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De volta ao ninho

Oficiais da reserva retornam à Academia da Força Aérea para ministrar instrução de voo

Por Guilherme Poggio

No interior de uma das salas do Primeiro Esquadrão de Instrução Aérea um instrutor e um cadete estão reunidos, acertando os últimos detalhes antes do início do primeiro voo do dia. O cadete, já no seu quarto e último ano do Curso de Formação de Oficiais Aviadores (CFOAV) da Academia da Força Aérea (AFA), ouve atentamente as palavras do instrutor enquanto este movimenta as mãos, didaticamente, simulando as manobras de duas aeronaves.

A cena, bastante corriqueira naquele local, poderia passar despercebida pela grande maioria dos que circulam por ali. Poderia, não fossem alguns detalhes: normalmente os instrutores de voo são jovens tenentes e capitães em início de carreira. Mas o tom grisalho do cabelo e as marcas do tempo impressas na pele daquele instrutor, em particular, indicam que se trata de alguém com mais experiência. Um olhar mais atento no macacão de voo e nota-se a patente. Trata-se de um coronel-aviador da reserva!

Surge a necessidade

A Academia da Força Aérea, carinhosamente conhecida como “Ninho das Águias”, localizada no município de Pirassununga (estado de São Paulo) é a principal porta de entrada para os futuros oficiais da Força Aérea Brasileira (FAB). Para os cadetes que optaram pelo CFOAV, a instrução aérea começa no segundo ano. Nesse período, a instrução primária e básica é feita em aeronaves do modelo Neiva T-25 ‘Universal’, pertencentes ao Segundo Esquadrão de Instrução Aérea (2º EIA). Posteriormente, já no quarto e último ano de academia, os cadetes recebem instrução avançada em aviões do tipo Embraer T-27 ‘Tucano’ do Primeiro Esquadrão de Instrução Aérea (1º EIA).

Vista da entrada do prédio do 1º EIA a partir do pátio de estacionamento dos T-27 Tucano (FOTO: AFA)

Nos últimos anos, a AFA percebeu a necessidade de contar com um número maior de instrutores de voo, tanto no curso básico como no avançado, devido a um incremento na demanda. Mas surgiu a seguinte questão: a transferência de um número maior de oficiais de outras unidades operacionais da FAB para a AFA desguarneceria alguns esquadrões de linha de frente.  Ou seja, o cobertor estava curto! Foi então que surgiu a possibilidade de contar com oficiais aviadores da reserva para completar o quadro de instrutores de voo da AFA.

A presença de oficiais da reserva trabalhando no Comando da Aeronáutica não é, em si, uma novidade. A própria AFA possui oficiais da reserva em seus quadros, ocupando postos administrativos de chefia. Aproveitando a disponibilidade desses oficiais e a sua experiência na FAB, a força acaba cobrindo algumas lacunas onde há deficit de pessoal qualificado. Estes oficiais são contratados pelo programa TTC (Tarefa por Tempo Certo). A novidade agora está em trazer um número de oficiais da reserva para a área operacional. Algo inédito na história da FAB.

Viabilizando a ideia

É difícil apontar o verdadeiro mentor da ideia, pois muitos foram aqueles que sugeriram o aproveitamento de oficiais da reserva na instrução de voo. Porém, deve-se dar o devido destaque ao major-brigadeiro-do-ar Marco Antonio Carballo Perez (foto ao lado), como a pessoa responsável pela implementação do programa. O brigadeiro Perez, um oficial cuja carreira esteve intimamente ligada à aviação de caça (foi piloto de Mirage III, comandante do 1º GDA e comandante da Base Aérea de Anápolis), assumiu o comando da AFA em abril de 2008.

Coube ao brigadeiro apresentar a questão às principais organizações do Comando da Aeronáutica e convencê-las da necessidade e da viabilidade de tal empreitada. Isso começou pelo próprio DEPENS (Departamento de Ensino da Aeronáutica – órgão ao qual a AFA está subordinada) e chegou até o Estado-Maior da Aeronáutica. Perez deixou o comando da AFA em abril deste ano e pôde acompanhar somente o início da implantação do programa.

Os requisitos

O programa foi oficialmente lançado no início do segundo semestre de 2009. Alguns requisitos básicos foram exigidos dos candidatos: todos deveriam ser oficiais aviadores da reserva remunerada (R1) e estarem na condição de Reservista, não de Reformado (faz-se necessário um parênteses aqui para distinguir os dois casos. Quando um militar deixa a força ele é considerado Reservista, mas somente quando está na condição de Reformado ele pode equiparar-se a um aposentado).

Uma formação com quatro T-25 Universal do 2º EIA. Esta é a aeronave empregada atualmente pela FAB na instrução básica de seus cadetes.

Morar em Pirassununga também era condição “sine qua non”, e aqueles que desejassem participar do programa deveriam mudar-se para a cidade antes do início da instrução aérea do ano de 2010.

Em relação à avaliação curricular, este foi um item importante no critério de seleção e coube ao Conselho Superior de Ensino (CSE) da AFA a aprovação dos candidatos. Como era de se esperar, aqueles que no passado já haviam sido instrutores da Academia tiveram prioridade. Todos os interessados também passaram por junta médica e se submeteram a testes de condicionamento de aptidão física. Deve-se destacar que não houve nenhuma regalia para os candidatos. Eles passaram pela mesma bateria de exames que os demais instrutores de voo que, em média, são 20 anos mais novos!

Das duas dezenas de oficiais que se apresentaram, nove foram selecionados, mas somente seis foram efetivamente aproveitados neste primeiro ano do programa. Eles foram contratados pelo período de um ano, prorrogável por mais quatro. Durante a inscrição, foi solicitado a cada um dos interessados que fizesse a opção pela aeronave de instrução (T-25 ou T-27), mas por meio de um acordo comum entre os mesmos, associado às necessidades da AFA, dividiu-se o grupo em duas turmas de três (uma no 1º EIA e outra no 2º EIA).

Em janeiro deste ano, cada uma dessas turmas fez o CPIV (Curso de Padronização de Instrutor de Voo) da respectiva aeronave conforme orientação da Subdivisão de Instrução de Voo. Sendo assim, no dia 22 de fevereiro de 2010 a AFA deu início à instrução de voo para os cadetes-aviadores do segundo e do quarto ano com grandes novidades.

Um time pra lá de experiente

Em frente a um T-25 Universal do 2º EIA, os seis oficiais da reserva que integram o programa TTC e que contribuem para a instrução de voo.

Dos seis oficiais da reserva contratados pelo programa TTC para dar instrução de voo, dois são tenentes-coronéis e quatro são coronéis. Todos já passaram da quinta década de vida e, quando os mais antigos deixaram o serviço ativo, muitos dos atuais capitães e tenentes que dão intrução na AFA nem cadetes eram.

Alguns dos atuais cadetes possuem a idade dos seus filhos ou são mais novos que estes. Não é difícil encontrar os filhos de seus colegas de Força Aérea cursando a Academia.  “Oi tio, lembra de mim? Eu sou filho do coronel ‘fulano’”, diz um cadete para um dos “coronéis”. A diferença de idade deu origem ao apelido “Esquadrilha do Vovô”.

Brincadeiras à parte, o relacionamento entre as gerações é excelente e os mais novos estão aproveitando muito o conhecimento e a experiência dos militares da reserva. Parte dos tenentes e capitães instrutores procuram estes oficiais superiores para sanar dúvidas e aprender algo mais.

Da FAB ao aeroclube e do aeroclube à FAB

Não é para menos. Além da ‘bagagem’ acumulada ao longo de suas carreiras na ativa, esses oficiais estão trazendo as experiências vividas fora da FAB. O tenente-coronel Fabio Cesar de Oliveira, por exemplo, passou parte do seu tempo na reserva em Natal, onde deu instrução de voo para civis.

“Fui instrutor em aeroclube. Lá era muito diferente. Um aluno ‘solava’(*) com 40 horas de voo em média. Aqui nossos cadetes ‘solam’ com cerca de 15 horas. A FAB exige muito mais e em menos tempo.” Diversas são as razões para isso. Primeiro porque não há recursos abundantes. Deve-se aprender o máximo, dispondo do mínimo. Além disso, os cadetes respiram Força Aérea dia e noite e o comprometimento com o curso é maior.

“Certa vez estava dando um briefing de pré-voo para um aluno lá no aeroclube. O celular dele tocou e ele fez sinal com a mão para que eu aguardasse um pouco enquanto ele atendia a chamada. Após terminar a conversa telefônica expliquei da importância do briefing e que o mesmo não poderia ser interrompido, pois comprometeria o voo. Ele acenou com a cabeça de modo afirmativo e retomamos o briefing. Não tardou muito e o maldito celular tocou novamente. Não teve jeito. Pedi para que ele fosse procurar outro instrutor”.

O oficial fala com o conhecimento de quem esteve intimamente vinculado à instrução de voo, tanto na AFA como no antigo CATRE (Centro de Aplicações Táticas e Recompletamento de Equipagens), para onde ia parte dos aspirantes que se formavam na Academia.

Fabio Cesar é filho de um brigadeiro reformado e conhece a FAB desde que nasceu. Nos últimos anos, já na reserva, estava morando em Natal antes de vir para Pirassununga. De longe também veio o coronel Marcio Cesar dos Santos: “Antes mesmo de ter a certeza de que estaria entre os selecionados, me mudei para Pirassununga”, tamanha era a vontade de volta ao “Ninho da Águias”. O coronel Marcio, que chegou a ser piloto do VC-96 (737-200), também conhecido como “o Boeing do presidente”, deixou a capital federal no ano passado, depois de atuar na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e auxiliar o ministro Roberto Mangabeira Unger na criação da END (Estratégia Nacional de Defesa).

Como ‘dar um baile’ na instrução de voo

O coronel Marcio e o coronel F. Cesar são velhos conhecidos. Formaram-se em 1979 na AFA, mas depois seguiram carreiras distintas dentro da FAB.  O terceiro representante da turma de 1979 é o coronel José Bahia Soares, um soteropolitano que acabou fixando residência no Rio de Janeiro antes de se mudar para o interior de São Paulo. O Coronel Bahia voou diversas aeronaves na FAB, desde o antigo T-23 Uirapuru até os quadrimotores C-130 Hercules, passando pelos jatos HS-125.

Tenente-coronel Osny, coronel Bahia e coronel Lopes, atualmente lotados no 1º EIA, posam em frente a um ‘Tucano’. Na foto à direita aparecem os “coronéis” do 2º EIA. Da esquerda para a direita  o coronel Flavio Campos, o coronel Marcio e o tenente-coronel Fabio Cesar.

De conversa fácil e sempre bem humorado, o coronel Bahia, com a sua experiência de mais de sete mil horas de voo e cinco décadas de vivência, procura instruir os jovens cadetes conforme os procedimentos da FAB, mas nem sempre os exemplos mais ditáticos estão nos manuais.

Certa vez, realizando uma aproximação com um cadete em sua ala, o avião do jovem piloto teimava em sair da formação. “Meu filho, você não pode dar bandeira. Imagine que o líder da formação é a sua namorada e a pista é só aquela garota interessante do baile. Para esta última você olha rapidamente só para saber onde ela está, mas concentre-se  naquela que está segurando a sua mão”, disse ele ao cadete. Questionado sobre os métodos de instrução que existiam na sua época em relação aos atualmente empregados, o coronel Bahia responde: “Hoje a instrução aérea na FAB está muito mais padronizada. No meu tempo não era assim”.

Na foto acima, o coronel Bahia realiza um briefing com um dos cadetes do quarto ano, antes de um voo de instrução.

O coronel Bahia e o coronel Fabio Cesar hoje reforçam o time de instrutores do 1º EIA. Ao lado deles está o coronel Maurício Lopes dos Santos, ex-comandante do 2º EIA (ver foto abaixo). “A vida dos cadetes hoje é mais dura do que na minha época. Quando eu era cadete nós tínhamos mais tempo livre. Hoje eles são mais exigidos”, compara. Porém, todos concordam que o cadete atual chega mais preparado à Academia. “Esta geração chega aqui em Pirassununga já com um bom conhecimento sobre pilotagem e isso graças às novas tecnologias, como os simuladores de voo de computadores pessoais. Isso não existia antigamente”.

É claro que a paixão pelo voo também trouxe estes oficiais da reserva de volta à FAB. Mas o ato de voar poderia ser exercido também no meio civil. O próprio coronel Bahia foi por um bom tempo comandante em empresa de táxi aéreo depois de deixar o serviço ativo.

Além de continuar voando, a aviação civil proporciona boas remunerações. “Poderia estar ganhando quatro vezes mais lá fora” lembrou o tenente-coronel Osny Franco de Assis que durante certo tempo voou helicópteros Sikorsky S-76 para empresas de táxi aéreo sediadas em Macaé (estado do Rio de Janeiro) que fazem transporte de passageiros e cargas em apoio às atividades de produção e exploração de petróleo “offshore”.

Hoje, o coronel Osny é instrutor de voo do 2º EIA e recebe, como os outros cinco oficiais, um adicional que equivale a aproximadamente 30% dos seus vencimentos com reservista. Além disso, todos eles cumprem uma jornada de trabalho que, em tese, segue horário comercial de segunda a sexta-feira. Mas não são raros os dias em que os briefings ocorrem às seis da manhã e os voos seguem noite a dentro.

Instruindo e aconselhando jovens pilotos

Ao lado do coronel Osny e do coronel Márcio no 2º EIA está o coronel Flávio Campos de Oliveira. “Excluindo o meu tempo de cadete, servi aqui em Pirassununga por três oportunidades diferentes”, comentou o coronel Flávio Campos que, em uma das oportunidades chegou a ser o comandante do esquadrão onde hoje dá instrução. “Ao todo, foram 13 anos trabalhando na AFA”. Mesmo assim ele não se cansou e está de volta.

Interior do prédio do 1º EIA. A movimentação dos cadetes e instrutores é intensa durante todo o experiente.

“Teve um cadete que, de uma hora para outra, decaiu vertiginosamente no desempenho. Ele não comentou nada comigo, mas eu sabia que havia algum problema particular muito sério. Preferi afastá-lo do voo temporariamente antes que ele recebesse um ‘voo deficiente’. Depois fiquei sabendo que seu pai estava com a saúde debilitada, mas havia melhorado e acabou me mandando uma carta agradecendo a atenção que dei ao filho dele. Posteriormente, o cadete voltou a voar e seu desempenho melhorou, mas o pai dele veio a falecer”. Ser instrutor de voo é mais do que saber ensinar a arte de voar. É reconhecer também a individualidade do ser humano e respeitar os seus limites.

“Alguns cadetes escolhem o CFOAV (Curso de Formação de Oficiais Aviadores), mas depois de um tempo percebem que não era bem o que queriam. Antigamente, o cadete podia alterar sua opção. Foi o que aconteceu com um dos meus alunos no passado. Era um ótimo menino, mas voar não era o que ele gostava de fazer. Sugeri que procurasse a intendência e assim ele o fez. Passado certo tempo ele disse que aquele conselho tinha sido a melhor coisa de sua vida”. Um professor que é o instrutor de voo também deve aconselhar os seus alunos, e nada melhor do que ter experiência para isso.

O futuro do programa

Uma aeronave T-27 Tucando do 1º EIA taxiando em direção ao seu hangarete, após a conclusão de mais um voo.

Ao término da instrução aérea do ano de 2010, o Conselho Superior de Ensino da AFA avaliará o programa e decidirá pelo destino do mesmo. Caso a avaliação seja positiva, além da renovação do contrato dos atuais oficiais da reserva, outros poderão ser chamados, liberando mais pilotos da ativa para os esquadrões de primeira linha.

O CSE disporá de todos os elementos necessários para avaliar o programa. Através da tabulação de diversas informações e cálculos estatísticos o futuro do programa será friamente decidido. Nós, no entanto, já temos a nossa certeza. A expressão de felicidade estampada no rosto de cada um dos “coronéis da reserva” é a prova de que o programa é um sucesso.

____________

(*) Solar é o ato de executar um voo solo pela primeira vez. Neste voo o aluno decola e pousa sem a presença de um instrutor na aeronave.

NOTA DO BLOG: nossos agradecimentos a tenente Josiana Tortorella Mendes (Seção de Comunicação Social – AFA) pelo apoio prestado para a execução desta matéria.

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TOP GUN por um dia

Poder Naval voa com o Esquadrão VF-1 da Marinha do Brasil. Leia reportagem completa clicando aqui.

BATE-PAPO ONLINE: Converse com os editores e outros leitores após as 20:00h, sobre o voo do Poder Naval com os Falcões da Marinha, no ‘Xat’ do Poder Naval, clicando aqui.

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Novidades na Aviação Naval

O Poder Naval está apresentando uma série de reportagens sobre a Aviação Naval esta semana. Fiquem ligados e não percam as novidades exclusivas e fotos excelentes.

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A história por trás de uma foto

Uma das mais importantes passagens da história recente da Aviação Naval Brasileira, contada por quem fez parte dela, pilotos brasileiros com aeronaves T-34C Turbomentor da Armada Argentina operando com o NAeL Minas Gerais.

Leia a matéria e comente no Poder Naval, clicando aqui.

Quando o MiG-21 quase voou com as cores da FAB

Variante chinesa chegou a ser negociada com o governo brasileiro

No dia 28 de janeiro de 1987, uma quarta-feira, o jornal fluminense ‘O Globo’ publicou em primeira página a compra de caças de origem chinesa F-7M para equipar a Força Aérea Brasileira. O texto falava na aquisição de 60 a 110 aeronaves. O jornal deu o negócio como “praticamente fechado”.

Na verdade tudo começou em meados de 1985, quando a FAB estudava a possibilidade de complementar a sua frota de caças Mirage III e F-5, além de recompor perdas operacionais ocorridas ao longo do tempo. Não existiam Mirage III novos, pois a linha de produção estava encerrada. Por outo lado, a Northrop ainda produzia o F-5E, mas sua montagem deveria encerrar-se em breve. A companhia norte-americana acenou com a possibilidade da FAB adquirir o F-20 Tigershark, o mais novo produto da companhia.

Infelizmente não havia como adquirir aeronaves novas. O Ministério da Aeronáutica não tinha recursos financeiros para tal empreitada e o país atravessava uma década marcada por crises econômicas. Além disso, boa parte dos esforços do MAer estavam direcionados para o programa ítalo-brasileiro AMX e pouco sobrava para o recompletação dos caças. O jeito era buscar por aeronaves de segunda-mão.

O preço unitário de um Mirage III ou de um F-5E usado variava entre U$ 2,5 milhões e U$ 5 milhões. Ofertas de Mirage III vieram da Espanha (que colocava em atividade seus F-18) e da França (estoques da Força Aérea Francesa). Também foram oferecidos caças israelenses Kfir do modelo C-2 semelhantes aos adquiridos pelo Equador cinco anos antes (parte destes Kfir oferecidos ao Brasil foi comprado pela Colômbia poucos anos depois).

A maior dificuldade era em relação à compra de caças F-5E usados. Existiam milhares de F-5 espalhados pelo mundo, mas poucos queriam se desfazer deles. Algumas informações desencontradas diziam que até mesmo o Irã e o Vietnã haviam sido procurados. Mas a fonte mais provável de F-5 usados era o Chile, cujo governo ditatorial de Augusto Pinochet enfrentava embargo de armas dos EUA e, por esse motivo, tinha sua frota de F-5 com baixa disponibilidade. Porém, em meados de 1986 os acontecimentos tomaram outro rumo.

A história do J-7

A indústria de aviação na China começou em 1951 e, sete anos depois, foi criada a Chengdu Aircraft Industry Corporation (CAC). A CAC ficou responsável pela produção sob licença o caça MiG-21F, recebida em 1961 da URSS. O MiG-21F feito localmente foi designado J-7 (Jianjiji – caça) e no ocidente ficou conhecido como F-7. O primeiro J-7 com componentes chineses começou a ser montado em 1964, mas o programa foi afetado pelo início da “Revolução Cultural” e a produção foi transferida para Shenyang.

A produção voltou para Chengdu em junho de 1967 e o primeiro exemplar voou em 1969. A aeronave, identificada como J-7 I, entrou em serviço em junho de 1976, mas problemas de projeto e a baixa qualidade da linha de produção fizeram com que a aeronave fosse produzida em pequena quantidade. A fábrica passou a trabalhar no modelo J-7 II (J-7B) a partir de 1975. O J-7B incorporava algumas mudanças como um turbojato WP7B mais potente de 43,2 kN de empuxo seco.

O primeiro J-7II voou em dezembro de 1978 e, pouco tempo depois, esta versão entraria em operação na Força Aérea do Exército Popular de Liberação da China (FAELPC). O J-7II foi exportado para o Iraque (90 exemplares) e para o Sudão (22 exemplares) com a designação F-7B.

Ainda no início da década de 1980, o Ministério da Aeronáutica da China importou 100 conjuntos de aviônicos da companhia britânica GEC-Marconi para modernizar os J-7II da FAELPC. O programa foi cancelado, mas a companhia Chengdu decidiu dar prosseguimento às modificações dos J-7II de forma independente a partir de 1981.

Boa parte da aviônica original foi substituída por equipamentos de origem ocidental. Dentre eles, um HUDWAC (HUD associado a um sistema de pontaria computadorizado) composto por um radar de telemetria Type 226 Skyranger e um HUD Type 956. , radar-altímetro, novo IFF e novo radar de telemetria. Para absorver todos estes aviônicos, o sistema de geração de energia elétrica foi melhorado. Além disso, o avião recebeu um motor WP7B (BM) aprimorado, um pára-brisa mais resistente a choque com pássaros, trem de pouso reforçado e sonda do nariz reposicionada para o topo da tomada de ar.

O resultado foi um caça para exportação denominado F-7M. O primeiro vôo ocorreu em agosto de 1983. No ano seguinte começaram os esforços para exportá-lo, sendo que o nome “Airguard” só foi aplicado no início de 1986. Pode-se considerar que o programa obteve relativo sucesso, uma vez que mais de 160 aeronaves foram exportadas para países do Terceiro Mundo como Bangladesh, Irã, Mianmar e Zimbábue – em plena década de 1980!

A negociação

A confirmação oficial da negociação entre Brasil e China ocorreu no mesmo dia em que a matéria do jornal O Globo foi publicada. O então ministro da Aeronáutica, Octávio Moreira Lima, reuniu-se com o presidente José Sarney antes da divulgação da informação. Ma,s ao contrário do que havia sido noticiado pelo jornal ‘O Globo’, a compra não seria de 60 a 110 caças, mas de 30 aeronaves.

Conforme as informações foram surgindo, percebeu-se que não se tratava apenas de uma simples compra de prateleira. A eventual aquisição do “Airguard” fazia parte de um amplo acordo na área aeroespacial entre os dois países, envolvendo outros produtos. Especulava-se que o negócio envolveria a venda, ou até mesmo a produção sob licença, de alguns modelos de aeronaves da Embraer em território chinês como o EMB-120 Brasília e o EMB-312 Tucano.

De concreto mesmo foi a afirmação do ministro Moreira Lima de que existia “um mercado potencial extraordinário na China para os produtos brasileiros” e que “a cooperação aeronáutica e espacial poderia ser amplamente estimulada” através desta negociação.

Coube ao Ministério da Aeronáutica a realização das análises técnicas em relação à aeronave. Em novembro de 1986 uma equipe de militares da FAB esteve na China para avaliar a aeronave e um major-aviador chegou a voar com o F-7M. Dentre os itens analisados, além da performance em voo, estavam questões logísticas e operacionais. Na volta, o relatório sobre a aeronave ficou a cargo de dois pilotos, um de F-103 e outro de F-5. O documento recebeu parecer favorável da comissão técnica do COMGAP (Comando Geral de Apoio) no início de abril de 1987.

Entre os destaques positivos apontados, estavam a maneabilidade e a robustez da aeronave. Críticas foram feitas em relação à vida útil do motor e aos aviônicos antigos. Sobre o turbojato, uma modificação do motor soviético Tumansky R-11, este  deveria sofrer uma revisão a cada 200 horas, com troca após 600 horas. Comparando a outros motores ocidentais, como o Atar 9C empregado pelos F-103 da FAB, o motor chinês possuia uma vida menor (600 horas contra 900 horas do propulsor francês), mas também era mais barato (algo como US$ 600 mil contra US$ 3 milhões).

O valor unitário de cada “Airguard” era estimado em US$ 5 milhões. Este valor estava próximo ao montante que a FAB esperava gastar com a compra de cada unidade de F-5 ou Mirage III usados. Mas o “pacote chinês” ainda incluía treinamento, assistência técnica, peças e subressalentes suficientes para três anos de operações e dois motores por aeronave adquirida, com transferência da manutenção dos mesmos para a empresa nacional CELMA (Cia. Eletromecânica de Aviação).

Após a confirmação da negociação pelo próprio ministro, Moreira Lima ainda informou que a divulgação do resultado final sobre as negociações com os chineses ocorreria em até seis meses. Na segunda-feira, dois de fevereiro, o porta-voz do Ministério da Aeronáutica, coronel Paulo Esteves, forneceu mais detalhes sobre a negociação e desmentiu a informação de que o negócio com os chineses tinha, como objetivo, pressionar os EUA para a venda de um novo lote de caças F-5 ao Brasil.

Questionada sobre o porquê do Brasil encontrar dificuldades em adquirir caças F-5 no exterior, a embaixada dos EUA, através do seu porta-voz Willian Carr, informou que não havia F-5 novos ou usados disponíveis nos Estados Unidos. A USAF, naquele momento, não pretendia se desfazer dos seus esquadrões ‘Agressors’, única fonte de F-5 naquela força.

Do outro lado do planeta, o jornal “Diário do Povo”, veículo oficial do Partido Comunista da China, veiculou em sua edição de 9 de abril de 1987 que as negociações para a venda do ‘Airguard’ ao Brasil estavam “progredindo sem quaisquer atritos” e que o governo de Pequim daria “todo o apoio à negociação”.

Reviravolta no caso

Enquanto o Brasil negociava com a China a compra de caças F-7M Airguard, mudanças ocorriam na Força Aérea dos EUA, principalmente no treinamento DACT (Dissimilar Air Combat Training). O F-5 era empregado nesses treinamentos como ‘aeronave adversária’, equipando alguns poucos esquadrões ‘Aggressors’, que simulavam tácitas e padrões empregados por aeronaves soviéticas. Suas dimensões e o seu desempenho tinham similaridades com o MiG-21.

Mas, na metade da década de 1980, uma nova família de caças soviéticos entrou em atividade e o MiG-21 foi perdendo importância. Estes novos aviões soviéticos possuíam um desempenho superior ao F-5 e a USAF passou a considerar a substituição dos mesmos como aeronaves ‘agressoras’.

Paralelamente aos estudos para a substituição do F-5 nos esquadrões ‘Aggressors’, as aeronaves passaram a apresentar graves problemas estruturais, ocasionados por intensos e seguidos treinamentos com elevada carga-G. Estes problemas agravaram-se ao longo do ano de 1987. Durante a investigação de um acidente com um Tiger II, constatou-se que a longarina superior da fuselagem da aeronave estava gravemente comprometida, sendo que a falha estrutural teria como causas a fadiga ou a corrosão.

Com base nesta investigação, toda a frota foi submetida a inspeções mais detalhadas. Como resultado, algumas aeronaves foram retiradas do serviço de imediato e outras receberam limitações quanto à carga-G. Ainda em 1987, a USAF deu início ao plano para retirar de serviço todos os F-5 até 1990. As aeronaves seriam armazenadas no deserto do Arizona ou transferidas para outros usuários. Surgiu assim a disponibilidade de caças F-5.

Os contatos entre os EUA e o Brasil para a aquisição destes F-5 foram feitos no final do ano de 1988. No início do ano seguinte, o Estado-Maior da Aeronáutica acertava os últimos detalhes para a aquisição de um lote de F-5 usados, provenientes da USAF, via FMS (Foreing Military Sales). A um custo de US$ 13,1 milhões, a FAB arrematou um lote de 22 F-5E e quatro F-5F. O ‘negócio da China’ feito com os EUA acabou encerrando a possibilidade do Brasil sonhar com o F-7M na FAB.

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Como estava o Programa F-X oito anos atrás

(…)Março [de 2002] chegou e nada aconteceu. Nenhuma “short list” foi produzida e todos os competidores continuavam no páreo. O programa começava a se desviar de suas metas iniciais. No mês seguinte equipes da FAB começaram a visitar as instalações dos concorrentes e os aviões foram voados por pilotos brasileiros.

Foi também em abril que a agência DSCA do Pentágono notificou o congresso dos EUA sobre uma provável venda de caças F-16 ao Brasil. No pacote, avaliado em 909 milhões de dólares, estavam 48 mísseis AMRAAM AIM-120C, liberados pelo Departamento de Defesa para países da América Latina.

Todas as informações coletadas geraram novos documentos e com base nestas informações representantes dos consórcios foram chamados para novos esclarecimentos. Toda esta etapa foi encerrada no dia 20 de maio de 2002, quando os cinco consórcios apresentaram suas melhores e definitivas ofertas (best and final offer – BAFO).

Deste ponto em diante, coube ao Ministério da Defesa analisar e encaminhar o documento ao Conselho de Defesa Nacional (CDN), que deveria apontar o vencedor. Existia uma certa pressa da Aeronáutica em definir o F-X, pois havia o risco do processo ser “contaminado” pelas eleições presidenciais que se aproximavam. Dependendo dos resultados eleitorais, os rumos do projeto F-X poderiam ser modificados.

Não teve jeito, o programa F-X passou a ser explorado pelos candidatos. Deve-se destacar que os três principais concorrentes à presidência defenderam abertamente a proposta que incluía a Embraer sem ao menos ter acesso ao documento produzido pela FAB. Para complicar mais o quadro o Tribunal de Contas da União (TCU) passou a investigar supostos favorecimentos no processo.

Em agosto o governo já sinalizava que uma decisão final ficaria para a próxima administração, independentemente do candidato vitorioso. A FAB sabia que, naquela altura do campeonato, qualquer decisão poderia não ter validade para o governo seguinte. Pelo menos os programas P-X e CL-X, que não tinham tanta exposição política, foram salvos. Na reunião do CDN ocorrida no dia 4 de novembro ficou decido que a EADS/CASA modernizaria os P-3A da FAB, além de fornecer 12 aviões C-295. O F-X não seria decidido naquele momento. Era a FAB entregando os anéis para não perder os dedos.

Quando saiu o resultado final das eleições o presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou que a escolha do futuro caça da FAB seria feita pelo novo governo com base nos documentos produzidos pelo Ministério da Aeronáutica. Segundo especulações da época o relatório era extremamente favorável ao Gripen. O programa F-X vivia momentos de apreensão e expectativa. (…)


NOTA DO BLOG: Texto retirado do artigo “Vida e morte do Programa F-X”, originalmente publicado em 21 de dezembro de 2009. Para ler o texto completo sobre o histórico do Programa F-X clique aqui.

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Muito antes do Eurofighter – parte final

A história da cooperação europeia no desenvolvimento de projetos de caças, de 1965 a 1985

Barra de Cinco Pixels

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O estabelecimento de dois programas distintos

Barra de Cinco Pixels

vinheta-exclusivoUm passo concreto para o EFA, informalmente apelidado de “eurofighter”, foi dado no dia 2 de agosto de 1985. Naquela data os ministros da defesa da Itália, Reino Unido e Alemanha uniram-se para anunciar que o EFA seria construído de qualquer forma. Dentre as especificações anunciadas, o novo caça europeu deveria ter um peso vazio da ordem de 9,75 toneladas, motores com potência de 90 Kn e superfície alar de 50m2. A divisão de trabalho foi inicialmente feita da seguinte forma: 38% para a Alemanha, 38% para o Reino Unido e 24% para a Itália. O consórcio multinacional, que lembrava muito o programa Panavia, estava aberto para outros parceiros que eventualmente decidissem participar.

Esse foi um passo político muito importante, pois com a proximidade do final do programa Tornado, milhares de postos de trabalho seriam perdidos nos três países. Somente no Reino Unido eram estimados 30.000 postos de trabalho envolvidos direta e indiretamente no programa do Tornado.

Ainda no campo político, o ministro da defesa francês, Charles Hernu, voou para a Espanha no dia 14 de agosto com o objetivo de trazer aquele país para a esfera do programa Rafale (ver foto no início do texto), ao mesmo tempo em que pedia à Alemanha mais tempo para estudar o assunto.

No final do mês de agosto, o presidente francês François Mitterrand encontrou-se com o chanceler Helmut Kohl no sul da França com o propósito de salvar o EFA como um programa de cinco nações européias. Foi oferecida uma parceria semelhante ao programa Airbus e a adoção de um programa misto “hi-lo”, incluindo tanto o EFA como o Rafale (antigo ACX). A Alemanha não aceitou mais esta investida da França e seguiu conforme os planos anunciados no dia 2.

Em setembro uma delegação espanhola mista (política e industrial) visitou a capital da Alemanha Ocidental com o propósito de definir a participação espanhola no EFA. Depois de alguns entendimentos, ficou definido que a participação espanhola seria um pouco acima dos 10% inicialmente previstos. No balanço final, a divisão de trabalhos ficou igual para Alemanha e Reino Unido (cada um com 33%), Itália com 21% e Espanha com 13%.

Assim, o ano de 1985 foi decisivo para o futuro da cooperação europeia no desenvolvimento de caças. De um lado, estavam os mesmos países que projetaram e desenvolveram o Tornado mais a Espanha. Do outro, estava a França com sua longa tradição em desenvolver caças de forma independente e uma indústria aeroespacial fortemente apoiada na exportação.

A Europa entrou na segunda metade da década de 1980 com dois programas de caça que, mesmo apresentando diferenças entre si, pertenciam à mesma categoria e concorreriam no mesmo mercado. É interessante observar que esta situação surgiu ao longo de 20 anos (1965 a 1985) de intensos debates, acordos e desacordos.

Os eventos ocorridos naquele período de 20 anos foram fundamentais para o estabelecimento do quadro atual. Em outras palavras, os fatos históricos aqui apresentados permitem uma comprensão melhor da presente situação dos programas Rafale e Eurofighter, mais de duas décadas após o decisivo ano de 1985.

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A história da cooperação europeia no desenvolvimento de projetos de caças, de 1965 a 1985

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EFA-1

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ACX contra EAP

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vinheta-exclusivoAinda durante a Feira de Paris de 1983 o presidente da Dassault, Breno-Claude Vallieres, afirmou que sua empresa era favorável à cooperação com alemães e britânicos na produção de um caça comum europeu, mas que a Dassault deveria atuar como líder de um eventual consórcio por possuir mais experiência no desenvolvimento de caças com asas em delta. E, caso não houvesse um entendimento, a França estaria preparada para seguir sozinha.

O que Vallieres disse era a mais pura verdade, mas seria este o quesito central? Os alemães possuíam menos experiência que os britânicos em projetos e desenvolvimentos de caças modernos, mas a sede do consórcio Panavia foi instalada na Alemanha. E dos três países a França era a que  estava mais preparada para seguir sozinha, mas seria esta a melhor solução?

O ponto principal é que a indústria aeroespacial francesa nunca se habituou ao papel secundário em projetos de defesa multinacionais. A França havia liderado tanto o programa do Jaguar (França/Reino Unido) como o do Alpha Jet (França/Alemanha). Portanto, um papel secundário para a França dentro de um hipotético consórcio entre os três países parecia algo inviável, mas ninguém havia abandonado a mesa de negociação até aquele momento.

Um dos centros de discordância era o propulsor do futuro caça. A Snecma trabalhava no desenvolvimento do M88 para o ACX e, se um acordo fosse firmado com os outros dois países, este deveria ser o motor do ‘eurocaça’. Os britânicos e os alemães preferiam um derivado do RB.199 que equipava o Tornado. De qualquer forma, nenhuma das duas turbinas ficaria pronta quando o ACX e o EAP voassem pela primeira vez. O primeiro acabou empregando um par de turbinas norte-americanas F404 (a mesma que equipava o  F/A-18 Hornet), que eram maiores que a M88. Já o EAP deveria ser equipado com o próprio RB.199 e com o mínimo de modificações possíveis.

É importante destacar que o propósito do EAP era demonstrar um conceito novo de aerodinâmica, novos materiais compostos e sistemas digitais de controle de voo. Todos os demais itens eram secundários. Aproveitou-se ao máximo o que já existia visando economizar recursos e ganhar tempo. Muito veio do Tornado, incluindo toda a deriva e os motores. O EAP era, com todas as letras, um típico demonstrador.

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Maquete do EAP mostrando claramente o formato das asas em duplo delta. Este formato final não foi adotado pelo Eurofighter. (FOTO: BAe)

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Já o programa ACX foi todo desenvolvido visando uma nova família de aeronaves tanto para a Marinha da França como para a Força Aérea. O ACX daria origem a dois caças: um embarcado (ACM – Avion de Combat Marine) e o outro terrestre (ACT – Avion de Combat Tactique).

Embora oficialmente a aeronave fosse classificada como “demonstrador”, o que se viu foi quase um protótipo do futuro caça francês. Não fossem os motores norte-americanos, que obrigaram a Dassault a aumentar as dimensões da fuselagem do ACX, este poderia ser o ACM. Mas a Dassault não poderia esperar pelo desenvolvimento do M88. Se assim o fizesse, perderia a “corrida dos demonstradores” para o EAP e chegaria em posição de desvantagem na escolha do futuro caça europeu.

Tanto a Dassault como a British Aerospace haviam definido o ano de 1986 como a data do primeiro voo de seus demonstradores. Paralelamente à ‘corrida dos demonstradores’, França e Grã Bretanha lutavam pelo apoio do governo alemão nos bastidores (o EAP tinha apenas apoio da indústria alemã). A opção alemã era o diferencial de todo o processo, pois sua decisão levaria junto a Itália, que já havia fechado questão com os germânicos. O vencedor do embate ACX/EAP iria se tornar a base do futuro caça europeu (Future European Fighter Aircraft – FEFA) ou simplesmente EFA (informalmente apelidado de “eurofighter”).

Em abril de 1985, o ACX foi batizado com o nome Rafale e esperava-se que o mesmo voasse três meses após o EAP. Enquanto os aviões eram construídos, mais países demonstravam interesse no programa EFA. Este foi o caso da Espanha, que começou a acompanhar o programa mais de perto. Conversas sobre a divisão de trabalho do EFA foram mantidas levando-se em consideração quatro países.

ACX_Paris_1983

Maquete do ACX exposta no estande da Dassault durante o salão de Paris em 1983. Observar os cones típicos da família ‘Mirage’ nas entradas de ar (FOTO: R Braybrook)

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A França não aceitava menos do que 31% (há relatos de que a indústria aeroespacial francesa exigia 50%), colocando o país como contratante principal. Além disso, a lista de exigências era bastante grande, indo do desenvolvimento dos ensaios em vôo na França ao controle total da exportação. Essa intransigência francesa era vista, por alguns indivíduos das outras quatro nações, como uma forma de atrasar o EFA.

O domínio do programa pela França não era o principal entrave. A configuração do Rafale não atendia a algumas das exigências críticas (conhecidas como European Staff Target) do EFA. O motor proposto (M88) era pequeno e não demandava a potência mínima exigida. Por outro lado, a França não pretendia aumentar o tamanho da estrutura do avião, pois esta não seria compatível com o futuro navio aeródromo francês de propulsão nuclear. Em resumo, a França queria um caça menor do que as outras nações, pois ela era a única que operaria uma versão embarcada do mesmo.

Como se não bastasse tudo isso, havia ainda aqueles que acusavam a França de postergar a definição do EFA com o propósito de manter o Mirage 2000 no mercado com menos concorrência. O Mirage 2000 era um dos poucos produtos da sua classe oferecido ao mercado ocidental que não era de origem norte-americana.

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BAe P110_foto-BAe

O ECA está morto. Vida longa ao EAP

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vinheta-exclusivoA implosão do programa ECA não paralisou os trabalhos da BAe. Baseado nos estudos do ECA a empresa britânica, utilizando recursos privados, custeou o desenvolvimento do projeto P.110 (ver foto acima). O foco não era mais o substituto do Jaguar (conforme razões explicadas no texto anterior), mas sim um caça ágil de superioridade área que pudesse atuar no ‘front’ central europeu a partir da década de 1990. Estes eram os novos requisitos da RAF após a reavaliação da sua atuação na Europa continental. No início da década de 1980, a RAF possuía dois esquadrões de Phantom II baseados na Alemanha. Era exatamente este avião que deveria ser substituído.

A nova abordagem da RAF ia ao encontro dos requisitos alemães do TKF90, que também buscava um substituto para os F-4F na arena ar-ar, com capacidade segundária ar-solo.

Em setembro de 1982, a BAe conseguiu reunir seus parceiros do programa Panavia (MBB e Aeritalia) e transformou o P.110 no Agile Combat Aircraft (ACA, não confundir com o “Advanced Combat Aircraft” mencionado anteriormente). Até este momento, não havia envolvimento governamental, somente acordos entre as companhias. A Panavia era um consórcio de sucesso e havia interesse dos três participantes em dar continuidade à parceria.

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O ACA lembrava muito o projeto P.110 da BAe (ver imagem no início do texto). A grande modificação externa foi a troca das entradas de ar laterais por uma entrada abaixo do cockpit. (FOTO: BAe)

A pressão da BAe sobre o governo do seu país rendeu frutos e o Ministério da Defesa do Reino Unido contribuiu com 20 milhões de libras para o desenvolvimento do demonstrador (números maiores foram mencionados extra-oficialmente), renomeado “Experimental Aircraft Program” ou simplesmente EAP.

A França não ficou atrás e lançou o programa ACX no lugar do ACT92 visando a substituição do Jaguar, mas também interessada em outros nichos de mercado. O ACX seria uma aeronave tática bimotora com asa em delta e canards. Como o turbofan M53 do Mirage 2000 era um motor desenvolvido para altas e médias altitudes (excelente para um interceptador, mas não adequado para uma aeronave de ataque ao solo), um novo propulsor seria projetado visando um ótimo desempenho tanto na função de superioridade aérea como ataque ao solo.

EAP_foto-BAe

O EAP em voo. Observar as semelhanças com o ACA (foto acima), porém com uma única deriva. Diversas partes da aeronave foram “emprestadas” do Tornado (FOTO: BAe)

Por diversas vezes o governo francês insistiu no desenvolvimento do ACX em cooperação com os governos alemães e britânicos mas, se fosse necessário, estaria preparado para seguir sozinho. A indústria aeroespacial francesa continuava forte em 1983, com uma produção mensal de dois Mirage III e cinco Mirage F.1, e o Mirage 2000 fazia a sua estreia no mercado internacional com a opção do Egito pelo produto. Também havia o Super Mirage 4000, um programa privado da Dassault para um caça da mesma categoria do F-15.

Nasciam assim dois grandes rivais, o EAP e o ACX. O primeiro embate ocorreu ainda em 1983, durante o Salão de Paris. Nem mesmo a presença do ônibus espacial Columbia chamou tanto a atenção quanto os modelos em escala real do projeto britânico e do projeto francês.

ND-102

Maquete do projeto N/D-102, uma parceria entre a Northrop e a Dornier. O N/D-102, embora pouco conhecido, é chamado de “o elo perdido” entre o YF-17 e o YF-23.

Embora a MBB participasse do demonstrador EAP, o governo alemão não havia tomado nenhuma decisão, mesmo porque existiam outras possibilidades como o programa do N/D-102, desenvolvido pela Dornier em parceria com a Northrop. No entanto, era bastante provável que a Alemanha firmasse uma parceria com um dos dois países europeus caso não houvesse união entre todos.

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A história da cooperação europeia no desenvolvimento de projetos de caças, de 1965 a 1985

P106-BAe

O ECA

vinheta-exclusivoAs primeiras tentativas de unificar os requerimentos e as datas ocorreram em abril de 1976 em Londres. Foi um encontro sem maiores pretensões e buscava apenas avaliar as necessidades de cada país, em especial da França, da Alemanha e do Reino Unido. Não havia a possibilidade de projetar um ‘eurocaça’ sem a presença destes três. Desta forma, criou-se o European Project Group (EPG), posteriormente renomeado Independent European Programme Group (IEPG), que buscava um consenso entre os participantes. Conforme o programa Panavia havia mostrado, o sucesso de qualquer cooperação estava no estabelecimento de um requerimento único desde o início.

Novos encontros entre representantes desses países ocorreram entre 1977 e 1980. Foi nesta época que surgiu o acrônimo TCA (Tactical Combat Aircraft), abandonado pouco tempo depois. Enquanto um acordo final não era fechado, cada país seguia com o seu próprio desenvolvimento. A França, baseando-se nas tecnologias desenvolvidas para o Mirage 2000, trabalhava no programa ACT92. No Reino Unido, o documento AST403 acabou gerando mais de 30 estudos diferentes para a mesma solução, resumidos para três em 1980. A Alemanha seguia com os seus estudos para o TKF90 (ver texto anterior).

Enquanto os governos discutiam um requerimento comum, a MBB e a BAe (British Aerospace, formada a partir da fusão da BAC com a Hawker-Siddeley em 1977) apresentaram um estudo conjunto denominado ECF (European Combat Aircraft) em 1979. Em outubro do mesmo ano,, a Dassault juntou-se ao grupo e o ECF virou ECA (European Combat Aricraft). O primeiro grande e significativo encontro entre representantes das principais indústrias aeroespaciais dos três países (MBB, BAe e Dassault) ocorreu em abril de 1980.


ECA-propostas-BAe
Duas propostas da BAe para o ECA. O modelo da direita é o projeto P.106B

Houve um consenso em relação à configuração geral da futura “aeronave de combate europeia”. A aeronave deveria ser um caça para um único tripulante propulsado por dois motores, otimizado para superioridade aérea e com capacidade secundária de ataque ao solo. O arranjo geral das asas teria um formato em delta, mas com canards na porção frontal da fuselagem. A decisão sobre motorização, aviônicos e radar ficaria para uma etapa posterior.

Ainda como fruto do encontro, ficou definido que pelo menos dois protótipos estariam voando até 1984 e a aeronave entraria em serviço por volta de 1991/1992. Seriam encomendados aproximadamente 700 aviões. A divisão do programa se daria em partes iguais entre os três parceiros e o gerenciamento do mesmo seria decidido em um futuro próximo. Para respeitar os prazos, uma decisão final deveria ocorrer ao longo do ano seguinte (1981).

O que era um amontoado de palavras e números passou a ganhar forma em junho de 1980. Durante a feira internacional de tecnologia de Hanover, a MBB alemã apresentou para o público em geral o primeiro modelo em tamanho real de como deveria ser, na sua visão, a configuração do ECA. Foi também durante a feira de Hanover que as empresas BAe e Dassault-Breguet revelaram os seus projetos. Não havia dúvidas. Os modelos eram visualmente muito parecidos, embora existissem diferenças que saltavam aos olhos como o formato das tomadas de ar dos motores e o tipo de deriva (dupla ou simples).

TKF-90-MBB-2_foto-FI Maquete em tamanho real do ECA segunda proposta da MBB (FOTO: FI)

Mas as semelhanças no aspecto geral escondiam detalhes importantes. A partir do relatório da MBB, produzido com as informações levantadas na reunião entre as três empresas, a Luftwaffe concluiu que os requisitos operacionais dos três países simplesmente não poderiam ser integrados em uma única célula. O otimismo das empresas pelo ECA não encontrava eco no requerimento conjunto (joint air staff target) dos países envolvidos. Por este motivo, era necessária uma reunião entre representantes das três Forças Aéreas e não só dos representantes industriais.

É interessante observar que, em 1981, os programas militares destes três países enfrentavam graves dificuldades financeiras. Na França, os atrasos no programa do Mirage 2000 forçaram a Força Aérea daquele país a adquirir mais Mirage F.1 para substituir os Mirage III. Na Alemanha, os fundos para o desenvolvimento do programa TKF90 praticamente desapareceram e, no Reino Unido, a falta de recursos para um substituto do Jaguar fez com que o programa fosse cancelado. Em junho de 1981 o ministro da defesa britânico, John Nott, informou que o papel desempenhado pelo Jaguar seria dividido entre o Tornado e o novo Harrier (GR.5). Diante deste quadro, não havia como estabelecer cooperação. O ECA estava morto e a causa de sua morte era econômica.

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A história da cooperação europeia no desenvolvimento de projetos de caças, de 1965 a 1985

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Superioridade Aérea

vinheta-exclusivoSe as necessidades da França e da Grã Bretanha na questão da defesa aérea estavam atendidas, o mesmo não podia ser dito em relação à Alemanha, Itália e Espanha. Esses países eram operadores do F-104G Starfighter e do F-4 Phantom II (Alemanha e Espanha somente). Uma das soluções mais óbvias seria a compra de material norte-americano, como o F-16 ou o F-18L, nos mesmos moldes dos ‘quatro da OTAN’ (Holanda, Bélgica, Noruega e Dinamarca). Na verdade, este foi o caminho percorrido pelo Canadá, que adquiriu o F/A-18 para substituir três modelos diferentes de aeronaves (CF-101, CF-5 e CF-104).

Dos países citados acima, a Alemanha era a nação que mais investia em um programa de caça de defesa aérea próprio. Os requisitos da Luftwaffe eram conhecidos como TKF 90 (Taktische Kampflugzeuge 1990) e a aeronave deveria ser mais capaz que o F-16 na arena ar-ar, além de possuir capacidade ar-solo secundária. As três grandes companhias aeroespaciais da Alemanha (Dornier, MBB e VFW) receberam fundos do governo visando o desenvolvimento de programas distintos.

TKF-90-MBB_foto-FI TFK90-VFW

Duas propostas para o NKF alemão. À esquerda a maquete da MBB e, à direita, a ilustração do projeto da VFW (FONTE: FI/VFW)

A indústria aeroespacial alemã no final da década de 1970 encontrava-se bastante desenvolvida e heterogênea, participando de diversos programas europeus como o Tornado, o Alpha Jet, o PAH-2 , o BK-117 e o Airbus. Mesmo assim, sua massa de trabalhadores, algo próximo de 55.000 homens, ainda era metade do tamanho da francesa e um quarto da britânica.

Se a capacidade técnica da Alemanha já não era mais problema para o desenvolvimento de um caça puramente nacional, o custo do mesmo tornou-se um empecilho. No verão europeu de 1980, o então ministro da defesa da Alemanha, Hans Apel, informou que os custos de certos programas militares, incluindo o do caça tático Tornado e do carro de combate Leopard, haviam aumentado muito, reduzindo os recursos para novos investimentos.

TKF90-DornierNovamente surgiram as alternativas de sempre. Participar de um programa multinacional ou adquirir um caça pronto no exterior. De acordo com o cronograma alemão, a decisão não poderia esperar muito. Se a opção fosse pelo desenvolvimento conjunto entre Alemanha, França e Grã Bretanha, a decisão deveria ser tomada ainda em 1980. Uma eventual parceria com os norte-americanos poderia ser decidida em 1981 e a compra de um “caça de prateleira” poderia aguardar até 1984. A Alemanha nunca escondeu sua apreciação pelo programa P600 da Northrop (ao lado proposta da Dornier para o programa NKF-90. A influência da Northorp fica clara nesta maquete) e, caso tudo desse errado, o F-18 Hornet seria a compra de prateleira do momento.

Conciliar os interesses parecia algo difícil, pois a visão estratégica de cada país era diferente, mesmo tendo um inimigo em comum. Na visão alemã, a ameaça principal vinha do grande número de aeronaves de ataque e caças-bombardeiros existentes nos países do Pacto de Varsóvia. Estes deveriam ser abatidos em combates ar-ar antes que o TKF (ou qualquer outro caça que viesse a ser adotado) pudesse ser empregado na função ar-solo. Devido à proximidade com a frente de combate, estes aviões deveriam estar protegidos no interior de hangares fortificados e operar a partir de pistas curtas.

Os franceses, pela maior distância do ‘front’ central, não tinham a necessidade de pistas curtas. Já Reino Unido, pela sua posição geográfica mais afastada, tinha a necessidade de interceptadores de longo alcance (o Tornado ADV) baseados “em casa” e caças de ataque baseados na Alemanha para apoiar suas tropas terrestres.

TKF-90-MBB-3_foto-FI

A diferença entre os requerimentos não era o único problema. Não só “o que” deveria ser produzido, mas também “quando” este produto deveria entrar em serviço eram motivos de discussão. Os britânicos eram os primeiros da fila. De acordo com a RAF, o substituto do Harrier/Jaguar deveria entrar em cena por volta de 1987. Para os alemães, a aeronave que tomaria o lugar do F-4F entraria em atividade depois de 1990. Os franceses esperavam substituir o Jaguar em 1992.

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A história da cooperação europeia no desenvolvimento de projetos de caças, de 1965 a 1985

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Um substituto para o Jaguar

vinheta-exclusivoO Mirage 2000 da Dassault representou um salto tecnológico notável em relação a todos os caças anteriormente produzidos e desenvolvidos pela empresa francesa. Externamente, existiam muitas semelhanças com a família Mirage III/V, mas a comparação para por aí. Avanços significativos foram introduzidos nas áreas de propulsão (o motor M53 era muito mais moderno que a família Atar), estrutura (grande presença de materiais compostos, quantidade de longarinas nas asas, métodos construtivos), aerodinâmica (junção asa-fuselagem, para dar um exemplo facilmente identificável) e sistemas.

Mas o que chamou a atenção do Mirage 2000 foi sua instabilidade, causada pelo recuo do centro de gravidade (CG), proporcionando uma manobrabilidade fantástica à aeronave. Isto foi possível graças ao emprego de controles de vôo tipo fly-by-wire (FBW). A Dassault finalmente havia produzido uma aeronave tão capaz quanto o F-16.

O Mirage 2000 preenchia as necessidades do ‘Armeé de l’Air’ no quesito defesa aérea para as duas próximas décadas e, portanto, não havia a necessidade de um substituto no curto e médio prazo. Na Grã Bretanha, as necessidades da RAF para um interceptador de longo alcance (requerimento AST 395, publicado em 1971) foram preenchidas ainda em 1976, com a confirmação da versão ADV (Air Defence Variant) do Panavia MRCA, oficialmente conhecido como Tornado a partir de 1975. O Tornado ADV seria o substituto natural dos English Electric Lightning remanescentes e dos F-4 Phantom II.

Com as necessidades de defesa aérea satisfeitas, França e Grã Bretanha voltaram o foco para um novo caça de interdição do campo de batalha (BAI) e apoio aéreo aproximado (CAS). O futuro caça tático francês era designado ACT 92 (Avion de Combat Tactique 1992). Na Grã Bretanha, o documento AST (Air Staff Tarquet) 396 definia um substituto não só para o Jaguar, mas também para o Harrier.

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Maquete do ACT92 na visão da Dassault em 1979 (FOTO: Dassault)

A RAF expressou suas necessidades para um substituto da dupla Jaguar/Harrier ainda em 1969. O futuro avião deveria dar ênfase ao apoio aproximado, em suporte às tropas terrestres em qualquer condição meteorológica, ter capacidade V/STOL, ser biplace e supersônico.

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Projeto P.103, proposta da BAC para um caça V/STOL para a RAF em 1978 (DESENHOS: BAC)

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A RAF exigia muito e, além de cara, a aeronave competiria com o Tornado ao invés de complementá-lo. Os estudos foram reavaliados e um novo documento (AST 403) foi produzido. Não havia mais a necessidade “all weather”, eliminando assim o segundo tripulante. A capacidade V/STOL não foi excluída, mas deixou de ser item obrigatório. Um ponto importante foi a maior ênfase na capacidade de combate ar-ar.

Na segunda metade da década de 1970, França e Grã Bretanha estabeleceram diversas conversas bilaterais com o propósito de formar uma parceria, assim como havia ocorrido no programa do Jaguar, mas os requerimentos dos dois países conflitavam em alguns pontos. Quando a RAF separou o programa de substituição do Harrier do AST 403 no início do ano de 1979, uma luz no fim do túnel apareceu para o estabelecimento de um programa conjunto.

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Proposta da BAC para substituir o Jaguar, conforme requerimento AST 403. Projeto bem mais convencional que o anterior (IMAGEM: BAC)

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