quinta-feira, agosto 5, 2021

Gripen para o Brasil

Após relatório, colegas não entendem atos de pilotos do AF 447

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Alexandre Galante
Jornalista, designer, fotógrafo e piloto virtual - alexgalante@fordefesa.com.br

Um clima de tabu ronda os profissionais da Air France desde a divulgação do relatório preliminar sobre a sequência de acontecimentos que culminaram na queda do voo AF 447, publicado pelo BEA (Escritório de Investigações e Análises) na sexta-feira. Desde então, reclamando que os dados revelados são incompletos, poucos pilotos aceitam falar com a imprensa, e os que rompem o silêncio, pedem sigilo.

“Por não suportar a pressão da mídia e das famílias, o BEA selecionou alguns elementos e os publicou. Mas sem a contextualização necessária, fica impossível de interpretar o que aconteceu”, afirma um piloto da Air France ligado ao sindicato da companhia.

Para ele, o relatório apenas aumentou as especulações em torno do acidente e foi direcionado para suscitar dúvidas sobre a competência dos pilotos. “Não sabemos direito o que eles enxergavam no painel. Por exemplo, para mim, parece totalmente plausível que um piloto tivesse uma informação no lado direito, e o outro estivesse diante de dados totalmente opostos, de acordo com o que foi revelado”, garante.

Uma das informações mais incoerentes divulgadas pelo BEA, conforme este piloto, diz respeito às asas traseiras do avião: elas deveriam estar inclinadas em 3 graus, mas estavam em 13 graus. “Isso é inexplicável em um voo dito ‘normal’, e pode ter sido um fator que dificultou muito a retomada da sustentação do avião”, disse.

Essa hipótese também é levantada por Gérard Arnoux, ex-piloto da Air France e consultor em segurança aeronáutica. Cético em relação à independência do BEA, Arnoux não descarta que uma pane generalizada tenha ocorrido no Airbus A330, acidentado no meio do caminho entre o Rio de Janeiro e Paris, há exatos dois anos. “O bloqueio do plano horizontal traseiro pode fazer com que o avião caia imediatamente e ele não possa mais ser recuperado. Pelos poucos diálogos divulgados, nós percebemos que a tripulação tentou retomar o controle da aeronave, mas não conseguiu”, explica.

Outro ponto nebuloso sobre a conduta dos pilotos dos do AF 447, lembra Arnoux, é que o BEA não indicou em que velocidade voava o avião no momento em que os pilotos decidiram elevar o nariz do aparelho para cima – uma das atitudes que diversos especialistas questionaram desde que o relatório foi publicado e que o próprio diretor do BEA, Jean-Paul Troadec, disse não compreender. “Se o painel indicava uma velocidade de 1000 km/h, é óbvio que a reação do piloto deveria ser empinar o avião para tentar reduzi-la”, analisa.

“Os erros na velocidade, provocados pelo congelamento das sondas pitots, foram cruciais para determinar as reações do Airbus – que é todo automático – e, por consequência, as atitudes dos pilotos”, argumenta outro comandante, que pediu anonimato. “Nós somos treinados para lidar com panes, mas não com defeitos de fabricação. E este defeito era conhecido da Airbus e da Air France”, reclama um terceiro piloto, que também não quis ser identificado. O próprio BEA subestimou a gravidade da falha das sondas pitot: em um relatório que integra a investigação judicial do acidente – resultante de análises distintas e independentes do BEA -, especialistas verificaram que, em 2008, o BEA fora informado sobre os recorrentes incidentes com as sondas de velocidade em Airbus. Na época, o órgão avaliou que a disfunção “não era capaz de provocar incidentes graves que colocassem em dúvida a segurança do voo”.

Embora desconversem sobre a possível falta de treinamento dos pilotos para lidar com o problema – apontada pelo mesmo relatório judicial -, os comandantes ouvidos pelo Terra são categóricos sobre as falhas das sondas: para todos, o acidente não teria ocorrido se as sondas tivessem funcionado normalmente naquela noite de 31 de maio de 2009.

“Agora, todos estão perfeitamente informados sobre o que devem fazer caso aconteça um imprevisto como aquele”, diz um piloto. “Mas isso não muda o cenário de que, naquela época, não existia essa certeza sobre o que fazer”, concluiu.

FONTE: Terra

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Clésio Luiz

” asas traseiras do avião”, “plano horizontal traseiro”. Isso é uma impressazinha de merda que temos aqui.

Soyuz

Um avião Frances, de uma companhia aérea francesa, investigado por um órgão do governo Frances. É para ter uma dose de ceticismo. Já tivermos casos suspeitos envolvendo aviões franceses no passado como o Air France 296 , American Eagle 4184, acidentes onde dados da caixa preta “somem”, informações sobre o projeto do avião não são fornecidas, tripulações são culpadas pelo acidente e as que sobrevivem lutam na justiça por anos a fio para provar inocência. Fico pensando se este vôo tivesse caído em águas brasileiras, no mar de lama que o CENIPA se livrou. Fico imaginando os advogados da industria… Read more »

Tadeu Mendes

Amigos, Uma coisa sao as informacoes da Caixa Negra ( variaveis ), outra coisa e o VCR (Voice Cockpit Record). As gravacoes de vozes na cabine, sao tao ou mais importantes quanto os dados da Caixa Negra. E esta claro que jamais serao divulgadas, nem mesmo para os pilotos da compania (assim penso eu). Nao e a primeira vez que um Airbus (minha conclusao) nao responde aos inputs dos pilotos. O Airbus 330 e uma aeronave FBW (Fly by Wire = fibra otica). Varios inputs da cabine de comando (Cockpit) sao mediadas via computadores. Para mim, o Airbus nao respondeu… Read more »

viniciusdonadio

É dificil dizer pelo menos para mim o q pode ter acontecido no voo AF 447, acidentes como esse deixam muitas duvidas, mas com o decorrer das investigações muitas coisas serão esclarecidas.

Vader

O relatório parcial da BEA só complicou mais as coisas. Eu de minha parte continuo não entendendo nada do que aconteceu.

O que sei é que é impossível um piloto com 10.000 horas de vôo cabrar um avião repetidas vezes com o alarme de estol disparando. E que não precisa ser nenhum gênio da pilotagem para perceber que a aeronave está estolada e despencando à razão de 11.000 pés por minuto (55,8 metros por segundo, ou seja: em queda livre).

Ou seja: a Airbus está ferrada.

Mauricio R.

O protótipo do A-320 arou terra qndo de seu 1º voo, simplesmente o avião se recusou a pousar, atravessou tda a extensão da pista naquela atitude de nariz prá cima e se estatelou depois do fim da mesma.
Quero ver agora, que aeronave a EADS vai tentar empurrar p/ os americanos, qndo esses soltarem no mercado a concorrência KC-Y???
O A-330 é a base de maravilha KC-30.

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