segunda-feira, maio 23, 2022

Gripen para o Brasil

‘Eu pilotei um Gripen’

Destaques

Guilherme Poggiohttp://www.aereo.jor.br
Membro do corpo editorial da revista Forças de Defesa e sites Poder Aéreo, Poder Naval e Forças Terrestres

Em 2009, o editor de uma revista ligada ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, me ligou e pediu que eu fosse a Suécia fazer uma matéria sobre o avião

 

Gripen NG - pilotos suíços voam demonstrador do Gripen F - foto 2 Saab

Flávio Aguiar
ClippingNEWS-PA   Acabo de ler a notícia e de assitir (SIC) o ministro Celso Amorim anunciando a compra dos 36 aviões Gripen, suecos, para a FAB. Não pude deixar de me emocionar. Eu fui o primeiro brasileiro a pilotar um Gripen, em plena Suécia.

No meio de 2009, o editor-chefe da Inovabcd, revista ligada ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, me ligou aqui em Berlim.

“Flávio, queremos que você vá à Suécia”. A conversa era no Skype.

“Como assim”?

“É que o nosso sindicato resolveu apoiar a oferta da Gripen/Saab/Scania para a compra das 36 aeronaves com que a FAB deseja renovar seu plantel de caças de defesa”.

“Celso, eu sou um zero em matéria de caças. Só entendo deles em filmes de guerra”.

“É, mas você está aí perto, em Berlim”. “Vamos te arranjar um contato na Saab”. “Topa”? “Vai ser matéria de nossa inauguração da revista Inovabcd, sobre tecnologia”.

“Claro que eu topo, Celso. Tudo pelo social, como dizia… deixa pra lá”.

Celso me explicou: a concorrência, depois de (naquela altura) mais de dez anos, estava entre o Gripen sueco, o Dessault (SIC) francês e um Boeing norte-americano. O então ministro da Defesa, Nelson Jobim, anunciara a preferência pelo Dessault (SIC). E sentenciara: “o Gripen só existe no papel”.

“Queremos que você vá lá, Flávio, e veja se o Gripen só existe no papel”, complementou o Celso.

Bom, tudo demorou um pouco. Mas fui, vi, e constatei que o Gripen era algo mais do que papel impresso.

Inclusive com fotos, da equipe que me recebeu, e de mim – eu – no cockpit do Gripen, com um oficial da Forá Aérea Sueca ao lado. Ele me disse:

“Está vendo este botão aqui, no meio das suas pernas? Não aperte nele, porque senão você vai parar no teto deste galpão (que tinha uns dez ou doze metros de altura, pelo menos). É o botão de ejeção no caso do piloto precisar saltar de pára-quedas”.

Não apertei.

Daí ele me explicou um monte de coisas sobre os botões e luzinhas à minha frente, e sobre o avião à minha volta. Compreendi que um caça de guerra é, antes de tudo, um tanque de combustível. Tudo precisa ser poupado para o avião ter combustível para ir, atirar e voltar. Assim o próprio aviào é o tanque de combustível. O resto são mísseis, metralhadoras, bombas nas asas, e pilotagem: o piloto precisa ser super-treinado, mais para apertar botões e decidir como executar as ordens que recebeu – e voltar vivo.

Tive também verdadeiras aulas sobre a história dos Gripen, da aviação sueca, uma das mais poderosas do mundo, explicações sobre investimentos e transferências de tecnologias, além da projetada parceria na produção das peças do avião.

Para completar pilotei um Gripen. O primeiro brasileiro a tal fazer.

Bom, tratou-se de um protótipo, no salão de simulações, com direito a telão e tudo.

E daí? Algum outro brasileiro já fizera isto, em Linköping, Suécia, perto de Götteborg e Estocolmo, onde o Brasil conquistara a Copa de 58?

Com ajuda do instrutor, decolamos o aparelho. Aí ele me instruiu como fazê-lo voar. E fomos sobre a simulação da própria fábrica da Scaab/Scania, em Linköping.

Ele me obrigou atá a fazer piruetas, loops, parafusos, voar de cabeça para baixo (enjoei, voltei rápido à posição normal). De repente ele me disse:

“Vamos entrar em combate”.

Senti-me como num filme da Segunda Guerra. É impressionante como estas coisas podem ser enebriantes.

“Veja lá, ali estão os aviões. Se você apertar aqui, dispara um míssil. Vai!”.

Olhei, mirei, apertei, disparei, derrubei. O avião à minha frente explodiu.

“Tudo bem?”, perguntei.

“OK”, ele me disse. “Só que você derrubou um avião amigo. Mas não tem importância”.

Senti dois frios no estômago. Primeiro: não tinha importância ser um avião amigo. Segundo: eu sentira uma forma de júbilo por derrubar um avião, mesmo que um simulacro de avião.

A partir daí começamos a voltar. Fazer o raio do avião aterrissar é muito mais difícil do que pô-lo no ar. A trancos e barrancos, com ajuda do simpático instrutor consegui fazê-lo pousar, derrapando, com as rodas de uma das asas fora da pista de simulação. Mas pousei.

Conclusão para mim: nunca mais, nem de mentirinha.
Fico contente de ter participado desta experiência, que levou o Brasil – cuja defesa é necessária – a optar pelos Gripen suecos, que, pelo que entendi, trarão com eles vantagens tecnológicas que os outros não trariam, além de problemas de dependência que os outros trariam. De todas as maneiras, cada um destes modelos traz consigo componentes de muitos e vários páises, na dependência tecnológica destes tempos de século XXI em que as utopias estão na UTI e as distopias sobre a mesa.

Parece que os Gripen são os que trarão menos dependência e mais transferência, além de vários componentes de todos os modelos, em escala mundial, serem produzidos aqui.

Parabéns Gripen e equipe, parabéns aviões. Que eles venham, sejam produzidos.
E espero – rezo para todos os santos de todas as religiões, inclusive as ateias – que jamais sejam usados para valer.

FONTE/FOTO: Carta Maior/Saab (meramente ilustrativa)

NOTA DO EDITOR: para ler a reportagem completa da revista “InovABCD” (versão no formato PDF) clique aqui

Previous articleNovos vetores econômicos
Next articleThud Ridge
- Advertisement -

14 Comments

Subscribe
Notify of
guest
14 Comentários
oldest
newest most voted
Inline Feedbacks
View all comments
Marcos

“Daí ele me explicou um monte de coisas sobre os botões e luzinhas à minha frente”

Isso resume tudo!

Nick

Um relato simples e honesto. 🙂

[]’s

joseboscojr

Não existe religião ateia já que torcer pro Corinthians não conta e a Igreja Maradoniana já chegou a conclusão que o ex-futebolista argentino não é Deus, apesar dele jurar que é.

Iväny Junior

Esse texto me fez pensar sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para exercer a profissão e sobre outro dado alarmante: 38% dos universitários brasileiros não são minimamente alfabetizados.

Rinaldo Nery

O que a SAAB não fez pra vender o avião… Valha-me Deus!

Carlos Alberto Soares

“Rinaldo Nery
28 de dezembro de 2013 at 14:21 #

O que a SAAB não fez pra vender o avião… Valha-me Deus!”

Bom tê-lo de volta Rinaldo Nery.

“É que o nosso sindicato resolveu apoiar a oferta da Gripen/Saab/Scania para a compra das 36 aeronaves com que a FAB deseja renovar seu plantel de caças de defesa”.

“Celso, eu sou um zero em matéria de caças. Só entendo deles em filmes de guerra”.

Sindicato do ABC, metalúrgicos, não tem jeito …. Olha o GF via LRM. Scania ??

Sempre fui SH, mas …. melhor que “rajada” nos hangares.

Oganza

Nick,

verdade, “simples e honesto”.

– “…tempos de século XXI em que as utopias estão na UTI e as distopias sobre a mesa.”

Realmente, quem não perceber isso vai para o buraco mais cedo ou mais tarde.

Sds.

Oganza

Gente… essa InovaABCD é bem feitinha rapá… projeto gráfico muito bem resolvido… vou ler mais para opnar sobre o editorial.

Sds.

Marcos

A Mariana Ferrão também voou isso dai. E ai eu prefiro ela!

Carlos Alberto Soares
Carlos Alberto Soares

Ops não decolou ou melhor:

“Infelizmente este vídeo não está mais disponível. Desculpe-nos pelo inconveniente.” kkkk

rommelqe

Realmente essa InovaABCD é melhor do que poderia-se esperar a partir da matéria do Flavio.
Aguiar, aprende Apilotar (desculpe o trocadilho, hein ….Rsrsrsrsrsr)

Carlos Alberto Soares

Últimas Notícias

O dramático apoio aéreo ucraniano aos combatentes em Mariupol

O comandante do Regimento Azov, Andriy Biletskyi, observou o heroísmo excepcional das tripulações dos helicópteros, que entregaram reforços, armas,...
- Advertisement -
- Advertisement -