sábado, outubro 23, 2021

Gripen para o Brasil

O último voo da ‘Águia da África’

Destaques

Alexandre Galante
Jornalista, designer, fotógrafo e piloto virtual - alexgalante@fordefesa.com.br

Traduções inéditas por Roberto F.Santana

Na manhã de 30 de setembro de 1942 , às 10h47, o 3º Staffel decolou, liderado pelo Hptm.Marseille. Eram oito Bf-109s que iriam dar cobertura para um grupo de Stukas. Três minutos depois, mais 15 aeronaves do III Gruppe os seguiram, oferecendo uma proteção extra durante o avanço da formação principal.

Às 10h55, uma força adicional de dez Bf-109s do III/JG 53, decolava para dar escolta direta.

Kommodore Neumann direcionava a missão do posto de comando, e guiava o Staffel de Marseille,  via rádio, fazendo um link solo-ar para interceptar um grupo de caças britânicos que tinha sido avistado ao sul de Imayid, o inimigo seguia para oeste.

Tão logo o Staffel de Marseille avistou o inimigo, as aeronaves britânicas rapidamente curvaram para o norte e se recusaram a entrar em combate. Próximo de Abu Dweis, o III/JG 27 avistou o inimigo  e Lt.Schroer  abateu um deles.

Durante essa missão, Hptm.Marseille voava um modelo novo de Bf-109, o modelo G. Seu Staffel não tinha feito mais contato com o inimigo e voltou, depois que os Stukas jogaram suas bombas. Às 11h30min, o rádio no posto de comando subitamente ganhou vida. Uma voz clara gritou :

– “Meu motor está pegando fogo!”

– “Quem está com o motor pegando fogo?” perguntou o rádio operador.

– “Qual é o problema, câmbio?”

Era Marseille, que falava: “de Elba 1 (indicativo de chamada de Marseille) – tem muita fumaça no cockpit, não consigo ver.”

No posto de comando, Eduard Neumann, verificou rapidamente o mapa e viu que ainda faltava uns 5 minutos para o Staffel alcançar as linhas alemãs.

Os pilotos que retornavam viram a fumaça que saia, do motor do novo avião de Marseille, crescer e ficar mais espessa.

“Mais 3 minutos, Jochen.”, disse Schlang  para o seu companheiro. “Nós te levaremos até lá”.

Eles voavam em volta de Marseille, em formação fechada, protegendo-o de qualquer tipo de intrusão. Schlang e Pöttgen o guiavam pela voz e Marseille fazia as correções no seu curso de vôo. Cuidadosamente  direcionavam  um colega e amigo em segurança de volta para casa.

Eram 11h35min, Schlang e Pöttgen continuavam a guiar seu líder, quando Marseille chamou, “Já estamos sobre nossas linhas?” Havia um tom de urgência em sua voz. “Mais uns 2 minutos, Jochen”, Pöttgen respondeu.

De uma distância de poucos metros, os colegas conseguiam ver, através da fumaça, o rosto pálido de Marseille.

Schlang então chamou:

– “Elba 1, corrija  um pouco a direita”. Marseille curvou colocando-se no curso correto.

Então veio a voz do Geschwaderkommodore, que não podia mais esperar:

– “Você vai conseguir?  Elba 1?”

– “Dê o fora daí agora!”

Nenhuma resposta.

O avião de Marseille estava derivando e baixando cada vez mais.O grupo, então passava sobre a mesquita de Didi Abd el Rahman.

Tinham conseguido alcançar as linhas alemãs.

“Tenho que sair agora”, disse Marseille, “Eu não aguento mais”.

Estas foram as últimas palavras que ouviram de Marseille.

Quando os dois 109 que estavam mais próximos se afastaram um pouco, Marseille rolou seu Messerschmitt no dorso para que ficasse em uma posição mais favorável ao salto.Tão logo o canopy voou, Schlang e Pöttgen viram um vulto emergir da fumaça. Marseille foi instantaneamente carregado pela corrente de ar, viu-se um solavanco, como que tivesse levado um soco. Os dois pilotos circulavam para monitorar e proteger o colega que descia em queda livre.

“Jochen saiu”, disse Pöttgen com alívio. Então uma voz alta:

“O paraquedas!” gritou Schlang horrorizado.

O corpo de Marseille mergulhava mas o velame branco do paraquedas não era visto. Eram 11h36, quando uma série de gritos eram ouvidos pelo rádio. Estavam todos tomados pelo choque.

Finalmente, se ouviu: “Jochen está morto!”

No posto de comando, os fones de ouvido cairam das mãos do Kommodore Neumann. Sem acreditar no que estava acontecendo, olhava para seus homens que somente acenaram com a cabeça e se retiraram lentamente.

Marseille saltou de seu avião e caiu uns 200 metros. Seu paraquedas não abriu. Caiu quase que na posição horizontal e bateu no solo do deserto com o rosto para baixo.

Quebrado e sem vida, estava o corpo da Águia da África na areia do deserto. Da mesma maneira que tinha abatido 158 inimigos, agora, ele, invicto, era a vítima.

Oberarzt Dr.Bick, o médico do regimento Panzergrenadierregiment 115, viu a queda do piloto de caça alemão, naquela manhã. Pegou um carro do staff e correu para o local da queda. Ele foi o primeiro a encontrar o piloto morto, algumas centenas de metros dos destroços do 109. O que segue, é seu reporte ao Panzerarmee Afrika:

“O piloto jazia por sobre seu estômago, como se estivesse dormindo. Seus braços estavam sob seu corpo. Quando cheguei perto, vi uma poça de sangue que saia de seu crânio esmagado, a matéria cerebral estava exposta. Notei um horrível ferimento acima do quadril. Com certeza, não poderia ter sido resultado da queda. O piloto deve ter batido na aeronave quando saltou.”

“O paraquedas estava a poucos metros do morto. O pack (mochila do paraquedas)  tinha um corte de uns 40 centímetros. Uma parte do velame tinha saído. A alça de segurança e liberação do paraquedas estava enterrada ao lado corpo e ainda estava na posição ‘safe’.

“Cuidadosamente virei o corpo do jovem piloto. As belas características de seu rosto abaixo de sua testa estavam quase intactas. Era o rosto de uma criança cansada.”

Abri o zipper de sua jaqueta de voo, vi a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro com folhas de Carvalho e Espadas e imediatamente reconheci quem era. Seu livro de orações também me dizia quem jazia na minha frente:

Hauptmann Marseille

FONTE: German Fighter Ace Hans- Joachim Marseille , Franz Kurowski. Schiffer Military History

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Clésio Luiz

O G2 era uma versão problemática do Me-109. Se eu não estou enganado, essas primeiras versões do G tinham o motor com potência reduzida por causa de falhas se operasse em potência total. Só no final de 43 é que consertaram esse problema nas unidades de linha de frente.

URSS
Alfredo.Araujo

Infelizmente o talento e os feitos desse e de outros gênios militares alemães é manchado pela lado em q lutavam…

Ozawa

No local do trágico acidente, encontra-se hoje um pequeno monumento em forma de pirâmide construído em sua homenagem, na lápide, em alemão, italiano e árabe está escrito: “Aqui jaz o Cap. Hans-Joachim Marseille. Tombou INVICTO, em 30 de setembro de 1942”, como se pode ver na foto:

http://www.luftwaffe39-45.historia.nom.br/ases/marseille5_gr.jpg

À Erich Hartmann, outro grande ás da Luftawaffe, creditam a seguinte frase: “Eu não me considero o melhor de todos, Marseille sim, o era…”

Lol

Pra mim o melhor dos melhores, superaria Hartmann se continuasse vivo até o final da guerra.

té

eu gosto da historia do Erich Hartmann.. mto bom ler sobre suas manobras.

Roberto F Santana

Caro editor, pode tirar meu comentário anterior, não tinha visto a edição.
Esse também.
obrigado.

Roberto F Santana

Caro Clésio Luiz,
Obrigado pela informação do motor, de fato Marseille tinha sido avisado sobre os problemas com os motores do modelo G.Investigações posteriores revelaram um possível rompimento na tubulação de óleo.
Note que o 109 da ilustração não é o G, é um modelo F.
Não achei nenhuma foto do G-2 Werk-Nr 14 256.
Sim, se pelo meio de 1942, Marseille já tinha 158 vítimas, em maio de 1945 já teria ultrapassado a marca de 352.
Detalhe, os pilotos alemães não tiravam férias.

latino

Belissima historia esses jovens corajosos que morreram por seu lider louco de nada tem a ver com aquelas atrocidades cometidas pelas SS.

Sou muito fã de segunda guerra .epoca em que um bom dogfight era diario para esses pilotos .

Invincible

O Me 109 é um avião incrível…

Assistir um vídeo dele voando é impressionante.

Fico pensando como não seria ver uma formação dessas máquinas.

Quando ao Marseille é mais uma história triste desta guerra infeliz e brutal. Ele não precisaria provar para ninguém que ele é um dos Reis do Ar.

Leonardo

Sem dúvida Hans Joachim Marseille foi o melhor entre os melhores o próprio Eric Hartmann reconheceu isso, em minha humilde opinião os heróis da Luftwaffe foram os melhores de todos os tempos, pois lutaram em várias frentes de batalha, na maioria das vezes em desvantagem numérica e mesmo assim obtiveram os resultados que conhecemos hoje. Sem esquecer outro dado relevante, Marseille obteve todas as suas 158 vitórias lutando contra pilotos ocidentais com nível de treinamento superior aos seus pares da frente russa do início de 1941. Segue abaixo um trecho retirado do site: http://www.luftwaffe39-45.historia.nom.br/ A título de comparação, durante o… Read more »

Roberto F Santana

Caro Leonardo,
Bom comentário, você chama a atenção para um fato importante,
Os pilotos alemães que combateram no início da frente russa, enfrentaram os LaGG3, I-16 e MiG-3, todos bem ruins.Já os da frente ocidental tiveram que lidar com os Spitfire, e os primeiros P-51 e P-47.
Se não me engano, todas as vitórias de Hartmann foram contra os soviéticos.

Lol

Roberto F Santana,

Erich abateu 7 aviões ocidentais.

Leonardo

Roberto,

Segundo consta neste mesmo site que citei das 352 vitórias obtidas por Hartmann, 7 foram contra caças americanos, mas sem dúvida os ases alemães que lutaram na frente russa tiveram a vida um pouco mais “tranquila” no início da operação Barbarrossa.

Um abraço.

Wagner

Percebam as formas bem suaves do modelo F, em contraposição ao modelo E, muito mais tosco, mas melhor armado.
Acho que conseguiram combinar as duas boas caracteristicas no G6, que aí sim detonava os spitfires, se bem pilotados.
Mas os trens de pouso continuaram a ser um problema até o fim da guerra. Um problema que os 190 nao tinham.
De qualquer forma, nao fez mais diferença, a superioridade numerica os esmagou. A Luftwaffe lutiou bravamente, ironicamente não ate o ultimo avião, mas ate a ultima gota de combustivel…

Deivid

Realmente uma história triste e horrivel!!! de serta forma…

Parabens aos editores.

AMX

Na coleção Guerra nos Céus, dos anos 80, ele é chamado de “Estrela da África”, ao invés de “Águia da África”.
Abraços.

msf

O cara lutou só até 1942, junto com dezenas de outros pilotos de caça compatriotas, e abateu 158 aviões inimigos… o quanto deve ter fumado, bebido ou cheirado o cara que criou esses números? Dá um tempo. E ainda hoje tem otário que acredita neles… 😛

Luiz Cristiano Maciel Cardoso

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