chegaram do REVO. O líder ELI 3 voltou, mesmo com pouco combustível, e mandou atacar as barricadas no norte do complexo. Não atacariam do norte pois nunca usam o mesmo caminho. O ELI 3 cobriu o ataque. No mergulho, a 5 milhas, os mísseis SAM e a artilharia antiaérea começaram a disparar e logo o líder mandou o ELI 5 quebrar a direita, com um míssil logo à frente.

Ouviram no rádio: “LAPEL 4, magnun SA-3”. Era o último HARM da esquadrilha. ELI 3 mandou ELI 5 atacar baixo e o cobriria a 6 mil pés. ELI 5 não viu o alvo e o ELI 3 decidiu marcar o alvo com o seu canhão. LAPEL 3 continuou dizendo “Magnum SA-3”. Estava sem mísseis, mas usando um canal aberto poderia assustar os iraquianos que estivessem escutando. ELI 3 atacou às 3 horas em relação ao alvo com ELI 5 às 12 horas. Marcou a posição e passou com o datalink, ordenando bombardear o norte da posição.

A imagem abaixo é do ELI 3 com sua arma preferida, a CBU-103.

Dan-hampton

Fonte: Viper Pilot – Dan Hampton

OBS: como mostra a foto no início do artigo, agora os F-16CJ estão equipados com um casulo Sniper XR (a parte frontal está visível à direita da entrada de ar, onde originalmente ficava o HTS). Também foram equipados com o capacete JHMCS, podendo indicar alvos sem precisar apontar a aeronave para o alvo.

OBS: O nome do artigo vem do acrônimo de SAM e ambush (emboscada), nome do capítulo do livro.

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Roberto F Santana

Não é off-topic, tem tudo a ver.
Não sei se foi com Clésio, que uma vez falávamos sobre a capacidade do piloto virar-se e olhar para trás no assento ejetável.Observe em 01:31:

http://www.youtube.com/watch?v=riQ-_4FDh34

Marcos

Em Banarnia tem tudo isso ai?

Marcos

Roberto:

O que me chamou a atenção foi o capacete. O que vai ali?

Marcos

Mais que comprar um avião, necessário é comprar armamentos, pods e mais um monte de coisas. Se não você corre o risco de, mesmo voando, ser somente a rainha do hangar.

Roberto F Santana

Prezado Marcos,

O capacete é mesmo HGU usado por muitos, mas com o JHMCS, que é o sistema que projeta os dados do HUD na viseira e é usado nas informações de armamento, tais como mira para os mísseis.

Marcos

Deduzi que fosse por ai!
Temos isso ai?

Roberto F Santana

Acho que não, não sei.
Hoje isso é equipamento padrão na aviação de caça.

G-LOC

Olá Marcos, Os A-1M terão capacidade bem parecida: – míssil MAR-1 no lugar do HARM – já usam bombas em cacho – o equivalente ao HTS seria o novo alerta radar. A Elisra tem modelos bem mais capazes e espero que os AMX de Santa Maria recebem um modelo melhor. Seria bem vindo para missões de supressão de defesas e reconhecimento. – vão receber casulos Litening e armas guiadas. Apenas uma aeronave na esquadrilha precisaria do casulo. – terão a mira no capacete DASH. – terão datalink – poderão designar alvos no solo com o radar para determinar a posição… Read more »

Roberto F Santana

Talvez no AMX ou no Super Tucano?
Não sei.

Roberto F Santana

AMX pesado e carregado de bombas a 500kts.
Quem citou isso?

Clésio Luiz

@Roberto F Santana Eu lembro de ter lido no livro Semper Viper de Joe “Bill” Driden, falecido piloto de testes da General Dynamics (antes da divisão Fort Worth ser vendida para a Lockheed), uma resposta aos críticos do F-16 sobre a dificuldade de se olhar para trás, por causa do assento reclinado do Viper. Ele descrevia um método que na sua opinião, permitia ver até a deriva da aeronave. Deve ser mais ou menos isso que o piloto do vídeo estava fazendo. http://www.codeonemagazine.com/images/C1_SemperViper_1_1271449318_9999.pdf Esse livro é um achado, atualmente está escondido no site da Code One magazine (publicação oficial da… Read more »

Roberto F Santana

Prezado Clésio Luiz, Você já tinha me indicado essa revista, já gravei e lhe agradeço muito pela dica. Na época que você tinha me indicado, li a matéria, e creio eu ser uma técnica de primeiro olhar para cima (levantar a cabeça) e baixar lentamente esquadrinhando o máximo possível o campo que vai de 90 graus (três horas) até os 180 graus (seis horas). Onde posso achar mais dessas publicações? Veja nesse vídeo mais uma vez o piloto olhando para trás e como é mínimo o movimento do side-stick. Vá somente até os 04:34, depois o vídeo é estragado pela… Read more »

Vader

Matéria excelente, parabéns ao editor. Mostra muito bem que além do avião em si, o que faz a diferença de verdade na hora do combate é o treinamento, a coordenação tática e os armamentos e demais equipamentos. Ter o avião e não ter as armas e demais equipamentos avançados não serve para nada. Ter tudo isso e não ter treinamento e doutrina de emprego também não serve para nada. Máquinas não fazem nada sozinhas. Por isso que é para a gente rir à larga de afirmações que a gente encontra por aí na net de que determinado avião “destrói” o… Read more »

eduardo pereira

VADER;
Assino em baixo do que disseste meu caro e digo mais , a FAB deveria encomendar mais AMX p/ Embraer e estes ja sairem modernizados desde a produçao e talvez até remotorizados e com maior capacidade de carga .
E se for rolar tampao ( o que acredito que nao vai /se nao tiverem comprado os 24 Forevis né,credo,prefiro crer nos SH) compra logo uns 50 F-16 do inventario da USAF e moderniza os bicho que fica legal .

Roberto F Santana

“(F-2000 + F-5M + A-1 + A-29) ainda temos a força de combate mais poderosa da América do Sul.”

É precisamente isso que os militares da FAB pensam.
Eis o porque a o caça mais numeroso da FAB tem 38 anos de idade.

Vader

Roberto F Santana disse:
4 de março de 2013 às 16:48

Então Roberto, só que o F-2000 está com os dias contados e o F-5M vai pro mesmo caminho.

E ao menos os bons militares da FAB sabem muito bem disso.

Sds.

Roberto F Santana

Prezado Vader,

Sim, a curto prazo, temos tudo para ficar em uma situação pior que do final dos anos sessenta e início dos setenta, em que o “caça” padrão da FAB era o AT-33, armado com duas .50!

Mas uma coisa coisa é certa, tenho certeza disso, virão sim os caças, mais cedo ou mais tarde, e o que virá, será muito bom.
Vamos esperar, sentados, mas vamos esperar.

G-LOC

Em configuração SEAD, imagino que o AMX não estaria “pesado”, e peso não tem muito a ver com velocidade e sim a potência. A Spey tem 5 mil kg de empuxo, ou a mesma potencia do Gripen e F-20 (sem contar o PC claro). O autor cita frequentemente a velocidade de 400 knots, onde o F-16 manobra melhor e facilita a pontaria. O mesmo vale para outros caças. Como já comentado, o livro também deixa essa mensagem que a plataforma em sí não é o principal. Se tivessem ainda equipado com o F-4G, ou até mesmo um F-16A modernizado, o… Read more »

Roberto F Santana

Prezado G-LOC, Quanto maior o peso, menor a velocidade. Se hipotéticamente o AMX chegasse a 500kt com cargas externas, estaria: 1-Com a manete no batente, mas isso nem sempre quer dizer que estará dando os 5 mil kg de empuxo, porque se estiver fora do envelope( acima do nível do mar) ideal esse valor de potência não mais existe. 2-Para cada dobro de aumento de velocidade o arrasto aumento quatro vezes, em regimes sub-sônicos o arrasto aumenta de tal forma que nenhum ser humano ainda conseguiu calcular o quanto. 3-Um F-16 chega, vai e volta aos 400kts a hora que… Read more »

G-LOC

1 – Eu não tenho os dados de velocidade em relação a carga do AMX e esperava que vc entrasse nesses detalhes. De cabeça eu me lembro dos Mirage F1AZ da africa do sul atingindo 600 kts baixo, sem o PC. A relação peso-potencia é a mesma do AMX, sem o PC. Os buccaneer, com duas Spey, atingiam 580 com uma relação peso potencia pior ainda, mas levava bombas internamente. 2 – a equação considera a velocidade, indice de arrasto e área frontal. O peso nao entra na lista, mas influencia no arrasto ao influenciar o angulo de ataque para… Read more »

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