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Muito antes do Eurofighter – parte 5

A história da cooperação europeia no desenvolvimento de projetos de caças, de 1965 a 1985

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SEPECAT-Jaguar2_foto-RAF

Um substituto para o Jaguar

vinheta-exclusivoO Mirage 2000 da Dassault representou um salto tecnológico notável em relação a todos os caças anteriormente produzidos e desenvolvidos pela empresa francesa. Externamente, existiam muitas semelhanças com a família Mirage III/V, mas a comparação para por aí. Avanços significativos foram introduzidos nas áreas de propulsão (o motor M53 era muito mais moderno que a família Atar), estrutura (grande presença de materiais compostos, quantidade de longarinas nas asas, métodos construtivos), aerodinâmica (junção asa-fuselagem, para dar um exemplo facilmente identificável) e sistemas.

Mas o que chamou a atenção do Mirage 2000 foi sua instabilidade, causada pelo recuo do centro de gravidade (CG), proporcionando uma manobrabilidade fantástica à aeronave. Isto foi possível graças ao emprego de controles de vôo tipo fly-by-wire (FBW). A Dassault finalmente havia produzido uma aeronave tão capaz quanto o F-16.

O Mirage 2000 preenchia as necessidades do ‘Armeé de l’Air’ no quesito defesa aérea para as duas próximas décadas e, portanto, não havia a necessidade de um substituto no curto e médio prazo. Na Grã Bretanha, as necessidades da RAF para um interceptador de longo alcance (requerimento AST 395, publicado em 1971) foram preenchidas ainda em 1976, com a confirmação da versão ADV (Air Defence Variant) do Panavia MRCA, oficialmente conhecido como Tornado a partir de 1975. O Tornado ADV seria o substituto natural dos English Electric Lightning remanescentes e dos F-4 Phantom II.

Com as necessidades de defesa aérea satisfeitas, França e Grã Bretanha voltaram o foco para um novo caça de interdição do campo de batalha (BAI) e apoio aéreo aproximado (CAS). O futuro caça tático francês era designado ACT 92 (Avion de Combat Tactique 1992). Na Grã Bretanha, o documento AST (Air Staff Tarquet) 396 definia um substituto não só para o Jaguar, mas também para o Harrier.

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Maquete do ACT92 na visão da Dassault em 1979 (FOTO: Dassault)

A RAF expressou suas necessidades para um substituto da dupla Jaguar/Harrier ainda em 1969. O futuro avião deveria dar ênfase ao apoio aproximado, em suporte às tropas terrestres em qualquer condição meteorológica, ter capacidade V/STOL, ser biplace e supersônico.

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Projeto P.103, proposta da BAC para um caça V/STOL para a RAF em 1978 (DESENHOS: BAC)

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A RAF exigia muito e, além de cara, a aeronave competiria com o Tornado ao invés de complementá-lo. Os estudos foram reavaliados e um novo documento (AST 403) foi produzido. Não havia mais a necessidade “all weather”, eliminando assim o segundo tripulante. A capacidade V/STOL não foi excluída, mas deixou de ser item obrigatório. Um ponto importante foi a maior ênfase na capacidade de combate ar-ar.

Na segunda metade da década de 1970, França e Grã Bretanha estabeleceram diversas conversas bilaterais com o propósito de formar uma parceria, assim como havia ocorrido no programa do Jaguar, mas os requerimentos dos dois países conflitavam em alguns pontos. Quando a RAF separou o programa de substituição do Harrier do AST 403 no início do ano de 1979, uma luz no fim do túnel apareceu para o estabelecimento de um programa conjunto.

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Proposta da BAC para substituir o Jaguar, conforme requerimento AST 403. Projeto bem mais convencional que o anterior (IMAGEM: BAC)

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Comparando o Gripen C com o NG

Gripen C frontal-foto SAAB
Gripen NG frontal-foto SAAB

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Nas duas fotos acima (no topo o Gripen C e embaixo o Gripen NG), tiradas de ânglos semelhantes, aparecem, de forma bastante didática, algumas das diferenças externas dos dois modelos.

Em maior destaque está substituição do trem de pouso principal por um completamente novo. No modelo antigo, o trem era instalado na parte inferior da fuselagem, recolhendo para dentro desta. Agora, o trem está instalado na raiz das asas, recolhendo para carenagens instaladas nessa mesma posição. Essa modificação também melhorou a capacidade da carga externa sob a fuselagem, com novos pilones.

FOTOS: Saab

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Muito antes do Eurofighter – parte 4

A história da cooperação europeia no desenvolvimento de projetos de caças, de 1965 a 1985

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Mirage_G8

Parcerias e programas franceses

vinheta-exclusivoDe longe, a indústria aeroespacial europeia mais vigorosa no início da década de 1970 era a francesa. A França era capaz de produzir absolutamente qualquer coisa e, em alguns casos, chegava a rivalizar com os norte-americanos.

Mas a França também participava de parcerias com outros países europeus no desenvolvimento de jatos militares. Duas dessas parcerias se destacavam: o programa Jaguar e o programa Alpha Jet (ambos mencionados na parte 1 deste texto). O primeiro era uma colaboração com os britânicos e o segundo uma parceria com os alemães. Nos dois casos, a França atuava como contratante principal e os produtos finais não eram exatamente a última palavra em alta tecnologia.

Estas duas parcerias eram exceções, pois o grosso dos produtos de alto desempenho era desenvolvido no próprio país. Os recursos tinham duas fontes básicas. Em primeiro lugar, o governo francês sempre investiu maciçamente nas indústrias locais. Ao lado disso, as exportações eram excelentes, graças ao desempenho do Mirage III na Guerra dos Seis dias e à atitude norte-americana de não repassar caças de primeira linha para certos países do Terceiro Mundo. Em outras palavras, a indústria aeronáutica militar francesa voava em “céu de brigadeiro”.

A produção de caças Mirage III/V chegou a superar dez unidades por mês em 1973 (eram números impressionantes para a indústria europeia, mas pequenos perto do poder industrial-militar dos EUA, que nesta época produzia um Phantom II por dia!). Dois anos depois, mesmo com a redução do número de encomendas da família III/V, o ritmo de produção foi mantido graças ao Mirage F.1. Em 1975, saiam da linha de produção da Dassault sete Mirage F.1 e três Mirage III/V por mês, mas era preciso pensar na próxima geração.

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O demonstrador Mirage G da Dassault em voo. O seu sucessor G.8 era muito semelhante, porém, com dois motores (FOTO: Dassault)

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Os recursos das vendas destes produtos foram largamente empregados no desenvolvimento e na pesquisa de novos conceitos e novas tecnologias. O programa do caça demonstrador Mirage G, por exemplo, fez da França o primeiro país europeu a voar uma aeronave com asas de geometria variável.

Por volta de 1969, surgiu a possibilidade de desenvolver o Mirage G como futuro substituto do avião de ataque Mirage IV. Esta versão também foi oferecida para a Alemanha, em lugar do desenvolvimento do MRCA (ver texto anterior). Os alemães descartaram a oferta.

O monomotor (Pratt & Whitney/Snecma TF 306) Mirage G não rendeu um caça de produção, mas deu origem ao programa do bimotor (Atar 9K50) Mirage G.4 e dois protótipos foram encomendados. O primeiro protótipo G.4-01 foi renomeado Mirage G.8-01 e o segundo protótipo, renomeado e G8-02, teve sua configuração modificada para monoplace.

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Os demonstradores monoplace e biplace do G.8 voam lado a lado sobre a costa francesa. Comparar estes aviões com a foto do Mirage G acima (FOTO: Dassault)

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O G.8 era, grosso modo, a realização do que o consórcio Panavia planejava em termos de arranjo geral para o seu MRCA. Enquanto o primeiro já explorava o envelope de voo daquele arranjo aerodinâmico, o segundo não passava de um monte de idéias. Isto mostrava o quanto a indústria aeroespacial francesa estava à frente dos concorrentes europeus. Para coroar os êxitos, o G8-02 bateu o recorde europeu de velocidade, atingindo Mach 2,35 em 1973.

Foi também naquele ano que a Força Aérea Francesa (Armée de l’air)lançou as bases do programa ACF (Avion de Combat Futur), que definiria o substituto do Mirage III, o principal caça daquele país. O ACF deveria executar três tipos de missões: interceptação de aeronaves supersônicas voando alto, penetração a baixa altitude com armamento convencional ou nuclear e reconhecimento em qualquer condição meteorológica. O protótipo deveria ser construído em 1974 e a aeronave entraria em serviço entre 1978-1980.

Para atender aos requisitos da Força Aérea Francesa, a Dassault-Breguet (a Dassault fundiu-se com a Breguet em 1971) oferecia um derivado do Mirage G.8. Designado G.8A, o avião proposto era um caça monoplace, bireator, mas agora com asas fixas. Segundo os estudos franceses o ângulo de 55º para as asas era o mais adequado para um caça multimissão. Um caça de asas fixas também tinha como vantagens uma economia de 10% no preço de cada modelo e a simplificação do transporte de armamentos nos cabides subalares. Este avião seria um concorrente direto do F-15 da McDonnell Douglas.

Super Mirage-1

Proposta da Dassault do Mirage G.8A para o ACF (DESENHO: Dassault)

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O ACF seria equipado com um novo motor que estava em desenvolvimento pela Snecma e que substituiria a família Atar dos Mirage III/V/F.1. Este novo motor, denominado M53, também era previsto para equipar o Mirage F.1E. O protótipo do F.1E voou pela primeira vez em 1975. Não era intenção do ‘Armeé de l’air’ adquirir o F.1E (20% mais caro que o F.1C) e a aeronave visava somente o mercado externo, principalmente os usuários europeus do F-104  denominados ‘os quatro da OTAN’ (Holanda, Bélgica, Noruega e Dinamarca), países que não optaram pelo programa MRCA.

Em 1974, o ACF passou a ser conhecido oficialmente como “Super Mirage”. De certa forma, isto evitou a confusão com o programa ACF (Air Combat Aircraft) da USAF, vencido pelo YF-16. Falando nos norte-americanos, os revolucionários YF-16 e YF-17 eram fortes concorrentes no programa de caças dos ‘quatro da OTAN’.

A venda do F.1E, equipado com o propulsor M53, daria um suporte ao programa Super Mirage. Mas o sonho da exportação do F.1E durou pouco. O F-16 acabou escolhido pelos ‘quatro da OTAN’. Enquanto isso, o programa Super Mirage enfrentava elevação de custos.

Um caça muito caro (avaliado em duas vezes o preço de um F.1) e complexo (o desenvolvimento do radar pulso-doppler enfrentava atrasos) dificilmente repetiria o mesmo sucesso de vendas da família Mirage III/V. Em julho de 1975, o ministro da defesa francês informou que o programa Super Mirage, cujo segundo protótipo havia sido cancelado, seria reconsiderado. Enquanto o projeto nacional era colocado em dúvida, o multinacional MRCA realizava seu centésimo voou em Warton.

Super Mirage-2 G8A

Uma das formas de salvar o programa Super Mirage era a cooperação. A França voltou a conversar novamente com os parceiros do programa MRCA em 1975, e sugeriu a ideia de equipar o Super Mirage com o motor RB.199 da Rolls Royce, preenchendo assim as necessidades da RAF e da Força Aérea Francesa para um interceptador. Por outro lado, a França adquiriria o MRCA para missões de ataque. Essa hipótese não deixou o campo das conversas políticas e, no dia 18 de dezembro de 1975, a França anunciava o cancelamento do programa Super Mirage.

Excluída a opção por um programa em cooperação com outras nações europeias, não sobraram muitas alternativas para a França. A opção por um caça de defesa aérea grande e pesado era custosa e dificilmente encontraria um número tão grande de clientes externos, como foi o caso da família Mirage III. Por outro lado, o F.1 era um bom caça e vendia bem, mas era uma aeronave defasada frente ao revolucionário F-16. Para atender às necessidades internas e brigar com o caça da General Dynamics no mercado externo, era necessário um produto mais adequado. E assim surgiu o programa Delta 2000, um caça monoreator e sem cauda na melhor tradição da linhagem Mirage.

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A história da cooperação europeia no desenvolvimento de projetos de caças, de 1965 a 1985

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MRCA 1o prototipo_foto-BAe

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O MRCA

vinheta-exclusivoAntes mesmo do final do ano de 1968 o ACA, às vezes também referido como MRA-75 (Multi-Role Aircraft for 1975) transformou-se em MRCA-75 (Multi-Role Combat Aircraft for 1975), ou simplesmente MRCA. A configuração geral da aeronave ainda era motivo de discussão e a opção por asas de geometria variável, largamente estudada por alemães e britânicos, parecia ser a opção mais adequada. O raio de ação deveria ser grande em perfil lo-lo (baixa altitude) a Mach 0.95. O peso total não deveria superar 40.000 libras e o preço estimado por aeronave deveria ser inferior a 1,5 milhão de libras esterlinas.

O caminho percorrido pelo MRCA mostrou logo no começo ser bastante difícil e espinhoso. A liderança do projeto era disputada pelo Reino Unido e pela Alemanha Ocidental. Da parte dos britânicos, existia a desconfiança da capacidade da indústria aeroespacial alemã em liderar um projeto tão complexo. Por outro lado, os alemães tinham argumentos diversos para tomar a frente do projeto, pois eles comprariam a maior quantidade de caças.

MRCA-propostas

Propostas da BAC (esquerda) e da MBB (direita) no final de 1968 para a o MRCA. A proposta britânica lembra muito o AFVG e a alemã possuía asas a meia seção da fuselagem. (IMAGENS: BAC/MBB)

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Para sustentar a posição alemã, até mesmo a possibilidade de desenvolver o programa de forma independente (como seria o NKF no início) foi cogitada. Conhecendo os problemas de gestação do MRCA, a francesa Dassault propôs participar do programa do caça multimissão desde que a Alemanha se comprometesse a participar da produção do caça de geometria variável Mirage G.4, desenvolvido a partir daquele mesmo programa, do qual os franceses disseram que não ameaçava o anglo-francês AFVG (a família Mirage G será tratada com mais detalhes na parte 4 desta série).

Paralelamente às discussões entre britânicos e alemães, no final de 1968 o Canadá decidiu deixar o MRCA. Dos seis membros do MRCA, o Canadá era o país cujos requisitos (conhecidos como CAMRA) mais se distanciavam do propósito central. A aeronave, como o próprio nome do programa informava, deveria ter capacidade multimissão, mas seria preferencialmente um avião de ataque. A Força Aérea do Canadá procurava um caça com alto SEP (Specific Excess Power), característica típica de aeronaves que exigem alta manobrabilidade como um “dogfighter”. Pelos mesmos motivos, a Bélgica deixou o programa logo no seu início. Além disso, ambos os países enfrentavam mudanças políticas internas com reflexos nos programas militares.

Finalmente, em março de 1969 (menos de um ano após a assinatura do memorando de entendimento) as companhias envolvidas no programa MRCA (BAC, Fiat, Fokker e MBB) divulgaram a formação da empresa Panavia Aircraft GmbH, com sede em Munique (Alemanha) e capital de 12.500 libras esterlinas. A Alemanha havia vencido a batalha pelo gerenciamento do programa. Na verdade, os britânicos acabaram cedendo com o propósito de manter a parceria multinacional. A atitude do Reino Unido mostrou que o caminho a ser percorrido para futuras parcerias europeias no campo aeroespacial era negociar e ceder quando necessário.

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Maquete do Panavia 100, versão monoplace projetada para o ‘Panther’. Não passou da fase dos estudos iniciais (FOTO: FI)

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O programa entrou em fase de definição em 14 de maio de 1969. A Panavia construiria dois modelos, sendo um monoplace (Panavia 100) e outro biplace (Panavia 200). Os números iniciais mostravam a produção de mais de 1200 aeronaves somente para os quatro países envolvidos no programa (600 para a Alemanha, 385 para o Reino Unido, 200 para a Itália e 100 para a Holanda).

Na divisão de trabalhos, a inglesa BAC construiria a fuselagem frontal do modelo biplace e a parte posterior de todos os modelos. A MBB alemã ficaria responsável pela seção central da fuselagem e a parte do nariz da versão monoplace. As asas eram responsabilidade da Fiat italiana e a Holanda estava encarregada das superfícies da cauda. A decisão do grupo propulsor (dois turbofans tanto para versão mono como para a biplace) ficaria para depois, sendo que os mais cotados eram o RB.199 da Rolls Royce, o Pratt & Whitney JTF16  (originalmente escolhido para o AVS alemão) e o M59 da Snecma.

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Maquete em tamanho real do MRCA exposta em Warton. As formas finais já estavam presentes neste “mockup” (FOTO: BAC)

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Durante o ‘Paris Air Show’ de 1969, o consórcio Panavia estreou publicamente e atraiu as atenções na área militar. Foi também durante aquele evento que a Panavia informou que o MRCA seria nomeado ‘Panther’. O nome não pegou e até que uma nova escolha fosse feita todos referiam-se ao caça simplesmente como ‘MRCA’.

Pouco tempo depois da criação da Panavia, a Holanda tomou a decisão de deixar o consórcio europeu. Suas razões não diferiam muito dos motivos expostos pelos canadenses e belgas. O programa seria muito custoso (estimado em 470 milhões de libras esterlinas) e não atenderia aos requisitos de sua Força Aérea, que buscava um caça moderno de interceptação/defesa aérea mais simples e mais barato, para um único tripulante e monoreator (alguém aí mencionou F-16?). O anúncio formal foi feito no dia 28 de julho de 1969.

MRCA divisao de trabalhos

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Com a saída da Holanda, a divisão de trabalhos foi revista. O desenvolvimento das superfícies da cauda (responsabilidade de Fokker) e parte dos aviônicos (com participação da Phillips) foi redistribuído entre os outros três parceiros de acordo com o número de encomendas de cada país. Mas o maior o impacto da saída da Holanda estava no aspecto moral. O recém criado consórcio Panavia resistiria ao tempo? A cooperação era mesmo a saída? O futuro forneceria respostas a essas questões.

continua na parte 4

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Desavenças Iniciais

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vinheta-exclusivoO programa SEPECAT Jaguar evoluía bem e o primeiro protótipo voou em setembro de 1968, apenas três anos após a formação do consórcio binacional. Por outro lado, o desenvolvimento do AFVG foi interrompido com a retirada da França do programa em 1967. Uma das razões principais seria a incompatibilidade dos requerimentos oficiais de cada país.

A França procurava por um interceptador com capacidade secundária de ataque ao solo. Já o Reino Unido necessitava de uma aeronave de ataque com penetração a baixa altitude. Em uma reunião entre representantes dos dois países, ocorrida no mês de maio de 1967, foi dito que as especificações não representavam um obstáculo, mas os custos sim. Em apenas um mês a estimativa de custo do programa passou de 200 milhões de libras esterlinas para 250 milhões. A decisão francesa veio em julho daquele ano. Os franceses retiraram-se do programa.

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Maquete do AFVG exibida em Warton. Um dos poucos resultados práticos da parceria franco-britânica no desenvolvimento de caças com asas de geometria variável. O Mirage G (ver foto abaixo) possuía muitas semelhanças com o AFVG (FOTO: BAe)

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Havia ainda um terceiro elemento a ser considerado, embora oficialmente negado. A companhia francesa Dassault desenvolvia, com recursos próprios, um avião com asas de geometria variável, denominado Mirage G. Este não era um protótipo, mas sim um demonstrador de tecnologia sem qualquer intenção de entrar em produção. Ele também não cobria por completo os requerimentos da Força Aérea Francesa. Porém, alguns viram o Mirage G como um concorrente do AFVG, e para estes não fazia sentido a França investir em dois projetos similares, sendo que um deles era inteiramente desenvolvido “em casa”.

De qualquer forma, poucos meses depois da saída da França do programa AFVG, o demonstrador Mirage G realizou o seu primeiro voo (18 de novembro de 1967). O término da cooperação foi muito ruim para o Reino Unido, que ficou com poucas alternativas. A mais óbvia delas seria o desenvolvimento sem parceria, que resultaria em um número menor de unidades e o indesejado efeito do aumento do custo unitário.

Outra opção envolvia a produção de um caça menos sofisticado (fugindo dos requisitos iniciais), mas que teria melhor aceitação no mercado externo. Também existia a possibilidade da compra de um caça no exterior, desagradando a indústria local, ou a formação de uma parceria com outros países europeus. Esta última tratava-se de uma verdadeira incógnita, mas bem aceita politicamente.

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O Mirage G era um programa da Dassault que visava testar o comportamento de uma aeronave com asas de geometria variável. Apenas um demonstrador foi construído (FOTO: Dassault)

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No Reino Unido, os estudos sobre asas com geometria variável prosseguiram, agora com o nome UKVG. Ainda em 1967 a BAC procurou a empresa EWR-Sud na Alemanha, que também desenvolvia os seus estudos com asas de geometria variável no AVS (ver texto anterior). A BAC ofereceu colaboração com o UKVG e a adoção de imediato do Jaguar pela Luftwaffe. As conversas entre britânicos e alemães não geraram resultados práticos imediatos, mas abriram portas para importes realizações que viriam no futuro.

A Alemanha Ocidental insistia na adoção de uma aeronave com capacidade V/STOL tendo como base a doutrina da “Retaliação Maciça” do início da década de 1960. No final da década, a “Retaliação Maciça” foi substituída pela “Resposta Flexível” e isto teve muita influência nos projetos de caças, incluindo a maior carga de armamentos e o ataque com maior precisão.

NKF_imagem-EWRO AVS era um programa caro, complexo e estava fora de sintonia com a nova doutrina, sendo encerrado no segundo semestre de 1967.

Ainda antes do encerramento da parceria industrial entre alemães e americanos, o governo da Alemanha Ocidental anunciou o programa NKF (Neue Kampffugzeug), com o propósito de encontrar uma aeronave que substituísse o Fiat G.91 e o F-104G da Luftwaffe (o Jaguar havia sido recusado). A EWR propôs uma versão simplificada do AVS (ver imagem ao lado), excluindo a capacidade V/STOL, mas mantendo o as asas de geometria variável. Parceria com outros países  também seria aceditável. Os alvos principais eram os parceiros do consórcio F-104G da OTAN ou seja, Itália, Holanda, Bélgica, Noruega, Dinamarca e Canadá.

De olho no que os vizinhos estavam fazendo, o governo britânico decidiu entrar para o consórcio F-104G da OTAN em 1968, mesmo não tendo um único Starfighter em sua frota! Na verdade, a saída da França do programa AFVG e o cancelamento da compra do F-111K deixaram a RAF com poucas opções.

A união do NKF alemão com o UKVG britânico gerou um programa multinacional. Assim surgiu o Advanced Combat Aircraft (ACA). Porém, a Alemanha insistia na manutenção da MBB (Messerschmitt-Bölkow-Blohm, empresa formada em 1968 a partir da união da Messerschmitt com a Bölkow e a parte aeronáutica da Blohm und Voss) como empresa gerenciadora.

No dia 17 julho de 1968, representantes dos países membros do consórcio F-104G da OTAN reuniram-se na capital da Alemanha Ocidental (Bonn) para discutir o futuro do ACA. Assinaram o memorando de entendimento os representantes da Itália, Alemanha, Reino Unido e Holanda. Bélgica e Canadá permaneceram como observadores e Noruega e Dinamarca não demonstraram interesse.

Continua na parte 3

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Muito antes do Eurofighter – parte 1

A história da cooperação europeia no desenvolvimento de projetos de caças, de 1965 a 1985

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Projetar e construir um caça em parceria com outra nação nunca foi uma tarefa simples. Necessidades distintas, interesses políticos, segredos industriais e outros fatores sempre contribuíram para que cooperações não ocorressem. Mesmo quando estes obstáculos iniciais eram transpostos, o desenvolvimento de vários programas mostrava-se lento e tortuoso. Se as dificuldades no desenvolvimento de programas conjuntos apresentam tantos empecilhos, por que estabelecer estas parcerias? Na verdade, por pior que seja um programa conjunto, ele dificilmente será um fracasso total. Um dos motivos é a garantia da existência de um mercado mínimo, porém adequado, para o produto fruto da cooperação.

Esta série de textos do Poder Aéreo aborta a cooperação entre países europeus para o desenvolvimento de projetos de caças durante um período de 20 anos (1965 a 1985), apresentando as uniões e as divisões ocorridas. Consideramos este como o período mais crítico de toda essa história de cooperações. Foi também durante este espaço de tempo que se forjou a atual estrutura dicotômica de produção de caças no “velho continente” (excluindo-se 0 caso sueco).

O caminho percorrido foi tudo menos linear. Muitas vezes, quando os requisitos operacionais eram conflitantes, para não dizer diametralmente opostos, eis que surgiam soluções conciliadoras. Por outro lado, quando as soluções pareciam semelhantes e convergentes, pequenas intransigências colocavam tudo a perder. Contar a história dos “caças europeus” é algo complexo e tortuoso. Muitas vezes beirando o ilógico. Mas é acima de tudo uma lição de história para os outros países que desejam se aventurar no campo da cooperação aeroespacial para a produção de caças.

Cooperações Iniciais

A indústria aeronáutica militar da Europa Ocidental, entre o final da II Guerra Mundial e o início da década de 1960, resumia-se basicamente às empresas existentes na França e no Reino Unido. Por certo existiam outras de menor importância em países como Suécia, Itália e Holanda. A Suécia sempre buscou independência no desenvolvimento dos seus caças, mas com uma fração de componentes importados. Somente as indústrias francesas e britânicas eram capazes de produzir, do radar ao motor, uma aeronave de alto desempenho.

A partir da metade da década, esta situação começou a mudar. No ano de 1965, a Grã Bretanha e a França uniram forças com o propósito de desenvolver um caça com asas de geometria variável, provisoriamente denominado AFVG (Anglo-French Variable Geometry). No ano seguinte, as empresas Breguet Aviation e BAC (British Aircraft Corporation – empresa criada em 1960 a partir da união da Vickers-Armstrong, da Bristol e da English Electric Aviation) criaram o consórcio anglo-francês SEPECAT (Société Européenne de Production de l’Avion d’École de Combat et d’Appui Tactique).

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O programa anglo-francês SEPECAT, comandado pela França, foi uma parceria de sucesso (FOTO: RAF)

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O programa AFVG buscava uma aeronave que executasse as missões tipo AI (Air Interdiction – Interdição Aérea em Profundidade) e oa consórcio SEPECAT desenvolveria um caça mais simples para missões BAI (Battlefield Air Interdiction – Interdição Aérea do Campo de Batalha) e treinamento avançado. A Grã Bretanha responderia pelo gerenciamento do primeiro programa e a França lideraria o consórcio binacional SEPECAT.

Estes primeiros passos deram sinais de que o futuro da indústria aeroespacial europeia residia na cooperação entre os países daquele continente. Por outro lado, houve a falsa impressão de que o caminho seria linearmente suave.

A aeronave desenvolvida pelo consórcio SEPECAT, denominada Jaguar, mostrou-se muito mais complexa e especializada em ataque ao solo do que a proposta original, e a versão biplace da mesma foi empregada apenas para conversão operacional. Por esse motivo a necessidade de uma aeronave de treinamento avançado não foi preenchida.

mockup alphajet 1969 foto_FRIA Grã Bretanha, por meio da companhia Hawker Siddeley, seguiu solitária no desenvolvimento do jato de treinamento Hawk e a França buscou a cooperação da Alemanha para o desenvolvimento do jato de treinamento Alpha Jet (na imagem ao lado, a maquete apresentada em Le Bourget em 1969, mostrando um arrajo inicial muito parecido com o HS Hawk). Para a Franç,a era apenas mais um projeto que atenderia aos requisitos da Força Aérea daquele país, mas para a Alemanha a história era outra.

Antes mesmo do projeto do Alpha Jet a indústria aeronáutica militar da Alemanha, interrompida com o fim da II Guerra Mundial, já dava sinais de renovação. O primeiro passo foi a produção sob licença do jato italiano Fiat G.91 pelo consórcio Flugzeug-Union Sud, uma união das empresas Messerschmitt, Heinkel e Dornier. Posteriormente, a Messerschmitt e a Dornier participaram fortemente do programa F-104G. Este não era o simples caso de produzir sob licença uma aeronave supersônica, mas sim modificá-la para atender a requisitos operacionais completamente distintos.

Nesta época, a indústria aeronáutica alemã já tinha maturidade suficiente para voltar a desenvolver um caça moderno a partir da prancheta. Tal capacidade ficou comprovada com o programa VJ 101, um demonstrador de tecnologia supersônico com capacidade V/STOL (Vertical/Short Take-Off and Landing) desenvolvido pelo consórcio EWR (Messerschmitt, Heinkel e Bölkow). Depois da parceria com a Itália na produção sob licença do G.91, a Fiat e a VFW (empresa com participação da Focke-Wulf) uniram esforços com o objetivo de desenvolver o VAK 191B, uma aeronave V/STOL de ataque.

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As duas fotos acima mostram dois diferentes programas alemães de caças com capacidade V/STOL. Na foto superior o VJ-101 desenvolvido pela EWR e, na foto abaixo, o VAK-191 em cooperação com os italianos. Alemães e italianos desenvolveram diversas parcerias no campo aeronáutico nos últimos 50 anos

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A Alemanha também desenvolvia outros estudos no campo V/STOL com os norte-americanos. Em parceria com a Fairchild-Republic, o consórcio alemão EWR trabalhava no Advanced Vertical Strike-Fighter, ou simplesmente AVS. O projeto era extremamente complexo, pois além de ser uma aeronave V/STOL também teria asas de geometria variável.

É interessante observar a quantidade de projetos alemães que davam ênfase a aeronaves com capacidade V/STOL. Na verdade isto tinha como base a doutrina da “Retaliação Maciça” (ou represália maciça), elaborada pelo Secretário de Estado norte-americano John Foster Dulles. Segundo Dulles as forças convencionais soviéticas eram superiores às forças dos EUA e qualquer ataque soviético seria retaliado como se fosse um ataque nuclear. Neste ambiente, caças convencionais e bases aéreas teriam vida curta (ou nenhuma chance) em um conflito europeu.

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Imagem mostrando o arranjo geral de como seria o AVS. Observar os quatro propulsores verticais que ficariam embutidos na fuselagem durante o voo convencional
(DESENHO: EWR)

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… continua na parte 2

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O fim dos trimotores

L-1011 Tristar_foto-PA

vinheta-especialEm 1984 dois gigantes do ar deixaram de ser produzidos: o Lockheed L-1011 TriStar e o McDonnell Douglas DC-10. O primeiro teve uma linha de produção de apenas 250 unidades, deixando um prejuízo de cerca de U$ 2,5 bilhões para o seu fabricante. Depois dessa investida, a Lockheed retirou-se do mercado de aviação comercial.

Já o DC-10 teve uma carreira mais promissora e vendeu 366 unidades para mais de 40 companhias aéreas em todo o mundo. Embora a produção do trijato da McDonnell Douglas tenha terminado em 1984, a linha de montagem continuava aberta para a produção do KC-10 para a USAF.

Falando em reabastecedores, tanto o KC-10 como o K-1/KC-1 (versão de reabastecimento aéreo do TriStar utilizado pela RAF) continuam em serviço.

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Nunca antes na história do GTE …

Entre 2005 e 2009 esta foi a unidade da FAB que sofreu a maior renovação de sua frota de aviões

vinheta-especialO GTE (Grupo de Transporte Especial) é uma unidade da FAB que tem como objetivo principal o transporte de autoridades. O mesmo foi criado em 1957 e subordinado ao Quartel-General da então III Zona Aérea, sediada no Rio de Janeiro.

Atualmente, o GTE tem como missão básica a realização do transporte aéreo do Presidente da República, Ministros de Estado, Secretários da Presidência da República e autoridades dos Poderes Legislativo e Judiciário, bem como o Alto-Comando da Aeronáutica.

Administrativamente, o GTE está subordinado à Base Aérea de Brasília, que dela recebe todo o apoio necessário ao seu funcionamento, mas operacionalmente, o GTE está subordinado ao Gabinete do Comandante da Aeronáutica (GABAER).

Até o ano de 2003 os maiores aviões do GTE eram dois Boeing 737-200, designados VC-96, adquiridos em 1976 para o transporte do Presidente da República. Antes da incorporação dos VC-96 o GTE recebeu os Hawker Siddeley HS-125 (VU-93), destinados ao transporte de Ministros e Secretários da República, em 1968.

Depois de um longo hiato, o GTE foi novamente equipado com outros modelos em 1987, quando chegaram os Learjet série 35, designados VU-35A. Posteriormente, mais um Learjet (série 55) juntou-se ao grupo.

Mas o GTE não havia passado por uma mudança tão radical como aquela recentemente vista entre 2005 e 2009. Em 2005 chegou o Airbus VC-1A, versão VIP do Airbus A319 de uso comercial, para o transporte do Presidente da República. No final daquele mesmo ano o GTE começou a operar os Embraer ERJ-145 (ex-Rio Sul) designados VC-99A com o objetivo de substituir os HS-125.

Em setembro de 2006 começaram a ser recebidos os ERJ-135 designados VC-99B e VC-99C, dando início a substituição dos Learjets. Para completar, dois Embraer E-190 (VC-2) foram adquiridos, sendo o primeiro recebido em setembro de 2009. Estes aposentaram os dois 737-200. E assim o GTE chega com a frota de jatos completamente renovada em 2010.

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‘AMX’ supersônico?

CASA AX 1

vinheta-exclusivoAlgumas concepções desenvolvidas por empresas aeroespaciais da Europa mostram um desenho externo que apresenta grande semelhança com o caça ítalo-brasileiro AMX. Recentemente o blog do Poder Aéreo publicou o texto “AMX: a concepção do projeto“, onde as semelhanças entre o projeto sueco B3LA e o caça ítalo-brasileiro são grandes.

A foto acima apresenta uma das concepções espanholas para o CASA AX, uma aeronave de ataque projetada para substituir os F-5 daquele país no início da década de 1990. Segundo esta concepção, a aeronave teria asa alta, dois motores e deriva vertical única. Olhando para a ilustração acima fica evidente a semelhança com o AMX.

Outra concepção que também lembra o AMX externamente é o projeto britânico P.159 da British Aerospace (ver desenho baixo). Embora não tão parecido como o AX, o P.159 foi projetado para utilizar o mesmo motor do AMX (Rolls Royce Spey), mas com pós combustão.

No entanto, há quem diga que se fosse desenvolvido um AMX supersônico no lugar do AMX, este não passaria de um SEPECAT Jaguar atualizado. Qual a sua opinião?

1976-P.159

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Gripen versus J-10 e JF-17

Gripen J-10 FC-1

Caso o Gripen ganhe o MRCA da Índia, como ele se sairia contra os caças JF-17 e J-10 do Paquistão e China? Compare as características técnicas dos três nos links abaixo e dê sua opinião.

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O programa A-X da FAB

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EMB-330-ilustracao

Ilustração do projeto EMB-330, primeira tentativa da Embraer para equipar o FAB com um jato de ataque

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Do outro lado do Atlântico o Brasil enfrentava os seus próprios dilemas. Na segunda metade da década de 1960 a grande preocupação da Força Aérea Brasileira (FAB) era a substituição de suas aeronaves de caça e a proteção do espaço aéreo brasileiro. Na verdade a FAB daquela época não possuía nenhuma aeronave deste tipo, e os T-33 Shooting Star e suas variantes (TF-33, TF-33A e AT-33A) literalmente “quebravam o galho”.

O início da década seguinte assistiu a uma verdadeira revolução na aviação de caça do Brasil. Em 1971 o primeiro Xavante montado no Brasil fazia o seu voo inaugural. No ano seguinte chegou o primeiro dos 16 interceptadores franceses Mirage IIIE e em 1973 a FAB selecionava o F-5E como seu principal caça tático de interdição e superioridade aérea. Ou seja, em menos de quatro anos a FAB firmou contratos para a aquisição de nada menos que 170 jatos, sendo 58 supersônicos (vale lembrar que, posteriormente, a FAB iria adquirir mais exemplares do Xavante, em novos contratos).

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A introdução dos Mirage III na FAB marcou o início de uma revolução na aviação de caça. Superada a questão da defesa aérea, a FAB passou a se preocupar com a renovação da aviação de ataque e bombardeio (FOTO: FAB).

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Mas o início da década de 1970 também assistiu à degradação do equipamento de bombardeio e ataque da Força Aérea Brasileira. Resolvida a “questão da caça”, o Ministério da Aeronáutica passou a se preocupar em reformular e modernizar suas aeronaves de bombardeio, ataque naval e reconhecimento. Estas eram funções executadas pelos B-26 (renomeados A-26 a partir de 1970) operados pelo 1º/5º GAv (Natal/RN) e pelo 1º/10º GAv (Cumbica/SP). A necessidade de substituição deste modelo de aeronave projetada na II Guerra Mundial já se mostrava necessária frente à obsolência da mesma. O fato foi agravado pela descoberta de rachaduras nas longarinas das asas de parte destes aviões em 1972, mesmo após a modernização da frota feita nos EUA anos antes.

O problema foi parcialmente contornado com a distribuição dos jatos Xavante para determinadas unidades. Em 1974 o 1º/4º GAv recebeu os seus EMB-326. Além da responsabilidade de formar líderes de esquadrilha, o esquadrão tinha como missão as ações de caça e ataque ao solo. O 1º/10º GAv trocou os seus A-26 por EMB-326GB em 1976, sendo transferido para Santa Maria no final de 1978, e passou a executar missões de reconhecimento. Também em Santa Maria o 3º/10º GAv, responsável por missões de interdição, apoio aéreo aproximado, ataque ao solo e ataque marítimo, passou a ser equipado com EMB-326G naquele mesmo ano.

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EMB-326_foto-FAB

O Xavante substituiu, em parte, os A-26 Invader na função de ataque ao solo e reconhecimento aéreo. Porém, o mesmo foi empregado apenas como “caça tampão” até que viesse a solução definitiva. Era necessário um avião dedicado às missões de interdição e ataque ao solo (FOTO: FAB).

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O Xavante não era mais do que uma aeronave de treinamento avançado capaz de executar missões de ataque leve e reconhecimento. A FAB precisava realmente de uma aeronave dedicada como era o A-26 (desativados em caráter definitivo em dezembro de 1975) e adaptada às necessidades às exigências do campo de batalha do futuro que se projetava.

Desta maneira surgiu o programa A-X, que buscava um caça de ataque capaz de executar missões de interdição do campo de batalha (BAI), reconhecimento e ataque marítimo. A idéia era buscar uma aeronave que, em performance, ficasse entre o F-5 e o Xavante.

Primeiramente a Embraer procurou desenvolver um projeto que atendesse aos requisitos da FAB baseando-se no projeto do Aermacchi MB-326. A experiência da empresa brasileira neste campo foi praticamente construída em cima da produção do jato EMB-326 Xavante. Portanto, era natural que os estudos partissem do próprio projeto da Aermacchi. Em 1974 a Embraer idealizou uma aeronave de ataque monoplace, de asa baixa, mais veloz e com maior capacidade ofensiva que o Xavante. O projeto recebeu o nome EMB-330.

Pelo desenho apresentado é possível observar algumas características do estudo. A porção frontal da fuselagem foi totalmente redesenhada. O cockpit perdeu o segundo ocupante e dois canhões de 30mm (um de cada lado) foram projetados no lugar dele. Em relação às pontas das asas, os tanques foram removidos e elas ganharam um contorno arredondado nas extremidades, assim como o topo da deriva. Uma barbatana ventral foi inserida próxima ao bocal de exaustão.

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EMB-330-3v

No aspecto geral o desenho lembrava a versão de ataque do MB.326 da Aermacchi, denominada 326K. A versão “K” possuía um motor Viper mais potente de 1.814kg de empuxo e voou pela primeira vez em agosto de 1970. Mas nessa época a Aermachi já trabalhava no MB.339, substituto do 326, e também previa uma versão de ataque semelhante ao 326K. Em outras palavras, o EMB-330 não apresentava nada de novo.

O estudo foi encaminhado ao Ministério da Aeronáutica em setembro de 1974 através do documento ET-AX/008. No entanto, o MAer chegou a conclusão que os estudos da Embraer não satisfaziam as necessidades da FAB para o programa A-X, que exigia um avião mais capaz, com desenho mais moderno e mais especializado em missões BAI.

A Embraer voltou a trabalhar em um jato de ataque mais evoluído que o seu estudo anterior. Mas a falta de experiência tornava a tarefa bastante árdua. Com a ajuda da Aermacchi, cujas relações eram muito boas em função do programa Xavante, o projeto foi totalmente reformulado, visando atender às exigências do programa A-X. Praticamente as únicas coisas que se conservaram foram os canhões de 30mm. O motor foi substituído por um turbofan inglês Rolls Royce M-45H. As asas foram colocadas na parte superior da fuselagem, assim como as duas entradas de ar do motor. O bocal de exaustão foi recuado e acima dele foi posicionado um freio aerodinâmico. Os profundores foram projetados no alto da deriva, dando um aspecto de cauda em “T” semelhante ao jato sueco Saab 105.

MB340-desenho

O projeto foi lançado inicialmente em fevereiro de 1976 através do documento EP-AX/065. Em maio de 1977 o projeto foi revisado, recebendo melhorias e detalhes adicionais. O resultado final foi a publicação PT-AX/107, emitida em maio de 1977 e submetida à apreciação do Ministério da Aeronáutica (MAer).

O projeto foi designado MB.340 e encontrava-se bastante detalhado. Até mesmo a divisão de trabalho entre a Aermacchi e a Embraer estava definida. E empresa brasileira responderia por 1/3 do programa e dos custos, sendo responsável pelas seções das asas, empenagem e testes de fadiga da estrutura. A Aermacchi responderia pelos outros 2/3 e produziria a fuselagem, os sistemas de bordo, os testes estáticos e com armamentos. Quatro protótipos foram previstos (dois em cada país) e poderiam ser construídos já em 1978.

MB340-3v

No segundo semestre de 1977 um equipe de engenheiros da Embraer seguiu para a sede da Aermacchi em Varese (Itália) para discutir o projeto. Era aguardado apenas a “luz verde” do MAer para o início dos trabalhos. Porém, o brigadeiro Araripe (Tenente-Brigadeiro Joelmir Campos de Araripe Macedo), Ministro da Aeronáutica naquela época, decidiu pelo congelamento do projeto alegando questões ligadas a custos e prazos. Os estudos do programa A-X só seriam retomados no governo seguinte, com a posse o presidente João Batista Figueiredo em outubro de 1978.

Com o novo governo o programa A-X ganhou novo fôlego. O projeto MB.340 foi colocado de lado, mas não uma parceria, como propunha a Aermacchi. Na busca por parcerias externas, uma equipe da Embraer esteve na Europa no final de 1979 e visitou o Reino Unido primeiramente. A ideia era avaliar a possibilidade de se adaptar o jato BAe Hawk aos requisitos do programa A-X.

Os ingleses propuseram mudanças na aeronave, mas não permitiram a participação dos brasileiros no projeto, apenas a montagem sob licença. Este não era o desejo dos brasileiros e as conversas não evoluíram. Depois de uma semana na Grã Bretanha, o grupo seguiu para a Itália. Lá, os engenheiros encontraram uma situação bastante diferente daquela de dois anos antes.

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A formação do consórcio e a definição do projeto

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Uma das primeiras concepções artísitcas do AMX feita pela Embraer. Observar os dois padrões diferentes de camuflagem (coleção do autor)

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Na formação do consórcio italiano AMX as cotas de participação das empresas estavam divididas da seguinte maneira: Aeritalia – 70%; Aermacchi – 30%. Uma eventual a associação com os suecos mudaria esta relação. Mas, como foi visto anteriormente, isto não ocorreu, o que não significa que um terceiro parceiro estivesse descartado.

A Aermacchi, que deu suporte à Embraer no programa MB.340 e também colaborava com a Aeritalia no projeto AMX, observou certas semelhanças entre ambos e sugeriu o início das conversações entre os dois países. Os primeiros entendimentos ocorreram ainda em 1979, quando um grupo de técnicos da Embraer realizou uma visita à Itália após deixar a Grã Bretanha.

Os contatos foram intensificados no início do ano seguinte, visando estabelecer a redação preliminar de um memorando de entendimento entre as três empresas. Embora a relação entre a Embraer e a Macchi fosse bastante cordial, as duas companhias tiveram dificuldades em dialogar com a Aerilatia logo no começo, tumultuando as negociações. O eng. Ozires Silva, em seu livro “A decolagem de um sonho”, descreveu o relacionamento da seguinte maneira:

“A hostilidade da Aeritalia de ter brasileiros dentro do projeto ficou clara logo nos primeiros encontros com os dirigentes da empresa, em 1980. Reunidos em Torino, numa gigantesca mesa (..), cheia de gente em volta, sentimos que a Embraer e a Macchi estavam ali presentes simplesmente devido ao interesse da FAB em comprar os novos aviões. Éramos flagrantemente ignorados e permanentemente desrespeitados quando da apresentação de algum ponto que considerávamos relevante.”

AMX-maquete4

Uma das primeiras maquetes do AMX divulgada para o grande público. Observar a presença da placa separadora da camada-limite na tomada de ar (coleção do autor).

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Em março de 1980 a notícia veio à público. As autoridades aeronáuticas brasileiras anunciaram a sua decisão oficial de participar do programa AMX. Durante a Feira Aeroespacial de Farnborough daquele ano as três empresas comunicaram a assinatura do MoU (‘Memorandum of Understanding’), sendo que os detalhes técnicos e econômicos, bem como a participação de cada empresa no projeto, ficaram de ser estudados.

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AMX-maquete3

Maquete do AMX fotografada sobre um fundo que contém a superfície do mar. Observar os dois mísseis ASM nos cabides internos sob as asas. Uma das atribuições do caça era o ataque naval (coleção do autor).

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A decisão do Brasil de participar do projeto foi oficializada quase um ano depois do primeiro anúncio. No dia 27 de março de 1981 foi assinado um acordo entre os dois países, de forma que os mesmos fizessem “encomendas substanciais” a fim de justificar o projeto. Oficialmente não foram citados números, mas falava-se em 200 exemplares para a AMI e outros 100 para a FAB. As cifras oficiais vieram em julho daquele ano, quando as três empresas assinaram o memorando de desenvolvimento. A AMI adquiriria 187 caças e a FAB outros 79 exemplares.

As companhias italianas seriam responsáveis por 70,3% (sendo 46,7% para a Aeritalia e 23,6% para a Aermacchi) do programa e a Embraer o restante dos 29,7%. Coube à Embraer a fabricação das asas, tomadas de ar do motor, estabilizadores horizontais, pilones subalares (“cabides de armas”) e tanques de combustível.

AMX-3empresas

É muito provável que a divisão de produção das diferentes partes da aeronave tenha levado em conta as questões logísticas e por esse motivo praticamente toda a fuselagem (com exceção das tomadas de ar do motor) tenha ficado com as duas companhias italianas. O Brasil tinha especial interesse no alcance longo da aeronave e por esse motivo ficou de desenvolver os tanques e os “cabides molhados” para o uso de tanques subalares. Foram também estabelecidas duas linhas de produção independentes, uma em cada país.

AMX-maquete5

Uma das primeiras maquetes do AMX mostrando os cocares tanto da Força Aére Brasileira como da Aeronautica Militare Italiana (coleção do autor).

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Estreitavam-se assim as relações aeronáuticas entre Brasil e Itália. Cooperação esta que começou com a produção sob licença do jato MB-326G em 1970. Para a Itália o AMX era apenas mais um projeto aeronáutico. O mesmo não poderia ser dito para o Brasil, cujo salto tecnológico era enorme. Algo que colocaria o país na vanguarda da indústria aeroespacial. Porém, este programa enfrentaria vários percalços, mas isto já é assunto para um outro texto.

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O problema italiano

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Fiat_G91Y-foto-AMI

A Luftwaffe (Força Aérea Alemã) no início da década de 1970 havia dado uma solução própria para a sua aviação de ataque. O caça-bombardeiro Panavia Tornado substituiria o F-104G e seria responsável pelas missões tipo AI e BAI (ver texto anterior). Já antigos Fiat G.91 dariam lugar aos os novos Alpha Jet, tanto na função de ataque como treinamento avançado. Nenhuma aeronave intermediária entre o Tornado e o Alpha Jet seria necessária.

Esta solução não funcionava na Itália. Na concepção tática daquele país mediterrâneo uma aeronave como o Alpha Jet não tinha os requisitos necessários para executar missões tipo BAI.  Por outro lado, o Tornado era uma aeronave cara e complexa e o seu emprego em missões tipo BAI significava a subutilização do avião. Seria um luxo muito grande o emprego do caríssimo Tornado em missões menos complexas. Grosso modo, a visão tática italiana aproximava-se da RAF. A AMI queria um caça semelhante ao SEPECAT Jaguar.

Mas era necessário a aquisição de um caça mais simples, que fosse adquirido em maior número para substituir o restante dos F-104G e toda a frota de Fiat G.91. Não era intenção da Força Aérea Italiana (AMI) adquirir uma aeronave com essas características no exterior, descartando-se assim o próprio Jaguar. O objetivo era, a partir da experiência adquirida no programa do Tornado, projetar e desenvolver localmente uma aeronave de ataque. Parcerias com outros países não estavam descartadas.

F-104S-italia3-foto-AMI

Na verdade a empresa estatal italiana Aeritalia, uma das consorciadas do programa Panavia, já vinha estudando alternativas desde 1973 que se encaixassem no perfil de missões tipo BAI visando a substituição do Fiat G.91 e do F-104G. O que era somente um estudo tornou-se documento oficial.

A AMI, com base nos estudos preliminares da Aeritalia, passou a trabalhar nos requisitos iniciais da nova aeronave. Em junho de 1977 o Estado-Maior da AMI divulgou os seus requisitos básicos visando o desenvolvimento de um avião de ataque.

Basicamente tratava-se de um jato monoplace de pequeno porte que pudesse atuar em missões de interdição aérea do campo de batalha (BAI) e em determinadas ações de apoio aéreo aproximado (CAS). A aeronave deveria ainda ter capacidade secundária para executar missões anti-navio, guerra eletrônica e treinamento avançado (nestes dois últimos casos com uma versão biplace).

Em abril de 1978 a Aeritalia e a Aeronautica Macchi (construtora dos jatos de treinamento MB.326) assinaram um acordo de cooperação para o desenvolvimento conjunto do projeto do futuro caça de interdição italiano. A junção das iniciais das palavras Aeritalia e Macchi mais a letra “X”, simbolizando o projeto (ou aeronave experimental), designavam o programa AMX. O projeto detalhado deveria estar completo em 1979 e esperava-se o primeiro voo do protótipo para o final de 1982.

Previa-se a aquisição de 180 unidades sendo a primeira entregue em 1985 e a última em 1991. O desenvolvimento do programa como um todo ocorreria em um curto período de tempo e deveria ter custos bastante baixos. Desde o início o conceito “design-to-cost basis” foi adotado pela AMI e o custo unitário estimado para cada aeronave deveria ficar próximo de 2,1 milhões de libras esterlinas (valores de 1978).

Considerando a missão da aeronave e as restrições orçamentárias, optou-se pelo desenvolvimento de um caça subsônico e asa de geometria fixa. Parte da tecnologia desenvolvida para o Tornado seria empregada no novo caça, economizando no desenvolvimento de certos sistemas. Mesmo assim era desejável uma parceria com outro país como forma de garantir um número maior de encomendas e reduzir os custos.

A busca por parceiros no programa do novo caça tático italiano não era uma missão fácil. Os países membros da OTAN ou não demonstraram interesse no projeto ou já tinham suas próprias alternativas para missões BAI. Era necessário buscar um parceiro fora da aliança militar.

Conversas com os suecos

Na feira aeroespacial de Le Burget de 1977 a empresa sueca Saab apresentou um modelo de jato biplace denominado B3LA. A proposta da Saab era desenvolver um avião que substituísse o jato Saab-105 (Sk 60 na Real Força Aérea da Suécia).

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Modelo do provável B3LA apresentado pela Saab na feira Aeroespacial de Le Bourget em 1977. São inegáveis as semelhanças com o projeto AMX (FOTO: Fleugerevue)

Na verdade o conceito era um pouco diferente. O Saab-105 era uma aeronave biplace (lado a lado) de treinamento com capacidade secundária de ataque leve. A proposta da Saab agora era desenvolver um caça tático de interdição do campo de batalha, mas que também atuasse como jato de treinamento avançado em tempo de paz.

Na proposta da Saab a conversão de ataque para treinador necessitava da remoção de parte do equipamento, o que tomaria algumas horas. O custo do desenvolvimento do B3LA foi estimado em 325 milhões de libras esterlinas (valores de 1978). O desenho do B3LA era bastante convencional, sendo um monoreator com dupla entrada de ar elevada e com as asas posicionadas na seção superior da fuselagem. A área alar (240ft2) era relativamente grande para um caça compacto, pois o objetivo era proporcionar manobrabilidade à aeronave.

B3LA-ilustracao

O desenho dos flaps otimizava o desempenho do avião em pousos e decolagens em pistas curtas. Aproximadamente 20% da aeronave seria construída utilizando-se materiais compostos, uma grande novidade na época. Painéis de acesso, superfícies de controle, freio aerodinâmico e porta do compartimento do trem de pouso seriam de fibra de carbono. O emprego deste tipo de material reduziria o peso final da aeronave, melhorando a relação peso / empuxo.

A questão da motorização não havia sido decidida. As opções eram o comprovado GE F404, mais barato e de manutenção mais simples, ou o novo RB.199 que equipava o Tornado. A Real Força Aérea da Suécia preferia o F404 e a Saab-Scania o motor da Turbo-Union. O motor norte-americano possuía 2.000 libras de empuxo a mais, mas consumia uma quantidade maior de combustível.B3LA-materiais_compostos-flightint

O desenho acima mostra as áreas onde seriam empregados materiais compostos no B3LA. Até neste quesito existem semelhanças com o projeto do AMX. (DESENHO: Flight Intrnational)

O B3LA não levaria um radar, mas seu equipamento de navegação e ataque incorporaria sofisticados sistemas para armas guiadas. Grosso modo, esta solução também foi empregada pela USAF nos A-10 Thunderbolt II, que entravam em operação na Europa naquele momento.

O principal sistema de aquisição e rastreamento de alvos seria baseado em um FLIR (Forward-Looking Infra-Red system) desenvolvido pela Ericsson. Também estava previsto o uso de laser para definir distâncias do alvo e alerta de altitude. As informações do campo de batalha seriam mostradas ao piloto tanto no HUD como em uma tela logo abaixo dele no centro do painel. O processamento dos dados seria feito por um computador desenvolvido localmente chamado D80. Os alvos mais próximos da linha de voo do avião ficariam em destaque no HUD. As informações do alvo seriam transmitidas para os mísseis imediatamente e caberia ao piloto apenas a liberação para que o sistema disparasse o armamento.

O míssil sugerido era o novo B83, em desenvolvimento pelos suecos e muito semelhante ao Hellfire e ao Maverik norte-americanos. Até oito B83 seriam transportados. Além dos mísseis B83 o B3LA transportaria dois AAM (air-to-air missile) de curto alcance na ponta das asas para sua própria defesa ou ataque a helicópteros e aeronaves de transporte. Não havia previsão para canhão interno.

A proposta do caça sueco tinha muito em comum com o projeto italiano. Comparando os desenhos e as maquetes do B3LA com o AMX fica evidente a semelhança entre os dois projetos. Em diversos pontos os requisitos eram diferentes, mas não era nada que não pudesse ser superado após alguns ajustes. A parceria era importante para ambos como forma de repartir custos e elevar o número de encomendas.

B3LA-cockpit-airplane design

Esquema apresentando a distribuição dos equipamentos da parte frontal da fuselagem e a disposição dos dois tripulantes. Na missão de ataque o segundo assento seria retirado e substituído por equipamentos de combate. (FONTE: airplane design)

Um pouco depois da formação do consórcio Aeritalia/Macchi, o governo italiano procurou o governo sueco para discutir o assunto. No segundo semestre de 1978 a publicação britânica Flight International visitou as instalações da Saab em Linkoping e entrevistou Gunnar Lindqvist, responsável pelo desenvolvimento de aeronaves militares do Comando de Material de Defesa da Suécia. Lindqvist falou da eventual parceria com os italianos. A seguir, os principais trechos desta entrevista:

Foi comentado que o projeto B3LA pode não seguir em frente em favor de uma associação com os italianos no projeto AMX.

Bem, neste caso o AMX pode ser o B3LA para nós, é só uma questão dar “nome aos bois”. Existem fortes semelhanças. Se você chamar de AMX ou de B3LA ou qualquer outra coisa isso não vai ter muita importância. Nós podemos nos associar ou não.

Foi comentado que os italianos estão procurando uma aeronave mais simples.

Nós tivemos esta mesma impressão num primeiro momento, mas agora que sabemos mais o que eles querem pensamos que esta aeronave [o AMX] não é mais simples que a nossa. Eu diria até que os requisitos deles são mais exigentes que os nossos em determinadas áreas e vice-versa.

Em outubro de 1978 o Partido Liberal assumiu o governo sueco. O comitê de estudos do projeto B3LA, formado em janeiro daquele ano para avaliar os efeitos do projeto na indústria aeroespacial sueca, entregou ao recém empossado ministro da defesa Lars de Geer um relatório de 300 páginas. No dia 20 de novembro de Geer informou ao parlamento sueco que a Real Força Aérea da Suécia não consideraria mais o projeto B3LA.

B3LA-corte

Em seu lugar foi proposto uma aeronave de treinamento mais simples e de custos mais baixos previamente designada Sk38. E desta forma o projeto B3LA foi enterrado e uma eventual associação com os italianos ficou totalmente descartada.

O Sk38 nunca saiu do papel, assim como o projeto do caça A-20, e a SAAB dedicou-se a melhorias no projeto do J-37 Viggen e na abertura do caminho para o seu substituto, o projeto JAS (Jakt, Attack, Spanning – caça, ataque, reconhecimento), denominado Gripen anos depois. É curioso notar que a desistência do programa B3LA, e uma eventual associação com os italianos no programa AMX, acabou dando mais impulso ao programa JAS Gripen.

Continua na Parte 4

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