Página 1 de 3123

Rafale - foto Dassault

A Dassault publicou em seu site nesta sexta-feira, 14 de junho, nota sobre suas aeronaves que estão em exposição no 50º Paris Air Show, que começou hoje em Le Bourget. Segue um resumo da nota, que reúne tanto os aviões militares quanto executivos. Também foram divulgados vídeos de coletiva de imprensa  do diretor-executivo (CEO) da empresa, Eric Trappier (que faz suas explanações em inglês) na abertura do evento.

No primeiro vídeo, de 11 minutos, Trappier apresenta as aeronaves e programas da Dassault e no segundo, de pouco mais de 26 minutos, responde a perguntas dos repórteres (o que inclui o tema das difíceis negociações com a Índia para o contrato do Rafale).  Outro vídeo (falado em francês) mostrando cenas das aeronaves da empresa em exposição e com duração de pouco menos de quatro minutos, também foi divulgado. Clique nas três últimas imagens, ao final, para acessar os vídeos.

Rafale - foto F Robineau - Dassault

Rafale:

O jato é capaz de cumprir todas as missões de um caça numa única missão, e a empresa afirma ser o único avião “omnirole” do mundo. Também é o primeiro avião com configuração “delta-canard” projetado para operações em terra e em porta-aviões, sendo que na França, além de missões que pode realizar simultaneamente, como superioridade aérea, defesa, reconhecimento, ataque ao solo e antinavio, também é utilizado em missões nucleares.

Operacional na Marinha em 2004 e na Força Aérea em 2006, vem sendo empregado no Afeganistão desde 2007 (apenas oito meses após ser declarado operacional), tendo participado de missões no conflito da Líbia, em 2011, desde o primeiro dia de ataque. Ainda segundo a empresa, o caça tem provado seu valor em combate, numa variada gama de missões, demonstrando capacidade de interoperabilidade e conectividade com aliados, especialmente usando o Link 16. Até 31 de dezembro de 2012, 115 caças Rafale (dentre 180 até agora encomendados pela França) já foram entregues.

O Rafale C (da Força Aérea Francesa) e o Rafale M (da Marinha) estão na área de exposição estática do evento.

Neuron - foto Dassault

nEUROn:

Trata-se do programa demonstrador de tecnologias do UCAV (veículo aéreo não tripulado de combate) europeu, cuja direção é da Dassault Aviation e reúne empresas da Itália, Suécia, Espanha, Grécia e Suíça. Sua missão é validar a aquisição de complexas tecnologias representativas de todos os sistemas de missão: controle em alto nível e função furtiva, lançamentos reais de armas ar-solo de uma baia interna, integração num ambiente C4I, processos inovadores de cooperação industrial, entre outras. O primeiro voo foi realizado em 1º de dezembro de 2012, ao qual se segue um período de dois anos de provas.

Falcon-7X_600-400x600 - foto DassaultFalcon 7X:

Foi o primeiro avião executivo do mundo a receber um sistema de controle de voo totalmente digital. Trimotor (Pratt & Whitney Canada PW 307A com 6,400 libras de empuxo) de grande alcance, possui uma nova asa de conceito “aeroelástico”, que melhora a eficiência aerodinâmica em 30%. Velocidade máxima de Mach 0.9 e alcance de 11.000km com oito passageiros e três tripulantes. Entrou em serviço em 2007, trazendo inovações tecnológicas derivadas do campo militar, e a frota do modelo já acumula perto de 200.000 horas de voo.

Falcon 2000S:

Trata-se de uma nova versão para essa aeronave do segmento de entrada da aviação executiva, segundo a Dassault, com preço competitivo e baixos custos operacionais, trazendo características de sucesso de 20 anos da família Falcon 2000. Equipado com a nova versão do turbofan Pratt & Whitney Canada PW 308C, com 20% de redução de emissões NOx, assim como slats para melhores distâncias de decolagem e pouso. Alcance de 6.200km com seis passageiros, a Mach 0.8.

Falcon 900LX:

Aeronave executiva equipada com três turbofans Honeywell TFE731-60 de 5.000 libras de empuxo cada e que, aliados a uma otimização aerodinâmica das asas que reduzem o arrasto em 7% quando comparado ao antecessor Falcon 900EX, conferem um alcance de 8.800 km a Mach 0.75. O desempenho em subida foi melhorado em 10%, sendo capaz de atingir 11.280m (nível de voo 370) em 17 minutos. O Falcon 900LX foi certificado em 2010.

Perguntas e respostas Eric Trappier no Paris Air Show 2013 - cena vídeo Dassault

Aeronaves Dassault do Paris Air Show 2012 - cena vídeo Dassault

FONTE / FOTOS / VÍDEOS: Dassault (tradução e edição do Poder Aéreo a partir de original em inglês)

VEJA TAMBÉM:

‘O Inpe está no fundo do poço’

Entrevista com Gilberto Câmara, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

 

logo_inpe

Herton Escobar

vinheta-clipping-aereoO Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) “está no fundo do poço”, segundo seu ex-diretor Gilberto Câmara, que pediu demissão do cargo há um ano. Não só o Inpe, diz, como vários outros institutos e universidades federais que se esforçam para produzir ciência e tecnologia, mas não conseguem, por causa de uma legislação “arcaica”. Indignado, Câmara escreveu um artigo para o Jornal da Ciência, publicado na edição online em 22 de maio. Na sequência, conversou com exclusividade com o Estado.

O que o senhor quer dizer com “fundo do poço”?

Que o Inpe perdeu a capacidade de cumprir suas missões porque os meios necessários são limitados pelo sistema de administração direta e pelo controle da Advocacia-Geral da União (AGU), Controladoria-Geral da União (GGU) e do Tribunal de contas da União (TCU), em que predomina a regra do “não pode”, e funcionários são contratados para a vida eterna.

O Inpe opera nesse sistema há muito tempo, o que mudou?

O sistema ficou muito mais apertado. Até certo tempo atrás, havia certa tolerância, por exemplo, em relação à captação de recursos externos via fundações e ao uso da lei de licitações para compra de bens tecnológicos. Mas essa tolerância está cada vez menor.

Quando as dificuldades começaram?

De uns cinco anos para cá, quando a AGU passou a interpretar leis de forma mais estrita. A posição é que qualquer recurso que entre nas universidades tem de ir para o orçamento da União e ser gasto segundo a lei de licitações. Essa posição liquida as instituições, tirando delas o mínimo de autonomia que existia.

Como ser mais eficiente?

O certo seria cultivar um sistema de mérito, só que isso é impossível na administração direta. Há incompatibilidade entre cultura de mérito e sistema baseado no controle dos meios – por exemplo, com licitações baseadas em menor preço e contratação de funcionários vitalícios. Não dá para comprar satélite como se compra carro, comparando três modelos e escolhendo o mais barato. Quero contratar pessoas por tempo determinado, não funcionários para o resto da vida.

O que o senhor quer dizer com cultura de mérito?

Uma cultura de mérito pressupõe que quem recebe recurso recebe para produzir determinado resultado. O sistema atual é totalmente antagonista à cultura de mérito necessária à produção de conhecimento. A exceção é São Paulo, porque a Fapesp julga fins, não meios. AGU/CGU e TCU não estão nem aí para resultados.

Qual seria a solução?

Essencialmente, um novo regime administrativo para institutos e universidades – e o melhor regime para isso hoje é o de organização social (ÒS). Não é o melhor que poderíamos criar, mas é o melhor que temos.

Quais são os reflexos no Inpe?

Há paralisia total nas decisões. Todos os editais do CBERS (Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres), por exemplo, estão sendo feitos pela Agência Espacial Brasileira, porque a AGU disse que o Inpe não pode mais contratar para o programa CBERS.

Os serviços prestados pelo Inpe estão ameaçados?

O risco é mais sutil. Serviços continuarão a ser prestados, mas não serão melhorados. A previsão do tempo não deixará de ser feita, mas a capacidade do Inpe de melhorar essa previsão está comprometida. O mesmo vale para o monitoramento da Amazônia: não vai acabar, mas não vai melhorar. Em resumo, o sistema está bichado.

FONTE: estadao.com, via resenha do EB

Tagged with:
 

Ministro da Defesa Celso Amorim em entrevista Rede TV 19-5-2013 - cena vídeo Rede TV

Em entrevista ao jornalista Kennedy Alencar no programa “É Notícia” da Rede TV, o  ministro da Defesa disse também que os caças Mirage não deverão continuar operando por mais tempo, devido à dificuldade de peças. Porém, outros outros jatos (F-5 e A-1) deverão voar por muitos anos, embora não tenham capacidade de garantir a segurança do espaço aéreo brasileiro, e que por isso é preciso adquirir novos caças modernos.

O ministro deu a entender que a hora de decidir o F-X2 é agora, pois ainda é necessário discutir contratos e outros itens, o que leva tempo. Também foram abordados assuntos como a preferência que havia pelo Rafale, os acordos de defesa com a França, incluindo a situação criada à época em que se tentou intermediar a questão do programa nuclear do Irã, além da Estratégia Nacional de Defesa e outros temas, como o submarino nuclear e a vitória do candidato brasileiro à presidência da OMC.

Clique aqui ou na imagem para acessar o vídeo, no site da Rede TV. A segunda parte da entrevista é a que traz o conteúdo resumido acima.

Colaborou: Sandro

F-5 Tiger III deixam Antofagasta- foto FACH

-

Segundo o comandante da Força Aérea Uruguaia, perda de pilotos para a aviação civil foi estancada – há interesse em aeronaves interceptadoras dotadas de radar para completar a vigilância e controle do espaço aéreo, mas o comandante afirmou não ser possível adquirir o material neste ano

-

Com a recente notícia dada pelo site Generaccion de que o Uruguai estaria em entendimentos para comprar caças F-5 Tiger III do Chile, fomos atrás de informações relacionadas nos principais periódicos uruguaios. Ainda não encontramos nada específico sobre esse possível negócio, mas achamos uma entrevista bastante interessante no jornal “El Pais”, publicada quando do aniversário de 100 anos da Aviação Militar Uruguaia, no último dia 15 de março.

A entrevista é com o comandante da Força Aérea Uruguaia (FAU), general do ar Washington Martinez que trata de assuntos como a forma de se resolver a perda de pilotos militares para a aviação civil e a necessidade de interceptadores dotados de radar próprio (vale dizer que as aeronaves de maior velocidade da FAU são os jatos A-37, que alcançam pouco menos de 800km/h e  os turboélices IA-58 Pucará, ainda mais lentos, sendo que nem um nem outro possui radar).

O título escolhido pelo El Pais mostra que a questão da saída de pilotos é um ponto importante:  “Se logró detener la pérdida de pilotos pero siguen las ofertas”. Segundo o jornal, os 100 anos da FAU a encontram em meio a um processo de crescimento de pessoal, após a sangria da qual padeceu nos últimos anos, e prestando serviços de vigilância do espaço aéreo que requerem cada vez mais tecnologia e verbas. Destacamos abaixo alguns trechos da entrevista. O conteúdo completo, em espanhol, pode ser acessado clicando aqui. 

Washington Martinez comandante Força Aérea Uruguaia - foto El PaisO senhor espera receber novo equipamento nas comemorações do centenário?

General Martinez – Não, estamos trabalhando com o Ministério da Defesa com um plano relativo aos requerimentos de reequipamento. A FAU está necessitando fazer uma substituiçao em seus aviões de combate que é o mais urgente. Isso está dentro dos planos e seguimos trabalhando com todas as oportunidades que se possam apresentar.

Quem quer invadir o espaço aéreo uruguaio?

General Martinez - É público e notório que se tem detectado a entrada de aviões que transportam drogas ou mercadorias ilegais. Mas também está o trânsito irregular que não respeita as normas. Nós decidimos que esta é nossa casa, está aberta a todo o mundo mas ao menos temos que saber quem entra e quem sai, isso é prover segurança nacional.

A FAU tem tomado parte em distintas operações contra o narcotráfico. Em que se está pensando para os próximos anos?

General Martinez - Não só no narcotráfico, mas também na vigilância e controle do espaço aéreo jurisdicional, que é nossa obrigação. Se comprou um centro de comando e controle de última tecnologia e radares militares que trabalham em coordenação com o sistema civil. Está nos faltando uma aeronave interceptadora com capacidade de radar próprio para que terminemos de ter todo o sistema armado perfeitamente. Por hora, fazemos a vigilância e controle com as aeronaves que temos.

A-37 - foto Força Aérea Uruguaia

Para quê se precisa de uma aeronave militar com essas características?

General Martinez - Porque tem a capacidade de interceptar aeronaves.

Isso significa que pode derrubar aviões?

General Martinez -Não, interceptar quer dizer chegar rapidamente ao alvo. Quando um radar determina que há um alvo que não podemos identificar porque não temos seu plano de voo ou não sabemos de onde saiu, se ativa uma aeronave de combate. Assim, guiado por nossos radares, o nosso avião identifica o alvo, se posiciona e depois o obriga a aterrissar. Na falta deste, acontece a passagem a países vizinhos, sobre a fronteira.

Este ano será possível adquirir os materiais requeridos?

General Martinez - Não, isso depende de circunstâncias e de verbas. Temos um estudo muito sério sobre a substituição das unidades para adquirir o equipamento quando as circunstâncias permitirem. No futuro poderíamos solicitar mais radares, especialmento os chamados “cobridores de lacunas” (tapahuecos) que poderiam ser operados por nós ou pelo Exército.

Os pilotos da FAU continuam saindo para a iniciativa privada?

IA-58 Pucará - foto Força Aérea UruguaiaGeneral Martinez - Conseguiu-se deter essa perda. Fizemos uma aproximação oportuna com o Poder Executivo e se determinou um valor adicional para os pilotos que se mantivessem voando. Esse foi um grande incentivo para os pilotos, que se viram beneficiados por uma vantagem econômica, para a qual, por sua vez, aceitaram a obrigação de permanecer em serviço por determinado tempo. Por outro lado, as tripulações têm o incentivo profissional de estarem voando bem.

Os pilotos da FAU ganham menos do que os que trabalham para as empresas de aviação privadas.

General Martinez - Sim, ganham cinco ou seis vezes menos que os pilotos comerciais.

Quantos pilotos da Pluna foram preparados na FAU? 

General Martinez - Suponho que a maioria. Com o fechamento da Pluna, acreditávamos que isso deteria a saída de pilotos. Porém, continuaram vindo companhias estrangeiras como a LAN ou a Copa para buscar os pilotos da Pluna e alguns da FAU. Também há uruguaios voando no Oriente Médio e China, são profissionais de exportação, o que evidencia a qualidade de sua formação.

FONTE: El Pais (tradução e edição do Poder Aéreo a partir de original em espanhol)

FOTOS: FACh, FAU e El Pais

VEJA TAMBÉM:

Espadao 2011 - ministro celso amorim - foto Poder Aereo - guilherme poggio

“Os caças são uma necessidade e deverão ser adquiridos pelo Brasil. O assunto, como todos sabem, está sob a análise da presidente da República, a quem caberá a decisão final sobre a concorrência no momento em que considerar oportuno”.

Embora isto seja praticamente tudo que foi dito pelo ministro da Defesa sobre o F-X2, em entrevista à revista Aerovisão da Força Aérea Brasileira, a declaração sobre a necessidade dos caças foi destacada no título da matéria original, por isso também destacamos aqui (acrescentando o “deverão ser adquiridos”)

Mas, apesar do curto trecho dedicado ao F-X2, há diversos outros assuntos tratados na entrevista que valem a leitura. Para acessar o conteúdo no site da FAB, clique aqui.

COLABOROU: Justin Case

VEJA TAMBÉM:

Tagged with:
 

A presidente Dilma Rousseff complementou a frase acima, referente ao adiamento que vem de alguns anos da opção por um dos três caças finalistas do programa F-X2 da FAB: “Nós esperamos que o Brasil cresça nos próximos meses a uma taxa que dê possibilidade para que nós possamos voltar com esse assunto para nossa pauta como sendo um assunto prioritário.”

A pergunta sobre o programa F-X2 e a resposta da presidente Dilma Rousseff estão a partir dos 23 minutos da entrevista coletiva.

VÍDEO: TVNBR

Colaboraram: Gilberto e Ci-Pin-Ha

NOTA DO EDITOR: na mídia internacional, seja a especializada em defesa, em economia ou a geral, a declaração sobre a decisão do F-X2 poder “levar ainda algum tempo” e depender “da recuperação do país” também está repercutindo desde ontem à noite. Há matérias publicadas no site Defensenews,  Nasdaq e The Local edição francesa (nesse caso, com conteúdo da AFP), enquanto título de matéria no La Tribune francês pergunta: “Qual avião de combate vai escolher Dilma Rousseff ?”

A equipe da revista Forças de Defesa entrevistou o aviador e ex-chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA), major-brigadeiro do ar Jorge Kersul Filho, durante a cerimônia de inauguração da Academia de Ciências Aeronáuticas do Centro Tecnológico Positivo, na última quarta-feira (24) em Curitiba. O brigadeiro comentou sobre a segurança aérea às vésperas da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos no Brasil, a separação das investigações criminais e técnicas de acidentes aeronáuticos, e a proposta de criar uma entidade civil para realizar esse trabalho no lugar da FAB.

Nos próximos anos, teremos a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos no Brasil. Como esses eventos de grande porte impactam o espaço aéreo do país? O que é preciso observar em termos de infraestrutura e segurança?

O Estado já está tomando algumas providências, por exemplo o fechamento de lixões, e dar mais atenção ao perigo representado por pássaros. Há até mesmo uma lei que dá poder de multa para que se evite atividades que atraiam aves para perto dos aeródromos (Lei 12.725, de 16 de outubro de 2012). Haverá um crescimento considerável na parte aérea do país, e mais exposição aumenta o risco de novas ocorrências.

Vemos também a iniciativa do governo de permitir o uso de aeroportos particulares – se um proprietário ou uma cidade tem essa estrutura, ela pode ser aberta para operar, porque o maior problema desses eventos de grande porte não é a aviação regular. Outros países que passaram por essa situação tiveram que se preocupar com os aviões particulares, pequenos. E percebemos, em vários locais do Brasil, movimentações para operar esse tipo de aviação – iniciativas de agentes particulares em São Paulo, na região sul há pessoas se mobilizando em associações e construíndo pistas também. Então essas novas instalações poderão absorver esse aumento momentâneo do tráfego aéreo. Afinal, é difícil aplicar grandes recursos públicos para algo pontual, em um país com recursos limitados.

Eu diria que o maior problema que teríamos não é relacionado à aviação, mas à mobilidade urbana. As pessoas chegarão tranquilamente aos aeroportos, nós temos condições de absorver essa demanda, mas o problema nos grandes centros é a locomoção quando você já está na cidade – falta metrô, ônibus de qualidade, etc. Um país desenvolvido é onde os ricos usam transporte público, mas no Brasil todos querem ter seu carro porque não temos um sistema de transporte que atenda às nossas necessidades. Mas quanto a isso também há medidas que serão tomadas para facilitar a locomoção dos estrangeiros durante esse período. É uma questão de olharmos de forma positiva. Se nós quisermos que esses eventos no Brasil deem certo, há como darem certo.

O Plenário aprovou no último dia 16 um projeto de lei (PL 2453/07) que separa a investigação criminal da investigação técnica e preventiva de acidentes aéreos, além de delimitar quais dados podem ser usados em processos judiciais. Como o senhor acha que essa distinção pode contribuir para o andamento da investigação e prevenção de acidentes?

Essa lei surgiu na época da CPI do Caos Aéreo (2007), foi aprovada na Câmara e agora vai para o Senado. Ao contrário do que muitos pensam, não se trata de tornar a investigação de acidentes aeronáuticos algo confidencial e limitado, pois não teria coerência alguma. A investigação de acidentes precisa ser de conhecimento universal.

O que foi pedido, o que é a nossa luta e está nesse projeto de lei, é que os dados não sejam usados como provas em julgamentos, com fins punitivos, porque isso distorce completamente a finalidade da investigação e prejudica o trabalho em futuras ocorrências. Por exemplo, um piloto se envolve em um acidente e, conhecendo a filosofia do processo investigativo, comenta o que fez, o que deixou de fazer, se o equipamento não respondeu de acordo – e de repente essas informações são usadas contra ele, sendo que é previsto na Constituição que ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. A área jurídica deve usar a investigação policial. As polícias brasileiras têm condições de conduzir buscas e apresentar provas para serem usadas em julgamentos. As investigações do CENIPA devem ser usadas apenas para evitar novos desastres.

O que aconteceu quando nossos dados foram usados para fins que nós não gostaríamos foi a retração por parte de pilotos, comissários e comandantes, que pensavam: “eu vou falar com esses caras para quê, se eles vão entregar tudo para a polícia, como já fizeram?”. E esse projeto de lei permitirá que voltemos ao status anterior, onde havia confiança entre as partes, e as pessoas falavam sabendo que não estavam produzindo nada contra si mesmas. A investigação de acidentes aeronáuticos é algo muito científico e temos um conhecimento razoável. Quando contamos com a participação voluntária dos envolvidos em uma ocorrência, o resultado é mais fácil, rápido e mais rico.

Se conseguirmos a aprovação dessa lei, estaremos na vanguarda em relação ao resto do mundo. E, novamente, eu gostaria de afirmar: ela não pretende que os resultados das investigações sejam inacessíveis. Pelo contrário, eles devem ser divulgados.

Em artigo publicado no Poder Aéreo, o tenente-coronel da FAB Gustavo Adolfo Franco Ferreira aponta que, atualmente, o sistema de investigação de acidentes aeronáuticos  tem como objetivo “a mitigação das consequências para os envolvidos”. O que o senhor pensa sobre essa observação?

O que tem acontecido é que as investigações demoram mais, mas os resultados a que chegam são os mesmos. Quanto mais informações houver, mais condições teremos de chegar à verdade. Mas quando as fontes se retraem, é preciso procurar, caçar mais, o que faz com que o processo demore.

A polícia pode ter acesso aos dados obtidos, mas não pode usar como provas a interpretação do investigador do acidente, nem as peças que ele achou importantes para o seu trabalho. Que as instituições conduzam suas buscas independentes e paralelas, cada uma com uma finalidade. A investigação policial é que deve estabelecer responsáveis e culpados – é um serviço que o Estado precisa ter.

O senhor defende que a apuração de acidentes aeronáuticos não deveria ser responsabilidade da Força Aérea. O senhor pode resumir o porquê desse posicionamento? E como esse trabalho deveria ser estruturado, na sua opinião?

Houve uma época em que tudo relacionado à aviação estava ligado ao então Ministério da Aeronáutica. Em algum momento o Estado decidiu retirar algumas atribuições desse Ministério, e em seguida criou-se o Ministério da Defesa e o Comando da Aeronáutica. Com isso, uma série de instituições passaram para o novo Ministério, e hoje, ficaram na Força Aérea dois resquícios –  a investigação de acidentes aeronáuticos e o controle de tráfego aéreo. A investigação de acidentes requer muita independência e honestidade, porque interfere na existência de diversos setores. E a FAB ficou com esse encargo porque nenhuma outra instituição o quis, porque é um trabalho que não traz nenhum retorno financeiro, e só recebe atenção em momentos tristes.

Vou dizer algo que pode parecer petulante: acho difícil que alguém consiga fazer um trabalho melhor que o da Força Aérea, porque nós temos independência, não somos ligados a partidos ou empresas, então temos essa tranquilidade para fazer uma investigação honesta e dentro de padrões internacionais. Mas esse trabalho sangra um pouco dos recursos financeiros e pessoais da FAB, também não traz nenhum benefício além do conhecimento, que por si só é impagável.

Sou favorável à criação de um órgão nacional, como há em outros países, que seja responsável pela investigação de ocorrências na aviação civil. Nós fizemos essa sugestão e, até onde eu sei, a proposta chegou ao Ministério da Defesa. Na época, propusemos que essa instituição fosse subordinada ao próprio Ministério, assim como a Infraero e a Anac. Mas hoje eu diria que esse órgão investigativo deveria estar acima dessas três entidades.

O senhor acha possível criar no Brasil esse órgão independente para conduzir as investigações de acidentes na aviação civil?

Sim. Acho que podemos chegar lá. Quando fizemos essa proposta, chegaram a dizer que estávamos procurando emprego para o pessoal da reserva, mas o fato é que os recursos humanos que temos hoje são aqueles formados pela Força Aérea, e no futuro esses profissionais darão espaço aos de formação civil. Na época sugerimos que, mais adiante, esse órgão tratasse também de acidentes terrestres, marítimos e em dutos, e que então estivesse ligado ao Congresso Nacional, especificamente ao Senado, mais ou menos como o Tribunal de Contas da União.

Então, eu defendo a criação de um novo órgão investigativo. A Força Aérea tem que cuidar da Força Aérea.

FOTO: Renaclo Tekutli.

VEJA TAMBÉM:

Durante a cerimônia de inauguração da Academia de Ciências Aeronáuticas do Centro Tecnológico Positivo, na última quarta-feira (24) em Curitiba, a equipe da revista Forças de Defesa entrevistou um dos palestrantes convidados, o ex-ministro da Aeronáutica e atual presidente executivo da Associação Nacional de Concessionárias de Aeroportos Brasileiros (ANCAB), tenente-brigadeiro do ar Mauro José Miranda Gandra. O brigadeiro comentou sobre a estrutura aeroportuária brasileira diante dos grandes eventos dos próximos anos, e teceu comparações sobre o desenvolvimento da aviação militar nos anos 1990 e o cenário atual.

O Brasil receberá nos próximos anos eventos de grande porte, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Como fica a malha aérea e a estrutura aeroportuária do país em situações como essa?

Para começar, eu sou otimista. Até mesmo essas situações de demora para a liberação de pistas são sinais que alertam o brasileiro para as dificuldades. Em termos de infraestrutura, nós ficamos quase 12 anos sem tomar nenhuma providência, o número de passageiros e aeronaves aumentou, e aconteceu o que se esperava devido à falta de planejamento.

Quando a Infraero passou para o Ministério da Defesa, o então Ministério da Aeronáutica perdeu a oportunidade de continuar os esforços que vinha fazendo até então para expandir a estrutura aeroportuária. Mas eu acredito na concessão de aeroportos críticos como Campinas, Guarulhos, Brasília e Galeão.

Após quase 17 anos da sua gestão como Ministro da Aeronáutica, que balanço o senhor faz de programas que começaram na época, como o do ALX, a modernização dos F-5? E o que  senhor pensa sobre o abandono do Programa F-X e a criação do F-X2?

A minha observação é a seguinte: infelizmente, no caso dos caças, nós não conseguimos resolver o problema, Eu entendo que é difícil tomar uma decisão dessa natureza, envolvendo uma soma tão grande, em um país com poucos recursos, ou que administra mal os seus recursos. O caso do F-X e do F-X2 foi até uma sorte, porque saímos para a possibilidade de escolher entre linhas de aeronaves mais modernas. Eu tenho esperança de que, já no início do ano que vem, a presidenta Dilma dará uma solução.

Acho também que a FAB vem sendo bem aquinhoada. Temos feito modernizações boas nos aviões – no caso o F-5 e agora o AMX. Também compramos 99 Super-Tucano, 50 helicópteros (EC-725) com previsão de fabricação nacional, 16 deles destinados para a Força Aérea.

Na época (1995), pensava-se em priorizar uma aeronave de fabricação nacional. Se essa iniciativa fosse levada a cabo ainda em 1995, o senhor acha possível dizer que hoje teríamos um protótipo viável para fabricação?

Vamos analisar o caso do AMX que, apesar de não ser supersônico, é um avião importante, que teve um subproduto ainda mais importante – permitir à Embraer desenvolver as séries 170 e 190. Mas desenvolver uma aeronave de caça requer um apoio muito forte do governo, e eu só vi esse tipo de apoio na antiga União Soviética, nos Estados Unidos e na Europa, em que todos os países tiveram que se reunir para criar uma aeronave desse tipo. Sendo assim, acho difícil que pudéssemos construir um protótipo.

Mesmo que o projeto tivesse começado nos anos 1990?

Seria difícil. Por exemplo, íamos comprar 79 AMX, acabamos comprando 54 por falta de recursos. Das empresas que foram criadas para ajudar a desenvolver o AMX, poucas sobreviveram. Mas acho que, com a passagem do ministro Nelson Jobim pelo Ministério da Defesa, a indústria deu um salto muito grande e a Força Aérea Brasileira se beneficiou muito disso. Podemos não ter a maior Força Aérea da América Latina, mas temos uma FAB capaz de se ombrear às forças vizinhas, com a vantagem da capacidade de manutenção e fabricação das peças dos nossos aviões.

Que mudanças o senhor percebe no  Comando da Aeronáutica atualmente, em relação ao Ministério que o senhor assumiu nos anos 1990? Há mais ênfase no aspecto corporativo e operacional? O que pode ser aprimorado?

Nós não estávamos acostumados a essa figura nova de um Ministério da Defesa. É preciso que haja um entendimento do Comando da Aeronáutica de que ele está dentro de um sistema maior, e isso eu vejo muito bem na postura do comandante [Juniti] Saito – uma postura muito ligada ao seu segmento, à sua Força. Um aspecto mais operacional e menos político.

FOTO: Renaclo Tekutli.

VEJA TAMBÉM:

-

Acordo entre a Suíça e a Suécia pode fazer a nova geração do Gripen decolar, segundo ex-ministro Sten Tolgfors

-

No início do mês, o jornal sueco Dagens Industri entrevistou o ex-ministro da Defesa do País, Sten Tolgfors. Segue um resumo das declarações, relacionadas principalmente ao recente acordo-quadro assinado com a Suíça para a aquisição conjunta de caças Gripen de nova geração, produzidos pela sueca Saab.

Para Tolgfors, o debate negativo a respeito do Gripen na Suécia (e que também ocorre na Suíça) não corresponde à realidade da cooperação entre os dois países. O acordo com os suíços vai abrir mais oportunidades de negócios, principalmente levando em conta que o caça é um caso único no mundo, atualmente, de quebra da curva ascendente de custos a cada nova geração de caças. Assim, o jato sueco se configura como uma opção racional de aquisição, especialmente para diversos países europeus de médio porte que não estão preparados para assumir custos astronômicos de operação.

Com a cooperação entre os dois países, fica ainda mais claro do que nunca, internacionalmente, que o caça proporciona as capacidades necessárias a um custo acessível. Tolgfors ressaltou que o jato já opera em cinco países e que é um sério candidato a diversos outros contratos em disputa, num momento em que custos estão entre os aspectos mais importantes. Outros competidores chegam a custar o dobro para a aquisição, assim como para operar ao longo da vida útil.

 

Outros competidores passam por atrasos significativos e por escalada de custos, em projetos que já sofreram cortes de verbas. Por isso mesmo, o ex-ministro é da opinião que mais nenhum país europeu pode, hoje, desenvolver e produzir caças sozinho. Há uma necessidade de parceiros internacionais para dividir custos, e esse é o caso da parceria da Suécia com a Suíça.

Tolgfors também deu a entender que, na medida em que países não têm as mesmas necessidades em relação às capacidades de um caça, não é de se estranhar que os resultados de avaliações dos mesmos caças também cheguem a resultados diferentes. Há países que querem aeronaves furtivas, projetadas para travarem uma luta à parte em ataques a áreas fortemente controladas por inimigos. Mas também há países com necessidades parecidas com as suecas, ou seja: uma aeronave com boa capacidade para manter a soberania nacional, contribuir para missões internacionais e de combater com os mais modernos armamentos ar-ar e ar-terra.  

Por fim, o ex-ministro destacou o fato de que a Suécia não é uma super potência, o que permite a realização de parcerias internacionais mais equilibradas. Nesse caso, Suécia e Suíça se encontraram como parceiros ideais no Gripen, numa cooperação de benefícios mútuos. O caça, nessa cooperação entre os dois países, vai ganhar em sua credibilidade no longo prazo, o que se soma ao interesse internacional considerável pelo Gripen em suas diferentes versões.

FONTE: Dagens Industri (tradução, adaptação e edição: Poder Aéreo)

FOTOS: Departamento de Defesa da Suíça

VEJA TAMBÉM:

-

Entrevista do CEO Hakan Buskhe da Saab repercutiu na TV Suíça – segundo Buskhe, os custos são previsíveis porque não se está desenvolvendo a partir de um papel em branco – sobre novas ofertas de concorrentes, executivo disse que quem é derrotado deve aceitar o fato

-

Em entrevista divulgada em 22 de setembro, o chefe executivo da fabricante sueca Saab disse que a Suécia não precisa temer pelos custos do novo modelo do caça Gripen, fabricado pela empresa. Como o desenvolvimento não está começando do zero, os custos são previsíveis.

Em entrevista ao Svenska Dgbladet, Buskhe afirmou: “Não estamos começando de uma folha de papel em branco, por isso não há incertezas sobre os custos. Assim, os contribuintes suecos não têm nada a temer”. O executivo discordou de especialistas que teriam calculado a necessidade de produzir pelo menos 400 caças Gripen para ter lucratividade. Para Buskhe, o Gripen tem potencial de venda de 300 unidades, mas já é viável para um número entre 62 e 82 exemplares.

Segundo a SFTV, a declaração surge em meio a uma controvérsia após o anúncio do orçamento de defesa sueco ao parlamento, que inclui a aquisição do Gripen. Contrários à compra, estão os partidos de esquerda, os verdes e os sociais democratas. O Governo Sueco teria afirmado que, se não for concretizada a venda dos 22 caças Gripen para a Suíça (negócio para o qual já há um acordo quadro assinado entre Suíça e Suécia), a compra sueca de40 a 60 novos caças seria interrompida.

Entre os assuntos da entrevista, as tentativas da concorrente Dassault em oferecer novas propostas à Suíça

Perguntado pelo Svenska Dgbladet sobre oferta da Dassault após ter sido derrotada na concorrência suíça, o executivo não falou em nomes especificamente, mas para o jornal ele claramente fez uma referência a essas tentativas, quando afirmou: “Eu acho que você deve aceitar quando é derrotado. Qualquer um se arrisca a não ser convidado, por muito tempo, para futuros processos similares. Mas eu ainda acho que isso não interferiu na nossa relação com a Suíça.”

Gripen está ficando mais barato e não mais caro, segundo o executivo

Sobre custos, o valor total estimado para os aviões de combate da Suécia é de 90 bilhões de coroas suecas (cerca de 13,6 bilhões de dólares) para os próximos 30 anos, o que inclui tanto os atuais quanto novos caças Gripen com todos os custos relacionados.

Segundo Buskhe, os custos de desenvolvimento e produção do Gripen estão sendo reduzidos. A Saab hoje pode produzir 28 caças Gripen pelo mesmo custo que, há cinco anos, produziria dez aeronaves. “Ao mesmo tempo, isso tem ficado mais caro para a maioria de nossos competidores no Ocidente, e provavelmente eles precisam produzir pelo menos 400 aeronaves para ter lucro”, disse o executivo.

Buskhe também afirmou que “há potencial para vender 300 caças Gripen, e isso não é algo irrealista. Dado que nossa nova versão é mais eficiente em consumo de combustível e pode carregar mais carga que nossos competidores bimotores, abriu-se um novo mercado para nós. Os baixos custos operacionais do Gripen são nossa maior vantagem.”

FONTES: SFTV e Svenska Dgbladet (compilação, tradução, adaptação e edição: Poder Aéreo)

IMAGENS: Saab

VEJA TAMBÉM:

-

Ex-comandante-chefe do Arsenal de Mísseis de Destinação Estratégica da Rússia fala da ameaça dos aviões hipersônicos, capaz de alcançar uma velocidade seis vezes maior do que a do som

-

Militares norte-americanos informaram sobre outro lançamento do avião hipersônico X-51A WaveRider não tripulado. Assim como os testes anteriores, a tentativa atual não obteve êxito, mas não se fala em suspensão do programa.

O ex-chefe do Estado-Maior do Arsenal de Mísseis de Destinação Estratégica, coronel-general Víktor Essin, explicou ao jornal russo “Vzgliad” as particularidades desse tipo de míssil e a ameaça representada por ele.

Vzgliad: Qual é o grau de ameaça dessa tecnologia?

Víktor Essin: É prematuro falar sobre o tipo de ameaça que ela pode trazer. Ainda não ficou claro o que os norte-americanos pretendem fazer com esse equipamento. Se o avião for carregado com armas comuns, e não nucleares, trata-se apenas de um recurso da chamada estratégia de ataque global rápido. Isso é menos perigoso para a Rússia.

Mas se o sistema for abastecido com ogivas nucleares, o cenário muda. Quero dizer, no entanto, que a Rússia também está trabalhando na criação desse tipo de jato hipersônico. Inclusive, já realizamos testes, um dos últimos em 2011. Nosso experimento também não foi bem-sucedido, mas essas pesquisas envolvem um campo científico ainda não explorado, por isso não são possíveis avanços imediatos.

A Rússia não está atrasada nesse campo, estamos mais ou menos no mesmo nível.

Vzgliad: Qual é o principal problema da criação do protótipo?

V.E.: O problema está em garantir a estabilidade da estrutura diante das cargas de calor e de força que surgem em resultado da velocidade. O avião fica superaquecido; o material utilizado, pelo visto, perde a estabilidade e se desmantela.

Vzgliad: Quando o equipamento estiver adequadamente desenvolvido, poderá haver algum impedimento ao uso de cargas nucleares?

V.E.: Em princípio pode haver, é claro. Mas não podemos dizer que os americanos tenham informado algo a esse respeito. De acordo com declarações oficiais, esse equipamento não se destina ao uso de ogivas nucleares. Por enquanto, eles dizem que o avião está sendo desenvolvido para atacar alvos pontuais com armas comuns.

Vzgliad: Caso sejam carregados com armas nucleares, até que ponto esses mísseis balísticos intercontinentais podem ser perigosos?

V. E.: O efeito hipersônico consiste em que o avião voa a uma altura de 80, 100 km ou mais. Isso dificulta a identificação do objeto pelo sistema de defesa do espaço aéreo. Por isso o projeto é útil.

Fica difícil acompanhar a ogiva e, consequentemente, ela atinge o alvo com maior êxito do que o foguete balístico intercontinental, cuja trajetória pode ser calculada, permitindo a intercepção através do sistema de defesa antimísseis.

Vzgliad: Existe pelo menos algum projeto de contra-ataque para combater esses jatos?

V. E.: Por enquanto não. Esse tipo de tecnologia é desenvolvida diante de uma ameaça real. Quando isso acontece, é preciso criar um novo sistema. Pode ser que já tenha sido proposta a tarefa de trabalhar nesse sentido, mas eu não ouvi nada a respeito.

Vzgliad: Os sistemas de defesa antiaérea e antimísseis, presentes no equipamento dos exércitos mais avançados do mundo, são capazes de combater esse tipo de avião de algum modo?

V. Е.: Por enquanto, eles não têm condições de combater esse tipo de equipamento. Nem nos EUA nem na Rússia. Por isso, o desenvolvimento dessa tecnologia é prioritário: ela inutiliza os sistemas de defesa antimísseis existentes hoje. Mas a situação é temporária. Essa é uma luta incessante: quando alguém passa à frente, logo outros o alcançam.

 

FONTE: Gazeta Russa

 

Muito além do F-X2

Boeing busca parcerias para investimentos em pesquisa

 

O avião usado pela presidente Dilma Rousseff é um Airbus-A19 francês – o próximo, todavia, tem boas possibilidades de sair do complexo da Boeing, no Estado americano de Washington. Em maio, o Comando da Aeronáutica enviou à Boeing e à Airbus um pedido formal de oferta de dois aviões, para reabastecimento em voo e de longo alcance.

A resposta deve chegar, no máximo, em 90 dias. O plano da Força Aérea prevê que os jatos analisados – o Boeing 767 e o A-330 – possam ser convertidos para o transporte de passageiros e carga. Um deles teria espaço preparado para receber uma seção executiva de uso da Presidência em viagens longas. A seleção pode considerar jatos usados, que seriam submetidos a um procedimento de modernização e revitalização.

É um negócio prestigioso – todavia, não ocupa espaço na agenda da presidente da Boeing do Brasil, Donna Hrinak*. Discreta, prefere evitar o assunto. Ex-embaixadora no País entre 2002 e 2004, e ex-vice-secretária de Estado para o México e o Caribe, está agora empenhada em firmar parcerias que consolidem a presença da empresa no mercado. Donna identifica no Brasil a oportunidade de vendas “para mais de mil aeronaves, ou seja, 40% da demanda de toda a América Latina até 2032 – veja bem: estamos falando de US$ 100 bilhões a serem contratados”.

Morando em São Paulo, onde já viveu nos anos 80, quando era oficial diplomática no Consulado dos EUA, Hrinak está fazendo a redescoberta dos restaurantes italianos e japoneses – para ela, “estão entre os melhores do mundo”. Na sexta-feira, preparando uma caminhada pelo Parque Ibirapuera com o marido, Frans Boete, a presidente da Boeing falou ao Estado. A seguir, os principais trechos da entrevista.

A Boeing está redescobrindo o Brasil?

Hrinak - Nossa parceria com o Brasil é antiga. São 80 anos – em setembro de 1932 entregamos as primeiras aeronaves militares ao governo brasileiro. Além disso, fornecemos aeronaves às empresas aéreas brasileiras desde 1960. Geralmente, quando as pessoas ouvem o nome Boeing pensam em aeronaves, e elas não estão erradas, mas somos, acima de tudo, uma empresa de tecnologia. Por isso, as parcerias que esperamos estabelecer por aqui incluem também universidades, laboratórios de ideias e centros de pesquisa.

Há resultados práticos?

Hrinak - Já assinamos um acordo com a Embraer e com a Fapesp para colaborar na pesquisa e desenvolvimento de um programa para criar uma indústria sustentável de biocombustíveis. Outra oportunidade que nos empolga muito é a de participar do programa Ciência sem Fronteiras, uma iniciativa do governo brasileiro. Patrocinamos um ano de estudos de 14 alunos dos cursos de engenharia aeroespacial e engenharia aeronáutica em universidades norte-americanas e ainda oferecemos um estágio de dois meses na Boeing, que termina no dia 24 de julho.

Em que estágio se encontra a implantação do Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Aeroespacial?

Hrinak - O vice-presidente de Pesquisa e Tecnologia da Boeing do Brasil chegou no final de maio, vindo de Pequim, onde também estabeleceu um centro de pesquisa e tecnologia para a China. Desde então, manteve consultas com universidades, cientistas e autoridades governamentais para identificar áreas promissoras de cooperação. A partir de nossas conversas com potenciais parceiros brasileiros, achamos que essas áreas incluem pesquisas sobre materiais avançados e biomateriais, análise visual (visual analytics) e sondagem remota.

Quais são as metas da Boeing do Brasil?

Hrinak - Estamos no Brasil para ficar. Além de continuar o engajamento com nossos clientes na área comercial, queremos colaborar com o avanço e a competitividade da indústria de defesa do Brasil. Estamos avaliando novas oportunidades de negócio com foco no longo prazo, sempre nos alinhando com empresas locais para criar planos de negócios que sejam mutuamente benéficos. Na Boeing, temos muita experiência em aplicação prática de estudos e acreditamos que podemos trabalhar juntos nessa transição de colocar em prática no próprio mercado nacional, e também no internacional, as pesquisas elaboradas pelos brasileiros. Somos uma das três empresas finalistas na escolha para fornecer novos caças à Força Aérea Brasileira – mas este é apenas um de nossos interesses no País. Já identificamos 25 empresas locais que poderiam ser parceiras da Boeing nessa empreitada, gerando 5 mil empregos.

Qual é o tamanho da frota de aviões da Boeing no Brasil?

Hrinak - Aproximadamente 170 aeronaves da Boeing voam no Brasil atualmente, ou mais de 50% da frota total do País. Temos excelentes clientes. A Gol é a maior operadora – são cerca de 130 aeronaves, inclusive os novíssimos 737-NG.

Qual é o resultado prático dos acordos de cooperação estabelecidos pela Embraer com a Boeing?

Hrinak - Os acordos são uma evolução natural da relação da Boeing com a Embraer. Como empresas líderes no mercado aeroespacial global, faz sentido trabalharmos em conjunto em áreas nas quais compartilhamos interesses. Costumo dizer que quando falamos com a Embraer é como se estivéssemos falando com nós mesmos porque as culturas das duas empresas são muito parecidas. Na prática, nossos acordos vão possibilitar que ofereçamos produtos e serviços que tornem a aviação comercial mais eficiente e segura.

A Boeing e a Embraer poderiam desenvolver, em projeto conjunto, um novo avião regional nos padrões exigidos pelo mercado?

Hrinak - Temos um acordo para trabalhar juntos na área de aeronaves comerciais buscando eficiência e segurança, no desenvolvimento de pesquisas e tecnologias e em biocombustíveis sustentáveis para aviação. Outras parcerias nas áreas comerciais e de defesa estão sendo estudadas e serão anunciadas quando estivermos de acordo com relação às oportunidades de mercado. O arcabouço da colaboração foi estabelecido no acordo que assinamos em abril, paralelamente à visita da presidente Dilma ao presidente Obama. Desde então, anunciamos duas colaborações significativas na área de defesa e segurança: o apoio da Boeing ao programa da aeronave de transporte aéreo de médio porte KC-390, que a Embraer está desenvolvendo para a Força Aérea Brasileira, e a integração de armas ao Super Tucano, inclusive no que faz parte da oferta da Embraer na concorrência da Força Aérea dos EUA para fornecimento de 20 aviões de ataque leve para o Afeganistão.

A sra. declarou que as restrições à transferência de variada tecnologia de ponta, atribuídas à proposta da Boeing na escolha dos F-X2, não passam de ‘lenda’? Como assim?

Hrinak - Compreendo a importância da transferência de tecnologia dentro do contexto da concorrência dos caças. Todavia, me incomoda focar excessivamente nesse conceito porque ele me remete à ideia de relação “Norte-Sul” da segunda metade do século passado, quando falávamos de um “Norte” supostamente desenvolvido e sofisticado que transferiria seu conhecimento e sabedoria a um “Sul” supostamente despreparado e subdesenvolvido. Essa nunca foi uma descrição justa e muito menos completa de nossas relações econômicas e de nossos investimentos. Isto dito, em relação à escolha dos caças, apresentamos, repetidamente, garantias dos poderes Legislativo e Executivo do governo dos EUA, vindas dos dois partidos, de que endossam e garantem a oferta agressiva de tecnologia proposta pela Boeing. Nossa oferta inclui o mesmo nível de compartilhamento de tecnologia disponibilizado para nossos aliados da Otan, o que significa o mais alto nível de compartilhamento de tecnologia que praticamos.

Na proposta da Boeing, quanto do caça F-18 E/F Super Hornet seria fabricado ou integrado no Brasil?

Hrinak - A Boeing ofereceu formalmente ao governo brasileiro a possibilidade de montagem final do Super Hornet, não somente para as aeronaves brasileiras, mas também para as da Marinha dos Estados Unidos, além da fabricação de partes significativas da fuselagem. O Super Hornet trará oportunidades que vão além da produção da aeronave. A tecnologia para o suporte e upgrade da aeronave ficará no Brasil, o que permitirá aplicar esse conhecimento às aeronaves brasileiras no futuro. Como maior empresa aeroespacial do mundo, a Boeing pode trazer oportunidades inéditas para a indústria brasileira por conta das relações com fornecedores e outros players do setor aeroespacial e de defesa. Um exemplo concreto recente foi a seleção, no início de 2012, da empresa AEL Sistemas, subsidiária da israelense Elbit Systems, para fornecer o Display de Grande Área (LAD, na sigla em inglês) que integrará o Sistema Avançado de Cockpit (Advanced Cockpit System) utilizado nos Super Hornets da Boeing e na família de aeronaves F-15, incluindo a Silent Eagle. A AEL ganhará know-how que possibilitará expansão da sua atuação no mercado de capacidades avançadas de aviônicos do cockpit de vários tipos de aeronaves, inclusive helicópteros. São parcerias que permitirão à indústria elevar a posição no mercado global.

*Ex-embaixadora dos Estados Unidos no Brasil entre 2002 e 2004, na Venezuela (de 2000 a 2002), na Bolívia (de 1997 a 2000) e na República Dominicana (de 1994 a 1997). Foi vice-secretária de Estado para o México e o Caribe e também oficial diplomática no Consulado dos EUA em São Paulo. É a presidente da Boeing do Brasil desde setembro de 2011.

FONTE: estadao.com, via msn

Tagged with:
 

-

Segundo nota do grupo, o Rafale está pronto para decolar na Índia

-

Enquanto espera pela assinatura definitiva do contrato de aquisição de 126 caças Rafale pela Força Aérea Indiana, a Safran divulgou na semana passada uma entrevista com Gérard Le Page, chefe do programa do Rafale para a Índia. Como o Rafale também é um dos concorrentes ao F-X2, o Poder Aéreo traduziu a entrevista usada como divulgação no site do grupo, para dar uma ideia básica aos leitores sobre o grupo responsável por fornecer grande quantidade de sistemas e equipamentos para o Rafale, e que engloba diversas companhias francesas que deverão se envolver em programas de compensações e de transferência de tecnologia na Índia. E, conforme uma das possibilidades de resultado do F-X2, no Brasil.

Quais são as empresas da Safran envolvidas nesse contrato?

Gérard Le Page – No alto da lista, obviamente, está a Snecma, que desenvolveu e produz o M88-2, o motor do Rafale, contabilizando 75% da contribuição do Grupo para o contrato, sozinha. Outras empresas do Grupo envolvidas são a Microturbo para a APU (auxiliary power unit), Messier-Bugatti-Dowty para o trem de pouso, rodas e freios,  Hispano-Suiza para as transmissões de força, Labinal para os fixadores dos cabeamentos e a Sagem, que contribui com sistemas de navegação inercial, a unidade de controle eletrônico Fadec do motor, e o míssil guiado modular ar-solo AASM, uma das principais armas da aeronave. Outras contribuições vêm da Technofan, Aircelle, Herakles e Turbomeca. O contrato representará aproximadamente 2,5 bilhões de euros para a Safran, dependendo das armas escolhidas, e também implica em grandes arranjos de compensações (offsets) em produção.

Você poderia descrever algumas das tecnologias de ponta que são contribuições dessas empresas?

Gérard Le Page – Bem, é uma lista bem longa, porque esse é um caça realmente no estado-da-arte, incluindo termodinâmicos, materiais e eletrônicos avançados, por exemplo. O motor apresenta pás da turbina “single-crystal”, partes em “powder metallurgy” e compósitos de matriz cerâmica para os flaps da tubeira, assim como invólucros de paredes finas para as transmissões de força, giroscópios a laser nos sistemas de navegação inercial e, obviamente, os sistemas de guiagem muito sofisticados para a arma “inteligente” AASM.

O Grupo Safran tem sido um parceiro preferencial para a Índia por muitos anos. Como o relacionamento deles vai mudar com esse anúncio?

Gérard Le Page – O contrato do Rafale irá, sem dúvida, ampliar nosso desenvolvimento nesse país, onde nós temos operado desde a década de 1960. Hoje, nós temos mais de 2.000 funcionários em oito subsidiárias e “joint ventures” (parcerias), incluindo um birô de projetos em Bangalore com aproximadamente 550 engenheiros. A Morpho está participando no maior programa do mundo em ID biométrica, o que vai atribuir um número de identificação para cada cidadão e residente na Índia. As equipes de manutenção da CFM International apoiam uma frota de 350 motores CFM56 utilizados por companhias aéreas no Sul da Ásia. Com o Rafale, esperamos que nossos negócios sejam acelerados consideravelmente. A indústria indiana de aviação está agora em construção. Ela necessita de treinamento, assistência técnica e transferências de tecnologias. Por isso nós vamos nos mobilizar para apoiar sua evolução na cadeia de conhecimentos. Consequentemene, esse contrato vai resultar num vigoroso volume de negócios para os centros de excelência industrial na França. Além disso, esse relevante contrato poderia ter um efeito multiplicador em outros países que são potenciais clientes do Rafale, com propostas já em andamento.

FONTE/FOTOS: Safran

VEJA TAMBÉM:

Tagged with:
 

Entrevista com o CEO da Boeing

Para o presidente da Boeing, um dos três concorrentes na venda de caças ao país, a proposta de transferência de tecnologia aos brasileiros “já é muito agressiva”

 

Patrick Cruz

A Americana Boeing concorre com a francesa Dassault e a sueca Saab pelo contrato de venda de 36 caças à Força Aérea Brasileira, um projeto de 10 bilhões de reais que se arrasta desde 2006 e não tem prazo para ser fechado. O Brasil quer ampliar a transferência de tecnologia, mas a Boeing argumenta que há pouco espaço para avançar. “Nossa proposta já é muito agressiva”, diz James McNerney, presidente da empresa.

1) Por que o governo brasileiro está demorando tanto tempo para tomar uma decisão sobre a compra dos caças?

As idas e vindas desse projeto são da natureza do negócio. A escolha leva em conta critérios políticos e técnicos. Mas. de fato, o Brasil tem demorado um pouco mais.

2) É a burocracia que emperra o processo aqui?

Não é o caso. Estamos falando, afinal, de defesa nacional, a decisão mais importante que um país pode tomar. Não diria que o Brasil é mais burocrático que os Estados Unidos numa decisão como essa.

3) Uma das exigências do governo brasileiro é a transferência de tecnologia. Qual é a posição da Boeing sobre isso?

A nossa proposta de transferência de tecnologia já está em um nível bastante elevado. Há algum elemento adicional a ser oferecido no acordo? Talvez. Mas nenhum parceiro nosso obtém acordo melhor.

4) Nenhum outro país consegue nada melhor do que foi oferecido ao Brasil?

Não. Para os nossos padrões, a transferência de tecnologia já é muito agressiva. Além do mais, nosso equipamento é o melhor – e o governo brasileiro tem consciência disso.

5) Em 2011, a Embraer venceu uma concorrência para a venda de aviões à Força Aérea americana, mas a compra foi cancelada, supostamente, para beneficiar uma empresa local. A Boeing cogitou a hipótese de interceder a favor da Embraer?

Não nos envolvemos em projetos da Embraer, assim como ela não se envolve nos nossos. Há quem encare o cancelamento do contrato da Embraer como uma posição anti-Embraer ou anti-Brasil. Mas metade dos contratos que a Boeing vence é contestada pelos derrotados. Isso acontece o tempo todo, infelizmente.

6) O governo brasileiro pretende prosseguir com a concessão de aeroportos federais para a iniciativa privada. A Boeing tem interesse nessa área?

Não costumamos encarnar o papel de investidor. Em geral, prestamos consultoria a governos para ajudar a gerenciar essas privatizações – propondo padrões para a construção de aeroportos e analisando a malha aérea. Com rotas mais eficientes, podemos ganhar com a economia de combustível, a redução de poluentes e – claro – a venda de mais aviões.

7) No Brasil, duas companhias aéreas têm, somadas, 80% do mercado de aviação. Não seria o caso de o Brasil abrir o mercado às companhias estrangeiras?

O crescimento aqui é muito agressivo. Além do mercado das companhias de aviação, há um grande espaço, por exemplo, para empresas de manutenção e de serviços. Já sabemos que pelo menos três empresas dessas áreas devem chegar ao país em breve.

FONTE: Portal Exame

Tagged with:
 

‘A Embraer optou por ser a cabeça do rato’

Poucos brasileiros podem exibir um currículo tão admirável quanto o de Ozires Silva, o coronel e engenheiro aeronáutico que fundou a Embraer, uma das maiores fabricantes mundiais da aviação comercial.

 

Por Marcelo CABRAL

Nascido em Bauru, no interior paulista, Silva, que teve passagens pela presidência da Petrobras e da extinta Varig, e pelo Ministério da Infraestrutura, no governo Collor, foi também um dos principais artífices do processo de privatização da companhia de São José dos Campos. Ainda hoje mantém laços próximos com os diretores e integrantes do conselho de administração da Embraer. Aos 81 anos, Silva, que continua na ativa, como reitor da universidade Unimonte, de Santos, falou à DINHEIRO sobre os próximos passos da Embraer, elogiou a concessão dos aeroportos e mostrou por que o Brasil ainda é um peixe pequeno em termos de inovação.

DINHEIRO – Por que chegamos ao quadro atual de crise nos aeroportos?
OZIRES SILVA – A demanda pelo transporte aéreo no País tem crescido a taxas explosivas, acima dos dois dígitos. Diante disso, temos uma aviação menor do que a que precisamos. Nossas linhas aéreas centrais só vão a 60 cidades, enquanto o Brasil tem mais de cinco mil municípios. Ou seja, enquanto o mundo tem voado mais, temos uma capacidade aérea muito reduzida em número de aeroportos. Vão ser necessários muito mais aeroportos e muito mais aviões. No mundo todo, até 2030, 30 mil novos jatos entrarão em funcionamento. Você pode imaginar o impacto disso para a infraestrutura terrestre. Haja aeroporto.

DINHEIRO – Mas como construir novos terminais no momento em que o governo procura cortar gastos?
SILVA – O mundo está cheio de dinheiro para bons projetos. Mas faltam esses projetos aqui no Brasil. Quando estava nas Nações Unidas, vi a quantidade de dinheiro que ia para a África. Zero para a América do Sul. Perguntei por que isso acontecia. A resposta foi seca e direta: “Vocês não fazem projeto.” Se fizermos bons projetos de aeroportos, haverá dinheiro para eles.

DINHEIRO – A concessão de aeroportos à iniciativa privada pode ajudar nisso?
SILVA – Em razão da forma como se estabeleceu a atuação estatal, o governo está perdendo sua capacidade gerencial. Então, ele tem de passar o gerenciamento do negócio para outros e assumir os papéis em que, a meu ver, é muito mais útil e eficaz, que são os de legislar, regular e fiscalizar. Acho que temos, sim, que privatizar o sistema e botar o governo como o fiscal disso.

DINHEIRO – É possível imaginar uma privatização da Infraero ou então a sua abertura de capital?
SILVA – Não sei se é possível privatizar, porque a Infraero não tem patrimônio próprio e gerencia o patrimônio do Estado. Aliás, hoje o pessoal culpa muito a Infraero, mas não sei se é justo, porque as restrições gerenciais que pesam sobre a companhia impedem que ela possa prestar o serviço para o qual foi criada. Foi esse um dos fatores que me motivaram a comandar o processo de privatização da Embraer. Todo mundo era contra, mas olha o resultado. Ela se tornou uma companhia livre das amarras e líder em aviação executiva.

DINHEIRO – Como o sr. vê a situação da Embraer hoje? 
SILVA –  A empresa tem feito um bom trabalho, mas o cenário está mudando rapidamente. A competição tem vindo firme. Empresas como Mitsubishi, Sukhoi, Honda e Tata estão entrando no mesmo segmento. Com isso, a Embraer iniciou um debate interno para decidir se deveria permanecer na mesma classe de aviões, com menos de 200 lugares, ou passar a fazer aeronaves para até 350 passageiros, numa categoria acima. É justamente essa categoria que mais deve crescer nos próximos anos, enquanto o nicho em que ela atua hoje tende a encolher, daqui para a frente.

DINHEIRO – Qual foi a escolha?
SILVA –  A decisão do conselho de administração, tomada no fim do ano passado, foi permanecer no mesmo segmento, usando a experiência nessa classe para aperfeiçoar cada vez mais seus aviões e derrubar a concorrência. A única saída para a Embraer é a competência. Dominar o mercado fazendo produtos melhores e mais baratos.

DINHEIRO – Mas se justifica operar em um segmento que tende a encolher?
SILVA –  É melhor ser a líder mundial de um mercado menor do que um participante pequeno de um mercado maior, que impõe custos bem mais elevados e uma concorrência já estabelecida. A Embraer optou por ser a cabeça do rato em vez do rabo do leão (risos).

DINHEIRO – E como fica a relação da empresa com os EUA, que cancelaram a compra dos Super Tucanos, alegando problema na documentação?
SILVA – Esse argumento deles foi completamente estapafúrdio. O que ocorre é que estamos em época eleitoral nos EUA, e falar em comprar produtos de uma empresa brasileira em vez de preferir uma companhia americana é algo extremamente sensível. O cancelamento foi claramente uma decisão política. Informalmente, espera-se a retomada dessa concorrência após o fim do processo eleitoral. Tudo indica que a empresa vença de novo, até porque o avião da Embraer é infinitamente superior ao da concorrente.

DINHEIRO – Falando em dificuldades, a crise financeira mundial tende a diminuir?
SILVA –  A turbulência que nós temos hoje é uma crise financeira. Tenho dito claramente que os financistas não vão conseguir resolvê-la. Isso porque o dinheiro tem uma característica extraordinária, que é a de gerar valor, mas o financista usa o dinheiro para gerar mais dinheiro. Temos de trocar os interlocutores. Não são os economistas ou o pessoal dos bancos que vão resolver os problemas, mas sim os empreendedores.  Os EUA cresceram dessa maneira. O risco reduzido para os empreendedores carregou os EUA e os trouxe para o posto onde estão. Como não temos isso no Brasil, nós ficamos para trás.

DINHEIRO – Mas o Brasil foi menos afetado pela crise do que os EUA e a Europa.
SILVA –  Isso acontece porque o dinheiro no Brasil não corre risco. Quem está em crise colocou dinheiro no risco, para gerar valor. Progrediram um bocado com isso, mas chegou o momento em que eles exageraram. Isso gerou um estoque de dívida mundial que não está sendo pago e que precisará ser perdoado de algum modo. Já por aqui nossos bancos estão bem porque não correram risco algum. Quem corre risco no Brasil é o empreendedor, o empregado, o produto e a empresa. Esses quebram. Mas isso dificilmente acontece com os bancos aqui no Brasil.

DINHEIRO – Na prática, como usar o dinheiro para criar riqueza?
SILVA –  Veja a quantidade de dinheiro que o governo arrecada via impostos. Se ele alocasse uma parte desses recursos para gerar capital de risco para financiar novas empresas, como a Embraer, você teria resultado. Não seria preciso muito, não mais do que uns 2% ou 3%. Veja só: o governo deve ter alocado uns R$ 80 milhões para criar a Embraer, e isso é o que ela fatura hoje em cinco dias. É um retorno extraordinário.

DINHEIRO – Como ex-presidente da Petrobras, como vê os vazamentos de petróleo na perfuração da Chevron?
SILVA –  O que fica claro é que vamos ter que desenvolver mais a tecnologia para explorar o pré-sal. E fazer parcerias, tal como fizemos na Embraer. Trouxemos partes, peças e equipamentos de vários fornecedores de outros países. E formamos recursos humanos de altíssimo nível por meio do Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Juntamos esses dois recursos e trabalhamos a partir disso. É o que a Petrobras vai ter que fazer, aproveitando os cursos universitários que têm surgido na área do petróleo.

DINHEIRO – O sr. é um pregador da inovação. Como analisa a situação das empresas brasileiras nessa área?
SILVA –  Nem precisamos analisar muito. É só ver a resposta a uma pergunta: quantas marcas o Brasil tem no mercado mundial? Pouquíssimas, em um mundo em que a inovação é muito clara. Veja o iPhone, por exemplo. O Steve Jobs e a Apple desenvolveram tudo, mas não pararam na tecnologia. Também levaram o produto para as prateleiras, fizeram a comercialização. É justamente o que falta por aqui. Nossas faculdades estão atulhadas de tecnologias desenvolvidas a partir de pesquisas que terminam no relatório técnico. Não viram produto. Os americanos dizem que a inovação é uma criação que virou um produto. Mas nós não temos os mecanismos adequados.

DINHEIRO – Quais são esses mecanismos de incentivo?
SILVA –  Capital de risco, espírito empreendedor e redução da ameaça ao patrimônio pessoal do empreendedor. Veja o exemplo do Estado da Califórnia. Por que ele é o mais rico dos EUA? Porque é o mais inovador e o que tem os melhores mecanismos de incentivos. O risco é gerenciado através do portfólio, em que os investidores financiam dez projetos. Se um único deles der certo, por exemplo, o lucro já paga os outros nove. Por aqui, todos os projetos têm obrigatoriamente que dar certo. Se não derem, o cara que o lançou vai ter de pagar a conta, em vez do investidor. Isso aniquila os potenciais criadores.

DINHEIRO – É uma questão de mentalidade, então?
SILVA – Faz parte da estrutura da sociedade. Precisamos aprender a lidar com o fracasso e a diversificar os erros. A Boeing já lançou aviões que não deram certo e teve prejuízo de bilhões com isso, mas não quebrou. Se a Embraer falhar em um avião, será fuzilada aqui no Brasil. Estamos habituados a destilar fracassos, e não a louvar sucessos. Lá fora não se coloca na rua da amargura o sujeito que falha em um projeto, como acontece por aqui. No Japão, o Soichiro Honda construiu a montadora após dois fracassos empresariais. Se fosse por aqui, ele nunca mais teria conseguido se reerguer. Não podemos esquecer que quem fracassa tem um valor extraordinário porque tentou.

Tagged with:
 
Página 1 de 3123