Malvinas 35 anos: por que as bombas não explodiram? (PARTE 9)

Malvinas 35 anos: por que as bombas não explodiram? (PARTE 9)

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por Guilherme Poggio

Há 35 anos argentinos e britânicos se enfrentaram na gélidas águas do Atlântico Sul para disputar a posse das ilhas Malvinas (Falklands, como se referem os britânicos). Foi durante esse conflito que a Força Aérea Argentina (FAA – Fuerza Aérea Argentina) entrou pela primeira vez em combate contra um inimigo externo. O batismo de fogo ocorreu no dia 1º de maio de 1982. O blog do Poder Aéreo está publicando em partes um artigo exclusivo sobre os vetores, os armamentos e as táticas empregadas pela FAA para atacar e destruir os navios da Força-Tarefa britânica. Para ler as partes anteriores clique nos links abaixo.

Parte 1- Introdução 
Parte 2 – Vetores e armamentos
Parte 3 – As Táticas
Parte 4 – Espoletas
Parte 5 – O primeiro ataque
Parte 6 – ‘Bomb Alley’
Parte 7 – O dia da Pátria
Parte 8 – Esforço hercúleo

Mitos sobre as bombas argentinas nas Malvinas

(MITO) As bombas não explodiram porque foram lançadas a baixa altura.

(RESPOSTA) Os militares da Força Aérea Argentina tinham pleno conhecimento técnico das limitações do envelope de lançamento das bombas (incluindo cálculos feitos em computador com os parâmetros de lançamento). Na verdade essas limitações se davam pelas características originais das espoletas, cujos tempos eram baseados em conceitos de segurança para a aeronave lançadora (segundo relato de militares argentinos nunca passou pela cabeça deles a execução de missões suicidas). No início do conflito foram lançadas bombas (Expal de 250 kg) sem espoletas modificadas que efetivamente não explodiram (este é o caso do ataque ao HMS Glamorgan e da bomba que se alojou no compartimento de cargas do mercante argentino ELMA Formosa, atacado por engano – a espoleta não teve tempo para armar a bomba).

Bomba de origem espanhola BRP-250 lançada por engano contra o mercante de bandeira argentina ELMA Formosa. Observar os restos do paraquedas na cauda. A bomba foi desarmada e notou-se que a espoleta não havia armado a bomba, pois a mesma havia sido lançada muito próximo do navio. FOTO: 3040100.com.ar

As espoletas foram modificadas para que as bombas explodissem mesmo no caso de lançamento a baixa altura. Algumas bombas com espoletas modificadas efetivamente não explodiram após o lançamento (como aquela lançada contra a fragata HMS Argonaut) e as causas para tal definitivamente não estão relacionadas com a altura de lançamento. Há indícios de que a associação de temperaturas muito baixas e o sal da água do mar (em função dos voos extremamente baixos) tenha comprometido o mecanismo da espoleta. Outra possibilidade seria a falta de um controle de qualidade mais rigoroso no processo de fabricação e adaptação das espoletas Kappa eletrônica (civis e militares alternavam-se dia e noite no processo de fabrico das espoletas e ignoravam procedimentos de segurança para acelerar o processo).

Cálculos computacionais feitos pelos argentinos determinando os parâmetros de lançamento das bombas nas táticas de ataque naval a alturas extremamente baixas. FOTO: FAA

(MITO) Se os argentinos tivessem percebido o problema da detonação das bombas antes as perdas britânicas poderiam ter sido maiores.

(RESPOSTA) Os argentinos (em especial os militares da FAA), ao longo de todo o conflito, tinham plena consciência das dificuldades da execução das táticas de bombardeio a alturas extremamente baixas e das limitações dos seus armamentos. Não há indícios que sustentem a tese de que alguns desses problemas foram tardiamente reconhecidos por eles.

(MITO) Lançar bombas burras contra os modernos (para a época) navios da Royal Navy era um suicídio.

(RESPOSTA) A técnica de lançamento de bombas a alturas extremamente baixas era um tipo de tática que a Royal Navy não havia previsto e, portanto, não estava totalmente preparada para lidar com essa ameaça. A única forma efetiva de abater aeronaves inimigas a alturas extremamente baixas era o sistema GWS-25 Seawolf porque ele havia sido desenvolvido para derrubar mísseis do tipo “sea skimming” como o Exocet. No entanto, de todas as escoltas que a Royal Navy enviou para o Atlântico Sul, somente duas unidades possuíam este sistema (as fragatas Tipo 22). Após a guerra a Royal Navy deu prioridade para a instalação de sistemas CIWS para conter a ameaça de mísseis “sea skimming” e ataques aeronavais a baixa altura.

danos no convoo da Broadsword
Uma das bombas que não explodiu atingiu a fragata HMS Broadsword (Tipo 22). Na foto acima o estrago que a bomba fez no convoo e o nariz do lynx que foi arrancado pela passagem da bomba. A Broadsword era uma das duas únicas escoltas a Royal Navy enviadas para o Atlântico Sul que possuíam um sistema efetivo contra aeronaves voando a baixa altura. FOTO: UK DoD

(MITO) Os britânicos tinham conhecimento do problema das espoletas das bombas lançadas a baixa altura e não divulgaram essas informações na mídia para não alertar os argentinos.

(RESPOSTA) Independentemente dos britânicos conhecerem ou não a questão das bombas lançadas a baixa altura e a relação dessas com as espoletas isto não fez a menor diferença para os argentinos porque eles tinham plena consciência das limitações e das dificuldades desses perfis de ataque e dos armamentos que empregavam antes mesmo que a primeira bomba fosse ensaiada ainda em terra.

Vista de boreste da chaminé da fragata HMS Plymouth avariada por bomba lançada por caças IAI Dagger. Esta foi outra bomba que atingiu o navio e não detonou. FOTO: UK DoD

(MITO) A espoleta da bomba lançada contra a fragata HMS Antelope havia sido montada de forma errada pelos especialistas da FAA.

(RESPOSTA) Não há evidências que sustentem essa afirmação. A investigação conduzida pela Royal Navy e o depoimento do suboficial que estava trabalhando do desarme da bomba (ver parte 6) não sustentam essa hipótese.

(MITO) Se todas as bombas lançadas tivessem explodido isto forçaria a retirada da força-tarefa britânica 

(RESPOSTA) Esta é uma afirmação sem sentido. A maioria dos ataques contra os navios britânicos ocorreu durante ou após o grosso do desembarque britânico na ilha. Não faria o menor sentido a força-tarefa recuar com a maior parte das forças terrestres já em solo.

Uma das duas bombas MK-17 que se alojaram no interior da fragata HMS Argonaut e não explodiram. A bomba da foto acima atingiu o navio próximo da caldeira. Para que ela não ficasse jogando de um lado para o outro foi escorada com um colchão (à direita acima da bomba). A fragata ficou sem energia e capacidade de manobra, sendo fundeada no Estreito de San Carlos para reparos emergenciais durante cinco dias. FOTO: http://mentalcrumble.com

(MITO) Os aviadores navais argentinos conseguiram maior sucesso porque estavam mais familiarizados com as ações aeronavais.

(RESPOSTA) Esta é uma afirmação relativa. Grande parte do sucesso dos aviadores navais veio das ações com o emprego de mísseis Exocet. Esta era uma arma moderna e adequada para a guerra aeronaval e a plataforma de lançamento (o jato Super Etendard) era uma aeronave muito mais avançada que os caças da FAA e que os próprios A-4Q da marinha. Há questões pontuais como o caso do ataque contra a fragata HMS Ardent. Naquela oportunidade os A-4 da marinha atacaram um navio seriamente avariado por dois ataques anteriores da FAA. Durante o ataque os Skyhawk da marinha elevaram-se muito acima da altura considerada segura para que pudessem lançar suas bombas (bombas com frenagem por aletas exigem alturas maiores de lançamento do que as frenadas por paraquedas). Isto permitiu o correto acionamento da espoleta e a aeronave não foi molestada porque os aviões da FAA já haviam destruído o lançador de mísseis Seacat o (principal defesa antiaérea do navio).

Bomba do tipo MK 82 Snakeye empregada pela aviação naval da marinha argentina.Este é um tipo de bomba com cauda frenada por aletas (na imagem da esquerda as aletas abertas). Bombas frenadas por aletas necessitam de altura de lançamento maior do que as frenadas por paraquedas. FOTO: arquivo

26 COMMENTS

  1. aeronaves com configuraçao delta sofrem maior efeito em baixas altitudes?se sim, isto pode ter afetado o mecanismo das bombas e a precisao no lançamento?

  2. Parabéns pela série de matérias, Poggio!
    O conflito das Malvinas é um tema fascinante.
    Foi ele que me trouxe até as páginas do Poder Naval e do Poder Aéreo.
    Agradeço imensamente a disponibilização de conteúdo tão apurado.

  3. A Argentina,foi mexer com um membro da OTAN.Saiu barato para eles ainda.Vai ainda ter a parte da invasão?Vai?

  4. Prezado Renato,

    Acredito que provavelmente houve o ataque ao HMS Invincible. Não saberia dizer se houve acerto.

    Abraços

  5. Poggio,
    A primeira versão do sistema de mísseis sup-ar Sea Wolf não era plenamente eficaz contra alvos em altitudes muito baixas, como as implementadas pelos pilotos argentinos e pelo míssil Exocet, salvo se utilizando o rastreamento visual do sistema de TV que operava no modo manual (SACLOS), diferente do acoplamento pelo radar de direção de tiro que operava no modo automático (ACLOS). Só depois da guerra é que foi acrescentado um segundo radar que levou o sistema Sea Wolf à sua capacidade plena.
    Esse é o sistema de direção de tiro original utilizado nas Malvinas e com limitada capacidade de engajar alvos em altitude muito baixa, que pode ser visto ao lado do domo, contanto com uma grande antena circular e duas menores: http://www.naval.com.br/ngb/G/G048/G048-f34.jpg

  6. Só de curiosidade, nossas fragatas Classe Greenhalgh armadas com o sistema Sea Wolf, são dotados do sistema de direção de tiro Type 910, mais antigos e sem capacidade plena.

  7. Bosco, nos testes iniciais do Seawolf ele interceptou um projétil de 114 mm!O míssil era sensacional para a época. Não havia nada mais avançado do que ele nas Malvinas para abater um Exocet. Repare no vídeo abaixo ele derrubando um Skyhawk a baixa altitude.
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  8. Bosco, mais infomrações sobre o Seawolf. Retirado de uma tese apresentada na escola de pós-graduação de Monterey/Califórnia.
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    The Seawolf is designed to intercept aircraft, sea-skimming missiles, and small, Mach 2 air-launched stand-off weapons in severe weather and has capability against supersonic missiles approaching at Mach 3.0.

  9. Textos muito bons mesmo, só tinha a visão dada pela coleção Aviões de Guerra, cujo original é inglês, e foi escrita poucos anos após a guerra. Nela estão colocados quase todos esses mitos. Muito interessante a página feita em impressora matricial com os resultados dos cálculos em computador!
    Abraços

  10. Poggio,
    O míssil Sea Wolf era sem dúvida o que de mais avançado existia para a defesa antimíssil e estava perfeitamente apto a combater as ameaças existentes contra a RN. O problema é que o Exocet não era considerado uma uma ameaça e o Pacto de Varsóvia não tinha nada parecido, daí, essa ameaça não ter sido prevista pela RN na época. O PV tinha mísseis supersônicos e mísseis subsônicos, mas não um sea-skimming capaz de voar a 3 metros do nível do mar. Os mísseis antinavios subsônicos soviéticos de baixa altitude voavam a mais de 50 metros. Só no Século XXI é que os russos tiveram um verdadeiro míssil sea-skimming na forma do Kh-35.
    Também não havia por parte do Pacto de Varsóvia ou de qualquer outra força essa tática de atacar navios com aviões de ataque a jato penetrando em nível tão baixo, tanto é assim que nem armas específicas para isso existia, o que obrigou os argentinos a improvisar. Um fator complicador nas Malvinas ainda era o fato dos aviões muitas vezes atacarem tendo como fundo o litoral, o que complicava ainda mais o rastreamento dos alvos.
    No vídeo que você indica, um Sea Wolf atinge mesmo um A-4 em baixíssima altitude, mas utilizando o rastreio manual por TV. Eu não disse que isso não era possível. Desde que as condições meteorológicas fossem boas e fosse de dia, funcionava muito bem contra aviões, mas contra um míssil pequeno de baixo RCS se aproximando a 300 m/s a menos de 5 m do nível do mar, era até possível, mas o ideal é que tudo fosse automático utilizando o modo ACLOS, possível na época só com a utilização de um radar de rastreio eficaz.
    Sem dúvida os argentinos levaram essas limitações em consideração.

  11. Prezado Guilherme Poggio,
    Quero também deixar aqui os meus parabéns por esse ótimo trabalho seu.
    Seu estudo acabou por me estimular a procura por alguns de meus livros. Dois deles, do mesmo autor, Jorge F. Nuñez Padín, que creio, você o conheça até mesmo pessoalmente, são os livros ‘Mc Donnell Douglas A-4C Skyhawk’ e Mc Donnell Douglas A-4Q & A-4E Skyhawk (não me admiraria também se você os tivesse em sua coleção!). O que me despertou a atenção foi lembrar de uma explicação que você deu a um colega sobre a impossibilidade do A-4B (também conhecido como A-4P)levar os Sidewinder por ele ter somente três estações. Entretanto o modelo A-4C tinha cinco estações e no livro existem algumas fotos anteriores à guerra com o avião transportando um par de mísseis Shafrir.
    De qualquer forma, estas estações foram obviamente ocupadas por bombas, muito mais adequadas ao tipo de missão.

  12. Esse fato divulgado há 30 anos referente a um Sea Wolf ter interceptado um projétil de canhão de 114 mm pesando cerca de 20 kg e a mais de Mach 2 é no mínimo interessante. Apesar disso até hoje há quem acredite que os gigantescos mísseis antinavios russos são impossíveis de serem interceptados por conta de serem supersônicos. Mas isso é outra estória.
    Voltando ao Sea Wolf, essa interceptação do projétil não deve ter sido através de um impacto direto já que no modo de orientação por “comando” é pouco comum acontecer impactos diretos. O mais provável é que o míssil tenha espoletado na zona letal da ogiva, e isso foi considerado uma interceptação. Não deixa de ser mesmo!
    Vale salientar que o fato de um sistema de míssil sup-ar ser capaz de interceptar um projétil de canhão de 20 kg de massa se deslocando a Mach 2 e mergulhando sobre o alvo não tem nada a ver com a capacidade dele interceptar um míssil sea-skimming. Um projétil de canhão vindo de cima tem ao fundo um céu limpo e não há ruído de fundo. Na SGM um radar já seria capaz de rastrear esse tipo de alvo, por menor RCS que ele tenha. A coisa complica quando há um forte ruído de fundo e isso ocorre quando a aeronave (ou míssil) voa rente ao mar ou à terra e o radar está “olhando” do alto. Nesse caso o radar de rastreio deve operar no modo pulse doppler e radares desse tipo realmente eficientes só estavam operacionais em meados da década de 70 e pelo visto em casos mais dramáticos (como nas Malvinas) o Sea Wolf levado às Malvinas não era eficaz, salvo se no modo “rastreio visual e manual”, utilizando a câmera de TV.
    Só na sétima fragata Type 22 (F-94 Brave), lançada em maio de 1982 (não foi nas Malvinas), é que o sistema de controle de míssil foi aperfeiçoado e foi introduzido um segundo radar pulse-doppler com desempenho adequado contra mísseis sea-skimming e a TV foi removida. Já não havia mais necessidade da TV e controle humano porque o sistema dava conta de qualquer ameça no modo ACLOS (automático).

  13. uma coisa q os argentinos reclamaram bastante é que quando voavam a baixa altitude o canopy embaçava muito pelo sal e nada era visivel…

  14. Observem no vídeo que eu postei acima como o míssil é capaz de interceptar uma aeronave voando baixo mesmo com uma massa terrestre ao fundo. Isso era difícil de se encontrar em outros mísseis daquela época.
    .
    O radar de controle de fogo (910) checa a posição do alvo 100 vezes por segundo! E esta informação é passada para o míssil por comando de rádio. As duas antenas menores do 910 trabalham com frequências diferentes da antena maior. Isso reduz o efeito de fundo do mar e da massa de terra.
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    Como o Bosco escreveu, no Mod 0 as ameaças voando rasante eram rastreadas por TV, mas na versão Mod 1 foi incorporado um radar milimétrico do sistema Rapier (versão terrestre do Seawolf) que acabou eliminando a TV.

  15. (MITO) Se todas as bombas lançadas tivessem explodido isto forçaria a retirada da força-tarefa britânica

    (RESPOSTA) Esta é uma afirmação sem sentido. A maioria dos ataques contra os navios britânicos ocorreu durante ou após o grosso do desembarque britânico na ilha. Não faria o menor sentido a força-tarefa recuar com a maior parte das forças terrestres já em solo.
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    Existe uma nuance altamente relevante na avaliação acima que pode ter passado desapercebida na resposta….mas extremamente importante….
    ” a maioria dos ataques ocorreu durante ou após o grosso do desembarque britanico…”…..
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    Vejam este é o cerne do dilema entre uma força aerea baseada em terra ou uma força aeronaval com Nae para se defender seus objetivos de uma invasão….
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    Se somente o inimigo possui uma força com Nae, ele escolhe o momento e o local….sua força aerea continental nunca chegara a tempo, mesmo que possa impor perdas ao inimigo, jamais chegará no tempo correto….

  16. Parabéns pela excelente série de reportagens. Parabéns também aos comentaristas que dão um verdadeiro show, aprendo muito sempre.

  17. Complementando o que o Poggio disse, o rastreio por TV é possível porque o Sea Wolf possuía um “beacon” na traseira que é detectado pelo sistema e este calcula a diferença angular entre o míssil e o alvo que está sendo seguido manualmente por uma TV e envia sinais de RF para o míssil de modo a reduzir essa diferença.
    Essa opção era utilizada em caso de forte ECM ou quando as ameaças (alvos) estavam muito próximas ao nível do mar ou com o litoral no fundo. O problema dessa opção é que além da inclusão do fator humano, só funcionava de dia e com bom tempo.

  18. Prezado Poggio,
    Parabéns pelos artigos. Apesar de os argentinos terem decidido não usar napalm por questões humanitárias, ele seria efetivo se tivesse sido usado?

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