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Malvinas 35 anos: por que as bombas não explodiram? (PARTE 6)

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por Guilherme Poggio

Há 35 anos argentinos e britânicos se enfrentaram na gélidas águas do Atlântico Sul para disputar a posse das ilhas Malvinas (Falklands, como se referem os britânicos). Foi durante esse conflito que a Força Aérea Argentina (FAA – Fuerza Aérea Argentina) entrou pela primeira vez em combate contra um inimigo externo. O batismo de fogo ocorreu no dia 1º de maio de 1982. O blog do Poder Aéreo está publicando em partes um artigo exclusivo sobre os vetores, os armamentos e as táticas empregadas pela FAA para atacar e destruir os navios da Força-Tarefa britânica. Para ler as partes anteriores clique nos links abaixo.

Parte 1- Introdução 
Parte 2 – Vetores e armamentos
Parte 3 – As Táticas
Parte 4 – Espoletas
Parte 5 – O primeiro ataque

 ‘Bomb Alley’

As primeiras informações sobre o desembarque britânico no Estreito de San Carlos chegaram ao continente por volta das 9h00 da manhã do dia 21 de maio. Por este motivo a FAA concentrou seus ataques naquele espaço geográfico. Naquela época as espoletas modificadas para as bombas Expal já haviam sido entregues aos esquadrões e se tornou mais uma opção de ataque.

Houve certa resistência de alguns pilotos, principalmente dos de A-4B, em empregar as novas espoletas. Eles preferiam empregar as bombas MK-17 utilizadas até então, pois mesmo diante de suas limitações os ataques anteriores haviam demonstrado que funcionavam. O comando da FAA não se opôs. Segundo a FAA somente os Dagger (e mesmo assim não em todas as saídas) decolaram com bombas espanholas com espoletas modificadas.

Para evitar os sistemas de defesa antiaérea dos navios da Royal Navy os caças da FAA tinham que voar a alturas extremamente baixas. Na imagem acima um Dagger passa entre os navios em San Carlos Water. FOTO: UK DoD

Ao todo naquele dia foram lançadas quatro levas de ataque. Na primeira delas só participaram os Dagger e das quatro esquadrilhas, três estavam armadas com bombas BRP-250 de origem espanhola. A segunda leva foi composta apenas por A-4B/C e as quatro esquadrilhas que decolaram levavam bombas MK-17.

Na parte da tarde a terceira leva do dia compunha-se de duas esquadrilhas de A-4B (bombas MK-17) e três de Dagger (uma com bombas Mk-17 e outra com bombas BRP-250). A última leva era composta apenas por A-4B/C. Todos levavam bombas MK-17.

Os dois avões da “Esquadrilha Cuenca” (C-418 e C-436) regressando para Río Grande após participarem da terceira leva do dia 21 de maio. Esses aviões atacaram a fragata HMS Ardent (Tipo 21) no Estreito de San Carlos com bombas MK-17. Cada aeronave transportava uma dessas bombas na parte anterior no cabide central. Sob as asas eles levavam dois tanques de combustível de 1700 litros. Esta configuração de tanques (conhecida como “Hotel”) foi empregada somente pelos Dagger baseados em Río Grande por questões logísticas e porque somente estas aeronaves haviam sido modificadas para receber estes tanques do Mirage III. A fotografia foi tomada a partir de um Gates LearJet. FOTO: FAA

Os dados disponíveis não permitem uma conclusão segura sobre a eficácia das modificações nas espoletas, pois as informações são conflitantes. Deve-se destacar que muitas dessas saídas acabaram não se efetivando em ataques. Os motivos são diversos, incluindo alvos que não foram encontrados, aviões derrubados antes do lançamento das bombas e missões abortadas por problemas técnicos nas aeronaves.

A fragata HMS Ardent foi atingida por sucessivas levas de aeronaves argentinas no dia 21 de maio (Dagger, Skyhawk da FAA e da Marinha). Sem alternativas, seu comandante lançou a ordem de abandono. O navio afundou na manhã do dia seguinte.FOTO: UK DoD

Segundo informações e britânicas e da FAA as bombas que a Força Aérea lançou sobre os navios HMS Antrim, HMS Argonaut e HMS Ardent chegaram a causar danos variáveis, mas nenhuma delas explodiu. Esta informação contradiz aquela dada pelo coronel (na época no posto de major) Dávila (Departamento de Material do Estado-Maior do Comando de Operações Aéreas) de que as bombas estavam armadas com espoletas de explosão retardada e deveriam necessariamente explodir após determinado tempo. As únicas bombas (MK-82 com cauda frenada por aletas “Snakeye”) que realmente explodiram foram aquelas lançadas pelos pilotos navais argentinos que acertaram a HMS Ardent após ataques da FAA ao mesmo navio. Esta informação é confirmada pelos dois lados.

Posição das escoltas britânicas no Estreito de San Carlos no dia 21 de maio. A HMS Ardent está ao sul da North West Island (clique para ampliar). FONTE: http://hmsbroadsword.co.uk
Ao contrário da Força Aérea, os A-4Q da Marinha eram armados com bombas de queda livre frenadas por aletas (e não por paraquedas) do tipo MK-82 Snakeye. Estas bombas eram largamente empregadas pela Marinha dos EUA na década de 1970. As Snakeye necessitavam de uma altura de lançamento maior que as bombas frenadas empregadas pela FAA. Elas também foram empregadas no ataque à HMS Ardent. FOTO: ARA

Antelope 

Os principais alvos navais dos dias subsequentes continuaram sendo os navios que davam apoio ao desembarque britânico no Estreito de San Carlos. Em relação à comunidade de pilotos de caça-bombardeiro da FAA ainda havia uma preferência pelas bombas britânicas MK-17 e os A-4B seguiram atacando somente com esses artefatos.

No dia 23 de maio quatro A-4B (Esquadrilha Nene), armados cada um com uma MK-17, decolaram de Río Gallegos ao meio dia. Uma das aeronaves foi atingida antes de lançar a bomba contra o alvo e retornou para o continente. Outras duas conseguiram lançar suas bombas sobre a fragata HMS Antelope (Tipo 21). Ambas as bombas acertaram o alvo e permaneceram dentro do navio sem explodir. A explosão só ocorreu no dia seguinte durante os trabalhos dos britânicos para desarmá-la.

A fragata HMS Antelope foi atingida por duas bombas MK-17 de fabricação britânica, lançadas por aeronaves A-4B da Esquadrilha Nene no dia 23 de maio. Na imagem do canto superior direito é possível ver o buraco causado pela bomba no costado. Também é possível observar mastro principal danificado após o A-4 do tenente Guadagnini colidir com o mesmo. Na foto principal o momento da detonação da bomba durante a madrugada, quando as atividades de remoção da bomba estavam em andamento. O incêndio ocasionou a explosão do paiol de mísseis SeaCat. Na imagem do canto superior esquerdo os últimos momentos da fragata no dia seguinte ao ataque.FOTOS: UK DoD

Milagrosamente o suboficial responsável pelo desarmamento de uma das bombas que atingiu a Antelope sobreviveu à explosão da bomba. Em seu testemunho (disponível neste link) ele contou que a bomba havia sido armada (mas por motivo desconhecido não explodiu). Esta informação sustenta a tese argentina de que eles conseguiram com sucesso modificar a espoleta de origem britânica para que a bomba se armasse em tempo extremamente curto diante de um perfil de ataque à altura extremamente baixa (ver mais detalhes na parte 3 deste artigo). Ele também confirmou que a bomba possuía uma espoleta de retardo de tempo de 28 segundos.

Fragmento do relatório da Royal Navy sobre a perda da fragata HMS Antelope. IMAGE: Royal Navy
A gravura acima retrata o exato momento em que o tenente Guadagnini lança suam bomba contra a fragata HMS Antelope. A aeronave de Guadagnini acabou por colidir com o mastro principal da fragata enquanto o piloto tentava recuperar o A-4 de um mergulho após ser atingido pelo por disparos de 30 mm. Na colisão a aeronave se desintegrou.

No dia seguinte as esquadrilhas continuaram decolando predominantemente com bombas MK-17 e suas espoletas modificadas, principalmente os A-4B de Río Gallegos que só usavam este tipo de armamento. No primeiro ataque do dia os A-4B encontraram os navios de apoio RFA Sir Lancelot e RFA Sir Galahad no Estreito de San Carlos. Ambos foram atingidos por bombas MK-17 que se alojaram no seu interior, mas não explodiram. No final da manhã quatro Dagger lançaram suas MK-17 sobre o RFA Sir Bedivere que, aparentemente também não explodiram.

(CONTINUA…)

4 COMMENTS

  1. Eu lembro que Pierre Clostermman ficou admirado com a bravura dos pilotos argentinos, mas a imprensa inglesa o criticou por isso. Obviamente nenhum deles jamais teve um estilhaço de AAA alojado na perna para apreciar o valor de outros pilotos veteranos…

  2. Gostaria que tivesse se puder tbm a parte que fala dos problemas do britanicos ja li muito na internet que o planejamento deles foi horrivel mais nada muito detalhado e profundo como essa serie ! Unica coisa que sei de erro deles é que a tripulaçao do shielfield detectou o p-2 neptune pelo menos duas vezes e nao deu atençao nem implementou contramedidas o que resultaria no ataque do mesmo algumas horas depois pelos super entendart .

  3. O pessoal fala se a Argentina tivesse 12 Exocet teria mudado o curso da guerra…

    Eu digo algo bem simples.
    Se a Argentina tivesse comprado mais uns A4 dos estoques americanos totalizando um total de uns 150 A-4 em seu inventário + 8 Hércules para reabastecimento, então a FAA poderia ganhar a guerra naval apenas por uma guerra de atrito. Onde a FAA perderia muitos aviões A4 porém as perdas britânicas em navios seria muito maior.

    Me dá uma agonia ver apenas 4 A4 indo por vez por falta de reabastecedor.

    FAB alowwwwww vamo comprar logo reabastecedor mesmo que usado dá USAF?????

  4. Isso mesmo Leonardo M. Um dos “gargalos” da Argentina (lembrar que os aviões da marinha também utilizavam os KC-130 da FAA) era a quantidade limitada de reabastecedores (apenas dois!).

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